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Alimentos puxam alta da inflação em fevereiro, mas cerveja fica mais barata

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Depois de ter iniciado 2019 em alta, o preço da cerveja recuou na maioria das capitais, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). O movimento é contrário à tendência geral: a inflação de fevereiro foi de 0,43%, puxada principalmente pelos grupos de bens e serviços ligados à alimentação (responsável por 0,19 ponto percentual na alta) e educação (que contribuiu com 0,17 ponto percentual).

Se considerado o preço da cerveja em domicílio, a queda foi de 0,22%, segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Essa oscilação se descolou dos demais itens de alimentação e bebidas, que tiveram alta de 0,78%.

No entanto, os preços da cerveja consumida fora do domicílio acompanharam essa alta, registrando 0,74% de aumento. “Alimentação e bebidas, grupo com o maior impacto no IPCA de fevereiro (0,19 p.p.), mostrou desaceleração, ao passar de 0,90% em janeiro para 0,78% em fevereiro”, diz a nota do IBGE sobre a inflação de fevereiro.

Nos dois primeiros meses do ano, os preços da cerveja no domicílio se mostram estáveis(alta de 0,05%), enquanto fora do domicílio o movimento de alta é mais intenso, com aumento de 0,68%. Já no acumulado dos últimos 12 meses, a cerveja no domicílio se mantém em leve alta de 1,10%, enquanto a cerveja fora de casa registra aumento considerável: 5,30%.

Os preços de outras bebidas alcoólicas, por sua vez, tiveram variação inversa à do preço da cerveja. Enquanto no domicílio foi registrada alta de 0,73% em fevereiro (e 4,18% em 12 meses), os preços fora de casa recuaram 0,34% (com alta de 1,93% em 12 meses).

Balcão do Tributarista: Microcervejarias, ICMS e (In) Justiça Tributária

Balcão do Tributarista: Microcervejarias, ICMS e (in)Justiça Tributária

Uma enquete promovida pelo Guia apontou que a carga tributária está entre as maiores preocupações do setor cervejeiro nacional, destacando-se as questões referentes ao ICMS, consideradas um verdadeiro “gargalo tributário” inclusive para as cervejarias enquadradas no Simples Nacional, ou seja, para as microcervejarias.

O Simples Nacional, por expressa disposição da Constituição Federal (art. 146, III, “d”), deve ser um sistema “diferenciado e favorecido” para as micro e pequenas empresas. Desta forma, os optantes do Simples podem realizar o recolhimento de tributos como Imposto de Renda, Contribuição Social, PIS, Cofins, INSS e ICMS por meio de uma única guia, conhecida como Documento de Arrecadação Simplificada (DAS). Além do que, no Simples Nacional, há uma considerável redução de alíquotas para todos estes tributos.

Ocorre que, mesmo as microcervejarias optantes pelo Simples Nacional, que já engloba em sua alíquota única um percentual destinado ao pagamento do ICMS, também estão sujeitas ao recolhimento do chamado ICMS-ST (Substituição Tributária).

O regime de Substituição Tributária, com fundamento no artigo 150, § 7º, da Constituição Federal, determina a incidência do ICMS já na fase inicial do processo produtivo, impondo geralmente aos fabricantes o ônus de recolher de forma antecipada o imposto por conta de um fato gerador futuro a ser praticado por outra pessoa (o atacadista ou o varejista).

O interesse fazendário neste regime de recolhimento antecipado se dá, precipuamente, em setores como o cervejeiro, onde há grande número de varejistas e mesmo de atacadistas em contrapartida a um pequeno número de fabricantes. Assim, a concentração da tributação nos fabricantes facilita a fiscalização por parte do Fisco e garante uma antecipação de receita aos cofres públicos.

O problema é que há grandes dúvidas quanto a compatibilização deste regime de recolhimento antecipado com o tratamento “diferenciado e favorecido” determinado pela Constituição Federal aos optantes do Simples Nacional.

A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) já ajuizou perante o Supremo Tribunal Federal (STF) uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI nº 6030) na qual questiona os dispositivos da Lei Complementar nº 123/2006 que instituem a obrigatoriedade de recolhimento do ICMS-ST pelas empresas optantes do Simples Nacional. Contudo, ainda não houve nenhuma decisão.

Em outro processo que também trata do tema (RE nº 970821), o STF já iniciou o julgamento, sendo que os ministros Alexandre de Moraes, Luís Roberto Barroso, Cármen Lúcia e Ricardo Lewandowski se manifestaram pela inconstitucionalidade da cobrança; e o ministro Edson Fachin, relator do processo, votou pela constitucionalidade. Atualmente o julgamento está suspenso por um pedido de vista do ministro Gilmar Mendes.

Um dos argumentos defendidos pelos contribuintes, contrários à obrigatoriedade de recolhimento do ICMS-ST pelos optantes do Simples Nacional, diz respeito à violação do texto constitucional pelo fato de que a alíquota do ICMS-ST é muito mais elevada do que o percentual de arrecadação do Simples destinado ao pagamento do ICMS próprio do contribuinte, o que caracterizaria inclusive situação de confisco.

