A Coca-Cola Femsa e a Andina, empresas que fazem parte do Sistema Coca-Cola, anunciaram a compra da Cerveja Therezópolis. O acordo, que não teve os seus detalhes financeiros revelados, se insere em um contexto da busca por novas opções para o portfólio de cervejas pela companhia, após selar um novo acordo de distribuição com o Grupo Heineken no país.
“Este acordo faz parte das suas estratégias de longo prazo para complementar o portfólio de cervejas no Brasil. A transação está sujeita às condições habituais de aprovações e deverá ser concluída durante o terceiro trimestre de 2021”, afirma o Sistema Coca-Cola, em comunicado oficial.
Em fevereiro, ficou definido que o Grupo Heineken passaria a ficar responsável pela distribuição das suas duas principais marcas no Brasil: a Heineken e a Amstel. O Sistema Coca-Cola, por sua vez, seguiria responsável pelas entregas de Eisenbahn, Bavaria, Kaiser e Sol, além de outras marcas.
Agora, então, a Femsa Coca-Cola e a Andina buscaram ocupar parte da lacuna deixada pelas marcas Heineken e Amstel com a aquisição da Therezópolis, que conta com seis cervejas em seu portfólio, sendo vista como uma marca que se posiciona entre as artesanais e as premium, pois costumeiramente é encontrada em grandes redes varejistas.
A Femsa Coca-Cola, com sede na Cidade do México, é considerada a maior distribuidora de produtos da Coca-Cola no mundo. São 3,3 bilhões de caixas unitárias negociadas anualmente, com quase 2 milhões de pontos de venda. A empresa tem 49 fábricas e 268 centros de distribuição.
Presente no Brasil há 18 anos, a Femsa Coca-Cola é responsável pela distribuição do Sistema Coca-Cola em São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul. A Andina atua na Argentina, no Chile e no Paraguai, sendo que no Brasil atua com os produtos da Coca-Cola no Rio de Janeiro e Espírito Santo.
A Therezópolis foi fundada em 1912 na região serrana no Rio, mas teve a produção interrompida em 1922. A sua retomada se deu em 2006. E, até a venda para as engarrafadoras da Coca-Cola, fazia parte do grupo Arbor Brasil, que conta, no seu portfólio, com a Catuaba Selvagem e o vinho Cantina da Serra.
A Verallia acaba de anunciar uma nova meta de circularidade das suas embalagens de vidro e agora quer ampliar a utilização de cacos de 49% para 59% em seus processos de produção até 2025, segundo revelou a multinacional.
Optar por usar mais caco significa, na prática, poupar matérias-primas e energia, colaborando com a preservação da natureza. Com esse aumento de 10%, a empresa estima ser possível reduzir em 5% as emissões de gás carbônico e diminuir em 2,5% o consumo de energia.
O plano faz parte das práticas de ESG (sigla em inglês para Ambiental, Social e Governança) da fabricante de embalagens e está inserido no propósito Reimaginar o Vidro para um Futuro Sustentável, integrando a estratégia de longo prazo da empresa.
O aumento do uso de cacos de vidro ajudará a Verallia em suas metas de redução das emissões de CO2 em todas as suas operações até 2030 e se dará por meio de mudanças na mistura de matérias-primas destinadas à produção de vidro, além de menor uso de matérias-primas carbonatadas, redução na energia para derreter o vidro e outros processos de produção e ampliação do uso de energia verde.
O diretor geral da Verallia na América Latina, Quintin Testa, reconheceu que a forma como as pessoas consomem e os resíduos que geram todos os dias representam um desafio para a sociedade, com a embalagem sendo um dos principais componentes. “Além disso, a emergência climática requer a mobilização de todas as partes interessadas (stakeholders) para melhor proteger os recursos naturais e acelerar a transição para a neutralidade de carbono.”
Ao anunciar o plano de aumentar o uso de cacos de vidro em sua produção de embalagens, a Verallia também apresentou três linhas principais do seu trabalho por sustentabilidade. Confira:
Acelerar a inovação na cadeia de valor: a Verallia está comprometida em integrar soluções cada vez mais inovadoras para reduzir as emissões de carbono, desde o design até o transporte do produto, ajudando assim os clientes do Grupo a reduzirem seus próprios impactos ambientais;
Fazer do reaproveitamento uma solução ganha-ganha ao planeta e às embalagens de vidro: a Verallia quer promover e sustentar o reaproveitamento de embalagens de vidro para atender às expectativas cada vez mais altas de seus clientes e consumidores nessa área;
Mobilizar para obter mais vidro reciclado: a Verallia deseja trabalhar com seus parceiros para fortalecer os sistemas de reciclagem em todos os seus mercados.
Transcender a cerveja, dando protagonismo aos ingredientes que a compõem e, principalmente, aos projetos que ajudam a conservá-los. É essa a premissa que levou a Seasons a criar o projeto Legado, que coloca em primeiro plano três produtos presentes na Floresta Amazônica e as ações que apoiam e ajudam na sua preservação.
A série, assim, não é apenas uma coleção de três Stouts com a mesma base e cacau, cumaru e café como ingredientes diferenciais de cada uma delas. Idealizada a partir da aproximação de iniciativas que atuam para a conservação do bioma, ela vincula a cerveja – produto que motiva a existência da marca pertencente ao grupo CBCA – a projetos de sustentabilidade.
