As cervejas brasileiras tiveram um ótimo desempenho na etapa mundial do World Beer Awards 2026. Ao todo, as cervejarias e marcas nacionais conquistaram sete prêmios. O anúncio dos rótulos contemplados como melhores cervejas do mundo (World’s Best) e vencedoras de estilos (Style Winners) ocorreu na tarde desta quarta-feira (12) no site da competição. A maior premiada foi a Atrás do Bloco, da Cervejaria Landel, de Campinas (SP), que, além de conquistar a condecoração de melhor Milkshake IPA/New England IPA, foi vencedora do título de Melhor IPA do Mundo (World’s Best IPA). Esse é o prêmio máximo de toda a categoria de cervejas do estilo India Pale Ale do concurso no mundo.
Além do título de Melhor IPA do Mundo, as cervejarias e marcas brasileiras se destacaram na categoria IPA como um todo, faturando ao todo quatro prêmios. Além dos dois prêmios da Landel, a cerveja Therezópolis Jade, da Cervejaria Therezópolis (RJ), venceu como melhor English Style IPA. Já a Orange Kush, da Cervejaria Unika, de Rancho Queimado (SC), foi a melhor do estilo Speciality IPA.
Nas demais categorias, as cervejarias e marcas brasileiras também faturaram outros três prêmios: melhor “No & Low Alcohol Stout & Porter” foi para a Sim! Cerveja Sem Álcool (Campinas – SP) pela cerveja Coffee Dry Stout; melhor Catharina Sour para a Jane MF Sour da Cervejaria Faroeste (Itajaí – SC); e melhor Heritage Beer para a Kaptain Lisa da Cerveja Stannis (Jaraguá do Sul – SC).
Da melhor IPA do mundo para as melhores cervejas do Brasil
Na terça-feira (11), o World Beer Awards 2026 também divulgou a lista completa das cervejas premiadas na edição deste ano. Em todo o mundo, o concurso concedeu 1.775 prêmios, sendo 614 medalhas de ouro, 649 de prata e 512 de bronze. Entre as que ocupam a posição mais alta do pódio, 562 também foram condecoradas como Country Winner, ou seja, as melhores do país de origem.
Já o Brasil faturou, ao todo, 125 prêmios para 37 cervejarias e marcas diferentes: 55 medalhas de ouro, 36 de prata e 34 de bronze. Das cervejas premiadas com a condecoração de primeiro lugar, 48 foram eleitas Country Winner.
Com 17 medalhas ao todo, a cervejaria Stannis, de Jaraguá do Sul (SC), foi a cervejaria ou marca que conquistou o maior número de prêmios este ano. Foram sete de ouro e Country Winner (Brigit Ale, Gold Amélia, Kaptain Lisa, Mamma Sour, Ruby Rauch, Stannis Sem Álcool e Stannislau’s Reserve), sete de prata (Antonieta Porter, Fuerte Frida, Goddess Calíope, Mother Gaia, Scarlett Flanders, Space Nebula e St. Paddy’s) e 3 de bronze (Red Sönja, S.Low e White Rose).
Em segundo lugar, aparece a Therezópolis (RJ) com oito prêmios, sendo três de ouro e Country Winner (Ebenholz, Jade e Rubine), quatro medalhas de prata (Gold, Or Blanc, Saphir e Sem Glúten) e uma de bronze (Elfenbein). Ela ficou imediatamente à frente da Salva de Bom Retiro do Sul (RS), que também tem oito no total, mas tem menos medalhas de prata. A marca gaúcha conquistou três de ouro e Country Winner (Cajuzada Sem Álcool, Cow me Baby e Limonada de Morango), duas de prata (A Gente Queria Mais Pimenta Mas o Adriel Não Deixou e American Pale Ale) e três de bronze (Cajuzada de Morango, Salva d’Ouro e Scotch Ale).
Confira as melhores cervejas do Brasil que entraram no World’s Best:
World’s Best IPA – Landel – Atrás do Bloco
World’s Best Milkshake IPA/New England IPA – Landel – Atrás do Bloco
World’s Best English Style IPA – Therezópolis – Jade
World’s Best Speciality IPA – Cervejaria Unika – Orange Kush
World’s Best No & Low Alcohol Stout & Porter – Sim! Cerveja Sem Álcool – Coffee Dry Stout
World’s Best Catharina Sour – Faroeste – Jane MF Sour
World’s Best Heritage Beers – Cerveja Stannis – Kaptain Lisa
Confira o resultado completo de cada país no documento abaixo:
O mercado internacional de bebidas alcoólicas registrou retrações significativas e mudanças estruturais em 2025. De acordo com dados oficiais divulgados pelo Eurostat, o órgão de estatísticas da União Europeia (UE), o bloco exportou 3,2 bilhões de litros de cerveja com teor alcoólico para fora de suas fronteiras em 2025, o que representa um recuo expressivo de 11% em relação ao ano anterior. Em contrapartida, as importações europeias provenientes de países de fora do bloco registraram alta de 6%, totalizando meio bilhão de litros.
No cenário europeu, a Bélgica consolidou-se como o maior exportador de cerveja (incluindo comércio intra e extra União Europeia), comercializando um total de 1,5 bilhão de litros. Logo atrás aparecem os Países Baixos, com 1,4 bilhão de litros, e a Alemanha, com 1,3 bilhão de litros. A Tchéquia (República Checa) e a Irlanda completam o topo do ranking de exportações, com 0,6 bilhão de litros cada.
Pelo lado das compras, a França liderou como a principal importadora de cerveja com álcool do continente, adquirindo 0,9 bilhão de litros, seguida pela Itália, com mais de 0,7 bilhão de litros, e pela Alemanha e Espanha, com 0,6 bilhão de litros cada.
Barreiras tarifárias e as exportações dos Estados Unidos
A desaceleração não se limitou ao mercado europeu. Nos Estados Unidos (EUA), o impacto de disputas comerciais e políticas tarifárias severas resultou em uma queda nas exportações de bebidas. Dados do U.S. Census Bureau publicados pelo site Vinepair revelam que a categoria de “Vinhos, cervejas e produtos correlatos” despencou US$ 472 milhões em 2025, uma redução de 26% em relação a 2024, totalizando US$ 1,2 bilhão.
O segmento de vinhos foi o mais severamente atingido, registrando uma perda de US$ 428 milhões (uma retração de 33,5% frente ao ano anterior). Outras bebidas alcoólicas, excluindo vinhos, também encolheram US$ 215 milhões em relação a 2024, fechando o ano com US$ 2,8 bilhões exportados.
Do lado das importações norte-americanas, o impacto também foi bilionário: as compras externas de vinhos, cervejas e afins recuaram US$ 1,1 bilhão, enquanto outras bebidas alcoólicas tiveram uma queda de US$ 3,1 bilhões nas importações.
Analistas associam esse colapso exportador às tarifas recíprocas agressivas adotadas pelo governo Trump em abril de 2024, que geraram boicotes internacionais e impulsionaram campanhas de consumo local em mercados estratégicos, como o Canadá. As exportações de vinho americano para o mercado canadense, seu principal cliente, derreteram 76,8%. Apesar de a Suprema Corte ter derrubado as tarifas originais em fevereiro de 2026, a incerteza comercial permanece alta após o anúncio subsequente de novas alíquotas globais de 10% a 15%.
Cervejas da União Europeia e EUA no Brasil
No Brasil, os reflexos desse cenário global geraram mudanças no fluxo de importações registradas pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) no Anuário da Cerveja 2026. Em 2025, o volume total de cerveja importada pelo Brasil saltou de 7,49 milhões de litros em 2024 para expressivos 26,32 milhões de litros, uma alta de 251,4%.