Outro argumento bastante utilizado diz respeito à quebra da isonomia (ou igualdade) tributária. É que as empresas sujeitas ao regime geral de arrecadação, ao adquirirem produtos sujeitos ao ICMS, podem apurar créditos que serão, posteriormente, compensados com seus débitos de ICMS. Contudo, as empresas do Simples Nacional, embora sujeitas as mesmas regras de incidência das empresas do regime geral, inclusive no que se refere à Substituição Tributária, não podem apurar créditos de ICMS.

Podemos concluir que o sistema tributário nacional, além de impor uma pesada carga aos contribuintes, inclusive àqueles que deveriam estar dispondo de tratamento “diferenciado e favorecido”, também acaba pecando em questões de justiça tributária. Para que se possa exigir dos cidadãos que haja um comprometimento com o modelo estatal desejado, não basta ao Estado ocupar-se do caráter impositivo da norma tributária, mas também deve ser criado um ambiente favorável à arrecadação.

Segundo o jurista alemão Klaus Tipke, havendo um cenário que evidencie a justa repartição da carga tributária, o cidadão cumpriria com seu dever de pagar tributos não apenas pela natureza cogente da imposição, mas também pela constatação da necessidade dos tributos para o funcionamento e manutenção da máquina estatal da qual exige e deseja ações positivas.

Contudo, da forma como está posta a tributação em nosso país, infelizmente parece que ainda estamos distantes de um cenário como este. Ao contribuinte, então, resta permanecer atento aos seus direitos assegurados pelo ordenamento jurídico, em especial pela Constituição Federal, e socorrer-se do Judiciário sempre que alguma medida fiscal atente contra eles.



Clairton Kubaszwski Gama é advogado, especialista em Direito Tributário pelo Instituto Brasileiro de Direito Tributário (IBET) e sócio do escritório Kubaszwski Gama Advogados Associados

Anitta e Skol unidas, concurso da Blumenau: As novidades da semana

Com o carnaval e o Dia Internacional da Mulher, a semana foi cheia de novidades no meio cervejeiro. A Skol utilizou o bloco da Anitta para adotar uma iniciativa que permitiu a deficientes auditivos sentirem as batidas das músicas. Já a cervejaria Blumenau criou um interessante concurso para definir a sua nova Juicy IPA. Confira essas e outras novidades selecionadas pelo Guia.

Skol e Anitta
A Skol e a cantora Anitta se uniram para proporcionar uma experiência única para 20 pessoas portadoras de deficiência auditiva no Bloco das Poderosas, no Rio de Janeiro. No sábado, quando o bloco desfilou, essas pessoas puderam curtir a festa com uma mochila especial, desenvolvida com tecnologia inovadora que as permitiu sentir as batidas da música. A ação se repete neste domingo, quando ela se apresenta no carnaval de rua de São Paulo. “É uma ação incrível. A Skol está trazendo uma experiência maravilhosa para quem tem deficiência auditiva. Eles vão receber uma mochila especial que vai vibrar conforme a música que está tocando”, comentou Anitta.

Concurso da Blumenau
A Blumenau criou um concurso para definir a receita de uma Juicy IPA. As inscrições serão abertas durante o Festival Brasileiro da Cerveja, com limitação de até 300 amostras, que podem ser enviadas até junho – o julgamento ocorrerá em julho. O novo rótulo será lançado em setembro, mês em que a fábrica comemora três anos e o município de Blumenau faz aniversário. A ação remonta ao início da marca, quando um dos primeiros rótulos lançados também surgiu a partir de um concurso.

NE IPA da Satélite
A cervejaria Satélite ampliou as suas opções de rótulos com o lançamento da BerrySat  P.08, uma New England IPA elaborada com adição de blueberry. Com 6% de teor alcoólico, é ligeiramente turva e contém notas cítricas e frutas vermelhas provenientes das variedades de lúpulos usados. Na boca, tem corpo médio alto que confere sensação macia, amargor marcante, com 45 IBUs, muito bem equilibrado pela base de maltes, segundo a marca. A novidade poderá ser encontrada nos bares de São Paulo a partir da próxima quinta-feira e  também em outros estados, de acordo com a logística, sendo envasada em latas de 473ml e na versão chope.

Isabella Artois
Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, a Stella Artois lançou uma edição limitada da cerveja, que pode ser encontrada no site do Empório da Cerveja. Ela terá seu nome “modificado” para Isabella Artois, que se tornou CEO da cervejaria em 1726, após a morte do marido. A ação também se deu nas redes sociais da marca e tem o objetivo  de reconhecer mulheres inspiradoras espalhadas pelo mundo. Até por isso, a Stella Artois convidou seus seguidores a trocarem seus nomes nas redes sociais pelo de mulheres que consideram inspiradoras, além de contarem sobre o papel delas em suas vidas por meio de posts com a tag #elainspira. 

Sem flores
A Budweiser aproveitou o Dia Internacional da Mulher para fazer uma campanha especial: a partir da mensagem #TrocoFloresPor, a marca lembra que a data foi criada para discutir o real papel das mulheres na sociedade, no contexto das lutas femininas por igualdade de direitos. Para debater o tema, a marca convocou a cantora norte-americana Ciara, que discutiu ao lado de Karol Conka e Tássia Reis o tema e os desafios femininos no meio musical. O bate-papo foi moderado pela antropóloga Carol Delgado e deu origem a um vídeo publicado nas redes sociais da Budweiser.