Nesse caso, a grupos que ajudam na conservação da Floresta Amazônica. Para tirar a série do papel, afinal, a Seasons se uniu a duas organizações ambientalistas: o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), de Piracicaba (SP), e o Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam), de Manaus (AM). Ambos desenvolvem projetos com comunidades amazônicas produtoras de cada um dos ingredientes, cedidos para a produção das três cervejas.
E a Seasons acredita que, a partir dessa iniciativa, consegue induzir o público cervejeiro a consumir produtos da Amazônia que possuam origem sustentável ao mesmo tempo em que tem contato com a complexidade sensorial dos rótulos, em uma conexão que vai além da bebida.
“O Seasons Legado nasceu com propósito de trazer a matéria-prima, suas origens, comunidades, práticas agroecológicas em primeiro plano, dando relevância ao homem do campo, e, nesse caso específico, às comunidades da Amazônia. São projetos lindos que mostram que é possível, sim, conservar e ser produtivo ao mesmo tempo na Amazônia”, comenta Karin Barreira, diretora de marketing da CBCA.
Leonard Sewald, embaixador da Seasons, destaca o papel de porta-voz de uma causa adotado pela marca com o lançamento das cervejas, apontando que a iniciativa abre espaço e entrega o protagonismo para as ações do Imaflora e do Idesam.
“O papel das duas entidades é fundamental pois não só foram através delas que tivemos acesso às matérias-primas utilizadas no projeto, como também são elas que fazem a conexão com as famílias produtoras da Amazônia, auxiliando-as nos projetos de agricultura sustentável dos chamados sistemas agroflorestais. A Seasons, nesse sentido, é o veículo que leva o resultado do trabalho dessas famílias para o meio cervejeiro”, explica o embaixador da Seasons.
Assim, como avalia Leonard, o Legado se insere na estratégia de ir além da cerveja. A marca, desse modo, atua para oferecer conteúdo ao público, dando-lhe acesso a novas histórias, realidades e contextos.
A Seasons sempre teve como objetivo criar produtos que transcendessem o aspecto comercial, criando produtos que também contassem histórias. Nesse sentido, o projeto Legado superou totalmente as expectativas, pois não só estamos contando uma bela história real de resiliência, perseverança e progresso de um Brasil que por vezes está distante do nosso dia-a-dia, como também estamos servindo como uma ponte para consumidores que se sintam motivados a deixar o seu legado
Leonard Sewald, embaixador da Seasons
Marca sustentável E, na avaliação de Leonard, o objetivo foi alcançado com esse projeto. Ele ressalta que a Seasons também oferece uma ligação entre o consumidor das suas cervejas e as famílias produtoras dos ingredientes utilizados nos rótulos da série. Um detalhe importante nas latas reforça essa preocupação de aproximar o público cervejeiro dos projetos de sustentabilidade: elas têm um QR Code impresso, que dá acesso a um portal com informações sobre as iniciativas.
“Através do QR Code presente nas latas, conseguimos conectar contribuições vindas dos consumidores diretamente com as famílias produtoras, através das nossas duas entidades parceiras do projeto. Isso para nós é criar um produto com um significado e propósito maior. É fazer a marca deixar o seu legado. Desnecessário dizer que estamos tremendamente orgulhosos com o projeto”, destaca o embaixador da Seasons.
Karin também avalia que a criação da série se insere em um contexto maior de atuação da Seasons pela sustentabilidade. Ressaltando que todos os atores do setor podem fazer a sua parte, seja as grandes indústrias ou as microcervejarias, ela enumera iniciativas pioneiras adotadas pela marca ao longo da sua trajetória.
Tamanho não é documento, pois não é preciso ser grande para adotarmos boas práticas para cuidar do meio ambiente. Sou feliz em dizer que a Seasons foi pioneira nisso, tendo sido a primeira cervejaria artesanal do país a adotar caldeiras com queima de biomassa ao invés de gás GLP, bem como uma das primeiras cervejarias a adotar o uso de ozônio (sanitizante poderoso gerado na própria fábrica, que não agride o meio ambiente) como alternativa a produtos químicos sanitizantes. Ou seja, faz parte do nosso DNA pensarmos de maneira sustentável
Muito provavelmente você deve ter lido nas últimas semanas sobre a descoberta, feita pelo mergulhador Steve Hickman, de garrafas de cerveja encontradas no porão de um navio submerso, o Wallachia, há mais de 100 anos, nas profundezas do mar da Escócia. E o que chamou mais a atenção foi o isolamento de leveduras dos gêneros Brettanomyces e Debaryomyces “vivas”, isoladas do líquido de dentro das garrafas por cientistas de uma empresa de pesquisas em cerveja e colegas da Universidade de Sunderland, no Reino Unido.
Não vamos repetir a reportagem que circulou em vários jornais e canais de divulgação no Brasil e no mundo. A história completa você pode encontrar em um clique.
Mas, como nós somos apaixonadas por leveduras e amamos a ciência por trás da cerveja, vamos explorar aqui a verdade sobre como foi possível encontrar essas leveduras depois de tanto tempo, e ainda “vivas”, sob condições tão extremas quanto as existentes no fundo do mar.
Afinal, que leveduras são essas? Para começar, vamos lhe dizer que as duas leveduras são encontradas normalmente em ambientes fermentativos, como cerveja, vinho e outros alimentos e bebidas. Algumas espécies dos dois gêneros são reconhecidamente contaminantes do processo cervejeiro, consideradas leveduras selvagens. Mas, em cervejas particulares, como Lambics e outras variedades de cervejas de fermentação espontânea, são os organismos responsáveis, junto com outras leveduras e bactérias, pelas características aromáticas bastante complexas e fora do comum de cervejas belgas e das Wild Ales.
