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Entrevista: os planos da Câmara Setorial da Cerveja para o Imposto Seletivo

O Imposto Seletivo e a profissionalização do setor são alguns dos temas que vão dominar a pauta de 2026 da Câmara Setorial da Cerveja, segundo Gilberto Tarantino, presidente da entidade. Reeleito para o cargo em fevereiro, Giba, como é conhecido, é também presidente da Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva) e falou sobre as perspectivas em entrevita ao Guia da Cerveja. 

Tarantino, que assumiu o posto em janeiro de 2024 após o falecimento do pioneiro Marco Falcone, transita agora de uma gestão de continuidade para um mandato de expansão. O grande divisor de águas é a regulamentação da Reforma Tributária. Após uma vitória histórica que abriu a possibilidade de taxação por teor alcoólico das bebidas e tratamento diferenciado para pequenos produtores, sem aumento de carga tributária.

O projeto de lei para definir as alíquotas e a forma como elas incidirão será enviado pelo Governo ao Congresso em breve. O “Imposto do Pecado”, como ficou popularmente conhecido, é um novo tributo federal de natureza extrafiscal criado na Reforma Tributária, mas que ainda carece de regulamentação. 

O objetivo central é desestimular o consumo de bens e serviços que, segundo os legisladores, fazem mal à saúde ou ao meio ambiente. Ele incidirá sobre cigarros, bebidas alcoólicas, bebidas açucaradas e itens prejudiciais ao ecossistema, como derivados de petróleo e minerais.

O setor pede que as normas que serão definidas não asfixiem as cervejarias e defende que o novo tributo respeite as diretrizes expostas na Reforma, fazendo com que a definição da alíquota do Imposto Seletivo leve em consideração a concentração alcoólica e escala de produção.

Mas a ambição para 2026 vai além dos tributos. “O business da produção de cerveja tem que dar certo”, defende Tarantino. Sob essa premissa, a Câmara planeja investir também em capacitação, para que o horizonte principalmente dos pequenos produtores vá além da simples produção.

Você acabou de ser reeleito para mais um mandato à frente da Câmara Setorial da Cerveja. Qual é o balanço do primeiro mandato e quais as prioridades para o segundo?

No primeiro mandato entrei sucedendo o Marco Falcone [proprietário da Falke Bier (MG) falecido em janeiro de 2024] que era um amigo, um cara muito bacana mesmo. O foco foi na reforma tributária, buscando um equilíbrio para as pequenas cervejarias em relação às grandes. Houve apoio das três grandes indústrias (Ambev, Heineken e Petrópolis), e foram realizadas ações conjuntas no Congresso, em audiências públicas e reuniões com deputados e senadores, o que foi uma grande vitória.

Para o segundo mandato, a prioridade é a definição do Imposto Seletivo (IS), que demandará muita atenção e trabalho, pois o governo ainda não enviou o texto ao Congresso. Essa missão do Imposto Seletivo é vista como algo que durará décadas. Além disso, a Câmara pretende avançar em temas como cultura e saúde (do ponto de vista da medicina e dos nutricionistas sobre o produto), criando grupos de trabalho para isso.

Já houve uma primeira reunião da Câmara em 2026 em Blumenau durante o Festival Brasileiro da Cerveja em março, não é mesmo? Como foi a reunião? Quais os planos para 2026?

A Câmara se reúne três ou quatro vezes durante o ano. Na reunião da Câmara em Blumenau, foi feita uma apresentação sobre uma agenda a ser desenvolvida e foi aberta a possibilidade de criação de grupos de trabalho sobre temas específicos, com temáticas em que a Câmara tem mais flexibilidade para trabalhar.

No passado, houve grupos de dados e da Reforma Tributária, que foram muito bem. A ideia é continuar com a criação de novos grupos, pensando na criação de uma categoria no setor. A prioridade continua sendo o Imposto Seletivo.

A questão tributária foi a grande pauta da sua primeira gestão. Mas você comentou que “o negócio da cerveja precisa funcionar” e por isso quer focar em capacitação nesse segundo mandato. Algum plano já está em desenvolvimento?

A Câmara Setorial da Cerveja quer fazer um estudo sobre as indústrias de cerveja e a cadeia produtiva da cerveja, que é vista como muito maior do que se estima, abrangendo desde o campo até o copo, incluindo logística, manutenção de equipamentos, insumos, embalagens e distribuição. O objetivo é olhar para essa cadeia produtiva e capacitar principalmente as pequenas cervejarias. Para que o negócio não se foque apenas na produção e no sensorial, mas também na gestão, na parte tributária e na inovação.

Este é um processo de longo prazo, mas já estão pensando em “balões de ensaio”. Em São Paulo, há uma oportunidade interessante com as CPLs (Cadeias Produtivas Locais). Como São Paulo é o estado com o maior número de cervejarias e é uma referência, a ideia é começar esse trabalho por lá. Um diálogo com a Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo já foi iniciado para trabalhar com os oito polos cervejeiros do estado.

Governo zera Imposto de Importação de cota de extrato lúpulo para cerveja

O Comitê-Executivo de Gestão (Gecex) da Câmara de Comércio Exterior (Camex) decidiu na quinta-feira (26) zerar o Imposto de Importação de uma cota de extrato de lúpulo para cerveja de forma temporária. O produto faz parte de um pacote de 970 itens que tiveram a tarifa cortada, e está dentro dos 779 que já contavam com concessões anteriores, que foram renovadas. Os demais 191 itens fazem parte de uma reversão das tarifas elevadas que deve ser aplicada neste ano a mais de 1,2 mil produtos eletrônicos, como smartphones.

A notícia foi inicialmente divulgada pela Agência Brasil na quinta-feira (26), no entanto, o material não especifica que o corte tem validade de 12 meses para 1,2 mil toneladas de extrato de lúpulo, segundo a nota técnica. O Guia da Cerveja foi informado a respeito dos detalhes e do mecanismo de funcionamento da redução de taxa nesta terça-feira (31) pelo vice-presidente da Associação Brasileira de Produtores de Lúpulo (Aprolúpulo), Daniel Leal.

“Infelizmente, circulou amplamente na imprensa, a partir de uma nota do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), a notícia de que houve isenção do Imposto de Importação para lúpulo. Rapidamente, a informação se espalhou como se a isenção se aplicasse a todo o lúpulo importado para o Brasil. A isenção, na verdade, diz respeito apenas ao extrato de lúpulo, mediante solicitação da Heineken, referente à quota de 1,2 mil toneladas — a mesma do pedido anterior, feito no fim de 2024”.

O Mdic trata essa decisão como rotineira. O Governo concede a redução após pedidos de empresas que alegaram ausência de produção nacional. No entanto, a concessão feita não é apenas para a solicitante, mas beneficia todos os interessados no produto. O objetivo é reduzir custos para a indústria e garantir o abastecimento de itens sem produção nacional equivalente.

No caso do lúpulo, apesar de haver uma produção nacional que responde por até 3% da necessidade interna, não há produção de extrato de lúpulo em específico. “Aqui, cabe registrar que não existe nenhuma planta de extração de lúpulo em escala industrial no Brasil”, diz Leal.

A Camex também zerou a tarifa de importação para diversos produtos de outros setores considerados estratégicos. Entre eles, estão medicamentos utilizados no tratamento de doenças como diabetes, Alzheimer, Parkinson e esquizofrenia

Retrato do lúpulo para cerveja no Brasil

O setor de lúpulo no Brasil vive um momento de maturação, alcançando produtividade recorde de 852,3 kg/ha em 2024, mesmo com uma redução de 14,6% na área total cultivada, segundo o Mapa do Lúpulo Brasileiro 2024. O salto da produção foi de 8% em relação ao ano anterior. Atualmente, o país conta com 109 produtores que somam 95,4 hectares, voltando-se predominantemente para variedades de aroma.

