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Aplicativos Zé Delivery e BEES impulsionam expansão da Ambev, avaliam analistas

As plataformas digitais BEES e Zé Delivery têm sido fundamentais para o crescimento da AmBev e continuarão sendo importantes para a sua expansão. A avaliação é das equipes de analistas do Credit Suisse e da XP Investimentos, que apontaram o êxito da venda digital de produtos através dos aplicativos como impulsionador da estratégia da multinacional cervejeira no Brasil.

Apenas no primeiro trimestre de 2021, o Zé Delivery recebeu 14 milhões de pedidos. “Estimamos que Zé Delivery e BEES podem, juntos, contribuir com cerca de 5 milhões de hectolitros para os volumes de cerveja no Brasil e atingir aproximadamente 8% das vendas de cerveja no mercado nacional em 2026”, avalia a equipe de análise do Credit Suisse.

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Analistas da XP, Leonardo Alencar e Larissa Pérez apontam que o desafio operacional será ampliado para a Ambev melhor utilizar os aplicativos, com ações para investimentos em descontos e precificação, além de algoritmos para apresentação personalizada do portfólio. Uma oportunidade que poderá tornar o cenário ainda mais favorável para a companhia, se aproveitado.

“Em um primeiro momento, os dois aplicativos podem soar apenas com novos canais digitais que podem facilitar a comercialização. Entretanto, na nossa visão, ambos podem mudar completamente o jogo”, destacam os analistas da XP.

Para eles, além de ajudar as vendas, as plataformas têm contribuído para a Ambev ter preços mais competitivos e ampliar o seu mix. Esse aumento do portfólio, que se mantém em 2021 com a chegada da Michelob Ultra, foi, também, uma das razões vistas pela XP para o crescimento de 4,2% no volume de cerveja em 2020, para 111,2 milhões de hectolitros.

Os preços médios também nos surpreenderam positivamente, sobretudo devido à estratégia de diversificação do portfólio da AmBev, aumentando a relevância de marcas de maior valor agregado

– Leonardo Alencar e Larissa Pérez, analistas da XP

Com isso, foi possível ter um aumento de 13% no preço médio das cervejas da Ambev no ano passado, ainda que as margens de lucros não tenham sido ampliadas. “Vale lembrar que esse aumento de preços foi feito em cima de uma base de volume crescente, o que também enxergamos com bons olhos”, acrescentam os analistas da XP.

Além das plataformas para o comércio, a BEES, e o consumidor, o Zé Delivery, a Ambev vem se destacando pela conquista de mercado através da Brahma Duplo Malte. “Vemos a Ambev bem posicionada para continuar crescendo competitivamente, beneficiando-se de inovação nos segmentos core plus [como a Brahma Duplo Malte] e premium e da aceleração de suas plataformas D2C [direto para o consumidor]/ B2B [venda para comércio]”, escreve a equipe de análise do Credit Suisse.

O Credit Suisse também elogia a postura inovadora da Ambev na gestão de Jean Jereissati, citando ainda que a cervejaria tem priorizado ampliar o volume de vendas em detrimento de maiores lucros, adotando uma política de preços que a aproxima de um público de menor renda.

“Esperamos que a Ambev continue usando uma abordagem mais flexível para equilibrar o crescimento do volume com iniciativas de preços, abordando assim os consumidores de menor renda, mas também sustentando seu impulso de crescimento do Ebitda, apesar da provável pressão dos custos das commodities em 2022 (mesmo que isso signifique uma recuperação mais lenta das margens daqui para frente)”, projeta o Credit Suisse,

Na avaliação dos analistas da XP, o pouco espaço para lucros continuará representando um desafio para a Ambev, até pela alta dos preços das commodities. “Acreditamos que ainda passaremos por alguns anos de margens mais baixas antes da empresa retomar o nível de 2019.”

Volta dos bares
Além disso, a XP destaca que as margens poderiam ser recuperadas mais rapidamente com a reabertura de bares e restaurantes, algo que tem ocorrido de modo mais lento em função da continuidade do número elevado de mortes por coronavírus.

“Esperávamos que bares e restaurantes voltassem a abrir suas portas em um ritmo mais rápido do que realmente aconteceu. Atualmente, não só muitos negócios ainda estão funcionando apenas parcialmente como ainda temos a terceira onda de Covid-19 pairando sobre nós”, apontam os analistas.

Ainda assim, a XP aposta que a retomada de bares e restaurantes será bastante benéfica para a Ambev. “Entendemos que, assim que a vacinação acelerar e bares e restaurantes voltarem a funcionar normalmente, deveremos ver uma melhora nas margens da AmBev, uma vez que as embalagens vendidas nesses canais são significativamente mais lucrativas para a empresa do que aquelas vendidas nos supermercados.”

Ações em alta
Esse otimismo, inclusive, fez o Credit Suisse elevar o preço-alvo da ação da Ambev para R$ 21,50. É uma meta ousada, não só porque o papel fechou o pregão da última terça-feira cotado a R$ 19,13, mas principalmente por não alcançar esse valor desde maio de 2018.