Mas como essas leveduras conseguiram sobreviver por tanto tempo e em um ambiente tão hostil como o fundo do mar? Essas leveduras não estavam exatamente vivas, mas em um estado que chamamos de latência. Nesse estado, é como se ela ficasse em repouso, com seu metabolismo bem mais lento, gastando pouquíssima energia para sobreviver. O que os pesquisadores fizeram foi “ressuscitar” essas leveduras com técnicas microbiológicas específicas.
Quem é essa tal de Debaryomyces? A levedura Debaryomyces foi originalmente isolada de águas marinhas e é, talvez, uma das leveduras mais osmotolerantes e halofílicas (pode tolerar altos níveis de açúcar e sal, respectivamente) dentre as mais de 2 mil espécies conhecidas. Esse fato se dá pela produção e pelo acúmulo de compostos, como o glicerol, que auxiliam na manutenção do equilíbrio osmótico nesses ambientes. Para você ter uma ideia, a Saccharomyces cerevisiae tolera ambientes com até 10% de salinidade e a Debaryomyces, níveis acima de 24%. Agora tudo começou a ficar mais claro, não é verdade?
A espécie D. hansenii, por exemplo, pode ser encontrada comumente em muitos outros habitats com baixa atividade de água, como queijos, carnes, vinhos, cervejas, frutas e solo. E, apesar de serem fracamente fermentativas, há um crescente interesse na utilização de linhagens da espécie isoladas em cervejas de fermentação natural belgas, na produção das cervejas modernas.
A tão fantástica e temida Brettanomyces Já a Brettanomyces é mais conhecida pelos cervejeiros. E, ao contrário da Debaryomyces, é capaz de fermentar diversos açúcares do mosto cervejeiro, incluindo maltotriose, dextrinas e celobiose. É o terror das cervejarias quando não inoculadas propositalmente, pois são altamente resistentes aos fatores de estresse, além de formar biofilme e conseguir sobreviver muito bem em condições de ausência de oxigênio, mantendo-se viáveis por longos períodos. Talvez seja por isso que a Brettanomyces conseguiu sobreviver por tanto tempo no fundo do mar.
Novas leveduras, novas cervejas Claro que existem mais fatores que podem ter influenciado na sobrevivência dessas leveduras no ambiente encontrado, incluindo metabólicos, fisiológicos e genéticos, mas só o fato de encontrá-las nessas condições nos abre a cabeça para a aplicação delas em vários processos biotecnológicos, incluindo a produção de cervejas.
Atualmente existe uma busca, por pesquisadores e cientistas, de leveduras não convencionais (não-Saccharomyces) capazes de produzirem cerveja e com grande potencial para a produção de vários compostos de aroma que agregam complexidade e intensificação de frutas na cerveja.
E, apesar de a indústria cervejeira demonstrar alguma resistência à utilização dessas leveduras, há um grande potencial desses microrganismos para a produção de cervejas, inclusive quando considerados em fermentações mistas e sequenciais, com a levedura cervejeira mais conhecida, a S. cerevisiae. Seria uma alternativa inovadora na produção de bebidas, trazendo diversidade e várias oportunidades de exploração para o universo das cervejas artesanais.
Referências bibliográficas: 1) Rosa and Peter, 2006. Biodiversity and Ecophysiology of Yeasts. ed: Springer-Verlag Berlin Heidelberg, 2006.
2) Breuer and Harms, 2006. Debaryomyces hansenii- an extremophilic yeast with biotechnological potencial. YEAST. vol 23, issue 6, 415-437.
Luciana Brandão é pós-doutorada em Microbiologia pela UFMG, cervejeira caseira, sommelière de cervejas, co-fundadora e CEO do Laboratório da Cerveja, empresa de biotecnologia e soluções em processos cervejeiros
Texto originalmente publicado no site do Laboratório da Cerveja
A expectativa de recuperação do setor cervejeiro a partir da flexibilização das medidas restritivas em razão da pandemia do coronavírus pode sofrer um revés por um novo fator: a crise energética. Com a alta do preço das tarifas e até a possibilidade de “apagões”, resta às indústrias, sejam as grandes cervejarias ou as artesanais, apostarem em novas fontes energéticas e em melhorias nas suas operações para minimizarem os efeitos de um cenário adverso, já sentidos na economia real.
É essa a avaliação de especialistas ouvidos pelo Guia sobre um contexto que já é responsável pela maior alta inflacionária para o mês de julho desde 2002. Segundo os dados divulgados nesta terça-feira pelo IBGE, a elevação de 7,88% das tarifas da energia elétrica no mês passado foi a principal responsável pela inflação de 0,96% do IPCA.
Estudos apontam que cervejarias consomem mais de 730 mil MWh/ano, uma quantidade relevante e que torna óbvia a expectativa de que a crise energética irá chegar, em algum momento, ao bolso dos consumidores, afinal, toda a cadeia produtiva deverá ser afetada, do campo ao bar.
Nesse cenário, as cervejarias precisam atuar para melhorar a sua produtividade, com o intuito de evitar o repasse aos consumidores dos efeitos da crise energética. “Em um primeiro momento, as indústrias buscam internalizar esses custos, evitando o repasse para os consumidores através do esforço para aumentar a produtividade”, analisa Tatiana Lauria, especialista em estudos econômicos da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan).