Apesar da eficiência no campo, a comercialização ainda é o principal gargalo da cadeia produtiva, atendendo apenas entre 2% e 3% da demanda nacional. Segundo o relatório, 18% dos produtores ainda não conseguem escoar sua produção e a maioria depende da venda direta para cervejarias.

Gargalos e o futuro

Segundo Leal em entrevista dada ao Guia da Cerveja este mês, os desafios residem na competitividade e padronização do lúpulo nacional. O setor nacional compete com o produto importado, especialmente nas variedades de amargor, que possuem escala global e preços menores.

O futuro da cultura no país aponta para a criação de polos produtivos regionais e para a padronização industrial, segundo Leal, que defende que a integração dos processos de secagem e peletização é essencial para profissionalizar a oferta.

Uma vez superados os desafios de escala e custo no mercado interno, a expectativa é que o lúpulo brasileiro esteja apto a competir globalmente, transformando o setor em uma rota consolidada de exportação.

Cervejarias cortam custos em até 37% com energia solar térmica

A produção de cerveja é um processo que demanda energia de forma intensiva, seja para manter os tanques de fermentação resfriados, para moer o malte ou para aquecer a água da brassagem. Para contornar os altos custos e buscar processos mais sustentáveis, o mercado cervejeiro tem diversificado suas matrizes energéticas. Hoje, especialistas em eficiência energética industrial apontam que não existe uma solução única, mas sim um conjunto de soluções que podem ser combinadas conforme o porte da fábrica. Entre as principais possibilidades para baratear a produção estão a migração para o Mercado Livre de Energia, a instalação de painéis solares fotovoltaicos, a modernização do maquinário e o uso de energia solar térmica (que gera calor pela luz do Sol e também é chamada de termossolar).

O aquecimento de água, em especial, é um dos maiores vilões da conta final. Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), cerca de 80% do consumo de energia da indústria brasileira está associado à geração de calor. Para mostrar como a eficiência energética funciona na prática, um projeto nacional está substituindo as tradicionais caldeiras movidas a diesel ou gás liquefeito de petróleo (GLP) por placas termossolares. E a experiência já rendeu bons resultados em um corte de quase 40% no custo.

Quatro cervejarias apostam na energia solar térmica

Entre as cervejarias que estão apostando em soluções termossolares estão as cervejarias Turatti e Brewstone, no Ceará; a Tarantino, em São Paulo; e a Dumato, em Mato Grosso do Sul, que adotaram sistemas de captação de calor do Sol em suas fábricas. 

O mecanismo da energia solar térmica utiliza o calor do Sol para aquecer a água utilizada na produção antes mesmo que ela entre nos tanques do processo cervejeiro. Os resultados do primeiro ano de operação foram expressivos: as fábricas registraram uma queda média de 30,5% no consumo de combustível, resultando em uma redução de até 37% nos custos energéticos. 

Na ponta do lápis, cada unidade cervejeira economizou mais de R$ 10 mil por mês. E cada planta deixou de emitir cerca de 8,5 toneladas de CO₂ por ano.

O ganho operacional foi imediato. Com a água chegando previamente aquecida, o tempo de preparo da cerveja diminuiu consideravelmente. “A gente tinha bastante dificuldade com aquecimento de água, processo que levava em média 50 minutos. Hoje, é muito rápido, porque a água já entra quente no tanque. Ficou muito mais prático da gente trabalhar”, comemora Marcos Guerra, mestre cervejeiro da Turatti.

A adoção da inovação por essas quatro plantas de diferentes portes foi viabilizada por meio de um projeto conduzido pela 3e Soluções, em parceria com a Solis Solar e com recursos do Procel/ENBPar. O projeto rendeu à 3e Soluções a vaga de única representante do setor energético entre as finalistas na categoria Descarbonização da 9ª edição do Prêmio Nacional de Inovação.

Viabilidade técnica e financeira

Placa de energia solar térmica. (Foto: Divulgação)
Placa de energia solar térmica. (Foto: Divulgação)

Mas quanto custa a brincadeira? O valor total dos quatro sistemas somados, incluindo a instalação nas fábricas, ficou em R$ 1,1 milhão, segundo o diretor de Projetos Socioambientais da 3e Soluções, Odailton Arruda. Ele explica que os custos por cervejaria foram distintos, variando conforme o tamanho do sistema que atendeu à respectiva necessidade de produção.

O tempo de retorno do investimento é diretamente proporcional à produtividade de cada indústria. Ou seja, quanto mais litros de cerveja produzidos, mais cedo o sistema será pago. 

Com as atuais produtividades, o retorno médio das cervejarias será de 4 anos, de acordo com Arruda. Ele ressalta que não existe um volume mínimo de produção exigido para adotar a tecnologia. 

A solução busca se adequar à rotina de cada fábrica, aproveitando uma área estratética: os telhados. Cervejarias costumam ter uma area de cobertura abundante devido à necessidade de espaço para armazenamento.

Outro ponto de atração é a durabilidade. A vida útil dos sistemas ultrapassa os 20 anos, com garantia de até 10 anos para os coletores, segundo Arruda. Já a manutenção pode ser feita pela própria equipe da cervejaria, já que se resume à limpeza das placas solares.

E em dias nublados ou de chuva? Segundo Arruda, a primeira etapa do processo de produção de cerveja (a mostura) exige temperaturas em torno de 65°C. E o sistema termossolar atinge essa meta facilmente, mesmo com baixa incidência de sol. “Nessa fase, a indústria não usa nenhuma fonte externa para aquecimento da água. O processo de fabricação possui uma outra etapa, onde se deve ferver o produto, com temperatura em 100°C. É nesse processo que a indústria volta a utilizar as fontes de calor anteriores. Porém, partindo de uma temperatura bem maior, já pré-aquecida pelo sistema solar “.

Outras alternativas no radar cervejeiro

Enquanto a energia termossolar resolve de forma inteligente o problema do aquecimento da água (geração de calor), especialistas do setor elétrico e industrial indicam outras frentes fundamentais para que as cervejarias estanquem o desperdício de dinheiro e otimizem o consumo geral das fábricas.

Entenda as principais opções:

  • Migração para o Mercado Livre de Energia: É um ambiente de negócios onde as empresas podem comprar energia elétrica diretamente de geradores ou comercializadoras, escolhendo preços, prazos e o tipo de fonte de energia. Historicamente restrito a grandes indústrias, o Mercado Livre passou por uma flexibilização recente no Brasil. O que permitiu que empresas de menor porte (conectadas em alta ou média tensão) também migrassem e negociassem suas faturas. O resultado foi uma maior garantia de reduções significativas na conta de luz tradicional.
  • Instalação de painéis solares fotovoltaicos: Diferente do modelo termossolar (que foca no calor), a tecnologia fotovoltaica transforma a luz do Sol em eletricidade. É a solução ideal para abater os custos operacionais com a refrigeração dos tanques (chillers), bombas de transferência, linhas de envase e a climatização geral do galpão e do taproom.
  • Substituição de maquinário por motores de alta eficiência: Especialistas recomendam fortemente o retrofit industrial. Equipamentos antigos, especialmente compressores de frio e bombas, consomem muito mais energia para realizar o mesmo trabalho. A troca por motores de alta eficiência (com inversores de frequência) ajusta o consumo à demanda real. E isso evita o desperdício de eletricidade quando as máquinas operam em cargas menores.
  • Uso de iluminação LED com sensores: Pode parecer um detalhe simples frente aos grandes equipamentos cervejeiros, mas a iluminação de galpões industriais tem um peso na conta. A substituição total de lâmpadas antigas por tecnologia LED gera um alívio financeiro rápido e de baixíssimo custo de implementação. Além da instalação de sensores de presença em áreas de menor circulação (como estoques de insumos, barris vazios e câmaras frias).

