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Dólar baixo, frete caro: por que a guerra no Irã não barateou a sua cerveja

A recente instabilidade geopolítica decorrente dos conflitos envolvendo a guerra no Irã trouxe um paradoxo para a indústria de cerveja artesanal no Brasil. Embora a volatilidade internacional tenha provocado, em um primeiro momento, a queda pontual do dólar — o que prometia acenar com uma redução no custo de matérias-primas importadas como malte e lúpulo —, o alívio não passou de ilusão teórica. No mundo real das planilhas de custos, o aumento encadeado no preço dos combustíveis e dos derivados do petróleo anulou qualquer margem positiva, mantendo o setor sob forte pressão financeira.

Este mês, o Guia da Cerveja entrevistou mais de dez proprietários, administradores e representantes de entidades do setor, de norte a sul do país, que foram enfáticos: o custo logístico e a alta de embalagens plásticas engoliram eventuais ganhos cambiais.

Para o mercado cervejeiro nacional, o reflexo do conflito do outro lado do mundo escancara um problema estrutural: a dependência do transporte rodoviário e a assimetria na dinâmica de repasse de preços.

Guerra no Irã e a ilusão do dólar baixo

A matemática parecia simples: com a queda da moeda americana de janeiro a junho, os insumos de base, grande parte importados, deveriam ter ficado mais baratos. Contudo, na prática da indústria, os reajustes cambiais positivos demoram a se materializar nas fábricas.

Como explica Flávio Moret, sócio-proprietário da Cervejaria DosMoret, de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, a dinâmica cambial opera em duas velocidades bem distintas no Brasil: “As oscilações cambiais sempre afetam o setor, principalmente porque grande parte dos insumos utilizados é importada. Quando o dólar sobe, os preços aumentam rapidamente, mas, quando a moeda recua, os valores normalmente demoram muito para retornar ao patamar anterior — quando retornam.”

Essa morosidade na ponta consumidora é sustentada por contratos de longo prazo e estoques antigos. Para Joice Pauli, diretora operacional da Stannis Co., de Jaraguá do Sul (SC), a expectativa positiva trazida pelo câmbio esbarra na realidade contratual do setor. “Muitos contratos de compra são fechados antecipadamente e os ajustes costumam ocorrer com certa defasagem”, pontua.

Além disso, a cautela e a estratégia comercial dos distribuidores pesam na equação. Marcelo Naves, fundador da Quatro Poderes, de Brasília (DF), destaca que “os fornecedores adotaram uma posição cautelosa e não percebemos mudanças significativas nos custos de insumos neste período”. Já Wagner Falci, cofundador e cervejeiro da Daoravida Brewpub, ressalta a complexidade da precificação: “A dinâmica de preços dos insumos sofre diversas influências simultaneamente, como variação do dólar, custo do frete, excesso de demanda global — como no caso do lúpulo — e perda de fôlego das cervejarias. Os preços estão bastante voláteis, mas dependem da relação comercial entre fornecedor e cada cervejaria.”

Mesmo onde a queda foi notada, o alívio foi discreto. Isaac Deutsch, sócio-proprietário, e Jessika Alves, gerente administrativo-financeira da Cervejaria Tarantino (São Paulo – SP), confirmam a diminuição pontual nos preços das matérias-primas, mas fazem uma ressalva importante: “a baixa foi irrisória se comparada ao aumento de outros custos de produção, como utilidades. O impacto geral foi de custos maiores”.

O gargalo do petróleo

Se a queda do dólar demorou a chegar, os desdobramentos da guerra no Irã sobre as cotações do petróleo atingiram em cheio as linhas de produção. A alta dos derivados provocou um duplo impacto nas fábricas: o encarecimento imediato de insumos plásticos e a disparada no frete.

Eduardo Felisbino, CEO da Lohn Bier, de Lauro Müller (SC), detalha que o baque foi sentido logo nos primeiros momentos do conflito geopolítico. “Imediatamente após o início da guerra, começou um processo de aumento dos custos de matérias-primas derivadas do petróleo, como resinas e embalagens plásticas. Isso gerou um aumento que variou entre 20% e 80% nos custos de embalagens, filmes e rótulos. Apesar da queda recente do barril de petróleo após as negociações de paz, ainda não sentimos esse reflexo de redução na nossa ponta.”

Felisbino acrescenta que guarda a expectativa de que o câmbio mais baixo reduza custos de malte e lúpulo no segundo semestre para compensar a alta das embalagens, mas o cenário logístico permanece delicado.

A pressão sobre os materiais de acondicionamento e distribuição é reforçada por Joice Pauli, da Stannis Co., que registrou reajustes de cerca de 30% em itens plásticos descartáveis, além de elevações diretas no frete da distribuição.

