Em um mês marcado pela oscilação na cotação da ação da Ambev na B3, a bolsa de valores brasileira, o papel fechou março cotado a R$ 15,40, o que representou valorização de 1,32% em relação ao fim de fevereiro. A alta, porém, não foi suficiente para a recuperação plena do ativo, que ainda registra queda, mesmo que diminuta, de 0,13%, em 2022.
O cenário chegou a ser pior ao longo de março, com a ação da Ambev tendo terminado a sessão do dia 11 valendo R$ 13,18. Desde então, iniciou uma recuperação, voltando para a casa dos R$ 15 no fim do mês, na última quarta-feira (29).
A valorização, mesmo que em ritmo mais lento da ação da Ambev em março, se inseriu no contexto do primeiro mês completo do conflito na Ucrânia, com os seus desdobramentos iniciais já sendo sentidos tanto nas bolsas de valores ao longo do mundo quanto na economia real.
O conflito tem se refletido em alta nos preços das commodities, como petróleo, gás natural, milho e trigo, além da expectativa de inflação global. Por outro lado, com a saída de investidores do mercado russo, houve, em março, forte fluxo de entrada de estrangeiros na B3.
Isso explica a valorização do Ibovespa, o principal índice da bolsa brasileira, em março. Ele terminou o mês em 119.999,23 pontos, uma alta de 6,06% em um mês. Além disso, acumulou elevação de 14,48% no primeiro trimestre de 2022. E isso após um ano em que havia recuado 12%.
Nesse cenário, a ação da Ambev foi uma das 72 do Ibovespa a valorizar em março. O principal destaque foi a CVC, com alta de 32,99%. A flexibilização das medidas protetivas contra o coronavírus e a desvalorização do dólar parecem, assim, ter pesado bem mais para o investidor do que possíveis efeitos da alta dos combustíveis para a companhia. O Top 5 de valorizações também conta com Cogna Educação (25,2%), Qualicorp (24,7%), 3R Petroleum (23,5%) e JHSF Participações (22,4%).
Por outro lado, 19 ações do Ibovespa desvalorizaram em março, com o destaque negativo sendo a Embraer, com perda de 15%, com a divulgação do balanço do quarto trimestre de 2021 tendo impacto na avaliação de especialistas, assim como o preço dos combustíveis. PetroRio (-7,78%), Braskem (-7,19%), Fleury (-6,95%) e Azul (-5,42%) completam a relação das maiores baixas no mês.
Fora do Brasil No mercado externo, chamou a atenção a expressiva valorização do papel da Ambev na Bolsa de Nova York, tendo fechado março valendo US$ 3,23. Isso representou uma alta de 10,24% no mês. Além disso, há salto de 15,36% no primeiro trimestre de 2022.
Na Europa, por sua vez, os dois principais grupos cervejeiros do mundo viram suas ações desvalorizarem em março. O papel da AB InBev terminou o pregão da última quinta-feira cotado a 54,26 euros, com queda de 1,6% em março. Já o ativo da Heineken fechou o mês com preço de 86,58 euros, caindo 3,89%. Na última terça-feira, quando a multinacional holandesa anunciou a saída da Rússia, a ação valorizou 1,97%. Mas o ritmo não se manteve nos dias seguintes.
Balcão Beersenses: A triste sina da cerveja nas guerras
Esse é um artigo que escrevo com tristeza. Cerveja é antônimo de violência. Cerveja significa confraternização, alimento, felicidade, paz e amor. Nada a ver com guerra e mortes. Mas, infelizmente, ao longo da história, a cerveja esteve presente em momentos tristes, de guerras, ódio e violência. Um dos motivos é que o grande continente cervejeiro do mundo, a Europa, sempre viveu conflitos por poder e dinheiro. E sempre que tem uma guerra em algum canto da Europa, tem cerveja ali.
Conta a história que, no início do século XVII, a região central da Europa era uma bagunça, para variar. Diversos reinos e ducados separados brigavam entre si com interesses diferentes, o que fez eclodir um conflito que ficou conhecido como a Guerra dos Trinta Anos, onde diversas nações lutaram por três motivos básicos: religião, território e comércio.
Uma das regiões que estava metida nessa briga era o Ducado da Baviera, que em 1632 estava praticamente dominado pela Suécia quando Munique foi invadida. Desnecessário falar sobre a importância da cerveja para a Baviera, né? Exatamente por essa importância toda, os moradores de Munique conseguiram um acordo com os invasores suecos: trocaram mil baldes de cerveja Hofbräu – que era a cerveja oficial do ducado – pela garantia de que a cidade não seria destruída. A cerveja salvou Munique da destruição. Dois anos depois, a Suécia fez um acordo e desocupou a Baviera. Nesta intersecção entre cerveja e guerra na Baviera, o final foi feliz.
As duas grandes guerras do início do século XX também produziram histórias envolvendo cerveja. Algumas ficaram muito famosas, como a história de criatividade dos ingleses que enchiam tanques de cerveja e penduravam no lugar de bombas nos aviões Spitfire para levar a bebida até as tropas na França.
Outra história ficou famosa e transformou seu protagonista em lenda. Teria acontecido em 1944, bem perto do final da Segunda Guerra Mundial, durante uma luta sangrenta que ficou conhecida como a Batalha do Bulge na cidade de Bastogne, na Bélgica.
Durante a batalha, um jovem paraquedista do exército norte-americano, chamado Vincent Speranza, encontrou um barril de cerveja intacto nas ruínas de um pub e encheu seu capacete da bebida para levar a soldados feridos que estavam em um posto médico improvisado em uma igreja ao lado do pub.
Recentemente, fiquei extremamente chocado quando vi notícias de que uma cervejaria na Ucrânia havia abandonado a fabricação de cervejas para produzir coquetéis molotov. Na minha ignorância, confesso que achava que não iríamos mais viver uma guerra dessas na Europa, que mexe com o mundo todo. Eu era daqueles que acreditava mesmo que a humanidade havia evoluído e que a briga por poder e dinheiro tinha atingido outros patamares, usando outras armas, como ataques cibernéticos, por exemplo. Mas eu estava errado.