A arquitetura sensorial além da cerveja sem álcool

O aumento do consumo de bebidas não alcoólicas não representa, necessariamente, uma busca por produtos mais simples. Pelo contrário. O consumidor tem demonstrado interesse crescente por experiências sensoriais sofisticadas mesmo na ausência do etanol. Esse movimento é impulsionado por múltiplos perfis e ocasiões de consumo: desde a Geração Z, que apresenta uma relação mais moderada e consciente com o álcool, até públicos com restrições específicas, como gestantes e lactantes, além de indivíduos que adotam estilos de vida voltados ao bem-estar, performance física ou saúde mental. Ainda posso acrescentar a isso o aumento de contextos sociais em que o consumo de álcool não é central, mas a experiência sensorial ainda é desejada. Nesse cenário, bebidas não alcoólicas, como a cerveja sem álcool, deixam de ser substitutas e passam a ocupar um espaço próprio, orientado por complexidade, ritual e percepção de valor.

O fim da cerveja sem álcool sem graça

Nosso negócio é a produção de cerveja, mas nesse contexto, pode ser uma oportunidade para pensar fora a caixa e desenvolver outras bebidas além da cerveja sem álcool. O desafio tecnológico agora deixa de ser a remoção ou produção do etanol e passa a ser a reconstrução da experiência sensorial. Isso implica em compreender quais mecanismos físicos, químicos e neurossensoriais tornam bebidas alcoólicas tão atrativas.

O etanol exerce múltiplas funções: atua como solvente de compostos aromáticos, contribui para a percepção de corpo e viscosidade, promove aquecimento via ativação trigeminal e influencia na percepção dos voláteis, principalmente via retronasal. (DE-LA-FUENTE-BLANCO et al., 2024; MUÑOZ-GONZÁLEZ et al., 2019; GOLDNER et al., 2009)

Sua ausência expõe uma lacuna que precisa ser tecnicamente preenchida. Discuti bastante sobre o perfil sensorial da cerveja sem álcool com alguns juízes durante o Concurso Brasileiro de Cervejas de 2026 e achei que esse tema seria muito pertinente para um texto aqui no guia, principalmente no momento atual. Qual o perfil sensorial dessa bebida? Será que é exatamente o mesmo da convencional?

Acredito que o desenvolvimento de bebidas não alcoólicas de perfil adulto exige a construção de uma arquitetura sensorial que vai muito além do aroma e se baseia em 4 pilares principais:

  • Estímulos trigeminais (calor, frescor, formigamento)
  • Complexidade aromática (voláteis)
  • Estrutura e corpo (textura e equilíbrio)
  • Componentes funcionais leves (relaxamento e bem-estar)

Efeito trigeminal: calor e formigamento

Um exemplo prático, já muito utilizado na cachaça, mas que vem ganhando espaço na coquetelaria, é a utilização do jambu. O jambu (Acmella oleracea) contém o alcaloide espilantol, que é responsável por uma sensação característica de formigamento e leve “anestesia” local. Esse efeito resulta da interação com receptores sensoriais, promovendo aumento da salivação e uma experiência tátil que desperta, no mínimo, surpresa e curiosidade. Diferente do etanol, que gera a sensação de aquecimento, o espilantol atua criando uma complexidade sensorial inesperada, explorando o eixo tátil-químico da degustação. (BADER et al., 2006)

Alcaloides e a percepção térmica

Alcaloides e compostos bioativos podem criar sensações bem interessantes na bebida capazes de modular a percepção oral como a capsaicina presente na pimenta que causa sensação de ardência, gingerol presente no gengibre que traz um aquecimento progressivo, cinamaldeído que traz sensação térmica e dulçor da canela, mentol que ativa de receptores de frio (TRPM8). Esses compostos atuam via sistema trigeminal, ampliando a experiência para além do paladar clássico. (McKEMY. 2002)

Terpenos e a identidade aromática

Já os terpenos podem assumir um papel central na construção de complexidade aromática. Amplamente conhecidos no universo cervejeiro, especialmente por estarem presentes no lúpulo. Compostos como limoneno, mirceno, linalol, pineno são responsáveis por perfis aromáticos interessantes. Nas bebidas não alcoólicas permite recriar assinaturas aromáticas complexas, intensificar a percepção dos aromas, estabelecer conexão direta com repertórios já conhecidos, como aromas comuns nas cervejas lupuladas como American IPA e NEIPA. Porém, existem alguns desafios tecnológicos para garantir a devido a sua natureza hidrofóbica.  

Chás: estrutura e amargor

Outro queridinho é o chá/infusão. E fizeram sucesso no Degusta 2026! Os chás deixam de ser apenas uma base líquida e passam a atuar como estrutura da bebida. A Camomila (Matricaria chamomilla), Melissa (Melissa officinalis), Capim-limão (Cymbopogon citratus), Erva-mate (Ilex paraguariensis) são boas opções. Oferecem não apenas perfil aromático, mas também compostos fenólicos e flavonoides associados a efeitos de relaxamento leves. Atenção nas alegações de relaxamento da bebida para não induzir o consumidor ao erro. Além de sabor, pode contribuir na construção da bebida com amargor e adstringência.

Como resolver o vazio

Outro ponto bem importante e que merece atenção em relação à estrutura da bebida, principalmente nas versões de cerveja sem álcool já existentes no mercado, é o corpo muito baixo, aquela sensação de “vazio”. Sem etanol, a percepção de viscosidade e preenchimento de boca é reduzida. Algumas alternativas para compensar podem ser utilizadas como fibras solúveis, glicerol (polióis), hidrocoloides (em baixa concentração). (WAGONER et al., 2020; RASTEGARPOUR et al., 2025)

A evolução das bebidas não alcoólicas passa por uma mudança de paradigma. Não se trata mais de replicar cervejas ou destilados sem etanol, mas de desenvolver produtos com identidade própria, baseados em princípios de química sensorial. O uso estratégico de alcaloides, terpenos e extratos botânicos abre espaço para uma nova categoria de bebidas que sejam complexas, funcionais e sensorialmente envolventes. E, do ponto de vista técnico, um campo fértil para inovação real. Bebida sem álcool não precisa ser sem graça e preguiçosa. Mais do que uma alternativa, trata-se de uma expansão do repertório. 

Referências:

BADER, S. et al. Structure–activity relationships of trigeminal effects for alkamides related to spilanthol. Neuroscience Letters, v. 410, n. 1, p. 1–5, 2006. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0304394006008463 Acesso em: 09 mar 2026.

DE-LA-FUENTE-BLANCO, A. et al. The relevant and complex role of ethanol in the sensory properties of model wines. OENO One, Bordeaux, v. 58, n. 1, 2024.
Disponível em: https://oeno-one.eu/article/view/7864 Acesso em: 08 mar 2026.

GOLDNER, M. C.; ZAMORA, M. C.; DI LEO LIRA, P. Effect of ethanol level on the perception of aroma attributes in red wine. Food Quality and Preference, v. 20, n.3, p. 214–220, 2009. Disponível em: https://repositorio.uca.edu.ar/handle/123456789/15093 Acesso em: 08 mar 2026.

McKEMY, D. D.; NEUHAUSSER, W. M.; JULIUS, D. Identification of a cold receptor reveals a general role for TRP channels in thermosensation. Nature, v. 416, p. 52–58, 2002. Disponível em: https://www.nature.com/articles/nature719
Acesso em: 09 mar. 2026.

MUÑOZ-GONZÁLEZ, C. et al. Effects of ethanol concentration on oral aroma release after wine consumption. Molecules, Basel, v. 24, n. 18, p. 3253, 2019.
Disponível em: https://www.mdpi.com/1420-3049/24/18/3253 Acesso em: 08 mar 2026.

RASTEGARPOUR, M. et al. Application of various hydrocolloids in fruit-based beverages to improve their properties: A review. International Journal of Biological Macromolecules, 2025. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40517869/ Acesso em: 16 mar. 2026.

