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Balcão do Tributarista: Cerveja artesanal e benefícios fiscais

Balcão do Tributarista: Cerveja artesanal e benefícios fiscais

A tributação incidente sobre as cervejas pode variar de forma significativa de um país para outro. Há países que tributam a produção artesanal de maneira diferente das cervejas industriais. Outros, fazem variar a carga tributária em razão do porte da cervejaria. Ainda pode haver diferenças tributárias de acordo com o teor alcoólico ou ingredientes adicionais, como frutas ou especiarias, utilizados no processo de produção. Sem falar na possibilidade de concessão de incentivos fiscais para fomentar o crescimento da indústria em determinadas regiões e, também, nas diferenças encontradas para a tributação de vendas online de cervejas.

Como exemplos de países que utilizam mecanismos diferentes para a tributação da produção cervejeira, podemos citar os Estados Unidos, onde as cervejas artesanais são tributadas e as cervejas industriais possuem tributações próprias com base no volume produzido. As cervejarias que produzem menos de 60.000 barris por ano recebem um desconto fiscal, enquanto as cervejarias maiores são tributadas em uma taxa mais alta.

Outro exemplo é o Canadá. Em algumas províncias, as cervejas artesanais são tributadas em uma taxa mais baixa do que as cervejas industriais, embora as regras variem de acordo com a jurisdição. De forma semelhante, também é o sistema do Reino Unido, onde as regras ainda podem variar dependendo do teor alcoólico.

No Brasil, existem algumas particularidades para a tributação do mercado cervejeiro, como o próprio e conhecido Simples Nacional. Trata-se de um regime tributário simplificado que permite que micro e pequenas empresas paguem seus impostos com uma taxa menor e de forma mais simplificada. As cervejarias artesanais podem optar por esse regime, desde que se enquadrem nos requisitos de faturamento anual.

Além disso, alguns estados brasileiros concedem benefícios fiscais específicos para cervejarias artesanais, como a isenção de impostos estaduais ou a redução de alíquotas. Em alguns casos, também pode haver incentivos fiscais para a produção de cervejas com ingredientes locais, como frutas e grãos regionais, visando o estímulo ao desenvolvimento regional.

No estado do Paraná, por exemplo, as microcervejarias podem obter uma redução no ICMS-ST de até 13% através do recebimento de crédito presumido. Já em Minas Gerais, há um Tratamento Tributário Setorial – TTS para empresas que produzem até 100 milhões de litros de cerveja por ano e que garante crédito presumido do ICMS com índices de recolhimento nas operações internas e interestaduais variando entre 3% e 4%. Ainda, no Rio Grande do Sul tramita um projeto de lei estadual que prevê a concessão de incentivo fiscal para desonerar a produção de cerveja artesanal do ICMS.

No entanto, é importante destacar que os incentivos fiscais para cervejarias artesanais ainda são limitados no Brasil em comparação com outros países, e muitas vezes a tributação pode ser considerada alta para os produtores menores. Por isso, há discussões e propostas de alterações legislativas para incentivar o crescimento da indústria de cervejas artesanais no país.

É importante destacar que esses programas de incentivo fiscal podem ter regras específicas e prazos limitados. Por isso, é importante que as cervejarias consultem as regras vigentes e as condições para a obtenção dos benefícios em cada estado.


Clairton Gama é advogado, sócio do escritório Kubaszwski Gama Advogados Associados, mestre em Direito pela UFRGS, especialista em Direito Tributário pelo IBET. Também é cervejeiro caseiro.

City x Inter de Milão: E se a final da Liga dos Campeões fosse entre cervejas?

Definida como a partida mais importante e aguardada entre clubes no ano, a final da Liga dos Campeões da Europa, neste sábado (10), em Istambul, será disputada entre Manchester City e Inter de Milão, e certamente terá cervejas como pano de fundo para os milhões de torcedores ao redor do mundo que irão acompanhar o jogo.

Diversos bares prepararam programações especiais para os fãs de futebol, inclusive para aqueles que não torcem por nenhum dos finalistas. A própria Liga dos Campeões, em seu processo de globalização que ganhou força nos anos 2000, foi acompanhada pelo patrocínio de uma das principais cervejas do mundo, a Heineken.

Como favorito na final deste sábado, o Manchester City, que tem a cerveja japonesa Asahi Super Dry como sua bebida oficial, carrega o peso de nunca ter vencido a Liga dos Campeões. A equipe confia em nomes como De Bruyne e Haaland para conquistar o primeiro título europeu para o clube e para o técnico Pep Guardiola desde sua saída do Barcelona em 2012. Esse período foi marcado por conquistas nacionais, com oito de dez campeonatos vencidos pelo técnico espanhol, mas também por decepções no cenário europeu.

Considerada uma zebra, a Inter de Milão ostenta três troféus da Liga dos Campeões em sua história, sendo o último conquistado em 2010. O clube chega à final após eliminar o rival Milan nas semifinais, um confronto visto como um renascimento do futebol italiano nas competições entre clubes, além de já ter vencido a copa nacional nesta temporada.