Reduzir margens tem sido uma estratégia necessária em um contexto de crise, que se soma ao aumento no preço de insumos, como embalagens e ingredientes, algo que não pôde se refletir em preços mais altos. Um desafio que agora é reforçado com o aumento da tarifa energética.
André Dias e Jean Rodrigues, professores do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP) e membros do Grupo de Estudos e Pesquisa em Tecnologia Cervejeira, apresentam recomendações de reforço na busca pela eficiência, além da possibilidade de geração da própria energia, como alternativas para a atual crise.
“As cervejeiras devem buscar melhorias na eficiência de seus processos, como redução de desperdícios, melhor planejamento de produção, implementação de novos processos, entre outros. Devem também buscar utilização de geração de energia própria, buscando até sua autossuficiência energética”, recomendam os professores do IFSP.
A especialista da Firjan, inclusive, enumera medidas que podem ser adotadas por cervejarias de qualquer porte para melhorar a produtividade, algo primordial durante uma crise energética. “Avaliar se estão com o enquadramento tarifário correto, a possibilidade de troca de equipamentos e medidas de eficiência energética, a produção em turnos fora do horário de ponta, além da viabilidade de se instalar painéis fotovoltaicos. Essas são medidas que podem ser tomadas no curto prazo, reduzindo os efeitos negativos da crise”, comenta Lauria.
O que uma gigante do setor tem feito Para minimizar os impactos do reajuste das bandeiras tarifárias, as indústrias têm agido. É assim, por exemplo, com o Grupo Heineken, que vem reforçando a aposta na contratação de energia a longo prazo e em fontes renováveis, como destaca Ornella Vilardo, gerente de sustentabilidade.
“O Grupo Heineken está sempre atento às movimentações de mercado, e tem atuado de forma diligente na otimização dos custos de energia não só de suas unidades fabris, mas em todas as unidades de consumo, seja contratando energia a longo prazo para as fábricas quanto trabalhando com fontes renováveis para reduzir os custos nas unidades de baixo consumo”, afirma Vilardo.
Além disso, o Grupo Heineken, que recentemente anunciou metas globais e para o Brasil para tornar a sua operação carbono zero, assegura que tem buscado parcerias estratégicas para lidar com os desafios energéticos.
Diante desse desafio somado ao nosso compromisso com as fontes renováveis, temos direcionado nossos esforços na obtenção das melhores oportunidades, criando parcerias sólidas e estratégias para superar os desafios futuros que têm se apresentado. Reforçamos nosso compromisso com colaboradores, clientes e sociedade, na busca incessante pela redução dos impactos ambientais
Ornella Vilardo, gerente de sustentabilidade do Grupo Heineken
Desafios para microcervejarias O cenário de desafios, entretanto, não é o mesmo para todas as empresas da cadeia produtiva. Os professores do IFSP reconhecem que há entraves maiores para microcervejarias se tornarem tão eficientes quanto as principais indústrias do setor, destacando as melhorias que precisam ser implementadas em suas operações.
“Microcervejarias tendem a ter impactos mais agudos em relação a problemas energéticos, uma vez que não possuem estrutura para implementar grandes projetos de autossuficiência energética, ao contrário do que ocorre nos grandes grupos. Porém, os impactos podem ser mitigados implementando projetos de eficiência energética em seus processos e projetos de micro geração de energia elétrica, como energia fotovoltaica”, orientam André Dias e Jean Rodrigues.
Eles também citam medidas que podem ser adotadas para que as cervejarias artesanais se aproximem da eficiência apresentada por grandes indústrias, algo necessário para não se perder a competitividade enquanto perdurar a crise energética.
Passa pelo melhor aproveitamento de resíduos, utilização racional da água e melhoria da eficiência energética dos equipamentos. Principalmente no caso das microcervejarias, ainda há muito desperdício de recursos. Como exemplo, os grandes grupos, atualmente, têm trabalhado com a marca de pouco mais de 3 litros de água para cada litro de cerveja produzida, enquanto que muitas microcervejarias chegam a gastar 10 litros de água por litro de cerveja
André Dias e Jean Rodrigues, professores do IFSP
O futuro energético Além da atual crise energética, há outros fatores para dúvidas e preocupações das cervejarias, um deles envolvendo a iminente privatização da Eletrobras. A previsão de descotização de usinas mais antigas, com a liberação para a venda de energia e preços de mercado, tende a torná-la mais cara. Também há temor com os efeitos de medidas que obriguem a construção de termelétricas a gás natural onde não há acesso a esse combustível, assim como de se contratar pequenas hidrelétricas.
Para a Firjan, a atual crise energética somadas às dúvidas sobre o futuro do setor reforçam a necessidade de mudanças no modelo energético brasileiro, com o intuito de reduzir custos e garantir a necessária segurança energética para assegurar a competitividade da indústria. Isso inclui, por exemplo, a ampliação da utilização de fontes renováveis.
A ampliação do mercado livre e o acesso a novas formas de produção de energia – como a geração distribuída, a modernização do modelo de operação do setor, a redução dos subsídios cruzados e dos encargos na conta de luz – são alguns desafios que precisam avançar para que a energia elétrica se transforme em fator de competitividade. Em termos de matriz, o país precisa avançar nos próximos anos em uma transição que aumente a entrada das fontes renováveis, também com a inserção daquelas que não possuam grande intermitência e possam garantir a segurança energética, como a geração através do gás natural e a nuclear
Tatiana Lauria, especialista em estudos econômicos da Firjan
O preço da cerveja em domicílio registrou alta no mês de julho, com inflação de 0,58%, de acordo com os dados divulgados nesta terça-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Como resultado, a variação do valor do item nos sete primeiros meses de 2021 ficou em 3,18%. Além disso, a inflação da cerveja em domicílio está em 6,91% no acumulado dos últimos 12 meses.