Curiosamente, essa enxurrada de cerveja estrangeira não veio acompanhada de um aumento proporcional nos gastos: o Brasil desembolsou US$ 9,41 milhões em compras, apenas 1,7% a mais que no ano anterior, resultando em um preço médio histórico de apenas US$ 0,36 por litro importado.
Essa distorção de preços é amplamente explicada pelas importações vindas dos Estados Unidos, que se tornaram a principal origem de cerveja importada pelo Brasil em volume, com 19,53 milhões de litros (representando 74,2% de toda a cerveja estrangeira que entrou no país). Essa marca representa uma explosão de 13.178% frente aos 147.099 litros importados dos EUA em 2024. O dado mais intrigante é o financeiro: o valor total gasto com o produto americano foi de apenas US$ 276.381, uma vez que a cerveja foi adquirida a um preço médio irrisório de US$ 0,01 por litro.
Por outro lado, o comércio tradicional e de maior valor agregado com a Europa manteve-se altamente relevante. Das 15 principais origens de cerveja importada pelo Brasil, 9 são países europeus. A Alemanha lidera com folga em valor monetário, representando sozinha 34,4% de todo o montante gasto pelo Brasil com cervejas importadas, faturando US$ 3,24 milhões por um volume de 2,26 milhões de litros (com preço médio qualificado de US$ 1,43/litro).
A Espanha aparece em seguida entre os fornecedores europeus com 673.001 litros (gerando US$ 895.977), acompanhada pelos Países Baixos (241.382 litros, a US$ 2,06/L), Portugal (216.934 litros, a US$ 1,09/L), Irlanda (180.766 litros, a US$ 1,78/L), Bélgica (128.191 litros, a US$ 3,25/L), República Tcheca (96.088 litros) e Reino Unido (94.369 litros).
O consumidor de cervejas está mudando. O crescimento de produtos que respondem à maior preocupação do público com saúde, bem-estar e moderação, bem como o interesse por outras bebidas, como os drinks prontos para beber (RTDs, na sigla em inglês), são exemplos disso. Se antes só as grandes indústrias investiam nessas tendências, hoje já é possível notar que cervejarias artesanais estão se transformando em verdadeiras indústrias de bebidas para se adaptar aos novos padrões de consumo e aproveitar essas oportunidades. As estratégias são variadas, mas passam por diversificar o portfólio e otimizar a estrutura industrial já existente.
Os números estão aí para quem quiser ver. Segundo o mais recente relatório da IWSR, uma das principais referências de mercado no setor, os RTDs superaram pela primeira vez a marca de 1 bilhão de caixas consumidas globalmente em 2025. O destaque vai para os coquetéis em lata, que saltaram 14% em volume no último ano no mundo. A mesma pesquisa aponta ainda que as projeções apontam que a cerveja sem álcool deve dobrar de volume no mundo, saltando de 2% para 4% do volume total consumido até 2033.
As ações da grande indústria também mostram essa mudança. O Grupo Heineken lançou na semana passada a plataforma +Equilíbrio, área que vai concentrar os produtos com foco na tendência de bem-estar (wellness). São produtos como a nova Heineken Ultimate, com 30% menos calorias, as cervejas sem álcool, a exemplo da Heineken 0.0, e sem glúten, como Sol, Praya e Amstel Ultra.
Entre as cervejarias artesanais, a paulista Cervejaria Tarantino acabou de terminar uma reforma em suas instalações. Ela uniu forças com a WeBev para integrar a produção e distribuição de cervejas às linhas de bebidas não alcoólicas e funcionais. Mas existe também quem tenha visto essa tendência chegar há mais tempo. A mineira Verace investiu em destilaria própria e maquinário de envase exclusivo para abocanhar o mercado de drinks prontos em lata desde 2020, ano marcado pela pandemia de Covid-19.
Cervejaria Tarantino e os não-alcoólicos
A transformação da Cervejaria Tarantino começou a partir da relação entre o sócio-proprietário Isaac Deutsch e Raphael Hennies, da WeBev. Ambos se conheceram enquanto trabalhavam com uma terceira distribuidora. Naquele momento, os empresários identificaram que a distribuição própria constituía um pilar essencial para o crescimento de suas marcas. Para solucionar essa demanda, eles criaram uma estrutura própria e focada no portfólio conjunto da Tarantino e da WeBev. A parceria, que iniciou pela distribuição, evoluiu rapidamente para a integração da produção física.
Isaac explica que hoje o projeto une a experiência da Tarantino em cervejas e sua robusta estrutura industrial ao conhecimento de mercado da WeBev em bebidas não alcoólicas e funcionais, representadas pelas marcas Puro Verde e Amaz. As duas empresas compartilham integralmente a produção, a logística e a atuação comercial, consolidando uma plataforma de bebidas muito mais robusta e completa.
Amaz é energético funcional feito com ingredientes amazônicos orgânicos, naturais e agroflorestais da WeBev, parceira da Cervejaria Tarantino (Crédito: Divulgação)
“Para as cervejarias artesanais, diversificar o portfólio também é uma forma de aproveitar melhor a estrutura industrial e buscar novas fontes de crescimento. Mas não basta ter capacidade de produção. É preciso conhecer cada categoria, entender o consumidor e saber como competir nos pontos de venda”, diz o sócio-proprietário da Tarantino.
Verace, os destilados e RTDs
No mercado mineiro, a Cervejaria Verace, localizada em Nova Lima, trilhou o caminho da diversificação focada em bebidas mistas gaseificadas (RTDs). O sócio-proprietário e cervejeiro Túlio Silva revela que a ideia surgiu no segundo semestre de 2020, durante o primeiro ano da pandemia de COVID-19. Diante do cenário de incertezas e do modelo de “abre e fecha” do comércio, a diretoria buscou prever o comportamento do mercado na retomada para preparar a fábrica com antecedência.
A empresa avaliou dois cenários: completar a adega com novos tanques para ampliar a capacidade de cerveja ou iniciar a produção de bebidas mistas. Sinais fortes do mercado de Belo Horizonte apontaram para a segunda opção. O primeiro sinal veio do Carnaval de rua da capital mineira, onde o consumo de bebidas mistas em latas e plásticos é massivo devido à proibição de recipientes de vidro. O segundo sinal foi o sucesso local do Xeque Mate (bebida mista de chá-mate, guaraná, rum e limão).
Túlio já havia observado essa tendência em 2015, na feira de Nuremberg, na Alemanha, onde indústrias craft compravam equipamentos de destilaria para fabricar bebidas diferenciadas. Para tirar o projeto do papel, a Verace realizou processos de licenciamento, preparação de layout e comprou maquinários específicos. A empresa adquiriu uma enlatadora isobarométrica dedicada exclusivamente aos drinks e instalou uma área de destilaria com um destilador próprio para produzir o gin e a vodka que servem de base para as receitas. O próprio Túlio especializou-se e fez o curso de mestre destilador.
Atualmente, com pouco mais de quatro anos nesse segmento, as bebidas mistas representam entre 15% e 20% do volume de vendas financeiro da Verace. O portfólio conta com dois destilados puros (gin e vodka) e cinco opções de RTDs em lata. A empresa já está na segunda geração de drinks — do portfólio inicial de dez produtos, apenas um restou, enquanto os outros quatro atuais já pertencem à nova fase — e a equipe já desenvolve a terceira geração.
O Gimbrado da Cervejaria Verace é um RTD feito com gin autoral, limão siciliano e bitter de laranja, com 7,9% (Crédito: Divulgação)
Um dos grandes diferenciais da Verace é o fornecimento de drinks em barril (granel). Isso permite que os bares locais dediquem torneiras (taps) para servir drinks prontos com agilidade. A praticidade beneficia os donos de bares, que não precisam contratar mixologistas ou estocar frutas frescas, garantindo um produto padronizado.