Diante da importância do confronto, o Guia conversou com Rodrigo Sena, beer sommelier e responsável pelo canal Beersenses, para fazer um exercício lúdico que busca aproximar ainda mais os universos das cervejas e do futebol, relacionando-os com os finalistas da Liga dos Campeões.

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Confira as opiniões do especialista:

As escolas cervejeiras de cada país
A Inglaterra tem uma tradição cervejeira de séculos. Foi criada uma cultura cervejeira forte, com a cerveja enraizada na cultura do Reino Unido. Na Itália, essa tradição não é tão forte, pois o país é mais voltado para o vinho. Mas, nos últimos dez anos, houve um crescimento significativo do mercado cervejeiro artesanal, com uma variedade de estilos que levaram o país a se tornar uma potência cervejeira na Europa, embora fique atrás da Alemanha, República Checa, Bélgica e Inglaterra. A Itália vem na sequência. É, portanto, uma escola tradicional contra uma escola que está surgindo.

A escola inglesa é conhecida por ter pouca variedade, mas tem muita diversidade entre seus estilos. Ela apresenta cervejas como as Bitter, tradicionais no dia a dia, nos pubs, assim como as Pale Ales e IPAs (India Pale Ales), as cervejas escuras, as Potters e Stouts, além de cervejas ultrapotentes, como as Barley Wines, Wee Heavys e Scotch Ales.

Já a escola italiana recebeu muita influência da Alemanha e sua região, devido à proximidade geográfica, com cervejeiros migrando para o sul do país. Essa influência alemã é combinada com uma forte influência da escola belga, devido à rica gastronomia italiana, o que também trouxe para a cerveja. Como resultado, a escola italiana apresenta uma diversidade maior de estilos do que a inglesa, graças à sua gastronomia e cultura.

Os finalistas: Pale Ale x Pilsner italiana
O Manchester City não possui muitas características do futebol inglês. É um time que joga ofensivamente, gosta de ter posse de bola e tem movimentação. Ao mesmo tempo, sabe ser intenso, mas também consegue ser leve nos momentos em que precisa. Ele consegue aliar a intensidade e a força com leveza. Então, podemos fazer um paralelo entre o Manchester City e um estilo tradicional inglês de cerveja, a English Pale Ale. Essa cerveja possui intensidade nos lúpulos ingleses, é aromática e tem um amargor perceptível, mas também é refrescante, pode ser leve, não tem um teor alcoólico tão alto. Assim como o estilo de cerveja, o time combina intensidade e força, mas também pode ser leve.

Na campanha na Liga dos Campeões, a Inter de Milão teve uma pegada diferente, com velocidade, menos posse de bola e maior efetividade, sendo mais vertical. Nesse caso, podemos fazer um paralelo com um estilo de cerveja que foi transformado pelos italianos e até ficou conhecido como Pilsner italiana. A Pilsner é um estilo tradicional da escola alemã. Os italianos trouxeram a Pilsner e criaram uma técnica a ser utilizada na fabricação, colocando o dry-hopping no final, adicionando lúpulos nobres europeus. Essa técnica transformou o sabor da cerveja, deixando-a mais aromática, com maior presença floral. É uma cerveja leve, refrescante e que pode ser consumida rapidamente devido ao seu teor alcoólico baixo. E essa é a velocidade da Inter de Milão. Essa técnica foi posteriormente copiada pelos americanos ao criarem as chamadas Hop Lagers.

Os ataques: Barley Wine x Strong Golden Ale
No Manchester City, o ataque, com De Bruyne, Haaland e Grealish, tem jogadores fortes, que brigam muito pela bola e possuem um talento incrível, com técnica e habilidade apuradas.  Eles têm posse de bola, movimentação e inteligência, o que me faz pensar em um estilo de cerveja inglês chamado Barley Wine. Esse estilo é conhecido por sua alta potência alcoólica, passando dos 9% de graduação, e traz muita potência ao sabor, principalmente dos maltes, sendo tradicional na Inglaterra.

Do outro lado, temos um ataque bastante efetivo e vertical, representado por jogadores como Lautaro Martinez e Lukaku. Nesse caso, posso fazer um paralelo com um estilo de cerveja belga, a Strong Golden Ale. Essa cerveja tem uma cor dourada brilhante e apresenta sabores e aromas muito intensos, com uma pegada alcoólica mais alta. Ele traz um frutado condimentado das leveduras com potência alcoólica. E me lembra o ataque da Inter de Milão que vai em direção ao gol com verticalidade.

“O botequim é importante para o afeto, a sociabilidade e a construção da memória”

O engradado de cerveja na porta, a estufa cheia de salgadinhos e o baleiro que gira são imagens associadas imediatamente aos botequins, mas não são a alma que os define. De acordo com Eduardo Freitas, o Preá, esses estabelecimentos, fundamentais para a cultura da cerveja, são importantes por serem espaços de sociabilidade, além de atenderem à classe trabalhadora.