A alta do preço da cerveja em julho ocorreu em um contexto de elevação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que apresentou alta de 0,96% em julho, 0,43% acima da taxa de 0,53% registrada em junho, conforme destacou o IBGE.
O resultado é a maior variação para o mês de julho desde 2002, quando o índice foi de 1,19%. No ano, o IPCA acumula alta de 4,76% e de 8,99% nos últimos 12 meses, acima dos 8,35% observados nos 12 meses imediatamente anteriores. Em julho de 2020, a variação mensal havia sido de 0,36%.
A alta de 7,88% da energia elétrica foi a principal responsável pela expressiva elevação do IPCA em julho. “Além dos reajustes nos preços das tarifas em algumas áreas de abrangência do índice, a gente teve o reajuste de 52% no valor adicional da bandeira tarifária vermelha patamar 2 em todo o país. Antes o acréscimo nessa bandeira era de, aproximadamente, R$ 6,24 a cada 100kWh consumidos e, a partir de julho, esse acréscimo passou a ser de cerca de R$ 9,49”, explica o analista da pesquisa, André Filipe Guedes Almeida.
De acordo com o IBGE, a compra da cerveja fora do domicílio também ficou mais cara para os brasileiros no mês passado, em 0,76%. No ano, a inflação deste item está em 3,08%. Já nos últimos 12 meses, o indicador tem alta de 5,41%.
Na contramão da cerveja, os valores das outras bebidas alcoólicas registraram queda nos preços em julho. Na análise do item em domicílio, a deflação foi de 1,01%. Isso resulta em uma variação anual de 5,03% e de 10,38% nos últimos 12 meses.
Já para outras bebidas alcoólicas fora do domicílio, a deflação ficou em 0,37%. Com isto, a variação anual do item está em 0,29%. E é de 4,31% no período de 12 meses.
O segmento de alimentação e bebidas, por sua vez, registrou uma inflação de 0,60% no último mês. Com o desempenho de julho, a alta dos últimos sete meses chegou aos 3,34%. E, no período de 12 meses, a elevação dos preços fica em 13,25%.
Especializada em barris de carvalho, a Tanoaria Espanha anunciou a aquisição da produtora de cafés especiais Basement Coffee Barrels. O objetivo, de acordo com seu fundador e diretor-geral, Rafael Aragão Gonzales, é ampliar a atuação com a tecnologia de tosta de barris por convecção.
E o negócio pode ter impacto no setor cervejeiro, especialmente para marcas interessadas em produzir as beer coffees, como destaca Rafael. “Esta escolha em adquirir a Basement se deu pelo motivo de a empresa ser pioneira nesta técnica de micro fermentação em barris de carvalho de qualidade”, afirma o fundador da Tanoaria Espanha, fornecedora de barris de carvalho para várias cervejarias, alambiques e vinícolas do Brasil.
Ele aponta, ainda, a possibilidade de atendimento da demanda de cervejarias a partir da aquisição da Basement Coffee Barrels, que comercializa desde 2015 cafés especiais maturados em barris de carvalho previamente utilizados na produção de uísque, rum e outras bebidas destiladas.
“A ideia é dar continuidade em um projeto familiar entre pai e filhos, unindo as empresas e mantendo todas as novas tecnologias e técnicas entre família, tornando-a uma empresa referência na arte da fermentação do café dentro das barricas de carvalho, podendo, assim, ser a principal fornecedora de café fermentado e de barris utilizados neste processo para as diversas cervejarias que queiram explorar as beer coffees”, destaca Rafael.
Agora, então, a Tanoaria Espanha vai juntar a sua técnica de convecção de barris com o conhecimento em cafés premium da Basement Coffee Barrels.
Estamos unindo o know-how da torrefação de cafés especiais micro fermentados em barris de carvalho com a técnica do tostado de convecção que já é utilizada na Tanoaria
Rafael Aragão Gonzales, fundador da Tanoaria Espanha
Segundo o acordo para a sua aquisição, a Basement Coffee Barrels seguirá como marca independente, tendo como CEO Hugo Aragão Gonzalez. Além disso, utilizará os barris especiais fornecidos pela Tanoaria Espanha. E terá a sua fábrica na cidade de Tijucas (SC), que já conta com uma filial da fornecedora de barris de carvalho.
Um dos grandes sucessos recentes da Ambev, a Brahma Duplo Malte inovou na forma de consumo e ganhou uma “chopeira” para deixar a cerveja ainda mais cremosa. O lançamento do produto, que ganhou o nome Brahmeira, é uma nova forma para o consumidor saborear a bebida, em mais uma aposta da marca em associar as suas cervejas com a cremosidade.
Felipe Cerchiari, diretor de inovação da Ambev, conta que a novidade usa uma tecnologia de micro-espuma para deixar a cerveja com mais cremosidade. É algo muito parecido com o efeito do nitrogênio, tornando a espuma mais estável e cremosa, em uma ação na Brahma Duplo Malte semelhante ao de uma chopeira portátil. “Com essa novidade, a gente atende uma nova expectativa do consumidor, com um produto além do nosso portfólio tradicional.”