“Apesar desse tipo de bebida ser feita dentro da mesma fábrica, o mercado e o consumidor são diferentes. A única coisa que eles têm em comum muitas vezes é o fato de irem ao ponto de venda para beberem juntos”, conta Tulio. “Eu acho que abrir mão desse tipo de produto hoje é abrir mão de faturamento e de maior presença no mercado”, finaliza.
Dicas para cervejarias artesanais
Para as cervejarias artesanais que planejam expandir o portfólio e ingressar no mercado de novas bebidas, os empresários Isaac Deutsch e Túlio Silva compartilham recomendações fundamentais:
Pense primeiro no comercial e no consumidor: Isaac Deutsch alerta que a estratégia comercial, o posicionamento de marca e o entendimento do público-alvo devem vir antes do desenvolvimento da produção. Embora muitas cervejarias artesanais consigam fabricar outras bebidas com poucas adaptações técnicas, a capacidade fabril por si só não garante o sucesso de vendas no ponto de venda.
Busque parceiros experientes: Isaac reforça que colaborar com parceiros experientes nas categorias desejadas acelera o aprendizado, evita erros operacionais, reduz investimentos desnecessários e gera economias de escala na produção, logística e distribuição. Já Túlio Silva diz que é perfeitamente viável produzir drinks comprando o destilado base a granel de terceiros e que casas de aroma (como a francesa Givaudan e a brasileira Duas Rodas) têm muito o que explorar e até relatórios anuais de tendências de consumo. A Verace mantém, inclusive, um profissional formado dedicado exclusivamente a realizar experimentos com esses insumos e acompanhar as rápidas mudanças de preferência do consumidor.
Destilados versus RTDs: Túlio destaca que os produtos que realmente trazem volume de vendas, margem financeira e sucesso comercial são os RTDs. O mercado de destilados puros em garrafa é extremamente fechado e dominado por grandes multinacionais ou marcas de baixo custo, o que dificulta a competição de preços para produtores menores.
Quando se discute a tributação da cerveja, é natural que a atenção se volte para as alíquotas incidentes sobre o produto. Entretanto, saber qual percentual é aplicado nem sempre basta para compreender o peso efetivo do tributo. Antes da alíquota, existe outra pergunta igualmente importante: sobre qual valor o imposto será calculado? Essa questão ganha especial relevância no regime de substituição tributária do ICMS.
Na chamada substituição tributária “para frente”, um contribuinte situado no início da cadeia (o fabricante, por exemplo) fica responsável por recolher não apenas o ICMS de sua própria operação, mas também o imposto que se presume devido nas vendas posteriores.
Na prática, o Estado antecipa a arrecadação que ocorreria nas operações realizadas por distribuidores, atacadistas, supermercados, bares e outros estabelecimentos. O objetivo é facilitar a fiscalização, concentrando o recolhimento em um número menor de contribuintes.
Como essas vendas futuras ainda não ocorreram, é necessário estimar por quanto o produto chegará ao consumidor final. É justamente nesse ponto que surge o Preço Médio Ponderado a Consumidor Final, conhecido pela sigla PMPF.
Problemas da Substituição Tributária na cerveja
O PMPF é uma das formas utilizadas pelo Fisco para definir a base de cálculo presumida sobre a qual será recolhido antecipadamente o ICMS-ST. A Lei Complementar nº 87/1996 permite que essa base seja estabelecida por diferentes critérios, como preços fixados pelo poder público, preços sugeridos pelo fabricante ou margens calculadas a partir dos valores praticados no mercado.
Um dos grandes problemas desse sistema é que o PMPF não consegue reproduzir individualmente cada operação. Ele busca representar, com base em pesquisas, uma média dos preços praticados no mercado. Mas, na prática, o mercado cervejeiro está longe de ser uniforme. Uma mesma cerveja pode ter valores diferentes em supermercados, lojas especializadas, bares, restaurantes ou na venda direta realizada pela própria cervejaria. Promoções, custos logísticos, diferenças regionais e estratégias comerciais também interferem no preço final. Quanto mais diversificados forem os produtos e os canais de venda, maior será o desafio de transformar essa realidade em uma única referência presumida.
Assim, pode ocorrer da base presumida ser superior ao preço efetivamente praticado no mercado. Nesse caso, o imposto antecipado pode representar um peso econômico maior do que aquele correspondente à operação real. A situação pode ser especialmente sensível para cervejarias que trabalham com promoções, produtos sazonais, venda direta ou canais nos quais o preço final se distancia da média apurada pelo Fisco.
Além disso, as regras não são uniformes em todo o país. Cada estado possui legislação e procedimentos próprios, enquanto operações interestaduais podem envolver convênios e protocolos celebrados no âmbito do Confaz. Assim, uma cervejaria que comercializa seus produtos em diferentes estados pode estar sujeita a bases de cálculo, obrigações e mecanismos de recolhimento distintos.
Ao analisar esse tipo de caso, o Supremo Tribunal Federal reconheceu que é devida a restituição da diferença do ICMS pago a maior quando a base de cálculo efetiva da operação for inferior à presumida. Isso não significa, entretanto, que a recuperação ocorra de forma automática. Os procedimentos dependem da regulamentação de cada estado e da documentação necessária para demonstrar os preços efetivamente praticados.
Pelo outro lado da moeda, ou seja, quando o valor presumido for inferior ao preço efetivamente praticado no mercado, existem estados que exigem complementação. Também há alguns estados que instituem regimes facultativos nos quais o contribuinte pode renunciar à restituição em troca da dispensa dessa complementação.
Enfim, o PMPF demonstra que o valor do imposto não é definido apenas pela alíquota. A base de cálculo, a classificação do produto, sua embalagem, o volume, o estado de destino e a posição ocupada pela empresa na cadeia podem ser igualmente decisivos.
A questão na cerveja
No setor cervejeiro, isso exige acompanhamento constante. As listas estaduais são extensas, recebem atualizações e podem incluir novos produtos ou alterar referências já existentes. Informações fiscais desatualizadas podem gerar recolhimentos incorretos, distorcer margens e criar riscos em uma futura fiscalização.
Compreender a tributação da cerveja, portanto, exige ir além do percentual previsto na legislação. Na substituição tributária, tão importante quanto saber quanto o estado cobra é conhecer o preço que ele presume ter sido praticado. E esse preço nem sempre é o mesmo que aparece na nota fiscal, na gôndola ou no cardápio.
Clairton Gamaé advogado e sócio do escritório Kubaszwski Gama Advogados Associados. Possui mestrado em Direito pela UFRGS e é especialista em Direito Tributário pelo IBET. Além disso, é cervejeiro caseiro.
* Este é um texto de opinião. As ideias e informações nele contidas são de responsabilidade do colunista ou articulista e não refletem necessariamente o ponto de vista do Guia da Cerveja.
Uma pesquisa aprovada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) receberá mais de R$ 400 mil para estudar as características da cerveja Manipueira Selvagem. O projeto, intitulado “Caracterização Multiômica e Mapeamento Integrado do Terroir da Manipueira Selvagem: Uma Nova Cerveja Brasileira de Fermentação Espontânea”, tem como objetivo consolidar a bebida como o novo estilo de cerveja nacional. Coordenado pelo professor Jean Carlos Rodrigues da Silva, o estudo será desenvolvido no Centro Multidisciplinar de Tecnologia Cervejeira (CTCerv) do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), em Sertãozinho (SP). A iniciativa reúne cientistas do IFSP, da Universidade de São Paulo (USP) e das cervejarias Cozalinda, de Florianópolis (SC), e Uçá, de Sergipe.