A avaliação foi apresentada por Preá no terceiro episódio da sexta temporada do podcast Hora do Gole, apresentado por Eduardo Sena. E ele pode falar bem do assunto, pois estima já ter visitado mais de 500 botequins por todo o país.

Sociólogo e trabalhando na área de educação, Preá também é referência quando o assunto são os botequins por outras razões: ele é o responsável por um perfil no Instagram que retrata, em imagens, como é a vida nesse tipo de estabelecimento. Além disso, no ano passado, criou um estudo ébrio-etnográfico de botequim por botequim de Copacabana, no Rio de Janeiro, listando 75 estabelecimentos em funcionamento no bairro.

Em parceria com o Hora do Gole, o Guia traz os principais trechos da participação de Preá. Ele compartilha suas experiências pessoais, os desafios enfrentados pelos botequins e apresenta reflexões sobre o futuro desses estabelecimentos.

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Confira as opiniões de Preá e acompanhe o episódio do Hora do Gole na íntegra:

O que é o botequim
Falar que o botequim tem um ovo colorido, comida saborosa e cerveja gelada faz parte de uma alegoria. Isso está longe de definir o que é um botequim. Para mim, ele se encontra no território da experiência subjetiva. O que diferencia um bar de um botequim é quem frequenta, quem se sente pertencente, quem se sente acolhido, quem reconhece aquele território como um botequim.

O espaço do trabalhador
Com exceção de uns 10 territórios no Brasil, como Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, e Itaim Bibi, em São Paulo, todo lugar vai ter pelo menos um [botequim], porque tem a ver com o território de classe. Se você tem a classe trabalhadora, operária, pessoas que prestam serviços, estão trabalhando duro das 8h às 18h, é natural, quase condicionado, que surja um pequeno comércio para atender a essa parcela importante da população que sustenta o restante. Aqui no Rio, volta e meia há essa discussão de que o botequim é um território suburbano, que nasceu no subúrbio e que os outros lugares tentam imitar. Eu tenho uma visão contrária a isso, que está exclusivamente relacionada à questão do território de classe. Portanto, se você tem o fluxo de trabalhadores desde cedo, é obrigatório que haja pelo menos um lugar que seja o botequim.

O estudo ébrio-etnográfico sobre botequins de Copacabana
Quando olho para um botequim, não é com os olhos curiosos de um sociólogo, é com os olhos de um consumidor, de alguém que senta ali, toma duas Antarcticas, reflete sobre a vida, fica em silêncio, conversa consigo mesmo, se acalma. Portanto, meu olhar para esse território seria mais uma observação participante do que uma observação exótica, curiosa ou fetichista. E eu tinha preocupações sobre quais botequins ainda estavam abertos durante a pandemia. Pensava no seu Tião, que já tinha 85 anos, e se ele pegasse uma gripe ou a Covid, poderia não resistir. E o bar dele? Eu não podia ir lá porque estava cumprindo a quarentena. Quando a situação mudou, com a vacinação, eu saí e comecei a anotar. Eu tinha um conjunto de dados e pensei em publicá-los como uma maneira de mostrar que essa galera está viva. Então, fiz isso, e os dados foram baseados nos meus critérios de o que é um bar e o que é um botequim. Hoje, há dois a menos, porque fecharam desde o ano passado, mas tínhamos 75 botequins em um conjunto de 50 e poucas ruas. Alguns quarteirões têm 10 botequins, algumas ruas têm oito botequins, há botequins lado a lado, compartilhando a mesma porta.

Publicações sobre botequins no Instagram
Isso começou comigo indo a um botequim em Bonsucesso e tomando duas cervejas, ficando completamente maravilhado com a estética do lugar, com uma geladeira da década de 1930, azulejos e um senhorzinho de 80 anos trabalhando sozinho. Isso é lindo, eu me emociono no botequim. É muito curioso porque, ao começar a dialogar com essas pessoas, percebo que também tenho meu próprio comportamento no botequim. Há botequins em que vou há cinco ou seis anos e ninguém sabe meu nome. Entro, digo bom dia, tomo duas ou três cervejas, geralmente sozinho, e fico atento a todos ao meu redor. Normalmente, não uso fones de ouvido, pois considero falta de educação estar em um ambiente cheio de pessoas e querer ficar isolado com meus fones. Fico ali por um tempo e saio. No entanto, há muitas pessoas que gostam de conversar. Isso entra na questão dos territórios das subjetividades, no que cada um busca e no que cada botequim pode oferecer.