WAGONER, T. B. et al. Viscosity drives texture perception of protein beverages more than hydrocolloid type. Journal of Texture Studies, v. 51, n. 1, p. 78–91, 2020. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31323134/. Acesso em: 14 mar 2006


Chiara Barros é proprietária do Instituto Ceres de Educação e Consultoria Cervejeira. Engenheira Química, especialista em Biotecnologia e Bioprocessos, em Gestão da Qualidade e Produtividade e em Segurança de Alimentos, além de cervejeira e sommelière de cervejas.


* Este é um texto de opinião. As ideias e informações nele contidas são de responsabilidade do colunista ou articulista e não refletem necessariamente o ponto de vista do Guia da Cerveja.

Menu Degustação: cervejas da Hofbräu serão produzidas no Brasil na fábrica da NewAge

A cervejaria alemã Hofbräu München (HB) iniciou a produção local de seus rótulos na fábrica da NewAge Bebidas, na cidade de Leme (SP). O Brasil foi o país escolhido para receber, pela primeira vez na história da marca bávara, a fabricação da Weiss Bier fora da Alemanha para fins de distribuição. A operação é coordenada pela importadora Bier Wein e visa atender ao potencial do mercado brasileiro.

A planta fabril paulista foi selecionada após um processo de homologação conduzido por mestres cervejeiros alemães em 2025. O primeiro lote, composto pelas versões Hofbräu Original (Munique Helles) e Hofbräu Weiss, estará disponível para comercialização a partir de março. A produção em solo nacional utiliza leveduras, maltes especiais e lúpulos importados para garantir a fidelidade às receitas originais de Munique. Já a água e os maltes de trigo e pilsen são de origem brasileira.

A migração do modelo de exportação para a fabricação local deve reduzir o preço final do produto ao consumidor em cerca de 20%. Segundo os responsáveis pelo projeto, a mudança elimina taxas de importação e custos logísticos complexos, além de favorecer o frescor da bebida e a sustentabilidade ambiental. A NewAge, parceira fabril escolhida, possui capacidade produtiva de 300 mil hectolitros por ano e um portfólio que soma mais de 330 produtos próprios e de terceiros.

O Brasil também conta com o primeiro brewpub Hofbräuhaus da América Latina em Belo Horizonte. Inaugurada em 2015, é franquia da casa alemã de Munique e pertencente a outro grupo de empresários.

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Cervejaria de Passos da Heineken atinge 1 milhão de hectolitros

O Grupo Heineken alcançou na quinta-feira (26) a produção de 1 milhão de hectolitros em sua unidade de Passos (MG). O volume foi registrado quatro meses após a inauguração da fábrica, que recebeu investimento de R$ 2,5 bilhões. A planta, focada nas marcas Heineken e Amstel, possui capacidade para produzir 5 milhões de hectolitros por ano. Atualmente, a operação emprega 350 colaboradores diretos na região. Segundo a empresa, a cervejaria utiliza sistemas de eficiência hídrica e energética para reduzir o impacto ambiental.

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Heineken é eleita a marca de cerveja mais criativa

A Heineken conquistou o título de marca de cerveja mais criativa do mundo no ranking global WARC Creative 100. O levantamento considera o desempenho em premiações como Cannes Lions, D&AD e The One Show. Entre as ações premiadas está a iniciativa Pub Museums, que transformou bares em espaços culturais. Cecília Bottai, vice-presidente de marketing da companhia no Brasil, afirma que a estratégia foca em gerar conexões reais com o público. O Grupo Heineken opera atualmente 13 unidades produtivas no País.

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Amstel libera sinal gratuito do BBB no Globoplay

A Amstel, patrocinadora do Big Brother Brasil 26, iniciou na sexta-feira (20) uma ação inédita para liberar o sinal ao vivo do reality show no Globoplay. Durante o Happy Hour Amstel, o público acessou gratuitamente a transmissão principal, das 18h às 20h, sem necessidade de assinatura da plataforma de streaming. A iniciativa, que também oferece cupons promocionais para o iFood via QR Code, ocorrerá em outras três sextas-feiras consecutivas. Segundo a marca, a estratégia visa ampliar a conexão com a audiência jovem, público que registra crescimento de 129% no consumo desta edição do programa.

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Oktoberfest de Igrejinha entrega viatura semi-blindada

A Associação de Amigos da Oktoberfest de Igrejinha (Amifest) oficializou a entrega de uma viatura Toyota Corolla Cross zero quilômetro à Brigada Militar de Igrejinha (RS). O veículo semi-blindado custou R$ 244.827,50, pagos com recursos da 35ª edição do evento, realizada em 2024. O repasse total da festa para a corporação superou R$ 342 mil. O automóvel reforçará o policiamento ostensivo no município. A próxima edição da maior festa voluntária do país ocorre entre 9 e 18 de outubro de 2026.

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Restaurante de Paraty recebe selo Gold Community do Untappd

O restaurante Fugu Japanese Food, localizado em Paraty (RJ), conquistou o selo Gold Community Awards 2025 da plataforma Untappd. O reconhecimento foca na cerveja Japanese Rice Lager, criada em parceria com a cervejaria Blackfin exclusivamente para a casa. O rótulo utiliza arroz japonês e lúpulos Amarillo e Citra em sua receita. Além da premiação global, o estabelecimento passou a integrar o Guide Michelin Voyage & Cultures – Brésil, reforçando sua projeção no cenário gastronômico internacional.

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Academia da Cerveja lança cursos de harmonização

A Academia da Cerveja, escola da Ambev, estreia em São Paulo (SP) dois projetos de ensino gastronômico: Harmoniza Fácil e Como assim, Cerveja? As aulas ocorrem na sede da instituição, no bairro de Pinheiros, e terão desdobramentos online para todo o Brasil. O primeiro curso foca em ingredientes cotidianos, enquanto o segundo explora combinações com chocolate e sorvete. A primeira edição do projeto focado em sabores inusitados acontece na quarta-feira (1º). Inscrições estão disponíveis via Sympla.

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Famosos prestigiam espaço da Bud no Lollapalooza

O espaço da Budweiser no Lollapalooza Brasil 2026 recebeu influenciadores e artistas em São Paulo (SP) durante o domingo (22). Bianca Andrade, Cynthia Luz e Mauricio Destri circularam pela estrutura de 750 metros quadrados instalada no Autódromo de Interlagos. O local foi projetado com estética inspirada nas décadas de 1990 e 2000, funcionando como centro de experiências e produção de conteúdo. A marca reforça sua estratégia de conexão com grandes festivais de música e entretenimento.

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Marina Ruy Barbosa promove Stella Pure no Miami Open

A atriz Marina Ruy Barbosa visitou o torneio de tênis Miami Open, nos Estados Unidos, acompanhada do modelo Chico Lachowski. Durante o evento, a artista promoveu a cerveja Stella Pure Gold e utilizou peças da coleção Touch of Gold. A linha de roupas foi desenvolvida pela própria Marina em colaboração com a tenista Aryna Sabalenka, atual número 1 do mundo. As peças buscam alinhar detalhes dourados e cortes sofisticados à identidade visual da bebida.

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Álex Márquez participa de encontro com fãs em Goiânia

O piloto Álex Márquez, atual vice-campeão mundial de MotoGP, participou na sexta-feira (20) de um encontro exclusivo no espaço de hospitalidade da Estrella Galicia, em Goiânia (GO). Durante a atividade no Autódromo Internacional Ayrton Senna, o espanhol elogiou as condições do circuito e destacou o potencial do brasileiro Diogo Moreira na categoria principal. A ação integra a estratégia da Dorna Sports, organizadora da competição, e da cervejaria para fortalecer o vínculo entre os torcedores e o ecossistema do esporte motor no Brasil.

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Estrella Galicia ativa patrocínio no GP do Brasil de MotoGP

A Estrella Galicia, cervejaria independente da Espanha, reforça sua presença na MotoGP como patrocinadora principal do Grande Prêmio do Brasil, realizado no Autódromo Internacional Ayrton Senna, em Goiânia (GO). O evento marca o retorno da categoria ao país após 22 anos. A marca promove ativações como a Dance Cam, que premia torcedores com acesso ao paddock, e disponibiliza copos colecionáveis na Fan Zone. A etapa conta com a participação de pilotos patrocinados pela marca, entre eles o brasileiro Diogo Moreira e o atual campeão Marc Márquez.