O fato de uma cervejaria produzir bombas me abalou tanto que fui pesquisar mais informações e descobri que se tratava da cervejaria Pravda, que fica em Lviv, cidade no oeste da Ucrânia, distante cerca de 80 quilômetros da fronteira com a Polônia.
Descobri ainda que a Pravda havia lançado em 2017 uma cerveja chamada “Putin Huilo” – nome que significa um xingamento bem feio contra o líder russo e é melhor não traduzir do ucraniano. A cerveja ficou famosa, pois além do escancarado xingamento a Putin, era uma Strong Golden Ale muito bem feita e que, inclusive, ganhou medalhas em concursos internacionais.
Claro, após encontrar todas essas informações via Google, entrei no Instagram para achar a cervejaria. E, bingo: eles possuíam dois perfis. Um deles tem mais assuntos relacionados à produção das cervejas. E o outro é o perfil principal, o que divulga as cervejas e a marca em si.
A minha comoção com o assunto foi tanta que fiz um post no meu perfil do Instagram, usando um vídeo da Agência Reuters, e marquei a cervejaria. Qual não foi minha surpresa quando vi que o pessoal da Pravda curtiu minha publicação e ainda trocou uma ideia comigo via direct message, que foi o suficiente para perceber o forte sentimento de resistência deles contra a invasão russa. E serviu também para que eu mandasse diretamente uma mensagem de apoio e solidariedade a eles.
No dia seguinte, fui surpreendido com mais uma notícia da guerra envolvendo uma cervejaria. Dessa vez, uma nota muito triste noticiando a morte de uma pessoa causada pelo bombardeio da cervejaria Lisichansk, na cidade de Luhansk.
Triste em ver acontecer essas histórias de novo, em perceber que nunca iremos evoluir como seres humanos. Essas grandes guerras um dia serão nosso fim. E nem mesmo a cerveja irá nos salvar.
Rodrigo Sena é jornalista, sommelier certificado em tecnologia cervejeira com especialização em harmonizações e responsável pelo canal Beersenses.
A semana veio cheia de opções para os cervejeiros de todo o país, incluindo novidades das mais variadas marcas, como a Bodebrown, que vai aproveitar mais uma edição do seu Growler Day para a vacinação de pessoas contra o coronavírus e a influenza. Por sua vez, a Black Princess, do Grupo Petrópolis, investiu no lançamento da sua primeira Catharina Sour.
Em outra iniciativa, a Hooegarden preparou, no Parque do Ibirapuera, um jardim composto por ingredientes de cerveja, enquanto a Goose Island prepara o lançamento de uma Barley Wine em um evento com hambúrguer da carne Wagyu. Já a Rota Cervejeira RJ elegeu a sua nova diretoria.
Confira essas e outras novidades do setor no Menu Degustação do Guia:
Catharina Sour da Black Princess A Black Princess lançou a Aryna Sour, a primeira cerveja no estilo Catharina Sour da marca. O rótulo é feito com junção entre açaí e cereja, traz a cor rosé, possui 4,5% de graduação alcoólica e 12 IBUs de amargor. A marca diz que a ideia do nome foi fazer uma releitura de “Catarina” na língua Tupi. A Catharina Sour da Black Princess tem venda exclusiva no e-commerce Bom de Beer, em long neck de 355ml, sendo sazonal.
Hamburgada da Goose A brewhouse da Goose Island realiza na próxima quarta-feira uma hamburgada especial com o chef Thiago Gil, do Koburger de Pinheiros, e lançamento de uma Barley Wine, além de apresentação da banda Caramelo Dogs. No cardápio, dois lanches feitos com a considerada melhor carne do mundo, o Wagyu. A novidade será a Goose Gang, criada pela mestre-cervejeira Marina Pascholati.
Jardim de ingredientes de cerveja A Hoegaarden resolveu dar vida a um jardim com os ingredientes da cerveja. Neste sábado e domingo, o público poderá conhecer o Gaarden Code, fazendo uma imersão nos sabores naturais da cerveja no meio do Parque do Ibirapuera. Trata-se de um jardim escaneável, o Gaarden Code, desenvolvido pela Media.Monks.
Spaten no automobilismo A Porsche Cup C6 Bank Mastercard abre sua 18ª temporada neste fim de semana no Autódromo de Goiânia, tendo a Spaten como cerveja oficial em 2022. O calendário terá nove etapas, com seis reuniões de sprint e três de endurance. “Essa parceria une duas experts no que fazem: Porsche no mundo dos carros e Spaten no da cerveja. Por isso, estamos muito felizes em ser a marca que estará ao lado dos fãs a cada etapa”, diz Joice Carvalho, chefe de marketing de Spaten no Brasil.
Nova campanha da Bohemia A Bohemia lançou uma nova campanha, chamada “A temperada com uma pitada extra de lúpulos”. E a ação de marketing afirma que o lúpulo é o grande responsável por despertar sabores únicos e memórias especiais em quem consome a sua cerveja. A primeira fase da campanha teve início em março, com Juliette, porta-voz de cultura e tradição de Bohemia, perguntando aos consumidores nas redes sociais sobre o que eles sentem ao tomarem uma Bohemia gelada. Agora, o filme publicitário mostra as diferentes manifestações e o paralelo dos ingredientes.
Ambev arrecada alimentos não perecíveis… A Ambev realizará a 2ª edição do Sempre Juntos Day, agora em Jaguariúna (SP). A expectativa é de arrecadar mais de sete toneladas de alimentos não perecíveis neste sábado, das 9h às 14h, na Estação Maria Fumaça. As doações serão enviadas à Cufa Campinas, que destinará os alimentos a instituições de Jaguariúna. O Sempre Juntos Day será realizado para os moradores da cidade maiores de 18 anos, com a troca de de cerveja pelos alimentos. Para participar da campanha, os consumidores devem levar um quilo de alimento não perecível para cada cerveja que desejam trocar, sendo limitado ao máximo de quatro garrafas por pessoa.