Em um país de dimensões continentais sustentado pelo modal rodoviário, a alta do diesel no posto atinge todas as etapas da cadeia. Rafael Leal, cofundador da Caatinga Rocks, de Murici (AL), é categórico: “Particularmente, não vi nada baixar. Quanto ao impacto do aumento do custo do combustível, ele é real e direto. Para tudo, precisamos de frete. E no caso do nosso setor, normalmente, são compras de insumos fracionadas, assim como vendas de produto acabado, também fracionadas.”

Essa visão sobre a alta constante do frete anulando ganhos cambiais é compartilhada por Robson Mauri, fundador da 6º Sentido Cervejaria, de Piracicaba (SP). Ele destaca que, apesar da queda do dólar, “todo o restante da mão de obra e o próprio frete subiram”. Mauri nota que, embora o câmbio tenha favorecido pontualmente itens como malte e lúpulo, “outros repasses da própria indústria para coadjuvantes de produção vieram com preço até maior do que no ano passado”.

Gilberto Tarantino, presidente da Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva), também reforça a inevitabilidade desses repasses e as pressões conjunturais sobre o produtor: “Efeitos de guerra têm sempre algum impacto na logística. Aumentou o preço do transporte de tudo, desde a passagem de avião até o preço direto na bomba do posto. A vida tá muito cara, acaba somando uma série de fatores. No Brasil, o juro alto, que não abaixa de jeito nenhum, inibe o investimento.”

Tarantino lembra ainda que a concorrência acirrada faz com que muitos importadores segurem o repasse integral de custos até o limite para não perder mercado, empurrando o problema com a barriga dentro da cadeia comercial. 

Adaptação em meio à tempestade

Apesar do cenário desafiador desencadeado pela guerra no Irã, o setor demonstra uma casca mais grossa do que em momentos anteriores. A percepção geral é de que as crises recentes ensinaram o cervejeiro a gerir melhor os riscos de suprimento.

Ladir Almada Neto, diretor de Marketing e Vendas da Campinas (SP), avalia o momento de mercado sob a ótica da estagnação internacional de insumos e do efeito compensatório das altas: “O dólar caiu momentaneamente e agora já voltou a subir, mas os combustíveis ainda irão subir mais. Meio que um compensou o outro. O mercado vive um momento de favorecimento aos insumos importados por excesso de estoques internacionais de lúpulo e malte, mas também após uma série de crescimentos sem precedentes desde a pandemia.”

A capacidade do mercado de absorver os solavancos geopolíticos sem entrar em pânico é destacada por João Giovanella, CEO e fundador da Salva Craft Beer, de Bom Retiro do Sul (RS). “Nós percebemos alguns reflexos, mas em uma intensidade bem menor do que em outros eventos recentes, como a pandemia ou mesmo o início da guerra entre Rússia e Ucrânia. De forma geral, a percepção é de que o mercado tem desenvolvido maior capacidade de adaptação a esses eventos geopolíticos. Ainda existem impactos, mas eles tendem a ser menos intensos e mais rapidamente absorvidos do que vimos alguns anos atrás.”

Para sobreviver às flutuações, as cervejarias buscam alternativas operacionais da porta para dentro. Estratégias como a consolidação de entregas e compras de maior volume têm sido a principal defesa contra o frete escorchante.

“Em um país onde o principal modal é o rodoviário, o custo do frete exige atenção constante. Por isso, buscamos otimizar a logística por meio de compras em maior volume e da consolidação de entregas, de forma a diluir os custos de transporte”, sintetiza Flávio Moret, da DosMoret.

Enquanto a guerra no Irã dita o ritmo das commodities mundiais, as cervejarias artesanais brasileiras provam que fazer cerveja vai muito além de dominar a receita: exige um malabarismo constante entre a volatilidade do petróleo, a cotação das moedas e a eficiência operacional dentro de fábrica.

Luís Celso Jr.
Luís Celso Jr.
É jornalista, escritor e sommelier de cervejas. Formado pela PUC-PR, se especializou em jornalismo digital e em gestão de Pequenas e Médias Empresas (FIA Business School). No ramo da cerveja, foi premiado no 1º Campeonato Brasileiro de Sommelier de Cervejas em 2014, defendo o Brasil no mundial em 2015. É professor do Instituto da Cerveja, juiz de concursos nacionais e internacionais (National BJCP), consultor e fundador do BarDoCelso.com — blog mais antigo de cerveja da internet brasileira que completa 20 anos em 2026. Premiado no Edital Fermenta!, é autor do livro “Uma viagem pela história da cerveja no Brasil” (no prelo).
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