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Ribeirão sofre com Covid-19 e se reinventa para manter força do mercado cervejeiro

Vista como um dos principais polos cervejeiros do Brasil, com a presença de conhecidas e premiadas marcas, a região de Ribeirão Preto também está entre as que mais sofrem com os efeitos da pandemia do coronavírus. O cenário assola a sociedade e as famílias, abaladas pelas mortes, e atinge esse importante segmento da economia local. Restou aos empreendedores locais o desafio de se reinventarem para que fosse possível manter suas empresas ativas.

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Segundo dados da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), em Ribeirão Preto, cerca de 30% das empresas do setor já fecharam definitivamente as portas. Metade do quadro de funcionários anterior à crise foi demitido, com os cortes ainda podendo atingir 60% dos funcionários. E isso se deu por causa de uma queda estimada em 80% das vendas desde a adoção das medidas de isolamento social.

O efeito da crise sobre as receitas foi grandioso, como relata André de Polverel, presidente da Cooperbreja, a Cooperativa de Cervejeiros do Brasil. E para o prejuízo não ser maior, foi preciso alterar o foco do modelo de negócios, algo que passou, obrigatoriamente, por um “olhar digital”. Com bares e restaurantes fechados, se reforçou – ou até mesmo se criou – o serviço de delivery, uma alternativa que ainda deve perdurar por algum tempo.

“A crise provocada pela pandemia do coronavírus afetou principalmente as vendas realizadas aos nossos clientes no PDV devido às restrições de funcionamento impostas ao comércio local.  Temos tentando contornar essa situação investindo nos canais de comunicação com o nosso quadro de cooperados e promoções exclusivas”, aponta André.

Mas o delivery não veio sozinho. Algumas empresas o uniram a uma política de preços que permitiu a manutenção do consumo em um período de crise financeira. “Criamos um segmento de delivery com uma política de preços diferentes para nos tornar atrativos. Temos bons resultados, com volume de venda praticamente igual ao com o bar aberto, mas com preços mais baixos. Estamos sobrevivendo à tormenta”, relata Rafael Moschetta, sócio-proprietário da Weird Barrel.

Fase vermelha
Foi a estratégia adotada a partir da necessidade de alterar planos para se adaptar a uma mudança na experiência do consumo da cerveja, agora concentrada em casa. É um cenário que, inclusive, dificilmente vai se alterar tão cedo, pois a região de Ribeirão Preto, composta por 26 municípios, é uma das quatro de São Paulo na fase vermelha – a mais grave do surto do coronavírus – do plano de reabertura de atividades do governo estadual, que só permite o funcionamento dos serviços essenciais. Resta, portanto, manter os investimentos nas soluções digitais.

“Houve uma mudança significativa nas experiências de consumo no setor cervejeiro em Ribeirão Preto impulsionada pelas estratégias emergenciais adotadas pelos empresários locais para conter os reflexos da crise. A logística teve de ser repensada a partir de informações colhidas nas redes sociais e apps estruturando ações customizadas envolvendo delivery, drive-thru, take-away e clube de vantagens”, avalia o presidente da Cooperbreja.

A Cervejaria Maltesa, por exemplo, precisou reinventar o seu negócio, pois tinha quase 80% da sua produção destinada para bares, restaurantes e eventos. A empresa, antes com a produção concentrada em barris, buscou novas formas de envasamento do estoque, para melhor se adaptar a novos mercados, como explica a sócia-proprietária Joice Joly Buzatto.

“Nesse momento, nós, uma cervejaria menor, conquistamos novos clientes e fortalecemos o nosso comercio local. Nos reinventamos, saímos somente dos barris para garrafas, latas e growler. E não só nós, mas sim todas as cervejarias de Ribeirão Preto tiveram de se reinventar. Com isso, muitas olharam melhor para suas empresas e assim vão voltar ainda mais fortalecidas”, projeta Joice.

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A Cervejaria Lund também reforçou suas ações no mundo digital, em uma forma de se aproximar do cliente, ainda que exista a óbvia distância. Além disso, avalia que as novas tecnologias permitem a expansão do mercado atingido.

“Um aliado importante tem sido a internet. E, através dos nossos canais, buscamos estreitar as relações com nossos consumidores. A distância é necessária, porém não é motivo para frieza nas relações, ao contrário”, diz Breno Garrefa, diretor comercial da marca. “Estamos buscando cada vez mais estreitar e fidelizar nossos clientes através do contato online e aproveitando para expandir nossa área de atuação.”

Afetada pela crise, a BR Brew foi outra empresa do polo cervejeiro de Ribeirão Preto a se voltar para o delivery. De acordo com Patrick Bannwart, um dos seus sócios, esse tipo de operação traz maiores desafios para as cervejarias.

“Tivemos de nos adaptar rápido e focar nas vendas de delivery, que é a maneira encontrada para manter nossos negócios de pé. O trabalho para se operacionalizar isso é muito maior e exige mais dos colaboradores e dos gestores para girar e garantir ao menos o faturamento necessário para pagar as despesas fixas e a mão-de-obra”, diz.

Patrick destaca que outra estratégia foi não só focar na cerveja, mas também aproveitar a sua comercialização para oferecer outros produtos aos clientes. Além disso, ampliou os horários de realização desse tipo de serviço.  “Optamos em oferecer alguns itens de nosso cardápio de petiscos que vendemos no nosso Biergarten. Além disso, estamos trabalhando com 4 canais diferentes de vendas e ampliamos os dias e horários de atendimento ao público, tanto para retirada como delivery”, detalha.

A Invicta também buscou se adaptar reforçando o delivery, ainda que a receita seja pequena se comparada ao que se obtinha com o movimento dos bares. E, principalmente, apostou em modelos próprios para se aproximar do consumidor, como explica Alessandro Augusto, gerente de marketing da cervejaria, também revelando que agora a empresa possui o seu próprio aplicativo.

“Criamos alguns negócios novos, como o Invicta Drive Thru, que vende, através de nosso site, o growler descartável de 1 litro com nossos chopes com 50% de desconto. A novidade, que é exclusiva para Ribeirão Preto, caiu no gosto do consumidor e se tornou um negócio tradicional entre os consumidores da cervejaria”, garante Alessandro.

História e futuro
O cenário de paralisação das atividades contrastou com o contexto histórico de pujança do segmento cervejeiro em Ribeirão Preto, sempre exaltado por apreciadores da bebida e conhecedores da trajetória da indústria de bebidas na região. Mas que foi temporariamente freada por uma crise que reduziu as receitas em até 80%.