…convida para zerar carbono… Para zerar as emissões líquidas de carbono próprias e de terceiros até 2040, a Ambev resolveu incentivar e ajudar os fornecedores a cumprirem essa ambição, formando uma aliança: o Compromisso pela Ação Climática. Atualmente, 160 parceiros assinaram o acordo, incluindo 16 dos maiores fornecedores da Ambev, que representam juntos 50% dos fornecedores, como Cooperativa Agraria, Valgroup, Vivo, Tereos, WestRock, Concordia Logística, Ingredion e Ecolab. Para aderir ao movimento, as empresas parceiras podem encontrar mais informações no site da companhia.
…e faz processo seletivo no metaverso A Ambev está com inscrições abertas até segunda-feira para os programas de Estágio e Representa – voltado exclusivamente para pessoas pretas. E parte do processo vai acontecer no ambiente metaverso. O processo seletivo é dividido em quatro etapas: inscrição, teste, vídeo e challenge. Nesta última, os candidatos são direcionados para o Ambev Expo, plataforma onde eles participam de dinâmicas e interagem entre si e com os membros da companhia. No metaverso Ambev, os candidatos podem criar o seu próprio avatar com mais de 20 milhões de possibilidades de customização com diferentes tipos de cabelo, roupa, acessórios e tons de pele.
Nova diretoria da Rota Cervejeira RJ Depois de dois anos com reuniões online, os integrantes da Rota Cervejeira RJ promoveram o primeiro encontro presencial do ano. Na pauta da reunião, a eleição da nova diretoria da associação cervejeira para o biênio e o planejamento de ações para 2022. Foram eleitos: Gabriel Thuler (da Cervejaria Alpendorf), para a presidência; Gilmar Carvalho (Cervejaria Bohemia), vice-presidência executiva; Luciano Machado (Grupo Petrópolis), vice-presidência corporativa; Maurício Almeida (Cervejaria Rota Imperial), gerência de marketing/comercial; e Pedro Paiva (Cervejaria Mad Brew), gerência de operações e eventos.
Coisa de Mulher O primeiro curso sobre cerveja feito por mulheres e exclusivo para mulheres da Serra do Rio de Janeiro, o Coisa de Mulher, antes previsto para fevereiro e adiado por conta da tragédia provocada pelas chuvas em Petrópolis, aconteceu esta semana na Cidade Imperial. O curso foi uma iniciativa da Agência Maip e da cervejaria Sampler, acontecendo em espaço cedido pela Bohemia. Foram cinco dias de palestras, network e muita cerveja, com conteúdo sobre história da cerveja e escolas cervejeiras, atendimento, elementos e estilos, marketing cervejeiro, produção cervejeira, e empreendedorismo e turismo cervejeiro.
Jogo da Hocus Pocus A Hocus Pocus realiza, a partir da próxima quarta-feira, a 2ª edição da Easter Egg Hunt. A ideia da marca é que o público procure e encontre, no seu site, nas mídias sociais e em bares, mensagens e símbolos escondidos. Quem achar, será premiado pela cervejaria.
Vacinação em evento da Bodebrown O Growler Day da Bodebrown neste sábado terá a edição especial “Para sua proteção”, que contará com um posto de vacinação para imunizar pessoas com mais de 80 anos contra a Covid-19 e a influenza. A vacinação, realizada pela Bodebrown em parceria com a Secretaria de Saúde de Curitiba, faz parte do programa Imuniza Já Curitiba. Além da vacinação, o evento terá apresentação da Elvis Presley Jam Session Band, com o cantor Nick Araújo, tocando das 13h às 15h no evento da Bodebrown. Já o grupo Queen Immortal faz um show cover da banda de Freddie Mercury, das 15h30 às 17h30. A venda de growlers PET de dois litros terá cinco opções ao preço de R$ 55 cada e inclui uma caneca plástica com tirante. Serão oito alternativas de chopes em caneca. Cada opção custa R$ 20 e inclui a caneca grátis.
Kiss cover na Madalena A banda cover Destroyer Kiss, reconhecida oficialmente como a única banda tributo atuante na América do Sul, se apresenta neste domingo na Madalena. O evento tem início às 13h, com show a partir das 16h, em ambiente coberto, pet friendly e com espaço kids para acomodar melhor as famílias com crianças, com valet para facilitar o acesso. Além disso, para deixar a festa ainda mais animada, um profissional de maquiagem artística estará na Madalena caracterizando os clientes como os integrantes da banda original.
Credenciamento para o BCB São Paulo Os profissionais da indústria de bebidas que têm interesse em participar do BCB São Paulo já podem realizar o credenciamento de acesso para o evento, que acontecerá em 21 e 22 de junho, no Expo Barra Funda. O evento promete reunir os principais profissionais de coquetelaria e marcas de destilados premium para tratar de tendências, lançamentos, inovação, promoção de fornecedores e produtos ligados ao universo dos drinques.
A organização do Brasil Beer Cup e do Beer Summit anunciaram as datas de realização dos eventos em 2022 com uma ampliação das atividades e atrações. Além da competição e do congresso cervejeiros, também será realizado um festival aberto ao público no fim de outubro, em Florianópolis.
O regulamento e a abertura das inscrições para os eventos estão previstos para maio. Em outubro, o julgamento do Brasil Beer Cup se dará entre os dias 23 e 26, com a cerimônia de premiação prevista para o dia 27. Depois, nos dias 28 e 29, vão ocorrer o Beer Summit, assim como um festival de cerveja aberto ao público.
A realização dos eventos de modo presencial e com a presença do público serão, aliás, diferenciais em relação às edições anteriores, quando foram adotadas restrições, com algumas atividades acontecendo de modo online, em função da pandemia do coronavírus.