Em sua análise mais recente, a XP também ampliou o seu preço-alvo para a ação da Ambev, mas para R$ 20. É um valor mais baixo em relação ao mirado pelo Credit Suisse, mas ainda assim não alcançado por esse papel desde agosto de 2019.

AB InBev desenvolve garrafa long neck de 150g e diz ser “a mais leve do mundo”

A AB InBev desenvolveu e produziu uma garrafa long neck de vidro definida pela multinacional como “a mais leve do mundo”.  A cervejaria explicou que conseguiu reduzir o peso da embalagem do padrão de 180 gramas para apenas 150g, uma diminuição de 17%.

Como a embalagem é responsável por 50% da pegada de carbono desse produto, a redução de peso da garrafa long neck da AB InBev representa parcela relevante do seu objetivo de diminuir as emissões de CO2. As estimativas são de que, se usada em um ano de produção de vidro para as marcas da AB InBev na Europa, a utilização dessa garrafa mais leve provocaria uma diminuição da emissão de carbono equivalente ao da retirada de 62 mil carros de circulação anualmente.

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Proprietária de marcas internacionais como Budweiser, Stella Artois, Corona e Beck’s, a AB InBev atua no desenvolvimento de soluções como essa com o intuito de cumprir suas metas de sustentabilidade, o que inclui a redução de 25% nas emissões de CO2 em sua cadeia de valor até 2025.

E essa inovação foi desenvolvida pela AB InBev no seu centro tecnológico em Leuven, na Bélgica. “Reduzir o peso de nossas garrafas tem sido uma prioridade por muitos anos na AB InBev e esta nova garrafa mais leve é ​​um importante avanço ambiental e tecnológico, permitindo-nos diminuir a pegada de carbono da garrafa de vidro”, destaca Frederik De Graaf, diretor global de desenvolvimento de tecnologias de embalagem na AB InBev.

O profissional explica, porém, que desenvolver uma garrafa mais leve e implementá-la na linha de produção representa uma série de desafios para a empresa. “Ao reduzir o peso da garrafa, enfrentamos desafios de resistência – a cerveja é, obviamente, uma bebida carbonatada e a pressão interna pode aumentar devido à expansão do gás sob certas condições de calor. Também precisamos estar atentos à velocidade de nossas linhas de preenchimento, induzindo fortes impactos nas garrafas”, diz De Graaf.

O próximo passo da AB InBev será lançar a nova long neck na Europa, inicialmente como embalagem não retornável, em um trabalho seguido por pesquisas e desenvolvimento para que ela suporte vários ciclos de reciclagem.  

CBCA lança loja online e prevê participação de até 20% nas vendas de suas marcas

A pandemia do coronavírus forçou adaptações do segmento de cervejas artesanais, sendo que a venda online foi uma daquelas que se tornaram duradouras. É dentro desse contexto que a Companhia Brasileira de Cerveja Artesanal (CBCA) decidiu adotar essa modalidade de comercialização direta ao público com a abertura da sua loja virtual.

O e-commerce conta com os rótulos das marcas Leuven, Seasons e Schornstein, que compõem o grupo, além de cervejarias parceiras. A ideia da CBCA, com a loja virtual, é ampliar as opções disponíveis para o consumidor em comparação aos estabelecimentos físicos. E há a expectativa de que o comércio digital ganhe participação relevante nas suas vendas, de até 20%.

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“Do ponto de vista do consumidor é a oportunidade de ter acesso a produtos muitas vezes não disponíveis em determinadas regiões do varejo tradicional (offline). E do ponto de vista dos fabricantes é mais um canal de vendas com potencial de chegar de 15% a 20% das vendas nos próximos 2 anos”, conta o CEO da CBCA, Gustavo Barreira.

Na loja online da CBCA, o consumidor encontra também acessórios cervejeiros, copos, camisetas e kits temáticos, como Iniciante, Inverno, Gastronomia, Beer Geek, Best Sellers, IPA, Escola Alemã, Escola Americana, entre outros. E os compradores podem utilizar um código – UNINDO15 – para ter 15% de desconto na primeira compra no mês de abertura do comércio eletrônico.

Aniversário
Ao mesmo tempo em que compõe, com as suas cervejas, a loja online da CBCA, a Schornstein celebra, neste mês, os seus 15 anos de fundação. E a comemoração tem sido com um olhar para o passado, através de um minidocumentário, e com uma novidade: uma Doppelbock envelhecida, que chegará ao mercado em agosto.

Localizada em Pomerode (SC), a Schornstein tem, em seus 15 anos de trajetória, papel importante na consolidação do segmento. Uma história que está sendo contada em vídeos divulgados nas redes sociais, relatando momentos fundamentais da sua linha do tempo.

“Em 2014 lançamos garrafas e, na sequência, conquistamos uma medalha de ouro para nossa IPA. Desde então, ficou difícil suprir a demanda”, relembra Mauricio Zipff, fundador da Schornstein.