“Do campo ao copo, Ribeirão Preto tem uma longa tradição gastronômica que surgiu sobretudo pelos avanços econômicos proporcionados pela instalação em nossa cidade de cervejarias como a Antarctica e a Paulista. Esta tradição com o tempo se refletiu na abertura de um número expressivo de bares e restaurantes que movimentava a economia local até o surgimento da pandemia”, relembra André, presidente da Cooperbreja.

É uma história bem diferente da enfrentada neste momento pelo setor. Sacha Reck, conselheiro da Abrasel em Ribeirão Preto, faz uma previsão preocupante para os próximos meses das empresas do segmento, temendo o fechamento de mais fábricas, principalmente porque houve dificuldade no acesso ao crédito.

“O cenário para o setor não é dos melhores. Acreditamos que a reabertura dos bares e restaurantes, inicialmente, não alterará o cenário de prejuízos, pois o movimento deve voltar lentamente. Pouquíssimas empresas do setor conseguiram acesso ao crédito, tendo em vista as restrições de protestos e negativações. Portanto, há a probabilidade de uma nova onda de fechamento de empresas nos próximos meses, podendo a falência no setor chegar a 50% em Ribeirão Preto”, alerta o conselheiro da Abrasel.

Para acelerar a recuperação, uma estratégia será a manutenção do serviço de delivery mesmo quando for possível reabrir os bares. O sócio da Weird Barrel avalia que o uso da plataforma digital vai se consolidar, sendo um aliado importante do segmento cervejeiro durante a reabertura gradual de bares e restaurantes.

Afinal, em sua avaliação, a presença do público nas casas ainda vai demorar a reestabelecer os níveis pré-pandemia. “O movimento do salão vai cair até sair a vacina ou as pessoas perderem o receio. Mas se criou esse hábito e pode trazer bons resultados. Vai continuar com faturamento próximo do que era antes, com o delivery compensando essa perda”, diz Rafael Moschetta.

Eventos descartados
Se já é difícil prever quando os bares da região de Ribeirão Preto serão abertos, a situação é ainda mais difícil para o ramo de eventos cervejeiros. Foi no interior paulista, por exemplo, onde surgiu o IPA Day, que já teve oito edições na cidade e vinha buscando se consolidar como um evento nacional, com edições em outras localidades.

“O IPA Day é uma incógnita, ainda mais em Ribeirão Preto, onde o cenário da pandemia é mais preocupante. Não sabemos como serão os eventos, com pessoas em pé, com alta circulação. O evento sentado é insustentável, por ter pouca gente e com custo alto de open bar. Precisamos esperar as definições”, admite Moschetta, um dos organizadores do festival.

A BR Brew também tem visão e postura parecidas, tanto que cancelou todos os eventos que estavam previstos para 2020 desde o início do surto do coronavírus. “Creio que a retomada seja algo mais concreto para setembro em diante. Nós já descartamos a realização de todos os eventos que faríamos até dezembro (seriam dez entre março e dezembro), e ficamos na expectativa de ter uma retomada gradativa para os bares que são nossos principais clientes, assim como no nosso próprio Biergarten da fábrica”, detalha Patrick.

A expectativa da Abrasel é de que a retomada do setor só ocorra no próximo ano em Ribeirão Preto. “Nossa expectativa é de que o setor somente recuperará os prejuízos em 2022, desde que até junho de 2021 seja distribuída a vacina para o coronavírus”, comenta Sacha.

Resta, até lá, apostar na criatividade para manter o setor, um dos orgulhos do ribeirão-pretano, ativo. “Nossa projeção é que as coisas comecem a voltar para os eixos somente a partir de janeiro de 2021, até lá vamos segurando as pontas das maneiras mais criativas possíveis e contando sempre com o consumidor que apoia o comercio local”, finaliza o sócio da BR Brew.

Ambev abre 80 vagas de estágio exclusivas para negros

A Ambev abriu nesta semana a segunda edição do Representa, seu programa de estágio focado em atrair e desenvolver universitários negros. Criado no ano passado como um piloto, a iniciativa nasceu para ampliar a representatividade de pessoas negras nos processos seletivos e nas contratações, um problema estrutural que afeta praticamente todos os setores produtivos da economia nacional.

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O Representa ocorre em paralelo ao programa regular de estágio da companhia – esse aberto a todos os estudantes. Seu processo de seleção tem foco nas histórias de vida dos candidatos, e não cobra conhecimento técnico prévio e nem exigências costumeiras, como “fluência em língua estrangeira” para nenhuma das áreas que abrange. As vagas são abertas para estudantes de quaisquer cursos de bacharelado e licenciatura.

Além da bolsa-auxílio, vale-transporte, refeição ou alimentação, os selecionados para o estágio terão curso de inglês custeado pela companhia e programa de mentoria com líderes da empresa para desenvolvimento da carreira.

Na primeira versão piloto, feita no ano passado, as vagas se limitavam a dez postos, apenas na sede da companhia em São Paulo. Agora, os inscritos no processo seletivo concorrerão a mais de 80 vagas espalhadas pelas operações da companhia na área de vendas, nas cervejarias e no centro de serviços compartilhados.

As oportunidades de estágio são nas cidades de São Paulo (SP), Campinas (SP), Jaguariúna (SP), Jacareí (SP), Rio de Janeiro (RJ), Campo Grande (RJ), Contagem (MG), Sete Lagoas (MG), Curitiba (PR), Ponta Grossa (PR), Porto Alegre (RS), Brasília (DF), Anápolis (GO), Manaus (AM), Fortaleza (CE), São Luís (MA), Salvador (BA), Camaçari (BA) e Aquiraz (CE). As inscrições poderão ser feitas até 14 de agosto pelo link do programa.

“Sabemos que ainda temos um longo caminho pela frente quando falamos da inclusão da diversidade étnica e racial na companhia, por isso, assumimos o compromisso de encontrar meios de acelerar essa mudança tão necessária, e um dos caminhos foi a criação e agora a expansão do Representa”‘ afirma Renato Biava, diretor de gente e gestão da Ambev.

“Queremos não só ampliar a diversidade dos nossos estagiários, mas também desenvolvê-los para que se tornem nossos trainees e futuros líderes da companhia”, conclui Renato.