Assim como aconteceu em 2021, o Brasil Beer Cup contará com competições para cervejarias comerciais em 2022, mas também para cervejeiros caseiros, que poderão inscrever criações do estilo Catharina Sour.
Toda a avaliação e julgamento do concurso será realizado de forma online via aplicativo Beer Sensor, ferramenta que visa trazer mais credibilidade e agilidade na condução do concurso, como destaca Amanda Reitenbach, fundadora do Science of Beer.
“Incorporar esse diferencial tecnológico para o julgamento, foi inspirado nas melhores práticas dos concursos mundo afora, em prol da execução um concurso confiável, sério e comprometido com o mercado cervejeiro”, diz Amanda, também idealizadora do Beer Sensory ao lado de outros pesquisadores e liderança à frente do concurso, que se autoproclama como o único do mundo a ter um comando feminino.
O Beer Summit, por sua vez, abordará cinco trilhas: diversidade, equidade e inclusão; negócios, marketing e empreendedorismo; sommelieria, estilos, serviço e harmonização; matérias primas, processos e inovação; tecnologia e ciência cervejeira.
O estilo polonês Grodziskie, criado há mais de 700 anos e cuja produção foi retomada há cerca de uma década, após a sua fabricação ser inviabilizada em decorrência da Segunda Guerra Mundial, tem, aos poucos, chamado a atenção de cervejeiros brasileiros, com algumas marcas o fabricando e uma delas até tendo a excelência de sua produção reconhecida.
Foi o caso da Cerveja Blumenau, que teve a Craftlab Grodziskie eleita a melhor bebida entre os 3.636 rótulos inscritos no último Concurso Brasileiro de Cervejas. Um resultado que mostra que a cerveja caiu no gosto dos críticos, embora especialistas ouvidos pelo Guia apontem ser improvável a sua popularização.
Afinal, a forma como a Grodziskie é produzida, com malte de trigo defumado, uma matéria-prima escassa no país, e mesmo o seu sabor peculiar, proporcionado pela malteação, são vistos como obstáculos importantes para que conquiste mais espaço no mercado de artesanais.
Esses fatores foram lembrados por Luís Celso Jr., sommelier de cervejas e fundador do Bar do Celso, que deu consultoria para o projeto de fabricação de uma das primeiras Grodziskies produzidas no Brasil, com receita de Evandro Zanini – esse rótulo foi lançado pela cervejaria Suméria, em parceria com a Lund, e faturou a medalha de ouro no CBC em 2016 e a de prata em 2017.
“O Grodziskie é um estilo com 100% de malte de trigo. Não utiliza malte de cevada e esse malte de trigo é defumado em carvalho. Como o processo é só com trigo, a gente acaba tendo uma cerveja bastante leve e pouco alcoólica. Ela tem em torno de 3% de álcool e uma turbidez aparente por conta da proteína do trigo. É uma cerveja de leve toque frutado, normalmente com frutas brancas, como pera e uvas verdes, e que não tem a ver com a cerveja de trigo alemã, que é com muita banana e cravo”, explica Luís Celso Jr. em entrevista ao Guia.
“É normalmente bastante carbonatada, com bastante gás, que torna ela uma opção bastante refrescante. Na boca é, normalmente, levemente ácida, de baixo amargor e seca. Ela não tem dulçor, é uma cerveja mais delicada”, completa o especialista.
Por algumas das características de sua receita, a Grodziskie também é popularmente chamada de “champanhe polonês” em seu país. “É assim por conta dessa alta carbonatação, apesar de ser uma cerveja leve e não tão alcoólica como um espumante, mas que é refrescante”, explica.
Desafio para produção em larga escala Mas existe a avaliação de que os custos envolvidos na produção da Grodziskie inviabilizam a sua popularização no Brasil, pela necessidade de importação do malte de trigo defumado. “É uma cerveja que não está no hype. É uma alternativa, quem faz, faz mais por gosto do que realmente para ter lucro. Não é um estilo que será popular no Brasil em pouco tempo. É um estilo mais de laboratório, de pesquisa, assim como todos os estilos históricos”, opina Celso.
Recentemente, durante o próprio CBC, a Das Bier realizou uma brassagem da Grodziskie, aproveitando a passagem de especialistas poloneses por Santa Catarina. Mas o seu mestre-cervejeiro, Eduardo Rausch, também apontou os desafios da produção comercial de uma cerveja desse estilo.
“Dificulta pelo fator técnico da produção, que exige equipamentos e métodos específicos, e pela obtenção dos insumos, principalmente o malte de trigo defumado, cuja disponibilidade no Brasil não é muito constante. Percebemos, por isso, uma prática de releitura do estilo, com as adaptações necessárias ao que está ao alcance de quem está produzindo sem, claro, perder a essência da Grodziskie”, diz Rausch.
Gosto popular x concursos Embora uma Grodziskie tenha triunfado em meio à concorrência em um renomado concurso, Celso aponta outro desafio para o estilo se popularizar: o sabor defumado não é aprovado pela maior parte dos consumidores.
“Acho que esse estilo não se tornará popular. Pode chamar a atenção pela curiosidade, mas o defumado ainda é um sabor difícil para a maioria das pessoas, e gera uma certa rejeição. Foi o que a gente sentiu muito com a Grodziskie que a gente fez com a Suméria. Eles tiveram bastante dificuldade em vender essa cerveja”, recorda.
Mas em um concurso pode ser diferente. Um estilo de cerveja “inusitado” pode até colaborar para o êxito perante jurados, como se deu com a Grodziskie da Blumenau. “É diferente você beber uma cerveja defumada que é leve, com aromas delicados, refrescante, e quase espumante, tendo a sua efervescência de carbonatação e com esse tom defumado, que é bastante mais neutro. Essa coisa inusitada provavelmente ajudou essa cerveja a ser notada. E tem vários meandros dentro de um julgamento que vão ser levados em consideração”, analisa Celso.