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Mosteiros mantêm viva a tradição secular das cervejas de abadia no Brasil

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O período da Quaresma geralmente remete à ideia de jejum e reflexão. Mas na história cervejeira, essa época do ano também tem uma ligação profunda com a produção de cervejas nos mosteiros. Foi para atravessar longos períodos de restrição alimentar que os monges criaram versões mais encorpadas e nutritivas da bebida para sustentar o corpo, muitas vezes conhecidas como “pão líquido”. Hoje, essa tradição milenar das cervejas de abadia ultrapassa as fronteiras europeias e ganha cada vez mais força no Brasil, aliando fé, trabalho e ingredientes locais.

Mas, afinal, o que são cervejas de abadia? 

Diferente do rigoroso selo “Trapista” — uma denominação de origem protegida, exclusiva de monastérios da Ordem Cisterciense da Estrita Observância, na qual a produção deve ser feita obrigatoriamente pelos próprios monges, ou sob supervisão deles, dentro dos muros dos mosteiros —, o termo “cerveja de abadia” é mais abrangente. Ele engloba tanto as bebidas produzidas por monges de outras ordens religiosas (como beneditinos e cistercienses comuns) quanto rótulos feitos por cervejarias comerciais que mantêm acordos oficiais de licenciamento com mosteiros, revertendo parte dos lucros para a manutenção da instituição e suas obras de caridade. 

Não é uma obrigação, mas no copo essas cervejas costumam seguir a clássica escola belga. Sendo assim, são em geral ervejas de alta fermentação (Ales), complexas, encorpadas, muitas vezes frutadas ou condimentadas, que carregam séculos de tradição a cada gole.

A alquimia mineira do Mosteiro de Claraval

Essa tradição pode ser degustada no interior de Minas, no Mosteiro de Claraval, da Ordem Cisterciense. Lá, os visitantes encontram quatro tipos de cerveja que podem ser comprados dentro da loja do mosteiro, sob a marca monástica “Vale dos Monges”.

E a receita traz uma peculiaridade, ou um toque de brasilidade: enquanto as cervejas tradicionais belgas utilizam o candy sugar (um tipo de açúcar invertido utilizado para elevar o teor alcoólico das bebidas), a cerveja do Mosteiro de Claraval ganhou um sotaque brasileiro ao substituir o ingrediente europeu por rapadura fornecida diretamente por um produtor da própria região.

A ideia da substituição do ingrediente partiu de uma colaboração entre os religiosos e a cervejaria paulista SacraMalte, responsável por terceirizar a produção. O mosteiro já contava com uma tradição de mais de 50 anos na fabricação de licores, mas faltava estrutura física para abrigar uma cervejaria própria. 

A parceria da SacraMalte com o Mosteiro de Claraval

O cervejeiro Ivan Tozzi, responsável pelo desenvolvimento das cervejas, conta que fez várias reuniões com o mosteiro, levando exemplares de cerveja para eles experimentarem, até chegarem aos ingredientes dos produtos finais.

O objetivo era criar receitas que seguissem a tradição das cervejas de abadia, mas que pudessem criar uma identidade própria. Durante as sessões de degustação guiadas pela cervejaria, os monges aprovaram, inicialmente, o estilo Belgian Blond Ale. Foi então que surgiu a ideia de dar um toque de brasilidade à bebida com a rapadura. 

O ingrediente passou a ser comprado de um produtor da própria cidade de Claraval, trazendo regionalidade à receita. Para o Padre Mateus Luis Silva Resende, a escolha fez todo o sentido, por ligar a tradição monástica à cultura local.

Mosteiro de Claraval, em Minas, faz cerveja de abadia em parceria com a cervejaria SacraMalte. (Foto: Associação do Comércio e Indústria de Franca)
Mosteiro de Claraval, em Minas, faz cerveja de abadia em parceria com a cervejaria SacraMalte. (Foto: Associação do Comércio e Indústria de Franca)

Venda exclusiva e turismo religioso nos mosteiros

Atualmente, as cervejas da linha “Vale dos Monges” contam com uma produção artesanal de 600 litros por mês. A comercialização ocorre exclusivamente em garrafas e dentro das dependências do Mosteiro de Claraval. A estratégia não é por acaso; o objetivo principal é atrair o público para vivenciar a rotina do local. “Nossa preocupação principal era atrair as pessoas para que pudessem também conhecer o Mosteiro”, destaca o Padre Mateus. O cervejeiro Ivan Tozzi reforça o propósito do projeto. “A ideia é justamente fazer com que as pessoas vão lá para visitar o Mosteiro, conhecer, rezar e tragam de volta o souvenir, que seria a cerveja”.

O sucesso da primeira receita abriu caminho para o desenvolvimento de novos estilos, completando hoje uma carta de quatro cervejas de tradição monástica, descritas por Tozzi:

Mosteiro de Claraval, em Minas, faz cerveja de abadia em parceria com a cervejaria SacraMalte. (Foto: Reprodução / @mosteirodeclarava)
Mosteiro de Claraval, em Minas, faz cerveja de abadia em parceria com a cervejaria SacraMalte. (Foto: Reprodução / @mosteirodeclarava)
  • Belgian Blond Ale (600 ml / 6,2% Vol / 20 IBU): Apresenta uma coloração dourada e clara. A espuma é sutilmente cremosa e de boa retenção. O aroma frutado remete a pêssego, frutas amarelas e damasco seco. No paladar, o sabor suave traz um leve dulçor conferido pela rapadura regional, com final levemente alcoólico e mais seco.
  • Belgian Dubbel (600 ml / 7,1% Vol / 26 IBU): De cor cobre, traz no paladar notas maltadas complexas, que lembram caramelo e toffee, além de ricos sabores de ésteres de frutas escuras. Logo em sua estreia na 2ª Copa Paulista de Cerveja, a excelência da receita conquistou a medalha de bronze.
  • Patersbier (600 ml / 5% Vol / 26 IBU): Historicamente consumida nos monastérios durante o jejum. É uma ale clara, de médio amargor, muito atenuada e com um caráter de levedura belga frutada e condimentada. Suave e fácil de beber, é considerada a mais leve entre as cervejas de tradição de cervejas de abadia.
  • Quadrupel (600 ml / 8% Vol / 29 IBU): O estilo, conhecido também como Dark Strong Ale, revela um tom vermelho-rubi quando o líquido é visto contra a luz. De sabor complexo e forte, surgiu como uma edição comemorativa limitada para celebrar os 75 anos do monastério. O sucesso de vendas foi tão grande que a bebida entrou para a linha fixa de produção.

Padre Marcelo explica que a cerveja, nestes casos, deve ser apreciada como uma degustação, sem o desequilíbrio que o consumo excessivo do álcool pode trazer. “A cerveja é algo que você pode degustar, ela não pode te dominar”, explica, citando a tradição do consumo de vinho, na Itália, como exemplo de uma bebida alcoólica já incorporada na tradição religiosa católica sem que haja excessos.

Outras tradições de mosteiros e clausura pelo Brasil

A vocação cervejeira dos religiosos não se restringe a Minas Gerais. Há vários outros mosteiros pelo Brasil que trabalham com a mesma ideia. Na cidade de São Paulo, a padaria do tradicional Mosteiro de São Bento também oferece receitas de cervejas desenvolvidas com a participação ativa dos monges na clausura.

No Rio de Janeiro, a tradição monástica ganhou vida recentemente com a “Santo Gole”, uma cerveja artesanal lançada pelos monges beneditinos do Mosteiro de São Bento de Mussurepe, na zona rural de Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense. E que já nasce com a bênção dentro das paredes do histórico mosteiro.