Entrevista: A mulher toma a cerveja que quiser e isso não pode ser tirado de nós

Mulheres tomam cervejas fracas ou fortes, mais comuns ou diferentes, porque têm o direito da escolha. Eis uma ideia que poderia até parecer banal em 2020, quase redundante por retratar o que deveria ser o óbvio. Mas o óbvio, claro, não é a especialidade deste ano. Ainda mais em um país vitimado por uma das maiores crises éticas de sua história, um Brasil que legitima diariamente – sob os aparentes aplausos de seus principais governantes – os mais variados tipos de agressões e violências contra as minorias.

Reproduzir em forma de expressão coloquial preconceitos já sedimentados no seio social é uma das manifestações mais corriqueiras desse tipo de violência. Ainda que sob o tom da galhofa, do suposto ar de sarro, tais “brincadeiras” carregam um peso histórico inesgotável, vivo ao ainda desconstruir o horizonte de oportunidades e possíveis reparações para uma minoria. Um peso escancarado recentemente no mercado cervejeiro, que viu uma IPA da Cervejaria Nacional ser desqualificada por ser uma “cerveja de menininha”.

Artigo – Cilene Saorin avalia o histórico de preconceitos contra a mulher na história da cerveja

Para falar um pouco mais sobre a participação feminina no mercado cervejeiro e os preconceitos que ainda precisam ser superados, o Guia entrevistou Beatriz Cury, supervisora comercial e de marketing da Cervejaria Nacional. E, embora já tenha lamentado publicamente o episódio, ela garante que o caminho conquistado pela mulher no setor não tem volta.

“Nós, mulheres, temos provado que tomamos cervejas fracas ou fortes, mais comuns ou diferentes, porque temos o direito da escolha e isso não pode ser tirado de nós. Como dizemos sempre: ‘cerveja de mulher é qual ela quiser’ e fim de papo”, resume.

Confiante de que novos espaços se abrirão, a executiva da Cervejaria Nacional também analisa como o preconceito pode ser minimizado no setor. Detalha, ainda, o projeto Musas de Verão, criado pela marca para aumentar a participação feminina no mercado. E faz uma avaliação: qual o peso histórico de uma expressão como “cerveja de menina”?

Confira, a seguir, a entrevista completa com Beatriz Cury, supervisora comercial e de marketing da Cervejaria Nacional.

De maneira geral, como você avalia hoje a participação da mulher no mercado cervejeiro?
Minha percepção da mulher no mercado cervejeiro hoje é otimista, vejo que cada vez mais estamos garantindo espaço. Há muitas mulheres à frente de negócios, trabalhando em diversas áreas como produção, administração (vendas, marketing, logística, compras e etc.), comunicação, eventos, educação cervejeira, serviço, pesquisa. E muitas mulheres procurando cursos para se especializarem mais no universo cervejeiro. Mas ainda há um espaço maior a ser conquistado, estamos em processo e isso vem mudando aos poucos. Vejo muitas mulheres que gostariam de trabalhar, mas que por falta de conhecimento de que podem, medo ou até mesmo por serem reprimidas por homens, não tentam.

Existe ainda muito preconceito e falta de espaço ou, aos poucos, há um processo de consolidação da presença feminina?
Acredito que, aos poucos, com essas questões sendo cada vez mais abordadas e as empresas entendendo essa necessidade de abrir mais espaço, há um crescimento na atuação das mulheres e de outras minorias. Mas vemos também que ainda há um preconceito tanto na área profissional quanto no consumo, que ainda precisa ser combatido e é o que muitas pessoas têm buscado e lutado para que mude. Como exemplos, muitas cervejarias têm destacado e valorizado mulheres, como profissionais e consumidoras em cervejas colaborativas, promovendo eventos de degustação para mulheres e falando mais sobre essa inclusão no mercado. Veículos de comunicação comentam mais sobre a importância da mulher e dão espaço para mulheres inspirarem outras. E, também, vemos boa parte de quem participa do mercado unida contra atitudes e falas machistas, que ainda existem. Aos poucos pequenas atitudes vão construindo e consolidando um espaço de fala e atuação da mulher.

Qual o significado histórico de uma frase como “cerveja de menina”? O que tal conceito revela e projeta sobre o mercado cervejeiro? Existiria de fato uma “cerveja de menina”?
“Cerveja de menina” traz à tona toda a tentativa de diminuição que a mulher vem sofrendo ao longo dos anos por conta do machismo estruturado na nossa sociedade. Pessoas têm usado o termo para descrever uma cerveja “leve/fraca” do ponto de vista de álcool, corpo e amargor, como se não fôssemos capazes de beber cervejas “mais fortes”. Isso implica que nos foi determinado isso e que não temos o direto de escolha. E, também, como se fosse uma capacidade honrosa que não temos – o que não faz sentido e provoca ainda mais a desigualdade de gênero. Assim como ocorre em outros âmbitos da vida, em que a maioria das mulheres precisa lutar incansavelmente para mostrar que é capaz de fazer o mesmo que os homens dizem ser exclusividade deles e precisa de diversas tentativas para ser ouvida, se formos ouvidas.

Como esse machismo veio se estruturando no setor?
Essa noção de “exclusividade masculina” foi reforçada historicamente em propagandas de cervejas em que nossa participação se deu apenas como objeto de desejo e não como consumidoras ou mesmo profissionais envolvidas com o produto em sua totalidade. De qualquer forma, beber cerveja “forte” não torna ninguém melhor, mais importante ou mais sábio, não é uma competição. Podemos escolher o que queremos beber, sem pré-julgamentos – são nossas escolhas e estas devem ser respeitadas. Nós, mulheres, temos provado que tomamos cervejas fracas ou fortes, mais comuns ou diferentes, porque temos o direito da escolha e isso não pode ser tirado de nós. Como dizemos sempre: “cerveja de mulher é qual ela quiser” e fim de papo.