De acordo com Camila Rodrigues, responsável pelo conteúdo institucional da Brahma, a ideia é atender ao que os consumidores da Duplo Malte desejam. “O sabor e a cremosidade da Brahma Duplo Malte são únicos e nasceram de insights das pessoas. Pensamos como poderíamos, com nossas inovações, deixar ainda mais cremosa a experiência do consumidor de tomar a cerveja”, comenta Camila.
A Brahmeira terá edição limitada e possui tecnologia para dar mais cremosidade para a bebida em lata ou garrafa (de long neck ou 600ml). Para usá-la, é só acoplar a embalagem no equipamento e utilizar a manopla para servir. É, assim, um recurso semelhante ao de uma chopeira, agora disponível para o consumidor da Duplo Malte, com o cervejeiro ligando o produto em uma tomada (ou utilizando pilhas) e controlando a quantidade de líquido e espuma.
Lançamento Para marcar o lançamento da Brahmeira, a Brahma realizou uma campanha bem-humorada e divertida para o Dia dos Pais, celebrado no último domingo. Criado pela Africa e produzido pela In Good Company, o filme mostra um pai vendo o produto pela primeira vez ao chegar em um churrasco da família e logo idealizando diversos momentos ao lado de sua Brahmeira, ao som de Só Você, de Fábio Jr.
A marca ainda prepara ações especiais para os consumidores nos próximos dias. A “chopeira” da Duplo Malte está à venda no Empório da Cerveja, com preço de R$ 650, e em outros sites.
A Molson Coors deu mais alguns passos na reformulação do seu portfólio. O grupo cervejeiro, um dos maiores do mundo, com presença expressiva nos mercados de Estados Unidos e Canadá, anunciou a retirada de 11 rótulos. Ao mesmo tempo, a Molson Coors lançará a sua primeira bebida destilada, um uísque.
Com malte da Coors e água das Montanhas Rochosas, o uísque vai se chamar Five Trail. E estará, inicialmente, disponível em quatro estados norte-americanos: Colorado, Geórgia, Nevada e Nova York. Vendido em garrafas de 750ml, terá preço sugerido de US$ 59,99 (aproximadamente R$ 314).
O lançamento de um uísque representa o novo passo da Molson Coors além das cervejas, como parte fundamental de uma estratégia para diversificar e tornar mais premium o seu portfólio de bebidas. Além disso, quer aproveitar o aumento do consumo de uísque registrado nas últimas décadas, assim como a afinidade entre o público cervejeiro e o que compra esse tipo de bebida.
“Embora os bebedores de uísque sejam um grupo muito leal, a descoberta é um tema-chave. Eles adoram explorar, expandir suas coleções e experimentar coisas novas. Isso torna este um lugar muito interessante para nos jogarmos como uma empresa de bebidas. Dentro do uísque, há muito território rico para explorar e você não precisa ficar dentro dos limites de uma expectativa única do consumidor”, diz Kimberli Fox, gerente de marketing da Molson Coors.
Cervejas descontinuadas O anúncio do lançamento do uísque pela Molson Coors se deu na sequência da extinção de 11 marcas de cervejas. Foram elas: Milwaukee’s Best Premium, Mickey’s Fine Malt Liquor, Henry Weinhard’s Private Reserve, Keystone Ice, Hamm’s Special Light, Keylightful, Icehouse Edge, Magnum, Miller High Life Light, Steel Reserve 211 e Olde English HG 8000.
“Após uma análise extensiva de nosso negócio, estamos otimizando e aprimorando significativamente nosso portfólio nos Estados Unidos. Isso melhorará a flexibilidade da cadeia de suprimentos para nossas marcas prioritárias mais lucrativas, aumentará nossos esforços de inovação, nos permitirá concentrar melhor os recursos e garantir remessas confiáveis e no prazo para nossos distribuidores”, analisa Gavin Hattersley, CEO da Molson.
Balanço positivo Nos últimos dias, a Molson Coors também divulgou o seu balanço financeiro do segundo trimestre de 2021. E apontou dados positivos. A empresa revelou que a receita líquida de vendas de abril a junho aumentou 17,4%, para US$ 2,94 bilhões (R$ 15,4 bilhões), em comparação com o mesmo trimestre do ano anterior. Já o lucro líquido saltou 99,3%, para US$ 388,6 milhões (R$ 2,035 bilhões).
De acordo com a Molson, esse é o seu maior lucro trimestral em mais de uma década. E foi impulsionado pela reabertura de bares e restaurantes, além da aposta em um portfólio de bebidas mais caras e premium.
“Tivemos nossa cota de desafios nos últimos anos. Mas isso está mudando e hoje todos os sinais dizem a mesma coisa: o futuro da Molson Coors é brilhante e o plano de revitalização está dando certo”, aponta o CEO da gigante cervejeira.