A Best of Show do CBC e o ouro no seu estilo não foram as primeiras medalhas conquistadas pela Blumenau com a sua Grodziskie. Em 2021, o rótulo havia levado a prata no próprio Concurso Brasileiro e no Brasil Beer Cup. A consagração, assim, foi vista como especial por vir após a avaliação de jurados do país de origem do estilo, presentes ao concurso, como lembra o mestre-cervejeiro Marcos Guerra.
“Foi muito legal, pois além de ser uma cerveja histórica, quase não produzida no Brasil, havia 3 jurados poloneses no corpo de avaliação. E, devido a experiência deles, o nível de julgamento foi muito alto”, comenta.
Celso, porém, reconhece que o triunfo no CBC serve como uma motivação para outras cervejarias produzirem rótulos desse estilo. “Pode estimular algumas pessoas a descobrirem o estilo e a fazerem pela curiosidade, pela experiência com um estilo histórico. Acho que vai popularizar um pouco mais esse estilo no Brasil, mas não será uma grande aposta de mercado por conta das dificuldades mesmo de aroma, de sabor, e pelas dificuldades de matéria-prima (no processo de produção)”, prevê.
Essa maior busca das cervejarias pela Grodziskie também tem sido percebida pela Blumenau. “Após quase 2 anos que a Cerveja Blumenau produz esse estilo, notamos uma movimentação do mercado na produção da Grodziskie”, afirma Guerra.
Resgate do estilo Em função da Segunda Guerra Mundial, a produção das Grodziskies precisou ser interrompida na Polônia, cujo governo desencorajou a fabricação de comidas e bebidas especiais para contenção de gastos durante o conflito, fato que também provocou o fechamento de cervejarias naquele país.
E isso ocorreu também em outros países, o que acabou abrindo espaço para o crescimento de estilos de cervejas que se tornaram populares e para o desaparecimento de outros mais sofisticados, como é o caso do Grodziskie. Mas ele renasceu recentemente.
“É um estilo que, como vários outros estilos históricos, se perdeu no tempo, foi esquecido. Tem vários motivos para isso e um é o avanço das Lagers alemã e checa. O início da Bohemian Pilsner foi em 1842 com a cerveja dourada, brilhante, um novo padrão que fez sucesso no mundo inteiro. E todos queriam cervejas mais ou menos daquele jeito”, diz.
Celso também tem enxergado o ressurgimento de estilos cervejeiros históricos no mercado global. “A gente está vendo, a partir dos anos 1970, principalmente nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Europa, esse renascimento da cerveja artesanal. É um resgate de processos históricos, receitas e estilos, o que chamamos de renascimento da cerveja artesanal. E a Grodziskie também passou por isso. Ela é esquecida, principalmente a partir da Segunda Guerra Mundial. Deixa de ser feita, inclusive, regionalmente, a partir da queda do Muro de Berlim, e é resgatada por volta de 2010. E justamente quando a Polônia entra de uma forma mais forte, assim como o Brasil, no renascimento da cerveja artesanal”, encerra o sommelier.
A convenção InnBrew, The Brewers Convention, destinada a profissionais da cerveja artesanal, é realizada desta quinta-feira até sábado em um já reconhecido território cervejeiro em Barcelona, La Farga em L’Hospitalet.
Abandonando o selo de BBFPro – como anteriormente era nomeada a área business do Barcelona Beer Festival -, o evento retorna com os mesmos moldes da primeira edição ocorrida em julho de 2021, destinado ao público B2B. No ano passado, o InnBrew foi o primeiro encontro pós-restrições mais rígidas da pandemia em Barcelona. O Guia apresentou uma cobertura do evento, com exclusividade, na ocasião.
InTalks, InMeet e InnShow são as três vias do congresso. Neles, os profissionais do setor se reúnem para encontros de debate, palestras sobre temas atuais, workshops técnicos de formação e feira com expositores do mercado.
A aposta dos organizadores para esta segunda edição é a entrega dos prêmios do VII Barcelona Beer Challenge, que ocorre no sábado. Junto à premiação, é distribuído o prêmio Steve Huxley, que elege uma personalidade que se destaca pela trajetória no universo da cerveja do país. O selo com uma medalha da competição é um dos mais almejados do sul da Europa.
Vale lembrar que o BBChallenge se associou ao Concurso Brasileiro de Cervejas, em uma aposta para maior internacionalização de ambos os campeonatos. A notícia foi dada pouco depois da visita do diretor da Beer Events, Mikel Rius, ao Brasil. O organizador do BBF e do InnBrew, esteve presente em Florianópolis durante o Beer Summit no fim de 2021, também tendo participado como juiz do Brasil Beer Cup.
Entre os principais temas das conferências e mesas de discussão do InnBrew, estão sustentabilidade, eficiência energética e reciclagem, matérias que já não são um diferencial, senão as únicas vias a serem adotadas na produção, logística, venda e compromissos das cervejarias. Outras discussões miram o papel dos festivais de cerveja e a função das cooperativas de cerveja na era pós-Covid.
Como já é tradição em todo evento na Catalunha, lideradas pelas profissionais do Pink Boots, as mulheres cervejeiras marcaram dois encontros no evento. São momentos descontraídos para troca de experiências, boas-vindas de novas companheiras, celebração e visibilidade. Apesar do setor estar com apenas 30% delas, a grande maioria está em cargos de alta gestão ou são as próprias cervejeiras. Em reportagem do The Guardian, publicado em março, é possível conhecer algumas delas.
Segundo a organização, “é uma grande conquista realizar uma feira como esta, em um setor relativamente novo e emergente como o da cerveja artesanal – com pouco mais de 15 anos de experiência em nosso país. Logo, a realização da segunda edição de uma convenção como o InnBrew já dá sinais de maturidade do setor”. Cabe agora acompanhar e analisar se as expectativas estarão alinhadas com os resultados da conferência.
*Andreia Gonçalves Ribeiro é mestra em Turismo Cultural Gastronômico e em Patrimônio, pela Universitat de Girona, além de sommelière de cervejas pelo ICB e sommelière bartender pela ABS-SP. Hoje, pesquisa sobre a cerveja e seus fenômenos na Catalunha.