Repercussão das publicações
Quando começo a postar no Instagram, naturalmente começa a ecoar e começam a falar, dialogar, compartilhar e a fazer perguntas. Tenho certeza que isso tem muito mais a ver com as pessoas do que comigo. Porque o território do botequim é extremamente importante para a sociabilidade, a história, a construção da memória e o afeto de muitas pessoas. Era onde compravam balas, onde meu avô pegava leite, onde meu pai pedia para comprar cigarros. Sabemos de todos os problemas que esse território também possui. É um território conservador, às vezes machista, misógino, onde programas sensacionalistas fazem sucesso e todos ficam assistindo. É um ambiente que representa um desafio para a saúde de muitas pessoas em relação ao alcoolismo. Não há nada romântico aqui. É um território contraditório como qualquer outro, assim como a vida em si, mas é um ambiente que transmite muitas coisas para muitas pessoas. Acredito que muitas pessoas perderam o contato com isso, seja por causa da vida que levam, dos lugares que frequentam, e de certa forma, isso se conecta com o que estou registrando.

Os botequins vão acabar?
Existe um fator que é determinante para a possível transformação dos botequins, que é a questão geracional. Eu acredito que para a família do seu Eraldo, dono de um botequim com 76 anos, quando ele falecer, talvez faça mais sentido transformar o estabelecimento em uma drogaria ou algo que hoje seja mais relevante do que era quando o bar foi aberto, há 50 anos. O mercado vai se adaptando para atender às demandas. Lembro-me claramente que quando meu pai queria tomar uma cerveja em casa, ele tinha que levar a garrafa vazia de volta ao mercado, e havia um local específico para a troca do casco: você entregava o casco vazio e pegava um cheio. Se eu contasse a ele que hoje é possível abrir um aplicativo no celular, fazer um pedido e em 20 minutos ter uma cerveja entregue em casa, ele me acharia louco. Também não acho que podemos olhar apenas com um olhar nostálgico, negando a mudança. Muitas pessoas dependem desse negócio para sobreviver. Então, esse fator geracional pode ser desafiador, mas acredito que o espírito dos botequins continuará vivo, porque sempre haverá trabalhadores, a classe operária, pessoas que ralam para sustentar este país. E essas pessoas serão acolhidas em algum lugar. Por exemplo, tenho a percepção, talvez segmentada, de que já tomei muitas cervejas de manhã cedo, na virada da madrugada, em padarias em São Paulo. É um hábito que não é tão comum no Rio, mas em muitos lugares de São Paulo, a padaria assume o papel do botequim. Há muitas bancas de jornal que não fazem mais nada além de vender produtos como cerveja e comida. Então, a banca de jornal se torna um ponto de encontro. Portanto, acredito que esse tipo de comércio em si está sempre propenso a mudanças. E talvez, daqui a 50 ou 60 anos, veremos esse tipo de comércio se transformar ainda mais.

A cerveja artesanal poderá se tornar popular?
Quando se cria um bar de cerveja artesanal, pelo menos nos muitos que já visitei, eles são criados para serem muito diferentes dos bares anteriores. Os festivais de cerveja artesanal também são muito diferentes de outras experiências. Isso não é um problema, mas a pergunta que surge é até que ponto aqueles que desejam ser diferentes, que querem trilhar caminhos distintos, desejam se aproximar dos iguais. Talvez a reflexão seja se o mercado da cerveja artesanal quer se apropriar cada vez mais de um nicho diferente ou se deseja se aproximar do que já existe no mercado. Minha percepção atual é que, cada vez mais, certamente com exceções de ambos os lados, a média parece buscar mercados mais nichados. Acho que a prática de introduzir outros produtos da marca no território do botequim pode ser menos complicado do que as pessoas dizem. Acho que muitas pessoas poderiam facilmente beber uma cerveja de trigo leve ou uma Session IPA, por exemplo.

Artigo: Crise na cerveja, caminho para o chope

*Por Augusto Sato, cofundador e CEO da MeuChope

O Brasil consome 1,2 bilhão de litros de cerveja mensalmente, segundo pesquisa realizada pelo Cupom Válido. É possível um setor tão relevante entrar em crise? O que seria uma crise para o setor cervejeiro? E o que podemos tirar das movimentações mais recentes desse mercado? Desde o anúncio de recuperação judicial do Grupo Petrópolis, que detém marcas populares como Itaipava, Crystal e Petra e, em paralelo a isso, a Cervejaria Santa Catarina (CSC), dona das marcas Saint Bier, Coruja, Barco e Catarina, que também passou por reestruturações, ocorreram esses e diversos outros questionamentos.

Para um olhar mais atento, esses fatos podem explicar muita coisa. O Brasil é o terceiro maior polo cervejeiro do mundo, com um faturamento de R$ 180 bilhões – equivalente a 2,1% de seu PIB -, ficando atrás apenas da China e dos Estados Unidos. Expressivo e relevante, certo? Mas apenas 3 empresas detêm 95% desse valor. Se há crise em uma delas, há crise em todo o setor? Não necessariamente.

Isso porque é notável o crescimento da popularidade da cerveja artesanal. Esse nicho tem chamado atenção dos consumidores e se tornado cada vez mais relevante no mercado cervejeiro. Prova disso, é que alguns players já fizeram movimentações nesse sentido, como a compra da Colorado, de Ribeirão Preto, pela Ambev ou a artesanal inglesa Beavertown pela Heineken. Hoje, o Brasil tem registradas mais de 1500 cervejarias artesanais. Dados do Anuário da Cerveja de 2021 mostram um crescimento de 48,5% no número de cervejarias nos últimos 20 anos.