Balcão do Profano Graal: Martyn Cornell e a sua incansável caçada aos “mitos” na história da IPA
Desde 2011, se comemora na primeira quinta-feira do mês de agosto o IPA Day. Um dia para homenagear esse estilo que nasceu na Inglaterra, se popularizou nos Estados Unidos e caiu nas graças dos consumidores do mundo inteiro. Você, certamente, já deve ter escutado a versão mais popular da história da criação das IPAs. Assim como as controvérsias em torno dela. Para quem ainda não ouviu, aí vai a versão resumida da história:
Durante o período de dominação colonial britânica da Índia (entre 1773 e 1947), os administradores coloniais e os militares que eram mandados para servir no país precisavam ser abastecidos de cerveja, que tinha de vir da Inglaterra, já que a bebida não era produzida por lá. Uma vez que as cervejas poderiam não resistir à viagem de navio da Inglaterra até a Índia, o cervejeiro e proprietário da Bow Brewery, de Londres, chamado George Hogdson, teria criado uma cerveja Pale Ale com uma carga extra de lúpulo para suportar a viagem. Essa nova cerveja fez muito sucesso entre os ingleses na Índia e passou a ser procurada também na Inglaterra, por aqueles soldados e administradores que voltavam da sua temporada no Oriente. Principalmente depois que um lote dessa cerveja que estava sendo levado para a Índia foi resgatado de um naufrágio na década de 1820 e leiloado para os habitantes locais na Inglaterra.
Mas, essa versão da história vem sendo contestada por pesquisadores. O mais aguerrido dos quais é, certamente, o jornalista inglês Martyn Cornell, pesquisador da história da cerveja na Inglaterra, que se debruça sobre o tema desde (pelo menos) 2008, lendo jornais e livros dos séculos XVIII e XIX, atrás de pistas sobre o surgimento do estilo e publicando o resultado das suas pesquisas no seu site Zythophile. Segundo suas pesquisas, desde o início do século XVIII, os ingleses já sabiam que cervejas mais alcoólicas e lupuladas resistiam melhor às longas viagens marítimas. O armazenamento em barris garantia a qualidade da cerveja por até mais de um ano, e tanto as Porter como as Pale Ale eram exportadas para as colônias inglesas com êxito. Dessa forma, não é possível atribuir a Hogdson a criação do estilo. Aliás, segundo Cornell, não há nenhuma evidência de que a IPA tenha sido “inventada”. Segundo ele, parece mais provável que o estilo tenha se desenvolvido lentamente a partir das Pale Ales existentes, e, eventualmente, por volta de 1830, tenha recebido um nome novo: East India Pale Ale.
Aliás, ainda segundo as pesquisas de Cornell, a primeira aparição do termo East India Pale Ale na imprensa aconteceu em um jornal australiano. O Sydney Gazette and New South Wales Advertiser de 29 de agosto de 1829 publicou que a venda de Mr. Spark possuía cervejas da Taylor Walker e East India Pale Ale. Alguns meses após esse primeiro anúncio, em 19 de fevereiro de 1830, outro jornal australiano, o Colonial Times of Hobart, na Tasmânia, anunciava a venda da Taylor’s Brown Stout e East India Pale Ale. Sendo assim, até o momento, a primeira cerveja a ser nomeada de India Pale Ale é a de Taylor Walker. Antes disso, mas também por algum tempo depois, essa cerveja era conhecida como Pale Ale for India (Pale Ale preparada para a Índia) ou apenas Pale Ale, sem nenhuma distinção daquela produzida para o mercado inglês. Já na Inglaterra, a primeira menção à India Pale Ale aparece na edição de 30 de janeiro de 1835 do Liverpool Mercury. Cornell chama a atenção para o curioso fato de que a cerveja anunciada era justamente da Bow Brewery. Que, além do mais, fazia muito sucesso também na Austrália, como mostra um anúncio no Monitor, de Sidney: “outro jornal de Sydney, o Monitor, reclamou em abril de 1828 que a ‘cerveja colonial’ não era ‘tão boa quanto’ a Pale Ale de Hodgson, e anúncios em jornais australianos para a Pale Ale de Hodgson de, pelo menos, 1823 a chamavam de ‘celebrada’ E ‘altamente estimada’.”
Ao longo do século XIX, além da Bow Brewery, várias outras cervejarias também enviavam cervejas para a Índia, mas essas cervejas eram vendidas sem identificação alguma. Hodgson teria sido o primeiro a começar a enviar garrafas identificadas com o nome da sua cervejaria. E, por isso, acabou se tornando o cervejeiro mais conhecido e ganhando a fama de inventor do estilo. Segundo Cornell, a vantagem de Hodgson era a de que a sua cervejaria estava localizada perto do porto de onde partiam os navios para o Oriente. Dessa forma, quando os capitães dos navios foram procurar cerveja para vender no Oriente, eles foram à cervejaria mais próxima. Além disso, Hodgson oferecia aos capitães um crédito estendido, de até 18 meses, para pagar a cerveja que compravam dele. Mas a cerveja que ele enviava não deveria ser diferente, pelo menos no início, de outras cervejas Pale Ales que eram fabricadas na época.
Muito cedo, Hogdson começou a sofrer a concorrência das cervejarias de Burton-Uppon-Trent, como a Allsopp e a Bass, no mercado indiano. E acabou concentrando a sua venda na própria Inglaterra. Também por isso, não é de se admirar que o primeiro anúncio de India Pale Ale publicado na Inglaterra tenha sido justamente da Bow. A cervejaria de Hodgson, inclusive, entrou em crise quando foi construída a linha férrea entre Londres e Burton-Uppon-Trent, em 1839. Explica Cornell que os fabricantes de Burton já tinham um acesso relativamente fácil ao porto de Liverpool (de onde saía grande parte do transporte marítimo para o exterior) através de uma rede de canais mas, a partir de então, o frete entre Londres e Burton caiu de 3 libras a tonelada para 15 xelins, e o tempo que um barril de cerveja levava para viajar de Staffordshire para a capital caiu de uma semana para 12 horas. A partir da década seguinte, o estilo começa a se popularizar no Reino Unido, apesar de já estar à venda em Londres desde, pelo menos, 1822 (segundo anúncio no The Times de 11 de janeiro daquele ano, também citado por Cornell). Diz Cornell que a partir de abril de 1841, apareciam no The Times cinco ou seis pequenos anúncios diários de comerciantes vendendo “India Ale”, “Pale India Ale”, “Pale Export India Ale” e outras variações.