Já na região Sul do país, o destaque fica por conta das religiosas do Mosteiro Nossa Senhora da Boa Vista, em Santa Catarina. Elas fizeram história na indústria nacional ao se tornarem as primeiras monjas trapistas do Brasil a criar e produzir suas próprias cervejas, seguindo à risca as rígidas tradições de sua Ordem.

Em meio a orações, cânticos e muito trabalho manual, essas abadias mostram que a milenar cultura do “pão líquido” encontrou um solo fértil no Brasil. Mais do que oferecer uma experiência sensorial única, essas cervejas proporcionam aos visitantes dos mosteiros e fiéis um verdadeiro brinde à história e à espiritualidade.

8 cervejarias em Curitiba para degustar “direto da fonte”

Cerveja boa é cerveja fresca. Essa máxima da sabedoria popular cervejeira reflete, em última instância, a natureza da nossa querida bebida. Trata-se de um alimento como qualquer outro, que se deteriora naturalmente com o tempo e sofre com as intempéries da distribuição (choques físicos, térmicos, etc.). E uma das melhores formas de provar versões fresquinhas é degustar direto da fonte, nas próprias fábricas ou brewpubs. Por isso, o Guia da Cerveja organizou uma lista com algumas das melhores cervejarias em Curitiba (PR) para visitar. O município, que completa 333 anos neste domingo (29), é uma das melhores cidades do país para curtir esse tipo de experiência.

Isso porque a capital paranaense concentra vantagens importantes para quem gosta de fazer tours cervejeiros. Ao todo, há 29 cervejarias em Curitiba, o que faz dela a terceira cidade mais cervejeira do país, segundo o Anuário da Cerveja 2025, do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) — perdendo apenas para São Paulo (66) e Porto Alegre (43).

Além disso, tem uma área urbana menor que as capitais paulista ou gaúcha, facilitando o deslocamento entre os locais. Por fim, muitos dos produtores de cerveja têm algum tipo de estrutura de serviço e recebem visitantes regularmente.

Por esses, entre outros motivos, Curitiba recebeu em 2017 o título de Capital da Cerveja Artesanal da Câmara Municipal da cidade. E conta até com um roteiro institucionalizado. Lançada em 2024, a Rota Cervejeira reúne 20 cervejarias, pubs, bares e empreendimentos de 17 bairros curitibanos.

Curitiba conta também com uma das regiões metropolitanas mais cervejeiras, com destaque para cidades como Pinhais, Colombo e São José dos Pinhais. No entanto, para esta seleção, focamos exclusivamente em estabelecimentos com atendimento direto ao público dentro da capital.

Cervejarias em Curitiba

Frohenfeld

Trata-se de um brewpub especializado em estilos de cerveja alemães e um dos locais cervejeiros mais interessantes da cidade nos últimos tempos. As cervejas são muito bem executadas e colecionam medalhas. E o espaço, o Frohenfeld Keller, é agradável, com decoração industrial, cervejaria aparente com paredes de vidro, mas bem decorado num estilo germânico e aconchegante. O Frohenfeld Keller fica no Paseo República, uma espécie de praça gastronômica aberta, com outros empreendimentos de alimentação. Se bater a fome, o cardápio tem pizzas que são uma verdadeira atração à parte.

Endereço: Paseo República – Av. Rep. Argentina, 2557 – loja 10 – Portão (acesse os links para acessar informações dos locais, como horários de funcionamento, no Google Maps)

Instagram: @frohenfeld

Maniacs

Loucos por cerveja! Esse é o lema da Maniacs Brewing Co., que completa dez anos agora em 2026. O bar da Maniacs, brewpub da marca, é um dos locais mais bacanas em termos de variedade e qualidade das cervejas, desde a tradicional Maniacs IPA que se encontra nos mercados (mas muito mais fresquinha) até rótulos experimentais que você só prova por lá. A marca também é responsável pela produção da Brooklyn Brewery no Brasil e, volte e meia, tem rótulos da marca norte-americana nas torneiras. 

Endereço: Av. Munhoz da Rocha, 1049 – Cabral

Instagram: @maniacsbrew e @bardamaniacs

Bodebrown

Uma das cervejarias de Curitiba mais conhecidas pelo Brasil, a Bodebrown aposta no atendimento direto ao consumidor desde que foi fundada em 2009. Na época, se denominava cervejaria escola e atuava também como brewshop. Mas desde pelo menos 2016, o espaço se tornou um grande ponto de encontro e de eventos aos finais de semana. Atualmente, a rua na frente da fábrica chega a ser fechada para festas especiais e há programação acontecendo quase toda a semana. A trilha sonora em geral é o rock, estilo que se fixou ainda mais na marca desde que ela passou a produzir cervejas da banda Iron Maiden no Brasil. O destaque fica com as cervejas de postura ousada e a nova iniciativa gastronômica da cervejaria, com a instalação de um bistrô de comida belga no complexo da fábrica. 

Endereço: R. Carlos de Laet, 1015 – Hauer

Instagram: @bodebrown

Joy Project Brewing

Falando em eventos, a Joy Project Brewing também está entre as cervejarias em Curitiba que fazem festas nos finais de semana. O taproom da fábrica, que fica no Xaxim, tem 15 torneiras com novidades constantes, ousadas e criativas. Bandas e grupos musicais tocam por lá semanalmente. O espaço também abre nas noites de quarta a sexta-feira, além de sábado à tarde e à noite.

Endereço: Linha Verde, 15847 – Xaxim, Curitiba – PR, 81690-200

Instagram: @joyprojectbrewing

Bastards Brewery

Foi fundada em 2013 em Pinhais, uma das cidades cervejeiras da Região Metropolitana de Curitiba. Mas em 2021 se mudou para a região do Centro Cívico, bairro da capital com alta concentração cervejeira. O novo espaço é grande, com total de 2,2 mil m², dividido entre fábrica e o Bar da Fábrica Bastards. A casa é completa, com cardápio variado, tendo porções e sanduíches, além das cervejas e até bons drinks. Especialmente aos finais de semana, à medida que a noite avança, a música aumenta e o bar se transforma em pista para os mais animados. A cervejaria também tem uma segunda casa, o We Are Bastards Pub – esse sim é um verdadeiro bar-balada com 32 torneiras de chope, mas sem cervejaria.

Bar da Fábrica Bastards: Rua Comendador Lustoza de Andrade, 69 – Bom Retiro

We Are Bastards Pub: Av. Iguaçu, 2300 – Água Verde

Instagram: @bastardsbrewery, @bardafabricabastards e @wearebastardspub

Fumaçônica

Iniciou sua trajetória como cervejaria cigana em 2016 e abriu o próprio brewpub no ano passado, também na região do Centro Cívico. A cervejaria, conhecida pela identidade psicodélica e artes chamativas, tem bons rótulos e o espaço é amplo, descontraído e democrático. Aproveite as porções e sanduíches da casa.

Endereço: R. Mateus Leme, 2148 – Centro Cívico

Instagram: @fumaconica

Hop ‘n Roll

É um dos primeiros bares especializados em cervejas artesanais de Curitiba. Foi fundado em 2011 e, além de bar, trazia o conceito inovador de Brew on Premises para o Brasil — local onde é possível “alugar” o equipamento e produzir sua própria cerveja. Nunca perdeu essa vocação (ainda é possível fazer o mesmo), mas com o tempo também passou a produzir cervejas próprias. Hoje opera regularmente como Brewpub, produzindo muitas das cervejas que ocupam as 36 torneiras da casa. Tem cardápio farto e é um ótimo lugar para encontrar boa variedade de cervejas locais.

Endereço: R. Mateus Leme, 1098 – Bom Retiro

Instagram: @hopnroll

Alright

Fundada em 2018, a Alright Brewing oferece em suas sedes a experiência de verdadeiros jardins cervejeiros. A proposta vai além do tradicional modelo de biergarten alemão, oferecendo espaços aconchegantes e descontraídos, bem familiares, com parquinho para crianças e mesas para comer, beber e jogar conversa fora. Pegue sua cadeira de praia, estique as pernas, peça um sanduíche ou uma porção e curta o dia.