Quando falamos desse nicho, nos deparamos com a bruta realidade de que quase metade das cervejarias artesanais do Brasil não registraram lucro em 2022, segundo pesquisa realizada pelo Guia da Cerveja. O trabalho aponta que 46% dos empreendimentos tiveram prejuízo ou só empataram as contas entre receitas e despesas no ano passado. Apesar de dar luz às dificuldades do setor, o levantamento aponta para uma tendência de recuperação: 62% das empresas participantes afirmam que apresentaram crescimento nas vendas de cerveja em 2022 na comparação com 2021. E 81% das cervejarias esperam que o ano de 2023 também seja de crescimento em relação a 2022.

Diz o ditado que onde há crise, há oportunidade. Para o mercado cervejeiro artesanal, o produto é a oportunidade por si só. Isso porque tem suas vantagens: personalização, exclusividade, identidade própria e qualidade das matérias-primas. Fomentar e democratizar o acesso ao artesanal é essencial para os produtores crescerem e, assim, quem sabe, consequentemente o mercado também — e com mais pluralidade.

*Augusto Sato é cofundador e CEO da MeuChope, startup que fomenta o mercado de cervejas artesanais através de incentivo e inteligência de negócios.

Preço da cerveja cai no varejo e tem alta expressiva nos bares em maio

Em maio, ficou mais caro beber cerveja nos bares, mas quem recorreu ao varejo pode ter encontrado preços melhores. Esse cenário foi observado com a divulgação nesta quarta-feira (7) dos dados da inflação pelo IBGE, com deflação da cerveja no domicílio, mas alta expressiva no valor do mesmo produto fora do domicílio.

A cerveja no domicílio, em geral comercializada no varejo, apresentou, em média, queda de 0,28% em maio, enquanto o item nos bares e restaurantes teve alta de 1,15%, um índice bem acima da inflação oficial do Brasil, o IPCA, que ficou em 0,23% no mês passado.

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Essa deflação da cerveja no domicílio em maio fez com que a alta em 2023 caísse para 2,94%, praticamente idêntica ao IPCA, que está em 2,95% no ano. Mas ainda há uma grande disparidade no somatório dos últimos 12 meses: enquanto o produto no varejo segue com inflação de mais de 10% – agora em 10,19% -, a inflação oficial está em 3,94%.

A alta da cerveja comercializada em bares é mais do que o dobro do IPCA de junho de 2022 a maio deste ano, sendo de 7,95%, de acordo com o IBGE. Já em 2023, o índice fica em 3,67%.

Entre as capitais brasileiras pesquisadas pelo IBGE, quem mais sofreu com a alta dos preços da cerveja foi o Rio de Janeiro. Por lá, a inflação do produto ficou em 2,17% fora do domicílio e em 1,63% no domicílio, sendo a maior alta do levantamento em ambos os cenários. Já as principais quedas foram registradas em Belo Horizonte, com deflação da cerveja no varejo (-1,13%), assim como aconteceu em Rio Branco, nos bares (-1,16%).

Outras bebidas alcoólicas
A alta mais expressiva do preço da cerveja fora do domicílio se repetiu com outras bebidas alcoólicas na comparação com o produto comercializado no domicílio, sendo de 0,64% em maio, acima dos 0,38% do mesmo item quando adquirido no varejo.

Ainda assim, a inflação de outras bebidas alcoólicas é maior no varejo do que nos bares tanto em 2023 (7,46% x 6,08%) como ao longo do período de 12 meses (6,17% a 4,24%), segundo os dados divulgados pelo IBGE.

O instituto também relatou que o grupo alimentação e bebidas teve inflação de apenas 0,16% em maio, abaixo, portanto, da variação do IPCA. Em 2023, o indicador soma alta de 1,69%, sendo de 5,54% no período de 12 meses.

André Almeida, analista da pesquisa, ressalta que a pequena variação dos preços do grupo de alimentação e bebidas em maio teve relação direta com o recuo do IPCA, que havia ficado em 0,61% em abril. “Trata-se do grupo com maior peso no índice, o que acaba influenciando bastante no resultado geral”, diz.

Após um maio com alta dos preços nos bares e queda no varejo, é possível esperar que a cerveja fique mais cara no Brasil. De acordo com informações divulgadas pela coluna Painel S.A., da Folha de S. Paulo, “a indústria cervejeira, liderada por Ambev e Heineken, já avisou aos diversos estados que hoje pensam em elevar impostos do setor para reforçar o caixa, que não consegue mais segurar o preço da bebida”. No ano passado, mais de uma dezena de estados elevaram o ICMS cobrado sobre a cerveja, com o aumento entrando em vigor em 2023.

Segundo a Folha, o Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja (Sindicerv), que representa a Ambev e o Grupo Heineken no Brasil, apresentou estudo feito pela Fundação Getúlio Vargas mostrando que “desde 2019 até o fim de 2022, absorveram 52,8% do aumento dos custos de produção”.