Com duração prevista de três anos, o estudo acompanhará duas safras consecutivas de cerveja Manipueira Selvagem em São Paulo, Santa Catarina e Sergipe. Os pesquisadores vão comparar a fermentação realizada em barris de madeira com a efetuada em recipientes de polipropileno. O procedimento permitirá avaliar a influência da microbiota residente na madeira, na manipueira e no ambiente sobre o produto final. Serão coletadas amostras desde a obtenção do insumo até o envase da cerveja para análises físico-químicas, microbiológicas, metagenômicas, metabolômicas e sensoriais.
A iniciativa pretende fornecer fundamentação científica para reconhecer a Manipueira Selvagem como estilo próprio no mercado internacional. Atualmente, a Catharina Sour figura como o único estilo brasileiro reconhecido em guias internacionais de cerveja. A pesquisa busca valorizar microrganismos locais, promover a bioeconomia no setor artesanal e desafiar a ideia de que a cerveja não possa ter terroir. Para a Abracerva, o projeto fortalece a identidade da produção nacional ao utilizar insumos e saberes ancestrais da cultura alimentar do País.
O estilo de cereja Manipueira Selvagem
O Projeto Manipueira Selvagem utiliza o líquido resultante da prensagem da mandioca na produção de farinha para promover a fermentação espontânea de mostos cervejeiros. O processo de maturação ocorre em barris de madeira ao longo de 12 meses. A proposta nasceu de uma parceria entre a Cozalinda e a Cervejaria Zalaz, de Paraisópolis (MG), sendo posteriormente ampliada em âmbito nacional pela Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva). A primeira safra de Manipueira Selvagem foi lançada em 2023, reunindo mais de 50 cervejarias de diversos estados brasileiros.
Brasileiros gastaram R$ 13 bilhões com cerveja em 12 meses, mostra Pesquisa CREST
Os consumidores brasileiros movimentaram cerca de R$ 13 bilhões com cerveja no período de 12 meses encerrado em junho de 2026. Segundo levantamento da Pesquisa CREST (Consumer Reports on Eating Share Trends), realizada em parceria com o Instituto Foodservice Brasil e a Gouvêa Inteligência, a cifra representa uma alta de 17% em relação aos R$ 11,11 bilhões registrados em igual intervalo concluído em junho de 2025. O volume total de operações no setor, contudo, recuou 3% no período analisado, somando 369,2 milhões de transações.
As refeições noturnas lideram as ocasiões de consumo do produto, com 60% do total de vendas. Entre os canais de compra, os bares lideram o mercado ao concentrar 33% da demanda, seguidos por supermercados e hipermercados, que somam 15%. O perfil dos consumidores brasileiros é majoritariamente masculino, parcela que representa 61% do volume comprado. Além disso, a faixa etária compreendida entre 35 e 59 anos responde por 66% de todo o consumo registrado no país.
A conveniência e o hábito figuram como os fatores determinantes para a compra da bebida entre os brasileiros. A conveniência foi apontada por 54% dos entrevistados no estudo, enquanto o hábito motivou a decisão de 53% dos consumidores. Na comparação interanual encerrada em junho, o fator hábito acusou expansão de 14%, consolidando sua relevância entre os vetores de consumo da categoria em refeições e encontros sociais.
Festa All Beers Sessions chega pela primeira vez a Curitiba
Curitiba (PR) recebe no sábado (15) a primeira edição local do All Beers Sessions, festival open bar promovido pelo portal All Beers. O evento será realizado na Fumaçônica Brewhouse, das 12h30 às 17h30, reunindo rótulos de mais de 50 cervejarias nacionais e internacionais. Os ingressos do segundo lote custam R$ 280 na plataforma Sympla e dão direito a um copo exclusivo de vidro. A atração marca também o lançamento da marca colaborativa ABS Wood Aged, criada junto às cariocas Pakas e Indigo.
Ambev e AB InBev lançam campanha global Cheers to Beer
A Ambev e a AB InBev apresentaram no mês da cerveja a campanha global Cheers to Beer, desenvolvida pela agência Wieden+Kennedy. A iniciativa destaca a relevância social e econômica da bebida, acompanhando transformações no perfil do consumidor, como a busca por moderação. Segundo dados da consultoria IWSR, cerca de 93% do volume total das bebidas sem álcool pertence à categoria cervejeira. No Brasil, o segmento premium da Ambev cresceu na casa dos 20% no segundo trimestre de 2026, enquanto as opções sem álcool avançaram 30% no período.
Roda sensorial de produtos lupulados obtém registro no INPI e ganha versão impressa
A Roda Sensorial para Produtos Lupulados, desenvolvida em projeto de pós-doutorado da UFSC e liderada pela pesquisadora Amanda Felipe Reitenbach, teve seu registro de desenho industrial concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). A ferramenta, mantida em cotitularidade com a UnB e a Cervejaria Kairós, ganhou versão impressa em formato de jogo americano para uso direto em balcões, salas de treinamento e degustações guiadas. O material reúne descritores técnicos para cervejas, chás e kombuchas, podendo ser baixado gratuitamente no site do Science of Beer.
Ambev celebra Mês da Cerveja com visitas e tour virtual
A Ambev abriu suas cervejarias para visitação pública em Jaguariúna (SP), Agudos (SP), Rio de Janeiro (RJ) e Ponta Grossa (PR). As experiências presenciais acontecem aos sábados ao longo de agosto, com harmonizações guiadas. A unidade de Ponta Grossa também promoverá tours virtuais e gratuitos nas terças-feiras, nos dias 11 e 25. As inscrições presenciais devem ser feitas no site da Ambev, enquanto as sessões virtuais estão disponíveis pela Sympla. Todas as atividades são destinadas a maiores de 18 anos.
Heineken 0.0 e Strava ampliam projeto Finish Line Detour
A Heineken 0.0 e o aplicativo Strava expandiram a iniciativa Finish Line Detour para Curitiba (PR), Belo Horizonte (MG) e Porto Alegre (RS), além de ampliar os pontos parceiros em São Paulo (SP) e no Rio de Janeiro (RJ). O projeto conecta trechos de corrida no aplicativo a bares e cafés, onde o atleta pode retirar uma garrafa de Heineken 0.0 sem álcool após o treino. Criada pela agência LePub São Paulo, a ação estimula a socialização no pós-treino. Os interessados devem acessar o desafio na página da Heineken no Strava para validar a participação.
Lagunitas convoca o Cãodidato no IPA Day e promove feira de adoção em São Paulo
Para celebrar o IPA Day e o Dia Internacional da Cerveja, a Lagunitas, marca do Grupo Heineken, iniciou uma campanha estrelada pelo personagem Cãodidato com ações em oito bares parceiros e promoções no iFood até o dia 30 de agosto. As ativações contemplam endereços em São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Vitória (ES), Belo Horizonte (MG) e Curitiba (PR), com foco no rótulo Lagunitas DayTime, cerveja do estilo Session IPA que conta com teor alcoólico de 4% e 98 calorias por lata.
Além da ação nos bares, a cervejaria promoveu no sábado (8) uma feira de adoção responsável de cães na capital paulista, em parceria com a ONG Amigos de São Francisco. O evento foi realizado na Heineken House, localizada no Parque Villa-Lobos, das 11h às 16h, e reuniu dez animais resgatados. A seleção dos novos tutores seguiu a política de avaliação da entidade, com aplicação de entrevista prévia e taxa de adoção de R$ 200 destinada ao custeio de tratamentos veterinários.