As cervejas do estilo Bitter parecem estar caindo no gosto do cervejeiro brasileiro. Apostando nesse tipo de cerveja, a Wienbier, uma das marcas do portfólio da NewAge, lançou a Wienbier 52 Bitter Ale, o que representou um investimento fora dos estilos mais produzidos no país.
Essa ação ganha relevância porque a Wienbier é uma das principais marcas fabricantes de cervejas especiais no Brasil. E além de apresentá-la ao público, a companhia também conseguiu reconhecimento da crítica.
É mais um passo de diversificação do mercado, com o estilo Bitter, aos poucos, avançando no Brasil. Tanto que, em setembro do ano passado, o movimento Toda Cerveja reuniu 60 marcas para celebrar o Bitter Day. O evento foi realizado para o lançamento de rótulos do estilo, na tentativa de ajudar a popularizá-lo no país.
O gerente comercial da NewAge, Edison Nunes, avalia que as características da Bitter podem ajudá-la a cair no gosto do consumidor brasileiro, levando mais marcas a lançarem cervejas desse estilo.
“Eventos como o Bitter Day promocionando o estilo chamam a atenção do consumidor-alvo para mais possibilidades de satisfazer seu paladar. E, por ser um estilo relativamente novo no mercado brasileiro, cai facilmente no gosto dos adeptos de uma cerveja mais refrescante e leve, com uma carga extra de malte e um amargor presente, mas bem equilibrado”, afirma.
De alta drinkability e refrescância, conforme o Beer Judge Certification Program (BJCP), as Bitters trazem alta fermentação, cor levemente acobreada, lúpulos ingleses e podem ser divididas em três estilos: Ordinary Bitter, Best Bitter e Strong Special Bitter.
Nunes relata, ainda, que a NewAge enxerga um movimento de mercado de busca por estilos mais sofisticados. E quer atendê-lo. “Apostamos que o consumidor está se acostumando a beber melhor, escolhendo sua cerveja pela ocasião, em uma gourmetização”, diz.
Wienbier 52 Bitter Ale A Wienbier 52 Bitter Ale foi inspirada em uma Ale inglesa e combina lúpulos de Hallertau e aromas de especiarias para gerar amargor. Com 5,0%, de graduação alcoólica, esse rótulo tem maltes caramelo em sua composição, que proporcionam um corpo médio, cor âmbar límpida e aromas e sabores maltados com notas de biscoito, nozes e pão, de acordo com o relato da marca.
O rótulo levou a medalha de ouro na categoria Extra Special Bitter no Concurso Brasileiro de Cervejas deste ano, o que, de acordo com Edison, fará a Wienbier reforçar a aposta nessa opção ao longo de 2022.
“Ela foi lançada no segundo semestre de 2021 e até antes do prêmio era considerada um complemento de mix, porém agora temos que admitir, ela é o nosso novo super trunfo para 2022”, afirma Edison, comemorando o desempenho alcançado na competição cervejeira em Blumenau.
“Estamos exultantes e orgulhosos com este prêmio conquistado no CBC, um dos mais renomados no mundo. Foi a nossa 1ª participação e já fomos coroados com medalha de ouro. Valeu nossa insistência por primar pela qualidade dos ingredientes e processo de produção de nossa linha Wienbier”, completa.
O sommelier de cerveja agora é uma das 2.269 ocupações reconhecidas pelo Ministério do Trabalho e Previdência. Há cerca de duas semanas, a Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) trouxe atualizações na sua lista, incluindo o trabalho do sommelier, tema de mais uma edição do Guia Talks, agora com Bia Amorim.
A sommelière de cervejas, escritora e fundadora da Farofa Magazine é a organizadora do Guia de Sommelieria de Cervejas, livro publicado pela editora Krater, com textos produzidos por 28 profissionais do setor, do Brasil e de outros países. A obra é um manual prático visando complementar a formação dos profissionais, além de buscar ajudar a reduzir a carência desse tipo de publicação no país.
No Guia Talks, Bia Amorim comentou sobre o processo de concepção do livro e o que ela considera ser a função primordial de um sommelier: atuar como um relações públicas da cerveja. Além disso, a especialista também apontou a entrada da profissão no CBO como um passo inicial para atender demandas de quem realiza essa função.
E, com a experiência de quem atua no mercado há anos, ela aposta que o setor vai produzir cervejas melhores neste ano, em todos os aspectos, diante da propagação do conhecimento entre os profissionais que atuam diretamente com as artesanais.
Confira os principais trechos da conversa do Guia com Bia Amorim:
Como foi a concepção do Guia de Sommelieria de Cervejas? A Editora Krater, em dezembro de 2019, me ligou, falando do projeto do Guia. Eles já tinham um projeto muito amarrado, algumas sugestões de nomes. E a gente começou a fazer os convites, comigo funcionando como uma ponte. Na produção, buscamos refletir sobre qual é o papel do sommelier. A gente deixou muito aberto para as pessoas escreverem da sua maneira. E ainda tivemos o desafio de escrevê-lo em meio à pandemia. Eu diria que este livro é um resultado muito importante para o mercado cervejeiro do Brasil.
Existe um público-alvo para o livro? Qual seria? É um livro que é fácil de ser lido. Eu não sei se a gente pode rotular como sendo para o geek cervejeiro, o nerd cervejeiro. É para o cervejeiro, a pessoa que gosta de ler para buscar aprofundamento. Foi feito, também, para todos os sommeliers que já se formaram e vão poder fazer uma reciclagem. E para as pessoas terem uma fonte para consultas.