A Cervejaria Nacional organiza anualmente o Musas de Verão, um importante projeto de apoio à participação feminina no setor. Em que consiste exatamente o projeto, quando ele surgiu e qual a sua importância para o setor?
O Musas de Verão é um projeto que consiste em convidar todo ano, entre o mês de fevereiro e março, duas mulheres do mercado cervejeiro para produzir 500 litros de cerveja de estilo escolhido e produzido por elas. Começou em 2012, no segundo ano da casa, e desde então temos feito todos os anos. O objetivo principal é mostrar que cerveja não é e nunca foi assunto exclusivo de homem, e valorizar as mulheres que atuam direta ou indiretamente com cerveja. Alguns dos grandes nomes do mercado já participaram e acabaram inspirando e encorajando muitas outras mulheres a adentrarem profissionalmente, não só na área de produção. Sentimos como cervejaria artesanal nosso compromisso em levar para mais pessoas esse assunto e expandir essa corrente de inclusão. Temos feito um trabalho também no sentido de tornar o bar um local menos nocivo para as mulheres consumidoras. Fazemos campanhas para elas se sentirem mais à vontade e seguras no ambiente e poderem se divertir e tomar a cerveja que quiserem com tranquilidade.

A partir de importantes iniciativas como o Musas de Verão, você tem esperança de que o futuro do setor possa ser mais inclusivo com as mulheres?
A cerveja artesanal veio como forma de “contracultura” se me for permitido descrever assim, uma revolução no mercado de cervejas. E nada mais literal e natural que este mercado seja acolhedor de todas as minorias, que seja inclusivo e que exponha as desigualdades a serem combatidas. Mas ainda precisamos ser cada dia mais inclusivos. Precisamos de mudanças com base em educação transformadora em todas as pontas. Educar consumidores, bares, cervejarias, veículos de comunicação e todos os envolvidos direta ou indiretamente. Nos bares, as mulheres querem se sentir seguras, acolhidas e ouvidas. Elas também precisam saber que podem pedir o que quiserem e se permitirem a experimentar aromas e sabores novos.

O que falta para o setor acolher mais as mulheres e quais erros devem ser evitados para que ocorra essa evolução?
No âmbito profissional, precisamos de mais mulheres participando de todas as áreas das cervejarias, bares, educação cervejeira e em outras empresas ligadas à cerveja artesanal. É preciso que estes locais forneçam mais espaço e destaque para elas. Mulheres precisam saber que elas têm abertura nessas empresas para seguirem a carreira que quiserem. Do ponto de vista da comunicação, as empresas precisam se posicionar contra comentários e atitudes machistas, ajudarem a mostrar que estão errados e que estes não podem continuar. Precisamos falar sempre de inclusão, comentar e expor problemas socioculturais que afetam diretamente minorias. Só assim podemos ser exemplo e a mudança que acreditamos, evitando esses erros cotidianos de até mesmo ignorar ou replicar comentários e atitudes que reforçam que a mulher não é capaz, tanto de beber quanto de atuar e de serem donas de suas próprias histórias.

Garrafas de vidro unem baixo risco de mudar sabor com menor poluição, diz especialista

O processo de produção de uma cerveja até a chegada ao consumidor demanda uma série de decisões sobre ingredientes, logística de distribuição e envase do produto. A escolha de uma embalagem, por exemplo, leva em conta não apenas preferências estéticas, mas também sensoriais e de sustentabilidade, o que traz uma série de questões no momento de escolher materiais como o vidro, o alumínio ou o PET.

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A seleção do envase pode, inclusive, influenciar no sabor que a cerveja terá, correndo o risco de ser alterado principalmente se a bebida não estiver na carbonatação adequada, como alerta Riccardo Mosconi, gerente de contas da Verallia, multinacional de embalagens para alimentos e bebidas. Um problema que pode ser evitado pelas garrafas de vidro.

“O vidro é 100% impermeável, o que impede a entrada de oxigênio e dióxido de carbono, evitando reações químicas e, consequentemente, mantendo a carbonatação e a vida útil da cerveja. Além disso, a garrafa de vidro é completamente inerte, ou seja, não interfere na cerveja, o que evita qualquer alteração no sabor e no aroma”, explica o especialista.

Outro aspecto importante envolvendo a embalagem de vidro, visto por Mosconi como vantagem competitiva, envolve a sustentabilidade. Afinal, trata-se de um material que pode ser 100% reciclado, além de permitir o seu reaproveitamento diversas vezes.

“Muitos modelos de garrafas são retornáveis, ou seja, podem ser reutilizados para um novo envase. Uma garrafa retornável, em média, suporta 30 giros de utilização. E isso significa menos lixo nas cidades, menos poluição nos rios e nos mares, mais economia de recursos naturais”, acrescenta o gerente de contas da Verallia, especializada em embalagens de vidro.

A resistência e a durabilidade também são vistas pelo especialista como aspectos diferenciados das embalagens de vidro por concederem a possibilidade de a embalagem contar com mais inovações no seu design, algo que pode atrair a atenção do consumidor.

“As garrafas podem trazer designs específicos, por exemplo, de algumas escolas de cerveja, como inglesa, alemã, belga, trapistas, cervejas de guarda, etc. Podem também ser fabricadas em cores diferentes, rotuladas em papel ou autoadesivo e decoradas (serigrafias, pinturas, jateamento) ao gosto do cliente”, conclui Mosconi.

Prorrogação da validade de barris para pubs britânicos coloca Heineken em polêmica

A permissão de reabertura dos pubs britânicos foi seguida por uma polêmica entre uma grande multinacional do setor e os comerciantes locais. Assim que passaram a receber os barris de cerveja da Heineken, os empreendedores a criticaram por estender a data de validade registrada nos recipientes.

O fato chama ainda mais atenção pois, em junho, com o prolongamento das restrições ao funcionamento de pubs, a British Beer & Pub Association (associação que representa os pubs e cervejarias do Reino Unido) articulou uma campanha para flexibilizar as regras de descarte de bebida fora da data de validade, ajudando os pubs a se livrarem da cerveja vencida – e também pleiteando a devolução do imposto pago por ela.

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“Tenho clientes que passaram dias descartando 30 barris de cerveja e, quando receberam sua primeira entrega na semana passada, a data original de validade era anterior à dos que foram descartados”, afirma uma fonte envolvida na cadeia de fornecimento à revista The Grocer.

A diretriz dizia que, excepcionalmente durante a pandemia de Covid-19, não era necessário o testemunho de um representante da cervejaria no momento do descarte. A iniciativa foi apoiada pelas grandes empresas do setor, como AB Inbev, Coors, Carlsberg e a própria Heineken.

Em resposta, a Heineken ressaltou que a cerveja que estocada era de qualidade e sem qualquer risco para o consumo. “A cerveja em barril que temos em nosso estoque foi mantida em condições ótimas e foi analisada em comparação a amostras de referência para termos certeza de que ainda está em seu máximo de qualidade”, afirma a companhia.