Brahma lança campanha para a Festa do Peão de Barretos
A Brahma apresentou o filme da campanha Todas as Estradas Te Levam Pra Barretos, que marca a atuação da cervejaria na 71ª Festa do Peão de Barretos. Desenvolvida pela agência Africa Creative, a produção teve gravações em Senador Canedo (GO) e Goiânia (GO). A estratégia inclui veiculação em TV aberta, rádio e mídias digitais, além do lançamento de uma lata comemorativa em edição limitada. O vídeo promocional está disponível no canal da Brahma no YouTube.
Mestre cervejeiro indica harmonizações gastronômicas de até R$ 25
O mestre cervejeiro Alexandre Esber, da Academia da Cerveja, apresentou sugestões de harmonização de pratos populares com diferentes estilos da bebida para o Dia da Cerveja, celebrado na sexta-feira (7). As propostas combinam opções de até R$ 25 com rótulos da Ambev. Entre as indicações estão salada de bacalhau com Skol Zero Zero, spaghetti cacio e pepe com Stella Artois Pure Gold, sanduíche caprese com Michelob Ultra e brigadeiro de panela com a cerveja Caracu. O guia visa demonstrar a acessibilidade de combinações gastronômicas simples.
Zé Delivery oferece descontos de até 40% no Mês da Cerveja
O aplicativo Zé Delivery realiza promoções de até 40% de desconto em rótulos de cerveja durante o mês de agosto em comemoração ao Dia Internacional da Cerveja, celebrado na sexta-feira (7). As ofertas abrangem marcas como Stella Pure Gold Long Neck, Michelob Ultra Long Neck, Corona Cero Long Neck e Spaten, acompanhando o crescimento de 60% do segmento de bebidas sem álcool, sem glúten ou de baixa caloria no segundo trimestre do ano. A categoria de bebidas conhecidas como wellness representa cerca de 7% do volume comercializado pela plataforma, presente em mais de 850 municípios brasileiros.
iFood registra venda de mais de 28 milhões de cervejas em 2026
A plataforma de entregas iFood registrou a comercialização de mais de 28 milhões de unidades de cerveja no Brasil no primeiro semestre de 2026, montante que representa alta superior a 100% nas verticais de Mercado e Bebidas & Conveniência em relação a igual período do ano passado. Os pedidos de opções zero álcool acusaram avanço de 38% de janeiro a junho, totalizando 730 mil unidades entregues no país. O levantamento apontou ainda que São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ) e Belo Horizonte (MG) lideram o consumo da bebida no aplicativo, com concentração de 56% das vendas nos fins de semana.
Mamba Water Protein ganha prêmio de inovação em bebidas
A suplementação líquida Mamba Water Protein foi eleita Inovação do Ano na categoria Bebidas pela premiação (IN)Nova, promovida pela empresa de inteligência de mercado Scanntech. Comercializado em lata de alumínio, o produto integra o portfólio da marca Mamba Water dentro do ecossistema Heineken SPIN e contém 20 gramas de proteína de colágeno, BCAA, sem adição de açúcares, glúten ou lactose. A distribuição nacional da marca é feita pelo Grupo Heineken em canais físicos e plataformas digitais.
Grupo Petrópolis renova embalagem da cerveja Itaipava Premium
O Grupo Petrópolis apresentou a nova identidade visual da Itaipava Premium, desenvolvida para reforçar a presença do rótulo no segmento de cervejas de alta gama e na gastronomia de botequim. A mudança da embalagem chega aos pontos de venda em agosto, mês em que se comemora o Dia Internacional da Cerveja, celebrado na sexta-feira (7). A bebida do estilo American Lager é produzida com lúpulos alemães e maturação prolongada em comparação ao portfólio tradicional da marca.
Heineken lança nova fase da campanha Fãs Têm Mais Amigos
A cervejaria Heineken iniciou a nova fase da campanha Fãs Têm Mais Amigos na quinta-feira (6), com foco em eventos musicais e festivais de grande porte. O filme publicitário foi desenvolvido pela agência LePub Milão, com adaptação nacional assinada pela LePub São Paulo. A estratégia inclui a criação da Loudest Playlist no Spotify durante o Rock in Rio Brasil 2026, evento que marca 15 anos de patrocínio da marca ao festival de música.
Bodebrown promove Growler Day de Dia dos Pais em Curitiba
A cervejaria Bodebrown realiza no sábado (8) o Growler Day do Dia dos Pais em Curitiba (PR), das 9h às 18h, na sede da fábrica no bairro Hauer. O evento presencial tem entrada gratuita e oferece 14 opções de chope nas torneiras, além de apresentações musicais das bandas Motormouse e King Nothing a partir das 14h. A programação conta com visita guiada pela linha de produção a R$ 65 por pessoa e arrecadação de alimentos não perecíveis destinados a entidades assistenciais parceiras.
(*) Por Márcio Maciel, Gilberto Tarantino e Paulo De Tarso Petroni
Neste Dia Internacional da Cerveja, é importante ampliar o olhar a partir de uma perspectiva mais completa. Afinal, estamos falando de uma bebida milenar, presente na trajetória humana há 7 mil anos, e que exerce papel incomparável na convivência social e impacto relevante na economia, contribuindo com US$ 878 bilhões para o PIB global e empregando 33 milhões de pessoas mundo afora, segundo estudo da Oxford relativo a 2023.
No Brasil, é sinônimo inequívoco de encontro, diversidade, criatividade, inovação e trabalho. Poucos produtos representam de forma tão clara a conexão entre tradição e contemporaneidade. A cerveja está presente em momentos de celebração, de relaxamento e de convívio. Percorre uma vasta cadeia produtiva do campo ao copo: começa nos insumos como cevada e lúpulo, passa pela indústria e pela logística, movimenta o comércio, bares e restaurantes, e chega à mesa de milhões de brasileiros.
Somos o terceiro maior produtor mundial de cerveja, atrás apenas de duas potências globais — China e Estados Unidos — respondendo por 8% da produção global, segundo relatório recém-divulgado da BarthHaas. Trata-se de um setor com forte capilaridade econômica e regional: são 1.954 cervejarias em operação, distribuídas por 794 municípios, com presença em mais de 1,2 milhão de pontos de venda e atuação de Norte a Sul do país.
Essa presença se traduz em impacto concreto sobre a economia e o desenvolvimento. A cadeia cervejeira responde por cerca de 2% do PIB, gera 2,5 milhões de empregos diretos, indiretos e induzidos e recolhe aproximadamente R$ 50 bilhões por ano em tributos.
Os números superlativos não param por aí: no ano passado foram produzidos 15,6 bilhões de litros. São mais de 56 mil marcas e 44 mil produtos registrados, em uma demonstração inequívoca do dinamismo do nosso mercado e da imensa oferta de sabores, inclusive artesanais com frutas típicas brasileiras, ervas, especiarias, mel e café.
Além disso, a despeito de tantos desafios que marcam o nosso país, a indústria cervejeira segue acreditando no Brasil, com investimentos que superam R$ 15 bilhões nos últimos três anos em novas fábricas e linhas de produção. Somos um país com líderes talentosos, que hoje comandam operações no exterior das maiores companhias globais de bebidas frias.
Tudo isso se reflete em um portfólio cada vez mais diverso, que respeita escolhas individuais e amplia as ocasiões de consumo. O crescimento das cervejas sem álcool, de baixo teor alcoólico e sem glúten mostra que a moderação já está acontecendo na prática, impulsionada por inovação, tecnologia e novas preferências do consumidor. Além disso, as empresas do setor têm investido em comunicação responsável, campanhas educativas, rotulagem informativa e ações de conscientização em grandes eventos, integrando o consumo moderado à sua agenda ESG.