Mulheres na busca
Em outra iniciativa de uma grande marca envolvendo o Dia Internacional da Mulher, a Skol apresentou a campanha “Mulheres na Busca”, lançada com um vídeo divulgado nas redes sociais na sexta-feira. A ação visa mudar a forma como a mulher brasileira é representada nas buscas da internet, muitas vezes associada apenas a atributos físicos. A Skol espera ajudar a dar visibilidade a mulheres que fazem a diferença na sociedade nos mais diferentes setores. Para isso, a marca vai desenvolver uma página, que vai ao ar no dia 20, com perfis femininos marcantes para as pessoas compartilharem e curtirem, aumentando a relevância das fotos dessas mulheres e, assim, impulsionando essas personagens nos sites de buscas.

Mulheres no meio cervejeiro: Reflexo da luta pela sobrevivência na sociedade

Nessa semana, devido à celebração do Dia Internacional da Mulher, muito se falou e discutiu sobre o papel das mulheres no meio cervejeiro. Em reportagem de sexta no Guia, quatro vozes femininas do setor avaliaram a evolução da participação feminina. Em consonância com a máxima de que o espaço é crescente, mas os obstáculos ainda são enormes, Nadhine França, uma das fundadoras da confraria Maria Bonita Beer, vê as dificuldades como reflexo de uma luta maior da mulheres: pela sobrevivência.

“Eu sempre acho difícil tratar da luta das mulheres no meio cervejeiro. Tem uma coisa que se antecipa a isso: a batalha para as mulheres sobreviverem. Vivemos  em um país onde se matam mulheres o tempo todo, assassinadas por seus companheiros, seus ex-maridos”, afirma ela. Atualmente, uma mulher é morta no Brasil a cada duas horas, segundo dados oficiais.

À sua maneira, no olhar dela, o meio cervejeiro bebe da mesma fonte machista que alimenta a sociedade. “A cultura machista está acima do mercado. A gente ainda tem que ouvir muita gracinha e tem que ter paciência para educar essas pessoas”, conta Nadhine, antes de arrematar.

“Você tem uma foto de uma grande cervejaria de mulheres brassando cerveja para o Dia das Mulheres, e tem que ler comentário de que ‘elas estão lá para lavar a panela’. É um absurdo. Ainda falta muito.”

Assim, cada passo dado por uma cervejaria ou qualquer outra marca envolvida no mercado, para ela, deve ser bem pensado para não corroborar com essa postura.

“Quando eu estou pensando em um evento de cerveja, ou mesmo na criação do meu rótulo, eu tenho que levar isso em consideração. Não quero alimentar essa cultura. Isso existe. Portanto, pensando em um evento, vou tentar colocar coisas que previnam ou minimizem isso”, diz.

Mesmo que as mulheres ainda sejam minoria, Nadhine aposta no crescimento do mercado artesanal como prenúncio de melhora. Um futuro cenário com mais oportunidades de trabalho para elas.

“Trabalhamos no sentido de dizer que é um mercado aberto para a mulher, para que ela não se sinta impedida. Eu sei que o fato de fazermos campanhas e movimentos, mostrar nas mídias que existem mulheres no meio cervejeiro, incentiva mais mulheres a entrar”, aponta, citando o destaque que renomadas profissionais mulheres alcançaram no mercado como outro grande incentivador.

4 análises sobre a participação da mulher no mercado cervejeiro

Efemérides são datas essenciais na humanidade para consagrar feitos que realmente importam e corrigir insistentes desvios históricos. Um bom exemplo no calendário nacional é a Consciência Negra, data fundamental para lembrar que o fim da escravidão foi mais suposto do que efetivo. Mas se podem, sim, ter seu caráter inclusivo, efemérides também são perigosas: ao invés de produzirem a reflexão, elas se cercam de um clima festivo que acaba por enfatizar a distorção.

Em um país onde o seu mandatário disse ter fraquejado ao gerar uma filha, que não curiosamente é o mesmo país onde as taxas de feminícidio permanecem tão infames que provocaram um recente alerta da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, o Dia Internacional da Mulher deveria provocar o mais sério e profundo dos debates. Algo que ainda parece bem distante.

Como bem lembra nossa colunista Fernanda Pernitza, o Dia da Mulher se tornou uma data desfocada de sua origem, com um caráter estigmatizante e comercial. Serve, no fundo, como ótima mea culpa – inconsciente ou mesmo consciente: posso confortavelmente ser um machista durante 364 dias do ano porque lá, no dia 8 de março, compro meia dúzia de flores (como se toda mulher gostasse de flores), escrevo um cartão delicado, dou um parabéns efusivo e soluciono minhas questões morais.

Se nós, do Guia, elaboramos hoje algo especial sobre a participação da mulher no mercado cervejeiro, é pensando em um convite: mais do que uma data para presentes ou parabenizações, o dia 8 de março deve ser utilizado para reflexão. Nada mais óbvio que essa reflexão seja conduzida por quatro entre tantas mulheres que, com muita luta, vêm conquistando um espaço decisivo no setor – e que constantemente sofrem ou notam os efeitos dos estigmas e dos preconceitos.

Confira, a seguir, 4 análises sobre a participação da mulher no mercado cervejeiro.