Como você enxergou a entrada do sommelier de cervejas no CBO? O que muda para os profissionais? Eu acho que o CBO é uma ótima provocação. Não muda muita coisa no mundo, mas muda que você sai de um lugar quase inexistente para um lugar existente. O CBO foi importante porque você acaba tendo ali quais são as funções do sommelier, quais são as outras profissões que estão conectadas ao seu ambiente. E, às vezes, a burocracia é uma forma de registro. Ainda tem novos passos a dar, coisas para acontecer, inclusive até sobre quanto se ganha e sobre um plano de carreira. Acho que são questões para as escolas, os cursos de formação, a mídia e os profissionais também discutirem.
O setor de artesanais ainda tem uma participação diminuta no mercado. Qual é o papel do sommelier de cervejas para ajudá-lo a crescer? O sommelier é como um relações públicas da cerveja. É quem ajuda o consumidor a fazer essa travessia entre uma forma de consumo antiga, um pouco restrita em questões de escolha de sabores e experiências pessoais, para um lugar onde, provavelmente por uma questão econômica, a pessoa vai ter que fazer melhores escolhas, mas também para uma forma diferente de consumo, porque em geral ela deveria beber menos. Como eu escolho, por quais parâmetros? O sommelier tem o papel de ajudar o consumidor a entender o que gosta, o que é bom. É a pessoa que dá a mão dos dois lados, para a cervejaria e para o consumidor. É muito legal você vivenciar isso e entender o que o consumidor quer. E, às vezes, é preciso ajustar a narrativa.
E o que o sommelier precisa fazer para alcançar isso? A gente precisa chegar muito mais perto da gastronomia como mercado. A gente precisa de menos sommelier de cerveja e de mais garçons e garçonetes que entendam do produto. A gente não precisa rotular tanto. Parece que às vezes o sommelier virou um status. Eu acho que ele é algo muito maleável. Você está sommelier, não é um conhecimento que conseguiu atingir.
Quais são as tendências do mercado nesse momento? Fazer cerveja boa. Isso pode parecer o primeiro passo, mas eu digo isso porque tenho visto muita gente se especializando, fazendo cursos, muitos cursos abrindo. Estourou a bolha das escolas particulares, muito nichadas. Tem muita gente entendendo mais e melhor a cerveja. É um mercado que tem mais autocrítica para que se possa fazer cervejas melhores. E a cerveja melhor não é somente a cerveja boa. É uma cerveja eficiente, que não tem desperdício, com mais sustentabilidade. É a cerveja onde a cervejaria trabalha melhor, entendendo quem é o seu público. A tendência é olhar mais para os dados que o mundo digital nos trouxe. É preciso cada vez mais encontrar quem é o público da minha cervejaria. Assim, você vai fazer um trabalho melhor. Saber qual é a pessoa que está atendendo, ainda mais que agora as pessoas vão beber mais localmente.
O projeto Advogado Cervejeiro comemorou cinco anos de atividade em 2022 mirando novos saltos e mercados. Diante de um desempenho considerado “altamente positivo e muito além do esperado” para o período, de acordo com o seu idealizador, o advogado André Lopes, o foco para os próximos cinco anos se voltará para a ampliação dos serviços jurídicos ao mercado de bebidas especiais.
Com o serviço de assessoria jurídica para o setor cervejeiro, o projeto possibilitou, no período, um acréscimo de 40% ao faturamento do escritório de advocacia Lopes, Verdi & Távora, de Porto Alegre.
“Apesar do começo difícil e de uma certa resistência do mercado, o saldo nesses 5 anos superou qualquer expectativa. Foi um longo caminho até a consolidação do trabalho e reconhecimento por parte da cena cervejeira, que, com o passar do tempo, passou a ter o Advogado Cervejeiro como referência jurídica”, destaca André.
Na sua avaliação, o reconhecimento do setor veio muito em virtude dos trabalhos realizados para os clientes, além de iniciativas em prol das microcervejarias, como a elaboração do Código de Ética da Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva) e do livro Direito para o Mercado da Cerveja. “O livro foi um grande divisor de águas. A partir do seu lançamento e do sucesso das vendas, a demanda pelos serviços aumentou consideravelmente”, lembra.
Desde que surgiu, em março de 2017, o escritório soma mais de 300 clientes no setor cervejeiro, baseados em quase todos os estados brasileiros. “Há cinco anos era muito comum encontrar cervejarias menores trabalhando sob risco legal. O Advogado Cervejeiro surgiu para evitar que o empreendedor da cerveja artesanal, com uma oportunidade de negócio muito boa nas mãos, quebre por falta de assessoria jurídica especializada”, detalha André.
Segundo André, apesar de o foco inicial ter sido apenas o mercado cervejeiro, outras empresas produtoras de bebidas procuram os serviços do escritório em virtude da escassez de profissionais especializados e da autoridade da assessoria na abordagem de questões jurídicas sobre cerveja e outras bebidas.
Com isso, ele espera nos próximos 5 anos também atender produtores de kombucha, hard seltzer, destilados, vinhos naturais, cafés e outras bebidas. “Já atendemos marcas de praticamente todas outras bebidas artesanais, por isso a expansão para abranger mais bebidas foi orgânica, aconteceu naturalmente. A ideia é cada vez mais atender não só microcervejarias e negócios cervejeiros, mas também toda cadeia de bebidas artesanais, que acabam tendo dores muito semelhantes às dos cervejeiros”, completa.
Um dos bairros mais famosos de São Paulo pelas atrações boêmias conta, agora, com um símbolo de diversidade e inclusão. Com um pouco mais de 5 meses de funcionamento na Vila Madalena, o Torneira Bar está ganhando espaço no mercado e conquistando o público cervejeiro por colocar a inclusão em prática com a proposta de um “bar de todes para todes”.
A casa chama a atenção por ter uma equipe formada 100% por pessoas trans e não-binárias, além de sua programação ser voltada para o público LGBTQIA+, mulheres e negros.
A sociedade do Torneira Bar é formada pelos sommeliers de cerveja Christian Montezuma e Dani Lira. E a ideia de empreender nasceu justamente pela paixão de ambos por cervejas, com a inclusão de outros grupos de pessoas a um ambiente majoritariamente masculino, brancos e hétero, sendo um fato determinante para a criação do bar.