À reportagem do Guia, o Sindicerv declarou que “não se manifesta sobre relações comerciais entre os fabricantes de cerveja e seus clientes – sejam distribuidores, redes varejistas, bares e restaurantes, especialmente no tocante à estratégia de preços”.

88% das cervejarias com débitos não deverão se livrar das dívidas em 2023

88% das cervejarias com débitos não deverão se livrar das dívidas em 2023

As cervejarias brasileiras que têm dívidas não deverão se livrar desses débitos ainda em 2023. De acordo com a pesquisa “O Ano de 2022 para as Cervejarias”, realizada pelo Guia da Cerveja, apenas 12,1% das marcas participantes do levantamento trabalham com a perspectiva de pagar os compromissos financeiros em atraso dentro do período de até um ano.

A perspectiva predominante, abrangendo 72,7% das cervejarias pesquisadas, é conseguir quitar as dívidas em um prazo entre 1 e 5 anos. No entanto, um contingente significativo de 15,2% dos respondentes enfrenta uma situação financeira bastante complicada, esperando levar entre 5 e 10 anos para equilibrar suas contas.

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Esse cenário desafiador pode ser atribuído a diversos fatores, incluindo condições macroeconômicas desfavoráveis, o impacto da pandemia do coronavírus e a desaceleração no consumo. De fato, 1 em cada 3 cervejarias da amostra participante do levantamento afirmou possuir dívidas.

Com quem as cervejarias têm dívidas?

A maioria das dívidas está relacionada a compromissos em atraso com bancos e outras instituições financeiras, refletindo tanto a incerteza do momento quanto a falta de capacidade financeira das cervejarias.

O levantamento revelou que 6 em cada 10 cervejarias endividadas possuem débitos com instituições financeiras. Além disso, há outros problemas, como atrasos no pagamento de impostos aos governos (22,5%) e contas em atraso com fornecedores (10%), que desempenham um papel fundamental para qualquer cervejaria. Além disso, aproximadamente 7,5% das dívidas são com pessoas físicas.

O Ano de 2022 para as Cervejarias” foi uma pesquisa quantitativa conduzida pelo Guia da Cerveja por meio de um questionário online. As respostas foram coletadas entre outubro e dezembro de 2022, e o levantamento contou com a participação de 100 proprietários ou administradores de cervejarias.

Grupos cervejeiros revendem artesanais para fundadores nos EUA

Nos Estados Unidos, o mercado de cervejas artesanais e especiais parece não ser mais tão atraente quanto outrora para as principais companhias do setor de bebidas. Recentemente, a Constellation Brands anunciou a venda da Funky Buddha, da Califórnia, para seus antigos proprietários, assim como a Four Corners Brewing, de Dallas, foi readquirida junto ao grupo pelos seus fundadores. Seguindo o mesmo caminho, a Anheuser-Busch revendeu a Appalachian Mountain Brewery and Cidery para seus criadores.

As negociações indicam que as cervejas artesanais não são mais tão lucrativas quanto na década passada nos Estados Unidos, quando uma série de aquisições havia sido fechada. A desaceleração desse mercado está levando grandes grupos cervejeiros a reverem suas estratégias, aproveitando também o desejo de recompra dos proprietários originais.

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A Funky Buddha foi fundada em 2010 em Boca Raton pelo casal Ryan e Giani Sentz. Posteriormente, o irmão de Ryan, KC Sentz, e sua esposa, Melissa, ingressaram no negócio.

Em 2017, no entanto, a cervejaria foi adquirida pela Constellation Brands, o terceiro maior grupo cervejeiro dos Estados Unidos, que possui marcas como Corona Extra, Corona Light, Modelo Especial, Modelo Negra e Pacifico. Agora, a Constellation decidiu se concentrar nesse portfólio, abrindo mão de suas marcas artesanais.

“A inovação em bebidas sempre foi nossa maior força, e Ryan e sua equipe têm algumas ideias incríveis em andamento. À medida que nos aproximamos do nosso 10º aniversário, parece ser o momento perfeito para o nosso negócio evoluir e reacender a paixão da comunidade por bebidas artesanais”, diz KC Sentz.

“Gostamos de trabalhar com a Constellation e aprendemos muito com eles. À medida que embarcamos no próximo capítulo, planejamos ultrapassar os limites e criar experiências de consumo totalmente novas com cerveja e além. Estaremos servindo boas vibrações na torneira por muitos anos”, acrescenta Ryan Sentz.

A Four Corners, por sua vez, foi fundada por três amigos, George Esquivel, Greg Leftwich e Steve Porcari, em 2012, no oeste de Dallas, sendo adquirida pela Constellation em 2018. O crescimento da marca, no entanto, foi freado recentemente, tanto que dados apontam uma produção inferior em 2022 em comparação com o ano da sua aquisição. Agora, ela volta para as mãos de seus criadores.