Fabiana Arreguy, jornalista, escritora, sommelière e criadora da coluna de rádio Pão e Cerveja: Eu vejo que a participação da mulher no segmento cervejeiro se ampliou muito de quando comecei a atuar nele, há 12 anos, pra cá. Vejo várias cervejarias sendo comandadas por mulheres, vejo grandes pesquisas voltadas à cerveja assinadas por mulheres, vejo mulheres à frente de instituições de ensino, vejo inúmeras influenciadoras. Agora, dizer que é uma participação equânime em relação à dos homens não posso. Eles ainda são maioria em todos os cargos e serviços cervejeiros. É um meio ainda muito masculino. As mulheres ainda precisam provar que são capazes pelo simples fato de serem mulheres. Há muitas piadas machistas difundidas, especialmente nos grupos cervejeiros de Whatsapp, e ainda se ouve argumentações do tipo: “mulher quer igualdade? Então manda carregar um saco de malte.” Mas acho que isso faz parte de uma cultura machista que ainda nos rege, não é exclusividade do meio cervejeiro. E hoje há muitas vozes femininas para trazer o contraditório e mostrar que não precisamos provar nada para ninguém. Mudanças de paradigma são lentas mesmo. O importante é não deixar de trabalhar por elas.

Fabiana Büll Haik, sommelière, cervejeira caseira e autora do site Bia Bier: Existe, sim, ainda muito preconceito com relação à mulher no mercado cervejeiro. Mas, no meio cervejeiro em si, isso está mudando muito. As salas de aulas já estão sendo bem mescladas. Logicamente o número de homens ainda é grande, mas as mulheres estão fazendo o seu papel, estão deixando uma marca diferente no mercado. São dedicadas, são estudiosas. Sou uma grande entusiasta desse movimento. Não sou feminista, aquela coisa toda, mas temos, sim, muito a agregar nesse mercado. Quer por sua organização, pela habilidade multifuncional da mulher – ela está em casa, tem o filho, o marido, então tudo isso conta e ajuda nesse processo, nessa compreensão. Procuro muito incentivar os cursos para mulheres, a trazê-las para esse mundo. A partir do momento que a mulher entra nesse meio, ela traz toda a família, e aí passa a ter o valor da cerveja como um alimento, e não algo com preconceito. Hoje vou, por exemplo, em uma cervejaria e aí meu marido também vai, meu filho. Então meu filho vai ter a concepção de que a cerveja não faz mal para a saúde. Não é aquela coisa de beber até cair. É a ideia de que minha mãe está indo tomar cerveja com o meu pai e eles estão bem.

Luciana Rocha Brandão, sommelière, cervejeira caseira, cientista e CEO do Laboratório da Cerveja, uma startup de biotecnologia e soluções em processos cervejeiros: Vejo que a inserção da mulher no mundo da cerveja tem mudado muito a percepção de valor da bebida. Se antes as mulheres eram vistas apenas nas propagandas, e propagandas de muito mau gosto, propagandas machistas, com biquínis, hoje as mulheres, além de consumidoras exigentes, também trabalham nesse mundo da cerveja. Desde a produção, a someliaria, além de muitas professoras e cientistas, que é o meu caso, por exemplo. Nada mais justo – a mulher retomar o lugar que sempre foi dela. A mulher esteve na frente da produção no início da história da cerveja, e não o homem. E, hoje, a mulher está no mercado e ela não quer competir com o homem, e sim mostrar que tem a mesma capacidade. Apesar dessa inserção, acho que precisa melhorar muito. A presença feminina em alguns setores ainda incomoda aqueles que mantêm um pensamento muito machista. Vou falar a verdade: eu nunca sofri nenhum tipo de preconceito. Sou cientista, professora e todos sempre me trataram com muito respeito, o que tem a ver com o meu trabalho. Mas tenho amigas que trabalham em cervejarias e, lá, o ambiente fabril ainda é um pouco machista. Você vê poucas mulheres nesse ambiente. Existe aí um preconceito. Nesse ambiente, na área de produção, muitos homens acham que a mulher não dá conta de trabalhar em chão de fábrica. Mas hoje temos muitas mulheres à frente da produção, com suas cervejarias. E a tendência é, sim, diminuir esses estigmas e a mulher melhorar a sua inserção no mercado.

Yumi Shimada, sócia da Japas Cervejaria: Hoje em dia, como em muitas áreas, as mulheres ainda estão conquistando seu espaço no mercado cervejeiro. Mas cada vez mais vemos mulheres se destacando, seja produzindo cerveja em casa, atuando na mídia especializada, como sommelières, empreendedoras ou em posições importantes de logística, comercial, produção ou comando nas principais cervejarias artesanais do país. Aos poucos vamos desmistificando a ideia de que o universo cervejeiro é um universo masculino, e é aí que está hoje o principal papel das mulheres. Porém, numericamente, ainda é gritante a diferença de espaço que se vê no mercado como um todo, que é predominantemente masculino. Isso é reflexo de uma cultura promovida pelas cervejas de massa durante décadas, onde toda a comunicação cervejeira girava em torno do consumidor homem e heterossexual. Por isso, se hoje esse tipo de discussão ganha destaque no mês das mulheres, o que é super válido e positivo, é necessário ressaltar a importância de que se pense no assunto durante todo o ano. Reconhecendo o bom trabalho feito pelas mulheres do mercado e, principalmente, promovendo o apoio às contratações de mulheres para compensar o gap gerado por essa questão cultural que, como toda questão cultural, precisa de tempo e empenho para ser equalizada.