Celebrar a cerveja nesta data especial é também reconhecer o papel de uma cadeia produtiva que gera renda, inovação, empreendedorismo e encontros em todo o país, tirando as pessoas do isolamento social e das telas que consomem o nosso tempo. É valorizar uma bebida que faz parte da cultura brasileira e que simboliza a moderação. Em um país plural como o Brasil, a cerveja segue sendo, acima de tudo, um símbolo de convivência — e convivência, para ser positiva, precisa caminhar junto com responsabilidade, valor indissociável para a nossa indústria. Um brinde à cerveja brasileira!
(*) Márcio Maciel, Gilberto Tarantino e Paulo De Tarso Petroni são, respectivamente, presidente-executivo do Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja (Sindicerv), presidente da Associação Brasileira da Cerveja Artesanal (Abracerva) e presidente da Associação Brasileira da Indústria Cervejeira (CervBrasil).
* Este é um texto de opinião. As ideias e informações nele contidas são de responsabilidade do colunista ou articulista e não refletem necessariamente o ponto de vista do Guia da Cerveja.
As coincidências são muitas para serem ignoradas: a cerveja IPA tem tudo a ver com os pais aqui no Brasil. Duvida? Vamos aos fatos. O Dia dos Pais e o Dia Internacional da IPA ficam no mesmo mês no calendário: agosto. Além disso, as duas são datas móveis que ficam pertinho uma da outra: o primeiro é comemorado todo segundo domingo (dia 9 este ano); o segundo, na primeira quinta-feira (hoje, dia 6). Além disso, não sei se você já notou, a sigla IPA (India Pale Ale) e a palavra PAI têm as mesmas três letras. De uma para a outra é só descolar o “I” para o final.
Dados todos esses acasos — poderíamos até chamar de destino! — nada mais justo do que indicar bons rótulos de cerveja IPA para agradar os pais na sua data especial e, de quebra, comemorar a efeméride cervejeira.
Mas há um desafio. Pais são muito diferentes entre si. Felizmente, esse estilo de cerveja tem inúmeras variações, vamos dizer assim. O que é ótimo para agradar diferentes paladares e personalidades paternas.
Confira a seleção do Guia da Cerveja.
Pai tradicional — IPA sem álcool
Esse tipo de pai é responsável, chefe de família e não raramente também o motorista da vez. Estando na boleia ou tendo que trabalhar no dia seguinte sem ressaca, as cervejas sem álcool são ótimas opções para ter sempre à mão. E que bom que hoje há muito mais opções e com sabor muito melhor do que há anos.
E justamente por isso, a IPA sem álcool não precisa ser consumida apenas como alternativa por conta de uma restrição, como dirigir. Pode ser uma opção não beber ou beber menos. Existe hoje uma tendência de moderação, que pode ser atingida também alternando entre cervejas com e sem álcool (técnica conhecida como zebra striping, que consiste em alternar entre cervejas com e sem álcool). Na prática, você diminui a quantidade de etanol aproximadamente pela metade. Outro fato interessante é que, sem o álcool, esse tipo de cerveja também tem quantidade de calorias reduzida, ótimo para manter a forma.
A indicação é a IPA Zero da cervejaria Campinas (SP), multipremiada em diversas competições na categoria sem álcool, como World Beer Awards, Brasil Beer Cup e Concurso Brasileiro de Cervejas.
Infelizmente, apesar de haver várias Pilsen sem álcool, os supermercados ainda não possuem muitas opções de cervejas de outros estilos nessa categoria.
Pai tranquilão — Session IPA
Esse tipo de pai é “de boa”, normalmente também é boa praça e conta com muitos amigos. Pode também ser uma versão de férias do pai tradicional, quando está com menos responsabilidades nos ombros. Ele gosta de uma cervejinha, mas não pode exagerar — precisa estar bem nos compromissos de família, cuidar das crianças e não ficar de ressaca no dia seguinte. Uma boa solução são as Session IPAs, versões desse estilo com no máximo 5% de álcool (as tradicionais podem chegar a 7,5%). Ou seja, dá para beber por mais tempo e aproveitar o evento com moderação.
Muitas cervejarias têm ótimos rótulos nesse estilo. A indicação é Reptilia, da cervejaria Unika, de Rancho Queimado (SC). Ela foi vencedora da medalha de ouro nessa categoria no Concurso Brasileiro de Cervejas este ano. Possui só 4%, corpo leve, amargor gentil e muito aroma de abacaxi, manga e maracujá.
Apesar de estar disponível pela internet, pode ser difícil de achar em supermercados e fora do estado catarinense. Uma alternativa de distribuição mais ampla no comércio é a Goose Island Midway, marca da Ambev, com 4,1% e aromas cítricos.
Pai fitness — IPA low carb
Se o seu pai é assíduo na academia ou simplesmente gosta de cuidar da forma, os efeitos no corpo e a manutenção da performance são critérios importantes ao escolher a IPA do presente. As cervejas mencionadas anteriormente também cabem aqui, dependendo da situação. Um período de treino mais puxado pode combinar com uma IPA sem álcool ou momentos de descontração com uma Session IPA.
Mas há outra categoria interessante que pode ser explorada: low carb. Cervejas com baixo teor de carboidratos — aqueles que não foram convertidos em álcool durante a fermentação — reduzem significativamente a carga calórica da bebida.
Algumas delas unem funcionalidades e também são sem álcool. É o caso da IPA da Sim! Cerveja, marca de Campinas (SP) especializada em rótulos não alcoólicos. Ela tem apenas 4,6 gramas de carboidrato por 100 ml e 74 calorias por lata (350 ml), mantendo o amargor típico do estilo e os ricos aromas cítricos dos lúpulos. Além disso, também é medalhista no World Beer Awards.
Outras mantêm o álcool, mas usam um tratamento especial para deixar menos carboidratos no final. É o caso da Lagunitas DayTime, uma Session IPA do Grupo Heineken com 4%, aromas cítricos e só 98 kcal por lata de 350 ml.
Pai hipster — Hazy/Juicy IPA
Esse tipo de pai também é conhecido como pai descolado. Só toma café coado no Hario V60, anda de bike retrô e frequenta feiras orgânicas. Também usa tênis moderninho, conhece bandas novas antes dos filhos e aprecia um bom chope no final de semana.
Para quem é assim, a cerveja deve ser tão moderna quanto ele mesmo. A sugestão é o estilo Hazy ou Juicy IPA, também conhecido como New England IPA. Nesse tipo de cerveja, a maior parte do lúpulo é inserida nas fases tardias do processo, o que causa uma grande explosão de aromas e deixa a cerveja com amargor relativamente baixo. Na boca, a sensação é sedosa e cremosa, com sabor intenso e prolongado.
Um bom presente pode ser a Dogma Rizoma, uma das pioneiras desse estilo fabricadas no Brasil, ainda em 2016. Com 8,3%, leva 20 gramas por litro de lúpulos Citra e Mosaic, causando uma explosão de aroma e sabor de maracujá, manga, abacaxi, pêssego e limão.
Pai cozinheiro — English IPA
E também sempre há um pai cozinheiro. Se não é completamente chegado no fogão, é pelo menos um churrasqueiro orgulhoso. Ele sente prazer em ver as pessoas curtindo seus preparos e valoriza o mundo dos aromas e sabores como ninguém. E se há um estilo de cerveja IPA que tem boa entrada na gastronomia, é o English IPA.