Alright Orleans: R. Adir Dalabona, 95 – Orleans

Alright Água Verde: R. Pará, 665 – Água Verde

Instagram: @alrightbeer

Outras cervejarias

Existem ainda outras cervejarias na cidade que operam apenas como fábricas, mas nas quais você pode comprar algo na lojinha ou até mesmo encher um growler para levar para casa. Como não necessariamente se encaixam na ideia de “beber na fonte”, optamos por deixar algumas delas como dicas extras. A Gauden Bier é uma das mais tradicionais da cidade, situada no bairro gastronômico italiano de Santa Felicidade, e produtora de várias ciganas que marcaram época entre as cervejarias em Curitiba. Já a Xamã é uma fantástica produtora de Sours, a Swamp tem festas muito bacanas em datas específicas (vale ficar atento à programação) e a Yule tem localização privilegiada no Prado Velho, perto da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).

Qual das cervejarias em Curitiba você já visitou e indica? Deixe sua dica nos comentários.

Abracerva propõe redução do Imposto Seletivo para artesanais por volume de produção

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A Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva) apresentou ao governo em agosto do ano passado uma proposta que envolve um sistema gradual de aplicação do Imposto Seletivo (IS) de acordo com o porte de cada cervejaria. Ela é dividida em cinco diferentes faixas, com reduções de alíquota que variam de 95% para produtores de até 1 milhão de litros por ano até a aplicação total do novo tritubo para quem fabrica acima de 10 milhões.

A Abracerva apresentou o documento ao secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Bernard Appy, em agosto de 2025. No início de março, o assunto foi tema de discussão no Encontro Nacional das Associações Cervejeiras, durante o Festival Brasileiro da Cerveja, em Blumenau (SC).

A proposição amplia a ideia de desconto de tributos federais para pequenas indústrias já contemplada em tributos atuais, como o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), Programa de Integração Social (PIS) e Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) por porte das cervejarias.

O objetivo é garantir que o custo da cerveja não suba para os pequenos produtores, explica o presidente da Abracerva Gilberto Tarantino. “A gente luta para que o Imposto Seletivo não puna nem a população nem os empresários, aumentando o preço da cerveja para o consumidor final”, diz.

De acordo com Tarantino, a proposta é fruto de um entendimento e articulação feitos em 2024 com as grandes cervejarias. “Eles entenderam que era importante o apoio deles, apoio no Congresso, para que as pequenas cervejarias e posteriormente as demais indústrias de bebidas, como vinho e destilado, tivessem um tratamento tributário diferente”, conta.

A expectativa é que o Executivo envie o projeto de lei ordinária que regulamentará as alíquotas do IS ao Congresso em breve.

Faixas de redução

A proposta foi elaborada pelo diretor tributário da Abracerva, o contador e advogado tributarista Marcos Moraes. Segundo ele, a Lei 13.097/2015 já institui uma redução de 20% para quem produz até 5 milhões de litros por ano (teto de volume para ser uma cervejaria artesanal, segundo a Abracerva). Além de 10% para as empresas situadas entre esse volume e 10 milhões de litros.

No entanto, o argumento da Abracerva é que a faixa de trabalho atual é insuficiente para dar conta do novo desenho do mercado de microcervejarias, que tem 95% dos produtores concentrados na menor faixa de produção. A Abracerva argumenta que a legislação atual trata de forma igual empresas com escalas muito distintas, o que justifica a criação de degraus de desconto mais específicos (a chamada progressividade).

Para que haja uma graduação que realmente impacte os pequenos produtores, a proposta da Abracerva divide as cervejarias brasileiras em cinco faixas ao todo. Os menores produtores (até 1 milhão de litros por ano) ficariam com 95% de redução no Imposto Seletivo, enquanto para aqueles acima de 10 milhões de litros não haveria redução, conforme a tabela abaixo.

Progressividade por PorteLegislação AtualProposta
de 0 a 1 milhão /ano20%95%
1 milhão a 2,5 milhões/ano20%75%
2,5 milhões a 5 milhões/ano20%50%
5 milhões a 10 milhões/ano10%25%
Acima 10 milhões /ano0%0%

Impacto

Moraes explica que o desconto proposto para o IS é necessário para acomodar os diversos volumes de produção das cervejarias pequenas. “Hoje já há um ‘gap’ entre o Regime Tributário do Simples Nacional e a regra geral aplicada às grandes cervejarias que, mesmo com o redutor de 20%, ainda é insuficiente. As pequenas cervejarias que estão próximas ao teto do Simples têm alíquota próxima dos 20% e, se trocarem de regime tributário, terão que recolher tributos próximos dos 40% para a faixa de até 5 milhões de litros hoje”.

As cervejarias com produção de até 5 milhões de litros por ano são cerca de 95% das fábricas do Brasil. No entanto, produzem apenas pouco mais de 1% do volume total de cervejas do país — que é de 15,34 bilhões de litros em 2024, segundo o Anuário da Cerveja 2025 do Mapa. Para o governo, a perda fiscal com o desconto na arrecadação seria mínima, mas o impacto seria muito grande para os pequenos produtores de cerveja. E isso poderia fazer a diferença para a sobrevivência tanto dos empreendimentos quanto de todo o ecossistema do setor.

O que é o Imposto Seletivo?

O Imposto Seletivo (IS), popularmente conhecido como “Imposto do Pecado”, é um novo tributo federal criado pela Reforma Tributária (Emenda Constitucional 132/2023). Tem natureza extrafiscal, ou seja, seu objetivo central é desestimular o consumo de bens e serviços que, segundo os legisladores, fazem mal à saúde ou ao meio ambiente. Ele incidirá sobre cigarros, bebidas alcoólicas, bebidas açucaradas e itens prejudiciais ao ecossistema, como derivados de petróleo e minerais.

A proposta da Abracerva, portanto, tenta equilibrar o caráter desestimulador do imposto com a manutenção da viabilidade econômica de um setor que gera milhares de empregos regionais.

Cerveja Duff, dos Simpsons, volta de vez ao Brasil, 100% oficial e licenciada

A famosa cerveja Duff, imortalizada como a bebida favorita de Homer na série de animação “Os Simpsons“, está de volta ao Brasil. Desta vez, a icônica marca chega devidamente licenciada e de forma totalmente oficial, encerrando um histórico de tentativas frustradas de comercialização no país.

Apesar de carregar todo o imaginário da cultura pop norte-americana, a versão que desembarca por aqui não é fabricada nos Estados Unidos e muito menos em Springfield. A nova Duff é importada diretamente de Portugal, mais especificamente da cidade de Santarém.

Trata-se de uma American Lager de nível Premium com 4,8% de teor alcoólico, envasada em latas de 330 ml e já disponível no e-commerce TodoVino. Diferente das iniciativas de 2011 e 2016, que enfrentaram problemas de direitos autorais , o lote atual paga royalties à dona da marca e atende a todas as exigências legais.

Para entender melhor os bastidores dessa novidade e o que o consumidor pode esperar nos copos, o Guia da Cerveja conversou com Nayara Agostinho, gerente de produto da Interfood. Ela conta detalhes sobre o longo processo para trazer a cerveja de volta, como a empresa conseguiu blindar a operação contra os problemas do passado e quais são os planos para garantir que a Duff não seja apenas um item de prateleira de colecionador, mas uma cerveja para o dia a dia do brasileiro.

Duff Beer, a cerveja dos Simpsons. (Imagem: Reprodução)

Confira a entrevista completa:

Não é a primeira vez que a cerveja Duff tenta entrar no mercado brasileiro. Nas tentativas anteriores houve problemas devido aos direitos autorais. Qual foi a estratégia da Interfood para trazer a marca oficialmente?