Balcão da Maria Bravura: Troco flores por uma RIS

Balcão da Maria Bravura: Troco flores por uma RIS

Se você acordou agora há pouco, já deve ter notado que hoje é dia 8 de março, o Dia Internacional da Mulher. É provável que passe pela sua cabeça de forma automática a ideia de enviar flores às mulheres da sua vida: esposa, namorada, mãe, avó, irmã, amiga. Não te julgo e confesso que, dependendo de quem e em que momento vier, considero este um ato de gentileza. Mas, permita-me lhe propor uma reflexão antes de ligar na floricultura: alguns destes atributos exaltados na figura feminina e que especialmente neste dia recebem destaque não definem por completo nenhuma mulher e tampouco representam todas.

Além disso, há outros significados atrelados a esta data que teve origem na Rússia, no começo do século passado, em 1917, quando trabalhadoras realizaram uma greve na qual exigiam melhores condições de trabalho, além de protestarem contra a participação do país na Primeira Guerra Mundial. Depois, em 1975, a ONU oficializou o dia 8 de março como o Dia Internacional da Mulher, criado com o objetivo de relembrar as lutas sociais, políticas e econômicas das mulheres, mas esses significados se perderam ao longo do tempo.

Porém, há alguns anos tem-se tentado desconstruir este caráter banal que ainda hoje permeia esta data e que a tornou meramente comercial, apelativa e carregada de homenagens às características associadas à mulher. É muito comum as mensagens neste dia descreverem a mulher como um ser de delicadeza, vaidade, paciência, compreensão e repleta de dons maternais, tudo isso rodeado de rosas, batom e salto alto.

Nada contra estas características, mas elas deveriam poder nos atravessar de forma livre e não como um caminhão que passa por cima da gente. Esqueçam a ideia de comportamentos “naturalmente” femininos. É preciso que todos saibam que, assim como para os homens, existem infinitas formas de ser mulher. E que, ao ser mulher, continua-se a ser uma pessoa com suas singularidades, preferências pessoais e personalidade, ou seja, um ser único. E isso me leva à cerveja, porque considero este um assunto bem mais legal.

Dia desses vi um experimento muito interessante, na verdade sensacional: diferentes casais foram para o bar e a mulher pedia uma cerveja enquanto o cara optava por um drink. Quando os pedidos chegavam à mesa das mãos de outro funcionário, o que você acha que acontecia? Ele trocava os copos na hora de entregar. Claro, porque paladar tem gênero, né, pessoal?! Língua rosa e língua azul e coisa e tal. 

Eu e minha amiga raramente trocamos a cerveja por outra bebida (malemá por água) e, em nosso bar preferido, praticamente só tomamos a IPA da casa dentre outras opções mais suaves. Isso me fez lembrar da polêmica da cerveja Proibida que lançou a Puro Malte Rosa Vermelha Mulher. Chegou a ser hilário, se não fosse patético. Uma cerveja para mulher, delicada e perfumada como a mulher. Isso não te lembra um daqueles panfletos de loja de cosméticos? Então. O novo produto da Proibida recebeu uma série de reclamações de consumidores que consideraram inapropriada a criação de um tipo de cerveja especial para o público feminino. Por quê?

Bom, primeiro porque não condiz com a realidade, apesar de insistirem que sim.  Existem mulheres que gostam de cerveja levinha, cor-de-rosa e com aroma de lavanda? Sim, mas isso não esgota suas outras possibilidades de apreciação, nem mesmo representa o grupo todo, além do mais esse tipo de definição barra o acesso de homens que poderiam gostar deste tipo de cerveja. Este tipo de marketing me dá a sensação de que se eu recusar esta cerveja feita especialmente para mim e pedir uma Belgian Dark Strong Ale, serei banida da turma das mulheres delicadas e perfumadas. Sai pra lá, Fiona!

Paladar não tem gênero e são inúmeros os caminhos que a publicidade pode seguir até atingir seu público alvo, sem precisar lançar mão deste tipo de segregação/delimitação/discriminação. Qualquer coisa que determine o perfil de um grupo e se direcione a ele a partir do perfil criado, automaticamente exclui não só outros grupos, mas também membros do próprio grupo que não se identificam com o perfil determinado a ele; ou seja, qual o propósito disso senão rotular pessoas? Deixem os rótulos para as garrafas de cerveja. Que, aliás, são belíssimos.

Em segundo lugar, a LatinPanel divulgou um estudo que comprova o crescimento das mulheres como consumidoras de cerveja. É possível comprovar isso notando o quanto tem sido comum ver mulheres reunidas em bares e cada vez mais interessadas em cervejas, provando e procurando por estilos e rótulos diferentes, em busca de novos sabores e experiências sensoriais.

Não é à toa que o consumo deste público específico cresceu junto com o crescimento das artesanais aqui no Brasil: as cervejas especiais marcam uma nova era mais democrática com sua enorme variedade de sabores e aromas. Quase impossível não encontrar uma que te agrade. E as mulheres sacaram isso! Isso quer dizer que aquele perfil comportamental “naturalmente” feminino já foi desmantelado, não serve mais. Já era, zé fini.

É verdade que existem estudos que comprovam que boa parcela do público feminino gosta mais disso do que daquilo, mas no que diz respeito a sua interação com esse público, te aconselho a não definir uma mulher a partir destes estudos, pois vai correr um grande risco de errar e fazer papelão.