“Sabemos que nossas bebidas em barril são tão estáveis quanto as engarrafadas e enlatadas, que têm validade estipulada de mais de um ano. Estamos sendo bastante transparentes sobre a extensão da data de validade de nossos barris”, acrescenta a Heineken.

Segundo a companhia, 95% dos barris costumam retornar vazios à fábrica para serem limpos e reabastecidos em, no máximo, três semanas – portanto a data de validade nunca teria sido alvo de discussão ou preocupação. Mas ela admite que o cenário advindo da pandemia pode ter alterado, em parte, esse cenário.

“A data nos barris ajuda os revendedores em suas estratégias para girar o estoque, e isso funcionou por anos. Dadas as circunstâncias atuais, precisamos reavaliar”, afirma a companhia.

Mas para James Calder, chefe-executivo da Society of Independent Brewers (SIBA), entidade que representa as cervejarias independentes do país, a remarcação da data de validade não é uma medida apropriada para garantir a confiança dos consumidores no produto.

“Se as cervejarias globais estão remarcando barris antigos com novas datas de vencimento, isso significa uma imensa quebra de confiança em relação aos donos de pubs aos consumidores”, aponta Calder.

(Com Inside Beer e The Grocer)

Balcão do Advogado: E o caso Helles, hein?

Balcão do Advogado: E o caso Helles, hein?

Já se passou mais de um ano desde o início do afamado “caso Helles”. A indagação do título é uma das frases que mais ouço sempre que o assunto gira em torno de registro de marca, por isso acredito que seja importante voltarmos a falar sobre esse processo judicial, seus desdobramentos e o que mudou um ano depois.

Contextualização
Para quem não acompanhou, eis um breve resumo. A cervejaria Fassbier, de Caxias do Sul (RS), depositou o estilo de cerveja alemão Helles como marca nominativa no INPI, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial, em 2004. O registro da marca foi concedido à cervejaria em 2007 e renovado por mais dez anos em 2017.

Em abril de 2019, a Fassbier enviou notificações extrajudiciais a algumas cervejarias do Rio Grande do Sul que produzem o estilo Helles, solicitando que as cervejarias cessassem a utilização da “marca Helles” e indenizassem a cervejaria “proprietária” da marca pelo seu “uso indevido”.

No dia 10 de junho de 2019, a cervejaria de Caxias do Sul ajuizou “ação para proibição de ato ilícito cumulada com reparação de danos” contra a cervejaria Abadessa, na qual postula a proibição da comercialização de seu rótulo com a “marca Helles”, além de pleitear danos materiais e morais.

Ainda no ano passado, em despacho proferido no processo em 27 de junho pela juíza da 4ª Vara Cível de Caxias do Sul, o pedido liminar da Fassbier foi acolhido, determinando que a Abadessa se abstenha de comercializar cervejas com a “marca Helles”, sob pena de multa diária por descumprimento.

A Abadessa cumpriu a decisão judicial até ter o seu recurso de agravo de instrumento acolhido pela 6ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, em dezembro de 2019, quando lhe foi permitido continuar fabricando e comercializando a cerveja estilo Helles.

O que mudou?
Desde o último texto sobre o caso, a grande mudança ocorreu com o referido provimento do recurso da Cervejaria Abadessa, que possibilitou a venda da sua cerveja Helles novamente. A Fassbier ainda recorre dessa decisão, tendo em vista que houve divergência entre os desembargadores que julgaram o agravo de instrumento.

Será necessário aguardar o trânsito em julgado do agravo de instrumento da Abadessa para que seja proferida sentença no processo originário, promovido pela Fassbier.

No âmbito do INPI, a cervejaria de Caxias do Sul pediu a nulidade das marcas Raimundos Helles, da cervejaria Bamberg, que haviam sido concedidas pelo instituto. Os pedidos de nulidade da Fassbier foram indeferidos no dia 7 de julho de 2020, o que sela um precedente importantíssimo para o mercado, já que, através dessa decisão, o INPI deixa claro que o entendimento do órgão é de que cervejarias não podem se apropriar de estilos de cerveja através do registro de marca.

Esse precedente também pode ser importante para o deslinde do processo judicial referido acima, porquanto essa demanda ainda está pendente de julgamento, e o precedente do INPI pode auxiliar na fundamentação da improcedência do pleito da Fassbier.

Novos casos
Uma pergunta latente no meio cervejeiro é se novos casos semelhantes a esse (concessão de registro de marca de estilo de cerveja pelo INPI) ocorreriam nos dias de hoje. O pedido de registro do estilo Baltic Porter ajuda a responder esse questionamento.

Nesse processo de registro, depositado no final de 2018, o INPI indeferiu o pedido de registro em julho de 2019, argumentando que a marca é constituída por “Baltic Porter” sem suficiente forma distintiva, irregistrável de acordo com o inciso VI do Art 124 da LPI.

Art. 124 – Não são registráveis como marca:

VI – sinal de caráter genérico, necessário, comum, vulgar ou simplesmente descritivo, quando tiver relação com o produto ou serviço a distinguir, ou aquele empregado comumente para designar uma característica do produto ou serviço, quanto à natureza, nacionalidade, peso, valor, qualidade e época de produção ou de prestação do serviço, salvo quando revestidos de suficiente forma distintiva;

Conclusões
A constante busca pela profissionalização do mercado cervejeiro, aliada ao maior interesse e reconhecimento da importância do registro de marcas, tende a inibir novos depósitos de estilos de cerveja como marcas próprias no INPI. Além disso, ao que parece, o instituto está mais atento aos pedidos de registro que designam cerveja na classe 32.

Bem assim, o precedente gerado pela decisão que indeferiu os pedidos de nulidade da Fassbier é de extrema importância para o mercado, uma vez que começa a derrubar a dúvida instaurada anteriormente pelo próprio órgão sobre o registro de estilos de cerveja, deixando claro que a mera titularidade do registro de um estilo não confere ao proprietário da marca o direito de impedir que outros utilizem o nome do estilo no rótulo e/ou comercializem esse estilo da bebida.

Cabe às cervejarias também o papel de fiscalizar novos registros nocivos ao mercado, haja vista que não podemos cobrar que os analistas do INPI, que avaliam pedidos de registro de todos os tipos de produtos e de serviços, sejam “mestres em estilos de cerveja”.