Harmonizar alimentos com cervejas amargas é um desafio técnico. Depende de um fino equilíbrio com dulçor ou teor de gordura dos pratos, mas também de algum aspecto de semelhança que os ligue de alguma forma. E, em geral, as IPAs britânicas têm uma base de maltes mais rica e pronunciada, com notas tostadas, amendoadas e caramelizadas. Esse detalhe casa muito bem com tudo o que é grelhado, assado ou frito, gerando combinações em que não se sabe onde começa um e termina o outro.
Infelizmente, esse é um dos estilos de cerveja IPA mais difíceis de encontrar no Brasil — fazemos por aqui quase exclusivamente versões americanas. A Lovely Day, da Cervejaria Alright Brewing Co., ganhou medalha de ouro no Concurso Brasileiro da Cerveja desse ano justamente nessa categoria e é boa pedida. Com distribuição mais ampla, você pode encontrar a Fuller’s IPA, cerveja importada da tradicional cervejaria inglesa para o Brasil pela Boxer do Brasil.
Num mundo em que as questões climáticas se tornam cada vez mais imperativas, as ações sustentáveis ganham cada vez mais importância. Nesse contexto, escolher latas de alumínio para os produtos — sejam cervejas, coquetéis prontos para beber (RTDs, na sigla em inglês) ou outros — deixa de ser uma decisão só de negócios e passa a ter um grande impacto no futuro. Nesta quinta-feira (6), a Associação Brasileira de Fabricantes de Latas de Alumínio (Abralatas) lança sua própria água em lata de alumínio, liderando pelo exemplo e mostrando o poder de comunicação dessa embalagem.
“Entendemos que o principal impacto do uso da água em lata está justamente na mensagem que essa iniciativa transmite. A Abralatas decidiu levar para o seu próprio dia a dia a embalagem que defende há mais de duas décadas. É uma forma de mostrar na prática os atributos que fazem da lata de alumínio uma referência em economia circular”, diz Guilherme Canielo, gerente sênior de Assuntos Corporativos da Abralatas.
A embalagem foi desenvolvida em formato sleek de 350 ml. E conta com uma identidade visual exclusiva que reúne elementos da Abralatas e do programa Cada Lata Conta, sob a assinatura “O futuro se faz com lata” (Crédito: Divulgação)
De acordo com Canielo, a lata reúne características bem alinhadas às demandas atuais de sustentabilidade. Ela é infinitamente reciclável, sem perder nenhuma qualidade a cada ciclo e, se descartada corretamente, pode voltar às prateleiras em cerca de 60 dias. Contribui para isso o fato de o Brasil manter há mais de 15 anos índices de reciclabilidade do material superiores a 95%. Além de uma cadeia estruturada e extremamente eficiente, principalmente sob o ponto de vista da sustentabilidade.
Nova água em lata da Abralatas
Além da mensagem que a iniciativa passa pela sua adoção, a própria embalagem é uma plataforma para comunicar seus atributos de circularidade e inovação. Desenvolvida no formato sleek de 350 ml, a embalagem conta com uma identidade visual exclusiva. E reúne elementos da Abralatas e do programa Cada Lata Conta, sob a assinatura “O futuro se faz com lata”. A entidade não vai comercializar a nova água em lata, mas a usará em ações de relacionamento da entidade, sendo distribuída em eventos, reuniões, encontros com lideranças, empresas, imprensa e parceiros.
“Nossa intenção é mostrar que é possível incorporar nas ações do dia a dia uma embalagem que traduz valores como circularidade, inovação e responsabilidade ambiental. E é exatamente isso que a gente quer comunicar quando entregamos uma água em lata em um evento ou em uma reunião”, explica Canielo. “Além disso, ela desperta curiosidade, gera conversas sobre sustentabilidade, sobre economia circular e permite que as pessoas vivenciem na prática aquilo que a gente defende institucionalmente”, finaliza.
Parceria estratégica
O projeto conta com a expertise da Socorro Bebidas, detentora da marca Acquíssima, para o envase da água mineral. “Temos orgulho dessa parceria. Como pioneiros no envase de água em lata em Águas de Lindóia, coração da água mineral do Brasil, contribuir para uma iniciativa que fortalece a embalagem e amplia seu reconhecimento no mercado é motivo de grande satisfação”, celebra Maurício Cruz, Diretor Comercial da Socorro Bebidas.
Para a Abralatas, o projeto consolida a visão de que a sustentabilidade corporativa é alcançada por meio de decisões estratégicas de negócios e design de embalagem. “No fim das contas, a gente acredita que eventos mais sustentáveis são o resultado de um conjunto de boas escolhas. E a embalagem é uma dessas escolhas. Quando ela combina praticidade, alta reciclabilidade e um sistema de economia circular já consolidado, amadurecido, ela passa a contribuir de forma muito mais positiva para esse objetivo”, conclui o gerente sênior de Assuntos Corporativos da Abralatas.
A Heineken N.V. divulgou oficialmente na madrugada desta quarta-feira (5) o seu balanço de resultados financeiros e operacionais consolidados relativos ao primeiro semestre de 2026 (HY26 ou 1S26). Em um ambiente econômico global desafiador, o grupo aumentou o volume em 1,6% e teve 6,7% de crescimento do lucro operacional. No Brasil, mesmo diante de um recuo no volume de vendas, que acompanha o mercado nacional, a companhia registrou crescimento de dígito baixo (low-single-digit) na receita líquida. O grande destaque do período foi a expansão do portfólio de saudabilidade e moderação, capitaneada pela Amstel Ultra, que mais do que dobrou o seu volume de vendas no país. Segundo a empresa, ela é hoje a cerveja ultra líder do mercado brasileiro.
Preço-mix e a eficiência industrial de Passos (MG)
No cenário doméstico, as condições de consumo mostraram-se desafiadoras nos primeiros seis meses do ano, diz o relatório. O sentimento do consumidor brasileiro resultou em um encolhimento de médio dígito (mid-single-digit, por volta de 5%) no mercado total de cervejas. Alinhado a essa tendência do setor, o volume de vendas de cerveja do Grupo Heineken no país também registrou retração de médio dígito no acumulado do semestre, embora as curvas tenham demonstrado melhoria sequencial no fechamento do segundo trimestre, segundo o comunicado da empresa.
Já a receita líquida da Heineken no Brasil apresentou crescimento de dígito baixo (low-single-digit). Um resultado financeiro que foi viabilizado por uma sólida execução comercial de preço-mix positivo (repasses de preços e mix qualificado de SKUs). Também contribuiu a melhoria estrutural na carteira de clientes e canais de distribuição.
O grande diferencial na blindagem do lucro operacional no Brasil foi a eficiência da nova cervejaria de Passos (MG). O início das atividades da moderna planta mineira permitiu uma otimização profunda da cadeia de suprimentos local. Com a produção regionalizada, a Heineken conseguiu reduzir custos logísticos de frete, aprimorar a distribuição física e implementar iniciativas internas de produtividade que impulsionaram significativamente as margens operacionais da região das Américas (que registrou alta de 2,2% no lucro operacional BEIA, alcançando 850 milhões de euros).
Amstel Ultra e cervejas premium
A busca do consumidor por estilos de vida mais equilibrados e produtos focados em bem-estar moldou o desempenho das marcas do portfólio nacional. Enquanto as cervejas da categoria mainstream enfrentaram mais desafios, o segmento premium cresceu, com produtos de baixa caloria, baixo teor alcoólico e sem álcool disparando.
Dentro dessa estratégia, a Amstel Ultra foi a principal locomotiva da companhia no Brasil. A marca registrou um crescimento, mais do que dobrando o seu volume de vendas (alta superior a 100%) em relação ao mesmo período de 2025. O sucesso consolidou a Amstel Ultra como a líder no segmento de cervejas de baixo teor calórico (ultra beer) no Brasil, segundo a empresa.