A Anheuser-Busch também realizou uma venda. A Appalachian Mountain Brewery and Cidery foi recomprada pelos seus fundadores originais, os primos Nathan Kelischek e Chris Zieber, da Anheuser-Busch. Localizada no oeste da Carolina do Norte, a cervejaria foi fundada em 2011 e é considerada uma das principais marcas de cerveja artesanal do estado.

Em 2014, a Appalachian Mountain fechou uma parceria com a Craft Brew Alliance para aumentar sua produção e distribuição, e esta última a adquiriu em 2018. Em 2021, a CBA passou para a Anheuser-Busch. No entanto, agora o gigante cervejeiro vendeu a Appalachian Mountain Brewery and Cidery de volta para seus fundadores.

“Estamos gratos por termos passado os últimos dois anos como fundadores ativos no portfólio de cervejarias artesanais da Anheuser-Busch e queremos agradecer às pessoas da AB, incluindo nossos colegas fundadores de cervejarias artesanais, pelo apoio, colaboração e amizade que desfrutamos durante nosso tempo juntos”, disseram os novamente proprietários da Appalachian Mountain.

Nova norma da ABNT sobre produção de cervejas está em consulta; participe

Com o intuito de garantir a qualidade e a segurança dos produtos cervejeiros, encontra-se em andamento uma consulta nacional sobre a nova norma brasileira (NBR) referente à produção de cervejas. O projeto intitulado “ABNT NBR 17098 – Produção de cervejas – Requisitos de boas práticas de fabricação e controles operacionais de processo” está aberto para contribuições até a próxima segunda-feira (12).

A Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) tem como objetivo primordial estabelecer diretrizes que assegurem a qualidade e a padronização dos produtos e serviços em diversos setores da indústria. Nesse sentido, a nova NBR busca definir requisitos fundamentais de boas práticas de fabricação e controles operacionais de processo na produção de cervejas.

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A consulta está aberta para participação de qualquer pessoa interessada, o que dá a oportunidade para toda a cadeia cervejeira influenciar o conteúdo da norma, pontuando inconsistências, propondo novas redações ou até mesmo supressões.

Todas as contribuições recebidas durante o período de consulta serão avaliadas pela equipe responsável pelo projeto. Esse processo de análise visa aprimorar o documento final de acordo com a realidade e as necessidades do setor cervejeiro.

Assim, participar desta consulta é uma maneira de contribuir ativamente para a evolução das boas práticas de fabricação de cervejas no Brasil, além de influenciar diretamente a futura norma técnica. Para ter acesso ao documento completo do Projeto ABNT NBR 17098 e participar da consulta, basta realizar um cadastro e acessar o projeto através do link.

O que é?
Os documentos técnicos da ABNT são voluntários e não incluem requisitos contratuais, legais ou estatutários, não substituindo leis, decretos ou regulamentos, mas podem ser objeto de citação em regulamentos técnicos.

Os estabelecimentos de produção de cerveja devem seguir procedimentos higiênico-sanitários, bem como implementar e manter as boas práticas e os procedimentos operacionais padronizados, em exigências que estão em vigor por meio de legislações sanitárias no país.

Assim, a norma, que está em fase de consulta, estabelece os requisitos para as boas práticas e os controles operacionais de processo a serem seguidos por estabelecimentos que queiram comprovar e documentar que produzem cervejas em condições higiênico-sanitárias adequadas para o consumo e com processos controlados, de forma a garantir a padronização da bebida fabricada.

Ela se aplica a todos os estabelecimentos que realizem atividades como fabricação, envase, armazenamento e expedição de cervejas fabricadas para o consumo, independentemente do tamanho e da complexidade. A norma pode ser utilizada por todos os estabelecimentos que queiram assegurar e demonstrar que as boas práticas e os controles operacionais do processo estão implementados e mantidos de acordo com os requisitos da norma, assim como por aqueles que buscam uma avaliação da conformidadedas boas práticas higiênico-sanitárias e de controles operacionais do processo.

Após alta no 1º trimestre, fabricação de alcoólicas perde força e cai 10,8%

Após um começo positivo de ano, com crescimento de 5,5% no primeiro trimestre, a fabricação de bebidas alcoólicas registrou queda de 10,8% em abril, em comparação com o mesmo período do ano anterior. Essa desaceleração também foi observada na produção industrial brasileira, que teve um declínio de 0,6% de março para abril, de acordo com a Pesquisa Industrial Mensal do IBGE.

Apesar da queda do indicador em abril, a fabricação de bebidas alcoólicas acumula um salto de 1,3% no ano. No acumulado dos últimos 12 meses, porém, o indicador ficou negativo em 0,3%.

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O recuo no ritmo da atividade no quarto mês do ano também foi observada na produção de bebidas não alcoólicas, com o segmento registrando uma variação negativa de 3,0%. Apesar do desempenho, a variação acumulada no ano ainda permanece positiva, em 2,4%. Já nos últimos 12 meses, o crescimento é de 5,5%.