Portanto, abra uma cerveja e pense no mimo depois. Tome um gole e faça esta bela autoavaliação neste dia importante: “Será que em minhas relações com as mulheres tenho reforçado o modelo feminino a ser seguido ou tenho contribuído para que elas sejam as pessoas que elas quiserem ser, sem tentar encaixá-las na ‘caixa do que é ser mulher?'”. Isso pode resultar em mudanças imediatas e superficiais, como trocar flores por uma alta carga de lúpulo dentro de uma bela garrafa de cerveja – mas também em mudanças de ordem mais profunda.

E se ainda assim você decidir enviar flores neste dia, que tal repensar as palavras que colocará no cartão? É hora de participar do processo de resgate dos valores originais ligados a esta data. E eu, como uma boa mulherzinha, brindarei esta data com meu estilo de cerveja preferido atualmente, uma Russian Imperial Stout (RIS), grata a todas as mulheres que lutaram para que eu tivesse todos os direitos dos quais hoje desfruto, como a possibilidade de publicar este texto e a liberdade de frequentar um bar e abrir esta cerveja!

Um brinde à liberdade, ao respeito e aos direitos conquistados! Saúde!


Fernanda Pernitza é fundadora e sócia-proprietária da Maria Bravura Cervejas Especiais, beer sommelier e psicóloga

Aniversário da Landel, Beer Day em Salvador: 5 eventos para o fim de semana

O primeiro fim de semana pós-carnaval não tem clima de ressaca, mas de continuidade nas celebrações. A Landel comemora os seus cinco anos com festa e lançamento de cerveja e a Invicta realiza a primeira edição anual do Knock Down. Já Salvador recebe o Beer Day. Confira essas e outras atrações selecionadas pelo Guia.

Sudeste

Campinas
– Aniversário da Landel: A cervejaria celebra o seu aniversário de cinco anos com 12 horas de festa e o lançamento de uma cerveja, a Vira-Lata, uma Ordinary Bitter com adição de melaço de cana e dry hop, feita em colaboração com a Kombuteco. Além da novidade, as torneiras estarão abastecidas com Mandarina Lager, American Wheat, American Wheat com chá preto e tangerina, Session IPA, Session IPA Citrus, Júpiter APA, Júpiter IPA e Session IPA Pinheiros. O Growler Day também contará com opções de churrasco, apresentações musicais e sorteios e descontos em tatuagens. Será no sábado, das 10h às 22h, na Tap House Landel, na Rua Doutor Oswaldo Cruz, 607.

Ribeirão Preto
– Festa da Invicta: A tradicional marca realiza a primeira edição de 2019 do Knock Down, festa que contará com apresentações musicais da Banda 33 e da A Nova Ordem, que tocarão clássicos do rock nacional e internacional. Haverá presença de food trucks e opções de chopes da Invicta e de marcas parceiras. Vai ser no sábado, a partir das 14 horas, na Avenida do Café, n° 1.881.

Petrópolis
– Saint Patrick’s Day: Uma semana antes de sua data oficial, o Saint Patrick’s Day será celebrado na Deguste, Feira de Cervejas Artesanais realizada em Petrópolis, com a presença de vários produtores locais. Haverá shows musicais e duas competições cervejeiras: chope a metro e teste às cegas. Vai ser na Praça Visconde de Mauá, na sexta-feira e no sábado.

Nordeste

Salvador
– Beer Day: A sexta edição do Beer Day Salvador será realizada com a presença de dez cervejarias, tendo como uma das atrações a Bardobier, que lançará sua New England IPA. Ainda estarão presentes Mandacaru, Mindubier, Paradoxo, Vitrine da Cerveja e Jauris Beer. Será neste sábado, das 13h às 20h, na Four Dogs Premium, na rua Professor Cassilandro Barbuda, 139, com entrada gratuita.

Sul

Curitiba
– Growler Day com ‘espumante’: O Growler Day da Bodebrown contará com a presença de uma cerveja inspirada nos espumantes e com toque efervescente, a Brut IPA Galaxy, uma Sparkling Hop Galaxy que será vendida em litro para completar os growlers. Poderão, ainda, ser realizadas visitas à fábrica. Serão mais de 20 torneiras de chope, além do evento contar com diversas opções gastronômicas. Será nesta sexta-feira, das 17h às 20h, e no sábado, das 9h30 às 16h30, na Rua Carlos de Laet, 1015.

Balcão da Matisse: História da arte e da cerveja – parte 1

Balcão da Matisse: História da arte
e da cerveja – parte 1

“O objetivo da arte não é representar a aparência externa das coisas, mas seu significado interno” – Aristóteles

A história da arte começa com as pinturas rupestres há cerca de 40 mil anos, mas a cerveja só surge oficialmente na história da arte por volta de 4.000 a.C., com uma placa de barro originária da Suméria. Nela se veem duas figuras que bebem possivelmente cerveja de um pote, utilizando para isso longas palhas, tradicionalmente usadas para aspirar a bebida e evitar a ingestão dos resíduos de cereal.

Outro registro de arte relacionada à cerveja, também produzida pelos sumérios, o Hino a Ninkasi (1.900-1.800 a.C.), a deusa da cerveja é, na realidade, uma receita de cerveja – aliás, a palavra Ninkasi significa “tu que me enches tanto a boca”.