A performance da Amstel Ultra deu ritmo para todo o portfólio de menor teor alcoólico ou sem álcool (LoNo) da Heineken no Brasil. Ele cresceu expressivos mid-thirties (cerca de 35%) no primeiro semestre. Esse avanço multicategoria foi composto por: Heineken 0.0, que teve expansão de volume de duplo dígito no país; Sol Zero, que também dobrou o volume de vendas; e Heineken Ultimate, lançamento estratégico recente feito primeiro no Brasil.
A Heineken Ultimate é uma cerveja sem glúten, com baixo teor alcoólico (3,5% ABV) e com 30% menos calorias que a versão tradicional. O produto foi desenhado especificamente para as ocasiões de consumo voltadas à moderação. A empresa lançou a cerveja primeiro no Brasil em maio deste ano.
Em paralelo, a marca principal Heineken seguiu defendendo a liderança na categoria de cervejas premium no Brasil.
Performance global e estratégia EverGreen 2030
A nível global, a Heineken N.V. reportou números acima das estimativas de mercado, comprovando a eficácia da reestruturação corporativa e dos cortes de custos em andamento.
O volume consolidado atingiu 142,8 milhões de hectolitros (mhl), uma alta orgânica de +1,6% (superando com folga o consenso de mercado de 141,5 mhl). O volume global da marca Heineken subiu +5,3% (totalizando 31,6 mhl), enquanto Tiger retornou à curva de crescimento e a Heineken 0.0 avançou +7,2% globalmente.
Já a receita líquida registrou crescimento orgânico de +2,7%, totalizando 14.834 milhões de euros (BEIA). Enquanto isso, o lucro operacional somou 2.170 milhões de euros (BEIA), um crescimento orgânico de +6,7%. Isso levou a margem operacional a expandir em 55 pontos-base, fechando o semestre em 14,6%.
O destaque vai para o fluxo de caixa operacional livre (FOCF), que deu um salto alcançando 1.381 milhões de euros contra 257 milhões no primeiro semestre de 2025. Essa forte geração de caixa é explicada por uma otimização massiva no capital de giro e pela redução programada de 328 milhões de euros nos investimentos em CAPEX (que caíram para €1.070 milhões globais) .
Em comunicado aos investidores, a diretoria do grupo destacou que a companhia acelerou a agenda de simplificação operacional e eficiência do programa EverGreen 2030. Como parte desse avanço estrutural, a Heineken reduziu o número de funcionários de tempo integral (FTEs) globais em cerca de 3 mil profissionais no primeiro semestre.
A Heineken N.V. concluiu ainda movimentos estratégicos importantes no semestre. House o fechamento da aquisição das operações de bebidas e varejo da FIFCO na Costa Rica por €2,47 bilhões. Além do desinvestimento operacional direto na República Democrática do Congo (DRC). Essas transações devem acrescentar de 2% a 3% ao lucro por ação do grupo.
As cervejarias de Guarapuava, na região central do Paraná, fizeram história ao conquistar a primeira Indicação Geográfica (IG) para cervejas de todo o território nacional. “Cervejas Artesanais de Guarapuava” agora é uma Indicação de Procedência (IP) reconhecida em todo o Brasil. O Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) concedeu oficialmente o registro nesta terça-feira (4) com a publicação na Revista da Propriedade Industrial (RPI) nº 2900.
A Associação das Cervejarias de Guarapuava (Guaracerva) havia protocolado a solicitação no dia 22 de maio do ano passado. Com a homologação definitiva do pedido, a delimitação geográfica protegida passa a abranger integralmente os limites político-administrativos do município de Guarapuava.
Larissa Vier, presidente da Guaracerva e sócia da cervejaria Água do Monge, reforça o caráter único das cervejas da região (Crédito: Arquivo Pessoal)
Em nota publicada em seu perfil oficial do Instagram, a associação expressou orgulho e entusiasmo com o feito, destacando o ineditismo do fato. “Esta conquista representa um marco histórico para o Brasil e enche de orgulho todo o setor cervejeiro nacional”, diz o comunicado.
Larissa Vier, presidente da Guaracerva, reforça a alegria com o reconhecimento. “As cervejas guarapuavanas têm se destacado no cenário nacional e internacional pela sua qualidade. Faz parte da cadeia que vem desde o princípio com a plantação da cevada no campo, industrialização do malte e produção das mesmas cervejas”, diz.
Ela conta também que o processo é detalhista e moroso, mas que a iniciativa também contou com o apoio da Prefeitura de Guarapuava e do Sebrae/PR, que ajudou com um diagnóstico técnico de potencialidade. A análise considerou aspectos como a reputação das cervejas, sua relação com o território, a organização coletiva dos produtores e a importância de proteger a identidade da produção local. Com o registro, a expectativa é ampliar a competitividade das cervejarias nos mercados nacional e internacional e consolidar Guarapuava como referência brasileira no segmento.
Cervejas Artesanais de Guarapuava, do campo ao copo
A legitimidade histórica e geográfica das Cervejas Artesanais de Guarapuava apoia-se em fatores agrícolas indiscutíveis. A Presidência da República conferiu oficialmente a Guarapuava o título de “Capital Nacional da Cevada e do Malte” pela Lei Federal nº 14.956, de 3 de setembro de 2024, complementada pelas diretrizes federais da Lei nº 14.050/2020.
O município domina a produção da principal matéria-prima cervejeira. Enquanto o estado do Paraná colhe anualmente 321,5 toneladas de cevada, Guarapuava responde sozinha por 95,9 toneladas, o que representa 21% de toda a produção nacional. A extrema proximidade entre as lavouras, as maltarias e as fábricas artesanais viabiliza uma logística de frescor insuperável aos cervejeiros da região. O ecossistema também conta com o suporte do Programa de Incentivo às Microcervejarias Artesanais, instituído pela Lei Municipal nº 2765 de 2017.
Este arranjo territorial e econômico impulsiona nove marcas locais, que respondem juntas por uma produção estimada em 100 mil litros mensais. São marcas como a multipremiada Água do Monge, a pioneira da região, Donau Bier, Hank Bier, Cervejaria Irmandade e Metzger Bier. O polo cervejeiro local completa-se com as operações da Cervejaria Jordana, Cervejaria Suábia, Over Beer e Cervejaria Heimdall.
A conquista do selo de IP pelas Cervejas Artesanais de Guarapuava é a primeira do país. Mas houve outra tentativa em Ribeirão Preto (SP). Em maio de 2026, a Câmara Municipal aprovou o Projeto de Lei nº 79/2026, de autoria do vereador Danilo Scochi (MDB), na tentativa de criar uma Indicação de Procedência para cervejas por meio de uma legislação municipal.
A tentativa, contudo, sofreu um revés jurídico. A Procuradoria Federal junto ao INPI emitiu o Parecer nº 00033/2026/CGPI, apontando a flagrante inconstitucionalidade do projeto. O parecer destaca que legislar sobre direito comercial e propriedade industrial é competência legislativa privativa da União (conforme prevê o artigo 22, inciso I, da Constituição Federal), o que proíbe municípios de instituir tais registros por decretos locais.
O advogado André Lopes, colunista do Guia da Cerveja e dono do perfil Advogado Cervejeiro no Instagram, detalha o erro técnico cometido na proposta paulista. “Por mais legítima que seja a intenção de valorizar a cultura cervejeira local, indicações geográficas são instituto federal, sob competência exclusiva do INPI, de modo que um município não pode criar por lei própria um selo com essa natureza jurídica sem usurpar competência da União. O caminho correto seria o pedido de registro perante o próprio INPI, com apoio institucional do poder público municipal, e não a criação de uma indicação por norma local”.