“O Christian é advogado trabalhista e eu sou ex-bancária. E a gente queria empreender no mercado cervejeiro. Quando pensamos em ter um bar, levantei a mão e falei: se a gente for fazer um ambiente cervejeiro, ele tem que ser diferente, porque eu, como mulher preta nesse meio, já passei por algumas situações”, comenta Dani.
Embora o Torneira Bar tenha sido aberto em São Paulo, a ideia inicial era de que o espaço fosse no Rio de Janeiro, cidade dos sócios, sendo uma opção pós-praia. Entretanto, a mudança da dupla para a capital paulista em meio à pandemia da Covid-19 veio junto com a alteração no local onde o bar acabou sendo criado. A crise sanitária, inclusive, os permitiu consolidar os planos e estratégias. “A gente começou a desenhar o bar e nesse período de pandemia começamos a estudar sobre inclusão e diversidade porque ambas as palavras são ligadas, né?”, reflete Dani.
E foi justamente definindo o projeto que outra importante questão foi levantada pelos sócios do bar: o público LGBTQIA +. “É quase zero dentro dos espaços cervejeiros. Você não vê a galera LGBTQIA+ nos eventos, é muito difícil encontrá-la em bares”, explica.
Um bar de todes A ideia de criar um “bar de todes que respeitasse todes” dentro da sigla LGBTQIA+ fez os sócios começaram a aprofundar-se ainda mais na comunidade. Foi quando encontraram o público transgênero. As travestis, geralmente, enfrentam ainda mais dificuldades de se colocarem no mercado de trabalho, em muitos casos por preconceito.
“É uma responsabilidade. Como a gente vai pautar diversidade se não tiver representatividade dentro do nosso bar?”, indaga Dani. “É o que falo para muitas pessoas: não é só a gente colocar uma bandeira no dia da semana da Parada Gay. É agir de fato, colocá-las [as pessoas trans] para dentro da nossa casa. É um posicionamento”, pontua.
Com a ajuda de um portal de empregabilidade para pessoas transgêneras, os sócios do Torneira Bar conseguiram direcionar as vagas para elas. E encontraram toda a mão de obra de que precisavam. “Com muito orgulho a gente fala isso, hoje. Realmente é uma equipe 100% trans. Temos padrões aqui dentro do bar e nada muda por ser uma equipe trans”, destaca Dani.
‘É muito gostoso fazer parte disso porque a gente percebe que o Torneira Bar é ainda tão jovem e já vem mostrando alguns pontos para esse universo cervejeiro. A gente percebe, inclusive, dentro dos nossos parceiros, que vêm conversando, sondando e querendo entender melhor essa relação de diversidade. Esse não é o é a. Ou não, não é a é o. E é muito legal essa preocupação”, comenta Dani.
Atualmente, o Torneira Bar conta com oito colaboradores fixos na casa, todos membros da comunidade trans, além dos freelancers que costumam ser contratados para os finais de semana e períodos mais agitados.
Dani explica que a casa ainda não tem um trabalho de marketing direcionado, mas o boca-a-boca vem dando fama ao bar, que está conseguindo chegar ao seu público-alvo. “A gente percebe que o clima do bar e dos clientes é de respeito. Tem um público misto. E são muitos eventos direcionados. Por exemplo, no dia que fazemos um evento de forró, percebemos que temos um público com maioria lésbica. Quando a gente faz evento como o Transarau, voltado para comunidade trans, temos muitos participantes trans”, comenta.
E a cerveja artesanal? Por serem sommeliers de cervejas, os sócios têm uma relação direta com a cerveja artesanal. E, neste novo empreendimento, também exercem o papel de apresentação das bebida para o público, como relata Dani.
“É importante que provem e conheçam. A gente enfrenta muito no bar o comparativo, falando que a cerveja é cara. A nossa relação é mostrar que a cerveja artesanal é possível. É uma questão de cultura, de mudar a visão da cerveja e trazer isso para todos os públicos.”
Apesar dessa relação mais íntima com as artesanais, o Torneira ainda não possui sua própria cerveja, mas já participou de vários rótulos colaborativos e pretende integrar outros, principalmente aqueles ligados à diversidade e à inclusão.
Palavra de ordem: coragem Para quem, assim como os sócios do Torneira Bar, está com a ideia de desenvolver um projeto de diversidade e de fortalecer o setor de cerveja artesanais, a palavra de ordem é coragem. “A gente inclusive saiu em um veículo jornalístico recentemente e tivemos reação dos ‘haters’”, diz Dani. “Mas é o que sempre digo: abrace. Não ache que é só porque você não é que você não pode abraçar uma causa”, afirma.
Dani revela, inclusive, que o maior apoio aos sócios do Torneira Bar, diante dos ataques, veio da equipe de funcionários. “Eles nos abraçaram, porque talvez já tenham passado tanto por isso e sabem enfrentar melhor do que a gente. Algo que não deveria acontecer, mas estamos enfrentando juntes e misturades”.
Além de resistir, abraçar e agir por uma causa, a sócia do Torneira Bar ressalta a importância de o seu espaço inspirar outras iniciativas do tipo.
Quando se fala, hoje, em diversidade, em São Paulo, está muito concentrada na região central [da cidade], na Augusta. Foi um desafio trazer isso para a Vila Madalena, mas é importante, porque daqui a pouco vem outro. Daqui a pouco, a rua está diversa, os bares e as cervejas serão diversos
Dani Lira, sócia do Torneira Bar
A sócia do Torneira pede, ainda, para o mercado cervejeiro escutar, observar e dar oportunidades. “Tem pessoas maravilhosas dentro desse mercado profissional que muitas vezes não são nem convidadas para o processo seletivo, porque o nome é diferente, o currículo está confuso, entende? E é só uma oportunidade. É só sentar, olhar, receber a pessoa como ela vem, com o estilo e jeito dela. E vocês vão se surpreender” finaliza Dani.