Há mais de 10 mil anos os seres humanos conhecem a magia da fermentação. Pinturas em cavernas de 12 mil anos atrás contêm imagens de pessoas que recolhiam mel. O mel já contém levedura em estado de dormência por falta de água. Então junte-se um pouco de água e o meio se torna propício para a fermentação, convertendo os açúcares em álcool e gás carbônico, originando a bebida mais antiga que se conhece, o hidromel.

A produção do hidromel não requer calor, portanto é possível que faça parte da vida humana há mais tempo do que o fogo. Ela certamente influenciou os pintores rupestres, ou pelo menos facilitou a sua longa estadia dentro das cavernas.

Há muito se associa o estado alterado induzido pelo consumo de fermentados a narrativas orais, tradições míticas, poesia e, porque não, pintura rupestre.

Antes do surgimento da arte greco-romana, na região do Nilo Azul, onde hoje é o Sudão, em cerca de 7.000 a.C., os povos locais já produziam uma bebida fermentada a partir de sorgo.

Os sumérios e outros povos teriam percebido que a massa do pão, quando molhada, fermentava, ficando ainda melhor. Assim teria aparecido uma espécie primitiva de cerveja, como “pão líquido”, considerada uma “bebida divina” e, neste sentido, intimamente ligada à arte, também considerada uma atividade voltada para o divino. A arte bizantina, por exemplo, era preocupada sobretudo com a representação do divino, a transmissão de poder e mistério.

Mas a arte, assim como a cerveja, não faz parte apenas do divino; ela retrata temas modestos do mundo cotidiano, mundo em que a cerveja está presente, fazendo parte da dieta de nobres e camponeses desde tempos imemoriais.

Finalmente, não podemos falar de história da arte e da cerveja sem citar o Código de Hamurabi, um conjunto de leis criadas na Mesopotâmia, por volta de 1.750 a.C., por Hamurabi, sexto rei da Babilônia. O código é baseado na lei de talião, “olho por olho, dente por dente”. As 281 leis foram talhadas em uma rocha de diorito de cor escura, uma verdadeira obra de arte.

Hamurabi introduziu várias regras relacionadas à cerveja no seu grande código de leis, entre elas a que tinha como objetivo proteger os consumidores da cerveja de má qualidade. Ficou assim definido que o castigo a aplicar por se servir má cerveja seria a morte por afogamento na própria cerveja ruim que produziu. Imaginem se esta lei ainda estivesse em vigor…


Mario Jorge Lima é engenheiro químico e sócio-fundador da cervejaria Matisse

Entrevista: BaresSP cria escola cervejeira focada em “preços justos”

O preço alto ainda é um dos grandes entraves para a democratização da cerveja artesanal no mercado brasileiro. Dificuldade que se tornou ainda maior nos últimos anos, quando a crise conjuntural enfraqueceu o poder de consumo de boa parte da população. Mas uma importante iniciativa pode ajudar a desativar esse nó: o lançamento da Escola da Cerveja do BaresSP.

Criada por um dos guias precursores da cena noturna paulistana, o BaresSP, a nova escola surge com o intuito de oferecer cursos de qualidade e com preços justos, minimizando um problema que dificulta a democratização da cerveja artesanal do país.

“Nosso país vive uma crise econômica que ainda não terminou, temos milhões de desempregados, o custo de vida é alto na maioria das cidades e os salários, baixos”, afirma Rodrigo Sena, sommelier, mestre-cervejeiro, jornalista e um dos fundadores da escola. “Por isso todo nosso conceito foi criado em cima desses desafios: oferecer cursos de qualidade, com preços justos e no tempo certo para os alunos.”


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Em entrevista ao Guia, em que conta um pouco mais sobre a criação da escola, Rodrigo explica também que os cursos terão três públicos distintos: aqueles que querem aprender por hobby; aqueles que querem ampliar o conhecimento para fins profissionais; e donos e executivos de bares, restaurantes, hotéis, que não querem só entender mais sobre a bebida, mas também a atender o cliente cervejeiro.

Confira, a seguir, a entrevista completa com Rodrigo Sena, sommelier, mestre-cervejeiro, jornalista e um dos responsáveis pela Escola da Cerveja do BaresSP.

Como e quando surgiu a Escola da Cerveja do BaresSP? Quem a integra e com qual objetivo foi criada?
A Escola da Cerveja do BaresSP surgiu no primeiro semestre de 2018. O grande objetivo da escola é multiplicar o correto conhecimento cervejeiro de uma forma inovadora, com cursos bem focados e com preços justos para os alunos. Percebemos que existe muita demanda por conhecimento cervejeiro. Os cursos com mais qualidade que existem no mercado normalmente demandam investimento muito alto do aluno, tanto de tempo quanto de dinheiro. Nossa ideia foi otimizar o tempo, passando conhecimento de qualidade em prazo interessante – e com um preço que cabe no bolso das pessoas.

A ideia partiu dos sócios-fundadores do BaresSP, Leandro Meloni e Fábio de Francisco, em conjunto comigo. Nós três criamos todo esse conceito, a grade de cursos, as dinâmicas e todo o material didático. A escola ainda conta com a gestão da Cristiane Filocomo, que cuida de toda a operação e atendimento aos alunos.