E, por isso, o autor questiona também que o famoso naufrágio (que, segundo suas pesquisas, teria acontecido em 1839 e não na década de 1820) tenha sido responsável pela popularização do estilo, como conta a versão popular da história. Segundo Cornell, tanto a versão de que George Hodgson inventou o estilo, quanto a história da sua popularização no Reino Unido por meio do naufrágio nascem da mesma fonte: um livro chamado Burton-upon-Trent: sua história, suas águas e suas cervejarias, escrito por um certo Willian Molyneaux e publicado em 1869. Esse autor afirma que:
A origem da India Ale é por consentimento comum creditada a um cervejeiro londrino chamado Hodgson, que (…) descobriu o processo de fabricação de uma bebida peculiarmente adequada ao clima das Índias Orientais e que, sob o nome de ‘India Pale Ale’, monopolizou o comércio indiano de cerveja inglesa. (…) A cervejaria onde a Pale Ale foi produzida pela primeira vez, de acordo com a opinião popular, foi a Old Bow Brewery
Willian Molyneaux, em Burton-upon-Trent: sua história, suas águas e suas cervejarias
Perceba que as afirmações de Molyneaux não se baseiam em pesquisas, mas no “consentimento comum” e na “opinião popular”. Ou seja, como infelizmente ainda acontece muito quando o assunto é história da cerveja, o autor estava apenas reproduzindo afirmações que eram repetidas, como se diz popularmente, no “boca a boca”.
Porém, ressalta Cornell que ele não tem a intenção de minimizar o papel de Hodgson na história da popularização da IPA. Como ele afirma: “não há dúvida de que a Pale Ale de Hodgson conquistou a maior parte do (comparativamente pequeno) mercado de cerveja indiano antes de 1820; que Hodgson era facilmente a cerveja com a melhor reputação no mercado indiano; e que a reputação da cervejaria Bow durou décadas, mesmo depois que as cervejarias rivais chegaram e começaram a tirar Hodgson do mercado com suas próprias Pale Ales.”
Dessa forma, se, por um lado, não se pode dizer que Hodgson foi o inventor do estilo, por outro, também não se pode negar que ele teve um importante papel na difusão do seu comércio tanto nas Índias Orientais, quanto no mercado britânico. Como sempre, a História, com todas as suas nuances e reviravoltas, é mais complexa do que qualquer esquematização que tente simplificá-la. Há muito mais nas pesquisas de Cornell. Ele discute como poderia ser a lupulatura de uma IPA de finais do século XVIII e início do XIX, quem deveriam ser os seus principais consumidores, a divisão do mercado nas colônias britânicas entre as diferentes cervejarias e o preço das IPAs no mercado indiano (quatro vezes mais caras do que em Londres, no final do século XVIII).
Cornell afirma ainda que, depois que questionou pela primeira vez a versão popular da história, ainda nos idos de 2008, recebeu uma onda de mensagens raivosas vindas, na sua maior parte, dos Estados Unidos. As pessoas estavam chateadas, diz ele, por ele estar destruindo uma de suas histórias preferidas. Infelizmente, é muito comum que as pessoas se apeguem às suas certezas, ainda que elas não estejam baseadas em nada mais do que crença popular.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
CORNELL, Martyn. Myth 4: George Hodgson invented IPA to survive the long trip to India. Zythophile. 2008. Disponível em: https://zythophile.co.uk/false-ale-quotes/myth-4-george-hodgson-invented-ipa-to-survive-the-long-trip-to-india/
CORNELL, Martyn. IPA: much later than you think. Zythophile. 19 de novembro de 2008. Disponível em: https://zythophile.co.uk/2008/11/19/ipa-much-later-than-you-think/
CORNELL, Martyn. much later than you think part 2. Zythophile. 19 de novembro de 2008. Disponível em: https://zythophile.co.uk/2008/11/19/ipa-much-later-than-you-think-part-2/
CORNELL, Martyn. The first ever reference to IPA. Zythophile. 29 de março de 2010. Disponível em: https://zythophile.co.uk/2010/03/29/the-first-ever-reference-to-ipa/
CORNELL, Martyn. Four IPA myths that need to be stamped out for #PADay. Zythophile. 04 de agosto de 2011. Disponível em: https://zythophile.co.uk/2011/08/04/four-ipa-myths-that-need-to-be-stamped-out-for-ipaday/
CORNELL, Martyn. The earliest use of the term India Pale Ale was… in Australia?. Zythophile. 14 de maio de 2013. Zythophile. Disponível em: https://zythophile.co.uk/2013/05/14/the-earliest-use-of-the-term-india-pale-ale-was-in-australia/
CORNELL, Martyn. The IPA shipwreck and the night of the big wind. Zythophile. 12 de outubro de 2015. Disponível em: https://zythophile.co.uk/2015/10/12/the-ipa-shipwreck-and-the-night-of-the-big-wind/
Sérgio Barra é carioca, historiador, sommelier e administra o perfil Profano Graal no Instagram e no Facebook, onde debate a cerveja e a História