Contudo, seria interessante algum tipo de integração ou troca de informações entre as associações de cerveja, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e o INPI, a fim de evitar novos casos como o do estilo Helles.


André Lopes, sócio do escritório Lopes, Verdi & Távora Advogados, é criador do site Advogado Cervejeiro

Flexibilidade e adaptação: As vantagens da terceirização na indústria cervejeira

Momentos de crise, como o atual, demandam inventividade, decisões rápidas e poder de adaptação. No mercado cervejeiro, que viu parcela relevante do segmento ter suas atividades paralisadas, além de ter encarado a dificuldade de escoar a produção, foi preciso rever estratégias para manter as finanças saudáveis. Para isso, a terceirização de atividades pode ser uma alternativa interessante para os gestores empresariais prosseguirem com a operação ativa.

Também conhecida pelo termo em inglês de outsourcing, a terceirização dá a oportunidade de deixar a realização das atividades-meio para outras empresas, permitindo a concentração de investimentos – como tempo, pessoal e recursos – naquele que é o foco principal.

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Especialistas que defendem a terceirização apontam que a estratégia de subcontratação permite a redução da estrutura operacional, algo enfrentado por muitas empresas do setor cervejeiro durante esse período de crise. E que essa é uma medida efetiva para redução de custos, provocando uma imediata economia. Além disso, pode permitir a desburocratização de algumas tarefas.

“Subcontratar serviços pode aumentar significativamente a rentabilidade da contratante por várias causas. O mais notável deles é a maior disponibilização de especialistas e tecnologias que não existem na organização sem necessidade de grandes gastos, com maior controle dos custos”, afirmam Michel Gervasoni e Patrícia Lopes, sócios da M&P Facility Services.

Além disso, há a perspectiva de que as empresas possam acessar novos mercados a partir do momento em que terceirizam algumas tarefas. “As organizações poderão construir uma estrutura que as tornem mais flexíveis e adaptáveis ao dinamismo característico do mercado atual”, apontam os especialistas da M&P.

Essa necessidade de entender o novo cenário do setor cervejeiro e moldar o negócio a esse modelo recém-surgido também traz algum risco para quem decide empreender em uma área diferente da usual. Nesse sentido, além de permitir a aceleração dessas iniciativas, a terceirização minimiza os efeitos de um eventual passo errado.

“Muitas vezes, o outsourcing vem para atender a uma necessidade ou demanda bastante pontual. Isso faz com que seja mais prático contratar um outsourcing do que criar um novo departamento para executar tal função”, analisam Michel e Patricia, reforçando que a terceirização acelera o acesso das empresas a novos campos de investimento.

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Embora tenha como foco o fornecimento de serviços direcionados a eventos, a M&P é um exemplo de empresa que se adaptou à crise do coronavírus. Com experiência de atuação em vários segmentos, ela tem diversificado suas operações.

“Não somente no setor cervejeiro, mas em todos os tipos de segmentos, fornecendo mão-de-obra capacitada no âmbito de Facility & Premisses de evento ou empresa”, detalham Michel e Patrícia.

“Nós aplicamos nosso expertise no ato da contratação/parceria com nosso cliente, estudamos os dados estruturais do estabelecimento e destinamos a melhor solução profissional para atender esta demanda, sempre específica ao cliente”, concluem os sócios da M&P.

Caso Backer: Nova morte eleva número de vítimas fatais para dez

Três dias depois da confirmação da nona morte causada por intoxicação após a ingestão de cervejas contaminadas da Backer por dietilenoglicol, a Polícia Civil de Minas Gerais confirmou mais um falecimento neste sábado, elevando para dez o número de vítimas fatais.

Leia também: Colunista do Guia debate consequências jurídicas do Caso Backer

Marco Aurélio Gonçalves Cotta, de 65 anos, passou sete meses internado no Hospital Mater Dei, em Belo Horizonte, teve oito paradas cardiorrespitatórias e estava há 40 dias em coma.

Segundo a família da vítima, Cotta consumiu a bebida durante as festas de final de ano, em dezembro de 2019. No começo de julho, o estado de coma do aposentado já havia sido classificado como irreversível.

A Backer informou que não vai comentar a décima morte atribuída ao consumo de um rótulo contaminado da Belorizontina.

Inquérito concluído
Segundo a Polícia Civil, a vítima já fazia parte do inquérito policial remetido à Justiça. A atuação, neste momento, compete ao Ministério Público de Minas Gerais.

A investigação apontou que diversos lotes de diferentes rótulos produzidos pela Backer foram contaminados por monoetilenoglicol e dietilenoglicol, substâncias tóxicas utilizadas em sistemas de refrigeração.

Os peritos encontraram vazamentos que permitiram o contato das substâncias com a cerveja nos tanques de fermentação. Além do vazamento principal, outros pequenos pontos foram descobertos na bomba do chiller usado para resfriar o mosto.

O inquérito da Polícia Civil, concluído em junho, contabilizou 29 vítimas intoxicadas desde setembro de 2019, quando a contaminação começou a acontecer, mesmo mês em que o tanque foi comprado pela Backer e instalado na fábrica.

Os sócios da empresa foram acusados por estocar, vender e não dar publicidade a um produto contaminado, enquanto seis responsáveis técnicos e o chefe de manutenção da Backer foram denunciados por homicídio culposo, lesão corporal culposa e contaminação de produto alimentício culposa.

Artigo: A Cerveja e a Besta, por Cilene Saorin

Por Cilene Saorin*

As cervejas, os vinhos e os hidroméis são as primeiras bebidas alcoólicas fermentadas da história da humanidade a oferecer experiências de elevação do estado de consciência. E isso sempre foi associado ao divino ou ao profano, a depender da perspectiva.

Desde tempos remotos, as mulheres eram responsáveis pelas produções de cerveja e recebiam muitas vezes julgamentos antagônicos: ora santa, ora bruxa.

(…)

Hildegard von Bingen (1098-1179) foi uma monja beneditina alemã que dedicou toda sua vida ao preceito Ora Et Labora. Quando não rezava, estudava. Do Labora, muitos estudos e manuscritos relacionados à botânica e à medicina humana. Dentre suas descobertas, o lúpulo é apresentado como uma poderosa flor que, se utilizada em receitas, seria capaz de estender “a vida” das cervejas da época. Recomendação lida e seguida por muitos ao longo da história, sendo particularmente acatada – quase 400 anos depois – na conhecida Lei de Pureza em 1516 (Reinheitsgebot).