Como a escola encara o mercado brasileiro de artesanais e por que o BaresSP decidiu investir em cursos sobre cerveja?
Como eu disse, a Escola da Cerveja observou uma demanda por conhecimento no mercado. Isso se deve muito ao fato de que o consumo está crescendo exponencialmente. Segundo o Ministério da Agricultura, fechamos 2018 com mais de 830 cervejarias no Brasil, e com mais de 7.000 rótulos registrados. O setor cresce em média 20% ao ano nos últimos 6 anos. E toda essa demanda pelo consumo cria uma demanda por conhecimento, pois as pessoas querem aprender como escolher seus estilos favoritos, em que copo beber, quais são as características a observar nas cervejas, e por aí vai.

Quem é o público-alvo dos cursos? Pretende focar mais o público especializado ou o consumidor ainda ligado às cervejas tradicionais, como as Pilsens?
Nós temos três públicos basicamente: tem aqueles que querem aprender por hobby, que não irão utilizar o conhecimento para fins profissionais. Existem aqueles que querem ampliar o conhecimento para fins profissionais, para se tornarem profissionais da área ou para dar um upgrade na sua profissão. E por último temos profissionais, donos e executivos de bares, restaurantes, hotéis, que querem aprender sobre cerveja, mas também aprender a atender o cliente cervejeiro. Temos cursos para todos estes.

Quais os principais cursos oferecidos e o que eles podem trazer de diferencial?
Temos um curso para iniciantes, aqueles que estão começando nesse universo. Esse é o Curso de degustação de cervejas artesanais, onde os alunos recebem uma boa base teórica e, no final, aplicam o conhecimento na prática com uma degustação de quatro estilos de cervejas. Outros cursos que temos já focam mais no marketing, vendas e atendimento, para estabelecimentos que trabalham com cervejas artesanais. A escola também tem cursos de especialização, como harmonização e análise sensorial, para quem já possui uma boa base de conhecimento e deseja se especializar em algum destes assuntos. E ainda oferecemos um curso inovador para a formação de Sommeliers de Cervejas Profissionais, com toda a grade curricular que um sommelier precisa ter.

Como vocês encaram a “educação cervejeira” no país e como os cursos, de maneira geral, podem ajudar a disseminar essa cultura?
Como todos os assuntos, quando falamos de educação no Brasil é um grande desafio. Nosso país vive uma crise econômica que ainda não terminou, temos milhões de desempregados, o custo de vida é alto na maioria das cidades e os salários, baixos. Por outro lado, as pessoas estão com pouco tempo – cada vez temos menos tempo disponível. Por isso todo nosso conceito foi criado em cima desses desafios: oferecer cursos de qualidade, com preços justos e no tempo certo para os alunos.

Atualmente o acesso a um conhecimento cervejeiro de qualidade é difícil. Na internet a grande maioria dos cursos ou ebooks gratuitos não possui qualidade, e até erros gravíssimos. Livros são caros também. Por isso a Escola da Cerveja BaresSP entrega conteúdo de qualidade no formato que as pessoas precisam: cursos objetivos e material didático digital. Essa nossa iniciativa contribui muito para o compartilhamento do correto conhecimento cervejeiro. O que é bom para toda a cadeia produtiva que sobrevive da cerveja.

Nova Zelândia: Uma nova potência mundial de cerveja artesanal

A Nova Zelândia abriu os olhos para a cerveja artesanal e pode se tornar uma grande potência mundial no ramo – assim como já é no universo do vinho – com um potencial de mercado estimado em US$ 2,3 bilhões.

Com uma população de 4,8 milhões de habitantes (equivalente às de Salvador e Curitiba somadas), a Nova Zelândia tem 4,56 cervejarias para cada 100 mil habitantes – é uma proporção maior do que do Reino Unido (3,04) e Estados Unidos (1,96).

De 2008 para cá, a indústria cervejeira neozelandesa cresce a uma média de 16% ao ano. Hoje o país tem 218 cervejarias, de acordo com um estudo do Instituto de Pesquisas Econômicas do governo (NZIER), em uma indústria que emprega aproximadamente 22 mil pessoas (0,5% da população) e traz US$ 646 milhões para o PIB do país. Em 2010, segundo o estudo, eram apenas três cervejarias artesanais, movimentando NZ$ 3 milhões.

O crescimento significativo conta, principalmente, com o aquecimento do mercado interno. Enquanto 70% do vinho produzido no país é exportado, apenas 10% da cerveja vai para fora.

Mesmo assim, grande parte da cerveja consumida internamente (NZ$ 242 milhões) cai nas mãos de turistas e acaba contribuindo com a reputação de bom destino para o turismo cervejeiro. Aos poucos vem crescendo internacionalmente o reconhecimento dos sabores peculiares dos lúpulos neozelandeses.

No entanto, cervejeiros locais já sentem um movimento no sentido da “saturação” do mercado, como tem ocorrido nos EUA, Reino Unido e, em certa medida, pode estar chegando ao Brasil. Em breve, a Nova Zelândia vai chegar a um dilema: se o futuro da cerveja vai em direção ao consumo de produtos locais, como apostar na exportação como principal mercado?

Na opinião de analistas do mercado, o caminho para que a Nova Zelândia cumpra sua vocação de potência exportadora de cervejas artesanais está no balanço entre diferenciação e preço.

A ideia é que os produtos neozelandeses, ao chegar ao mercado inglês, por exemplo, tenham um alto patamar de qualidade e criatividade a preços interessantes, se comparadas a importadas de outros países.