A Duff Beer chega ao Brasil neste momento com uma estrutura totalmente regularizada e alinhada aos detentores oficiais da marca. A Zubral possui o licenciamento oficial junto à Disney (proprietária global da marca Duff Beer) para a produção e comercialização da cerveja. A Interfood Importação foi escolhida como parceira exclusiva para a distribuição no Brasil, garantindo que o produto chegue ao mercado brasileiro de forma oficial, respeitando todos os trâmites legais e de propriedade intelectual.

Qual a diferença em relação ao que houve no passado e como a Interfood se blindou para não repetir o que deu errado anteriormente?

Sabemos que, no passado, houve iniciativas de comercialização da Duff Beer no Brasil realizadas por outras empresas, sem qualquer relação com as atuais detentoras dos direitos e sem a devida autorização da proprietária da marca, o que gerou os entraves legais conhecidos. O cenário atual é completamente diferente. Isso garante segurança jurídica, autenticidade do produto e alinhamento com os padrões globais da marca.

O contrato firmado tem um prazo de validade ou a Duff chega para ficar permanentemente no portfólio de vocês?

A Duff Beer chega ao Brasil dentro de um projeto estruturado com foco em desenvolvimento e continuidade da marca no país. A operação foi desenhada para construir presença consistente no mercado brasileiro, com estratégia de médio e longo prazo, reforçando o potencial de crescimento da marca no portfólio da Interfood.

Onde a cerveja está sendo fabricada atualmente?

A Duff Beer é produzida na Europa, em Portugal, seguindo os padrões internacionais definidos pela marca. 

Qual é o perfil sensorial? Houve alguma adaptação para o Brasil?

A Duff Beer é uma American Lager, um estilo conhecido por sua leveza. Ela apresenta perfil sensorial equilibrado, com notas suaves de malte, delicado toque floral e final muito refrescante, o que favorece uma excelente drinkability, ou seja, uma cerveja fácil de beber, ideal para diferentes ocasiões de consumo. A receita é a mesma comercializada internacionalmente, sem adaptações para o mercado brasileiro.

Qual é o volume do primeiro lote de importação e qual a estratégia de distribuição?

O primeiro lote chegou no Brasil em setembro de 2025, com mais de 4 mil unidades já disponibilizadas ao público. A estratégia de distribuição da Duff Beer no Brasil foi estruturada para garantir ampla presença e capilaridade nacional. Como a Interfood atua em todas as regiões do país, atendendo diferentes canais, incluindo grandes redes de varejo, bares, restaurantes, empórios especializados, o produto está disponível para consumidores de todo o Brasil, inclusive por meio do TodoVino, o e-commerce oficial de vendas da Interfood.

Vocês enxergam a Duff mais como um item de nicho/colecionador para os fãs de Os Simpsons ou como uma cerveja para o consumo rotineiro?

A Duff Beer chega ao Brasil com uma proposta que equilibra força de marca e qualidade do produto. Embora exista uma conexão natural com fãs da série, a cerveja foi desenvolvida para atingir um público amplo. Como uma American Lager leve, ela é fácil de beber e adequada para o consumo em diferentes ocasiões. Nossa expectativa é construir a presença da Duff de forma consistente no mercado brasileiro, tanto como um produto desejado quanto como uma opção de consumo recorrente.

Padronização e polos produtivos são desafios do setor de lúpulo nacional

O avanço do lúpulo nacional como uma cultura agrícola robusta no Brasil passa, inevitavelmente, pelo desafio da comercialização. Se por um lado o país alcançou níveis recordes de produtividade em campo, por outro o mercado interno ainda impõe gargalos que exigem uma mudança de rota estratégica. 

Dados do Mapa do Lúpulo Brasileiro 2024, da Associação Brasileira de Produtores de Lúpulo (Aprolúpulo), apontam que 53% dos produtores vendem diretamente para as cervejarias e 18% não conseguem comercializar a produção (confira o relatório completo). Atualmente, a produção nacional atende de 2% a 3% de toda a demanda da indústria cervejeira brasileira e tem um amplo espaço para crescer.

Para Daniel Leal, vice-presidente Aprolúpulo, para preencher essa lacuna e, no futuro, competir em nível global, os produtores precisam deixar para trás o trabalho individualizado e focar em escala, padronização e na transição das variedades cultivadas.

O desafio do custo e a força do amargor

A atual dinâmica de vendas no país é muito voltada para o mercado de cervejas artesanais, que valoriza e absorve os lúpulos de aroma, como o Comet e o Cascade, explica Leal. 

Essas variedades possuem um valor de mercado mais atrativo para o produtor, o que ajuda a viabilizar financeiramente as pequenas lavouras. No entanto, elas não representam a fatia mais expressiva do consumo das cervejarias, que necessitam de vastas quantidades de lúpulos de amargor para linhas principais. A dificuldade de atender a esse segmento está na importação do insumo estrangeiro, já que os lúpulos importados chegam ao país com valores extremamente competitivos.

Daniel Leal reconhece que o salto de crescimento dependerá de resolver essa equação de custos. “A gente tem mapeado quais são os gargalos que precisamos destravar para voltar a ter saltos produtivos”, afirma Leal. Entre eles, está um aumento expressivo no volume das lavouras. “No atual nível de escala do mercado brasileiro, é difícil você ter competitividade no mercado. Porque esse lúpulo, lá fora, ele também tem alta produtividade, enfim, então ele chega aqui no Brasil a um preço menor”.

Como as variedades de amargor entregam uma produtividade por planta superior às de aroma, o custo de produção por quilo cai de forma natural. Apontando o caminho financeiro viável para o produtor. “À medida que a gente for ganhando escala, a gente vai fazer uma transição também para a gente produzir cada vez mais lúpulo de amargor e menos lúpulo de aroma”, projeta o vice-presidente.

Polos produtivos

Outro gargalo comercial está na forma como o insumo é processado e vendido. Em uma cultura emergente, muitos produtores pioneiros operam de maneira totalmente verticalizada. E absorvem sozinhos os altos custos de secagem, peletização e embalagem, além de realizarem vendas diretas. A saída para esse desafio financeiro é a integração regional e a centralização dos processos de beneficiamento, criando polos produtivos.

Isso também muda o principal argumento de venda do lúpulo nacional. Nos últimos anos, muito se falou sobre o “terroir brasileiro”, destacando as características aromáticas únicas que plantas estrangeiras desenvolvem ao crescerem sob o clima e solo do Brasil. No entanto, para abastecer a grande indústria, a constância do insumo vale mais do que a sua exclusividade.

Daniel Leal pontua que o discurso do terroir funciona bem na atual fase do setor, mas precisará dar espaço à segurança industrial. “Quando a gente pensa que os produtores estão mais pulverizados, cada um fazendo seu esforço comercial, esse é um argumento que sim, ele tem valor. Mas quando a gente pensa em crescer e desenvolver a cultura para uma escala maior, o fator do padrão, qualidade e processo de industrialização estabelecido será muito mais relevante ao setor do que o fator do terroir”, argumenta.

Lúpulo nacional de olho no mundo

Embora o mercado interno do lúpulo represente uma fração pequena do agronegócio brasileiro, o potencial de expansão é grande. E é visto como um passaporte para um futuro mais ambicioso. 

O objetivo imediato da Aprolúpulo e de seus produtores é conseguir organizar a cadeia produtiva para suprir uma parte relevante das cervejarias nacionais, afirma Leal. Assim, quando as barreiras de escala e de custo forem superadas dentro do próprio país, as portas de exportação estarão naturalmente abertas para as fazendas brasileiras. “A partir do momento em que atendermos ao mercado interno, o mundo inteiro passa a ser o público-alvo do setor”, conclui Leal.

Assim, as perspectivas do setor envolvem melhorar a integração entre produtores, ampliar a industrialização e promover a entrada de novos agentes com capacidade de investimento e avanço em pesquisa para iniciar um novo ciclo no setor.

Confira o relatório completo