Leia também – Dossiê: A cerveja brasileira é democrática ou reflete as desigualdades estruturais do país?

Hildegard foi visionária – e não apenas no tema que nos acerca. Com inteligência transversal, também transitava pela poesia e pela música. Compôs obras dramáticas (quase operísticas) e cantatas (registros melódicos, não-instrumentais). Finalmente, ela também foi filósofa e seus pensamentos sugeriam reflexões de igualdade entre homens e mulheres.

Hildegard foi uma mulher feminista em pleno século XII.

(…)

As alewives eram mulheres casadas (ou não, na verdade) que produziam e vendiam cervejas na Inglaterra medieval, do século XIV ao XVIII. Tornaram-se também muito conhecidas como as bruxas da Idade Média.

Nada se conhecia concretamente sobre os processos de fermentação em tempos medievais. (O conceito de leveduras e seus metabolismos viria apenas no final do século XIX, com os estudos de Louis Pasteur e Emil Christian Hansen).

A produção de cervejas era a alquimia dada por intuição e capacidade lógica. As mulheres dominavam as técnicas de produção e eram tidas como pessoas de poderes ocultos. Elaboravam cervejas com excelência e, por essa razão, passaram a garantir suas independências.

Que tamanha ameaça seria a independência… Trataram, assim, de instaurar a fase “caça às bruxas”. Todas queimadas na fogueira.

(…)

No século XIX, os homens já tomavam a cena de maneira impositiva em todos os campos de atuação: nas cervejas, nos vinhos, na gastronomia, na literatura, na música…

A imposição social é uma violência. Ao longo da história, quantos talentos foram e estão sendo perdidos por conta do ridículo vórtex social que insiste em demarcar saberes e quereres? Não pode ser. Só pode assim. Não pode estar. Só pode aqui. Não pode amar. Só mesmo morrer.

Em pleno século XXI, muitos homens ainda não se relacionam bem com mulheres ocupando diferentes esferas de poder com liberdade, beleza, dinheiro e competência. O feminismo é um movimento importante para garantir igualdade de direitos. Os direitos de ser, estar, ir e vir. Da mesma forma, outros movimentos de minorias de direitos confluem por esta mesma causa.

O machismo, o racismo, a homofobia, a transfobia, a xenofobia e outros tantos cabrestos: até quando, caricatos?

É bem próprio da natureza humana sentir-se inseguro diante da perda do protagonismo. Nessas horas, é preciso olhar com cuidado os inimigos de dentro. Os piores são os inimigos de dentro. E são muitos: vaidade, prepotência, ignorância, ganância, inveja, recalque. Não há nada mais patético do que responder à perda do protagonismo com agressão física, moral ou psicológica. É a infantilidade adulta. É a perversidade da besta.

Em uma sociedade inteligente e civilizada, compartilhar protagonismo é um exercício de maturidade e generosidade.

Somos uma grande fauna como humanidade. Se é muito difícil ser humano e respeitar a diversidade, talvez estudar alguns dados estatísticos demográficos possa ajudar a convencer de que não há outro caminho. A atitude inclusiva e o respeito à pluralidade nos farão aproveitar melhor as oportunidades da vida e dos negócios. E atenção: o êxito pede verdade. Um discurso falso cai por terra e é devastador.

A luta é longa. A vida é curta. A inteligência salva. O feminismo salva. O antirracismo salva. O amor livre salva. A fé livre salva. A ciência salva. Por gentileza, aprendamos isso definitivamente.

(…)

Sobre a cerveja que rega meus pensamentos neste momento:

O folclore brasileiro é fonte de inspiração para os nomes das diferentes proposições da Cervejaria Nacional. A “assustadora” Mula (Sem Cabeça) é pura exuberância, em um dos estilos de cerveja mais populares do mundo: American India Pale Ale (também chamado American IPA). As cores estampadas em seu desenho sugerem a cor quente castanho-avermelhada desta cerveja. As notas cítricas-frutadas (especialmente, maracujá) tomam a frente, seguido de um toque doce-caramelado. É a dança dos lúpulos e dos maltes, antes e depois do gole. Um final de boca seco e convidativo, marcado por um amargor ligeiramente adstringente. Uma versão fiel ao estilo: tropical, refrescante e instigante.

Notas de serviço: Um copo ou uma taça são sempre bem-vindos para melhor apreciação. Este particular estilo, perfumado de lúpulos, perde exuberância no tempo. Sendo assim: tanto mais fresca, tanto melhor. Uns goles de água intercalados aos desta cerveja também caem bem, já que a força alcoólica é algo atrevida. Cuidem-se e saúde!


Cilene Saorin é sommelière, mestre-cervejeira e diretora da Doemens Akademie no Brasil

12 opções de delivery em SP para continuar bebendo boas cervejas artesanais em casa

Mesmo com a volta tímida das atividades nos bares, brewpubs e taprooms de São Paulo, uma coisa é certa: durante a pandemia, o delivery conquistou seu lugar nos hábitos de consumo do público cervejeiro.

Os apreciadores de uma boa cerveja já se acostumaram e passaram a gostar de receber chope fresquinho e gelado em casa. A modalidade também é uma maneira de explorar novas e ótimas opções de estilos e marcas artesanais, entre as inúmeras opções disponíveis na capital paulista.

Leia também – Entenda em 8 tópicos como a Covid-19 modificou o consumo cervejeiro

Confira 12 opções de delivery de cerveja artesanal em São Paulo, alguns deles com ótimos descontos para leitores do Guia.