De forma geral, a fabricação de bebidas teve um desempenho fraco em abril, com uma queda de 7,2% em relação ao mesmo período de 2022. No acumulado do ano, o indicador está em 1,8%. Entretanto, nos últimos 12 meses, o número ainda é positivo, com um aumento de 2,5%.

Com queda de 3,6% em relação ao mês anterior, a produção de bebidas contribuiu negativamente para a atividade industrial brasileira, que recuou 0,6% de março para abril. No mês anterior, o setor havia apresentado um avanço de 1,0%, interrompendo dois meses consecutivos de queda. Ou seja, neste ano, houve avanço da atividade em apenas um dos primeiros quatro meses.

Em comparação com abril de 2022, a indústria teve uma retração de 2,7% no seu ritmo de produção. No acumulado do ano, há uma queda de 1,0% e, nos últimos 12 meses, uma variação negativa de 0,2%. Com esses resultados, a indústria ainda está 2,0% abaixo do nível pré-pandemia (fevereiro de 2020) e 18,5% abaixo do ponto mais alto da série histórica, alcançado em maio de 2011.

Duas das quatro grandes categorias econômicas e 16 dos 25 ramos industriais pesquisados mostraram recuo na produção. Entre as atividades, as influências negativas mais significativas vieram do setor de produtos alimentícios (-3,2%).  

“Diferentemente dos últimos três meses do ano passado, quando tivemos um saldo positivo acumulado de 1,5%, no início de 2023 há uma maior presença de resultados negativos. Em abril, observamos uma maior disseminação de quedas na produção industrial, alcançando 16 dos 25 ramos industriais investigados. Esse maior espalhamento de resultados negativos não era visto desde outubro de 2022”, analisa o gerente da pesquisa, André Macedo.

Balcão da Fabiana: Temos de nos comunicar melhor sobre consumo responsável

Balcão da Fabiana: Consumo responsável – Precisamos comunicar melhor essa pauta

É muito comum em entrevistas com pessoas do segmento cervejeiro no Brasil nos depararmos com a frase: beba menos, beba melhor.

Essa espécie de mantra, embora bonitinho, se mostra totalmente afastado da realidade quando o comparamos com a prática. É discurso vazio, uma vez que dizemos uma coisa e fazemos totalmente o inverso.

A começar pelo modelo de eventos que o segmento das artesanais tem seguido ao longo dos anos. É sempre um festival ou feira com dezenas de cervejarias vendendo outra dezena de rótulos. Multiplicando o número de rótulos em oferta em tais eventos podemos ter mais de 120 cervejas oferecidas em um mesmo local ao mesmo tempo. Pensem comigo: mesmo que o consumidor queira apenas provar todas as cervejas presentes, digamos que tomando 50ml de cada uma, ao final ele terá bebido 6 litros da bebida. Sem contar que dificilmente ele conseguirá ser servido com apenas essa quantidade, afinal nem todos os eventos trabalham com o sistema de porcionamento mínimo. Em quase todas as cervejarias querem vender um copo inteiro, com no mínimo 300ml, o que é justo porque é a venda dos produtos que sustenta as empresas.

Outra situação em que a frase “beba menos, beba melhor” é esvaziada de verdade são as festas open bar. Aí é que a coisa desanda mesmo. Ao chegar à festa o convidado recebe seu próprio copo e é solto na selva, diante de inúmeros bicos e torneiras, podendo servir-se à vontade de tudo o que ali é oferecido. Não dá nem para criticar a pessoa que se deslumbra com tanta fartura. Até eu, ou você que me lê, cai nessa armadilha.

Sem contar os cervejeiros e profissionais do segmento que se mostram em público trocando as pernas, falando embolado, sendo inconveniente por ter bebido demais. Onde está o menos e melhor nesses casos?

Acho que o assunto é sério e cada vez mais precisamos ter consciência de nossa responsabilidade em incentivar o consumo responsável. É uma questão de saúde, de promoção da qualidade de vida. Não quero ser hipócrita, já que trabalho divulgando o mercado, mas tenho me sentido bastante incomodada em ser a incentivadora de um consumo exacerbado.

Não estaria na hora de repensarmos o modelo dos eventos que promovemos? Não seria o caso de alardearmos mais as cervejas sem álcool? Não poderíamos discutir amplamente o que significa beber menos para beber melhor?

Pensemos nisso. A tendência mundial é a busca de uma vida saudável, se não adaptarmos nosso discurso, mas principalmente a prática, vamos ficar ultrapassados, correndo o risco de corromper a imagem de uma cultura milenar como é a cerveja.


Fabiana Arreguy é jornalista e beer sommelière formada em 2010, pela primeira turma da Doemens no Brasil, através do Senac SP. Produz e apresenta, desde 2009, a coluna de rádio Pão e Cerveja, sendo editora de site com o mesmo nome e autora de livros. É curadora de conteúdo, consultora de cervejas especiais, proprietária da loja De Birra Armazém Cervejeiro, além de professora do Science of Beer Institute e do Senac MG, assim como juíza dos principais concursos cervejeiros brasileiros e internacionais.