Cervejaria Avós
Orgulhosa de sua origem na Vila Ipojuca, a Avós tem como principal característica trabalhar estilos Lager com muita criatividade. Os destaques são para Hoppy Lager (R$ 30/l), In Concert (R$ 35/l), além de opções em lata, como a Small Lager (R$ 14 a lata de 355ml) e packs promocionais. Menu e pedidos pelo Delivery Direto da casa.
Endereço: Rua Croata 703 – Vila Ipojuca


Cervejaria Oak
Desde 2011 na cena paulistana, a marca do bairro de Pinheiros trabalha com delivery de cerveja em growlers PET e de barris. Em sua base cervejeira, conta com 16 torneiras, que vão de seus tradicionais chopes Lager e Hop Lager até os mais encorpados, como o Double IPA e o West Coast IPA. OS pedidos são pelo Delivery Direto, ou podem ser retirados no local.
Endereço: Rua Padre Carvalho 769 – Pinheiros
WhatsApp: (11) 98117-0567

Desconto de 15% até dia 5 de agosto com o cupom OAKBIERNOGUIA


Cervejaria Tarantino
Marca dona da maior fábrica de cerveja da cidade de São Paulo, na zona norte, a Tarantino é uma referência na promoção de eventos e, agora, no delivery. De suas torneiras saem a ZN Lager (R$ 25/l), Witbier (R$ 29/l), Urban Saison (R$ 34/l), Miracle IPA (R$ 39/l) e American Blond Ale (R$ 25/l). Pedidos pelo Delivery Direto da casa.
Endereço: Rua Miguel Nelson Bechara, 316 – Limão

Desconto de 10% com o cupom TARANTINONOGUIA, válido até 30 de julho em valores já promocionais.


Cervejaria Taru
Inaugurado em dezembro de 2019, esse brewpub de São Paulo agora trabalha com delivery e vendas no balcão. O destaque vai para o combo Taru-3 Pack, com três latas de 473ml dos rótulos da casa (German Pils, Blond Ale e Oatmeal Stout) a R$ 45. A cervejaria ainda promove o Brinde pela Vida, que doa metade do lucro das vendas de sua Blond Ale, por R$ 15, para a ONG SP Contra o Coronavírus.
Endereço: Rua Clélia, 285 – Lapa
Instagram: @cervejataru
Telefone: (11) 97084-2332


Hops Craft Beer
A cervejaria e brewshop de Barueri comercializa insumos e rótulos de chope fresquinhos de boas cervejarias nacionais. O destaque vai para a APA própria do bar (R$ 27 por litro) e para a recém-chegada Green Cow IPA da Cervejaria Seasons. Os hambúrgueres artesanais também são uma atração e fazem sucesso por lá. É possível consultar o cardápio pelo site.
Endereço: Rua Marabá, 96 – Barueri
WhatsApp: (11) 99790-2218

10% de desconto na primeira compra (até 31 de julho) com o cupom HOPSNOGUIA.


Imperador Lupulus 
A casa, na Vila Romana, tem oito torneiras que revezam principalmente boas marcas paulistas e garantem sempre uma boa opção de Pilsen, uma de Weiss e uma de IPA. Atualmente estão engatados rótulos da Berggren, Doktor Bräu, Dortmund e Schornstein. Seu amplo menu de lanches e porções tem sanduíches de costela bovina ou de porco desfiadas em baguete artesanal com maionese e temperos da casa.
Endereço: Rua Caio Graco 386 – Vila Romana
Telefone: (11) 3862-4476

Desconto de 50% na compra do 2º litro de Weiss ou Pilsen com o cupom IMPERADORNOGUIA


La Caminera
A cervejaria cigana La Caminera tem seu taproom em uma agradável praça de Santana, na zona norte da capital. Destaques para a El Dorado APA (R$ 35 o litro), a Ponte West Coast IPA colaborativa com a Cervejaria Central (R$ 35 pelo growler de 1 litro), a Apogeu West Coast IPA, uma colaborativa com a Cervejaria Satélite (R$ 46), e a Jangadeiro NEIPA, com avaliação 4,24 no Untappd (R$ 46). 
Endereço: Praça Dr. Antônio Mercado, 34 – Santana
WhatsApp: (11) 97483-3434

Desconto de 5% para compras via transferência bancária (até 31 de julho) com o cupom CAMINERANOGUIA


Los Compadres
A cervejaria Los Compadres conta com 20 torneiras de rótulos próprios – também disponíveis em garrafa – em sua loja de Atibaia (SP). Trabalha com os sistemas delivery e take away todos os dias, tanto em sua cidade natal quanto na capital. Destaque para as promoções de chope duplo com novos estilos toda semana: a American Lager sai por R$ 13,50 por litro. Entrega em Atibaia pelo iFood e Alfred, e em São Paulo pelo WhatsApp.
Endereço: Alameda Lucas Nogueira Garcez, 2634 – Atibaia
Telefone: (11) 3402-8762

10% de desconto (exceto produtos já em promoção) até dia 5 de agosto com o cupom COMPADRESNOGUIA


Tap Station
A loja e growler station de Moema entrega em toda a cidade e mantém um cardápio de respeito, com diversas opções da Brooklyn, como a East IPA e a New England IPA Yankee (ambas a R$ 44,90/l), além de cervejas da Maniacs, como a Bohemian Pilsner 41 Pils (R$ 34,90/l) e a IPA (R$ 37,90/l). Confira no site o menu completo e as opções de delivery.
Endereço: Alameda dos Nhambiquaras 1547 – Moema


Trilha Cervejaria
A ousada cervejaria artesanal paulistana trabalha com lotes pequenos, tendo o objetivo de oferecer a cerveja mais fresca possível. Assim, a casa tem sempre novidades para quem busca se surpreender. Hoje, seus destaques no cardápio são a American IPA Melonrise, a Pilsen Pils! e a Imperial Stout Pão de Mel.
Endereço: Rua Apinajés, 137 – Pompeia
Telefone: (11) 4329-0193


VKS Beerhouse
O taproom na tradicional rua Joaquim Távora, na Vila Mariana, conta com dez torneiras de estilos diversos de marcas artesanais nacionais. Destaque para a sempre fresca Cacau IPA da paranaense Bodebrown (R$ 42/l), a Irish Red Ale da Cevada Pura (R$ 37/l) e a Lager Coruja Viva (R$ 32/l). O cardápio tem ainda ótimas porções, como bolinho de tapioca e coxinhas. Atende por take-away e WhatsApp.
Endereço: Rua Joaquim Távora, 1266 – Vila Mariana
WhatsApp: (11) 96929-2711


X Craft Beer
A cervejaria está trabalhando com preços promocionais e frete grátis para até 5km de distância em compras acima de R$ 60. São oito torneiras com os rótulos da casa, como os lançamentos Dry Stout The Darkest Star (R$ 18,20/l), a Pumpkin Ale Panic Attack (R$ 40/l) e a tradicional SP Lager (R$ 18/l). Menu completo e opções de delivery no site da marca.
Endereço: Rua Julia Santos Paiva Rio, 126 – Vila Santana
WhatsApp: (11) 98096-4170