Essa história ainda terá uma novidade em breve: a marca também lançará, em agosto, a Doppelbock, uma garrafa de 750ml rolhada, que passará por pelo menos três meses de maturação.

Preço da cerveja tem alta de 0,13% em maio, mês com maior inflação em 25 anos

O preço da cerveja no domicílio teve alta de 0,13% em maio, mês que acabou ficando marcado pela expressiva aceleração do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). A inflação oficial no último mês foi de 0,83%, a maior para maio nos últimos 25 anos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE).

A cerveja no domicílio agora acumula inflação de 1,54% de janeiro a maio de 2021. E a alta do preço do produto está em 4,40% nos últimos 12 meses, de acordo com o levantamento do IBGE.

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Já a cerveja fora do domicílio apresentou deflação de 0,44% em seu preço em maio. Com isso, está com inflação de 1,81% no ano e de 3,89% nos últimos 12 meses.

Os itens de alimentação e bebidas, por sua vez, tiveram inflação de 0,44% em maio. Em 2021, a elevação dos preços do segmento está em 2,28%. E, no período de 12 meses, há aumento de expressivos 12,54%, fortemente influenciado pela elevação dos preços no segundo semestre de 2020.

Acima do teto
O IPCA de 0,83% em maio representou uma aceleração em relação aos 0,31% de abril. Ficou, ainda, em 3,22% em 2021 e em 8,06% nos últimos 12 meses, muito acima do teto da meta do governo federal para a inflação do ano – o centro é de 3,75%, podendo variar entre 2,25% e 5,25%.

A alta de 5,37% da energia elétrica foi a principal razão para a alta inflacionária em maio. “Passou a vigorar a bandeira tarifária vermelha patamar 1, que trouxe uma diferença grande em relação à bandeira amarela, que estava em vigor de janeiro a abril. O outro fator é a série de reajustes que houve no final de abril em várias concessionárias de energia elétrica espalhadas pelo país”, explica o gerente da pesquisa do IBGE, Pedro Kislanov.

Já outras bebidas alcoólicas no domicílio tiveram inflação de 1,21% em maio. O índice tem alta de 7,08% em 2021 e de relevantes 12,64% nos últimos 12 meses. Outras bebidas alcoólicas fora do domicílio, por sua vez, registraram deflação de 0,71% em maio. Passaram, assim, a ter recuo nos preços em 2021, ainda que de apenas 0,02%. E, nos últimos 12 meses, há alta de 4,64%.

Curiosamente, se os preços da cerveja e de outras bebidas alcoólicas fora do domicílio caíram em maio, a alimentação fora de casa teve inflação de 0,98% em maio.

“Um dos motivos que podem explicar esse comportamento na alimentação fora de casa é o aumento de custos, devido à alta nos preços das proteínas. Normalmente quando se faz uma refeição fora de casa, há mais o consumo de componentes como o pão, a carne e o arroz, por exemplo, do que das frutas. Outro aspecto é o possível aumento de demanda. Abril foi um mês em que houve intensificação das medidas restritivas. Já maio, por ter tido uma abertura maior, pode ter influenciado o aumento da demanda”, conclui Kislanov.

Balcão do Profano Graal: História da cerveja no Brasil – Imigrantes e produção caseira

Balcão do Profano Graal: História da cerveja no Brasil – Os imigrantes e a produção caseira


Uma vez que no dia 5 deste mês se comemorou o Dia da Cerveja Brasileira, achei oportuno me manter no tema da coluna do mês passado: os primórdios da história da cerveja no Brasil independente. Quando se fala em Brasil do século XIX, se imagina sempre que as novidades surgiam primeiro no Rio de Janeiro. Afinal de contas, o Rio era a Corte. Pelo seu porto, junto com os imigrantes, chegavam as últimas modas importadas da Europa. Seja em termos de comportamento, modos de vestir ou alimentação.

Já sabemos que a primeira fábrica de cerveja parece ter surgido no Rio de Janeiro na década de 1830. Porém, é possível que a produção cervejeira no novo país tenha começado bem antes disso e bem longe da Corte. Mais precisamente no Rio Grande do Sul, pelas mãos dos imigrantes alemães que começaram a chegar ao Brasil ainda nos primeiros anos do país independente. Entre 1824 e 1830 entraram no país entre 6 e 7 mil imigrantes procedentes de Estados alemães. A maior parte desse contingente se instalou nas províncias do Sul do país. Estabelecendo colônias agrícolas em áreas pioneiras e constituindo uma sociedade homogênea que se diferenciava muito da sociedade brasileira de então.

O marco inicial da colonização alemã foi a fundação da colônia de São Leopoldo, em 25 de julho de 1824. No local onde ficava a desativada Real Feitoria do Linho-Cânhamo, à margem esquerda do Rio dos Sinos. O lote número 1 do plano diretor do núcleo urbano da nova colônia foi dado ao pedreiro natural da Baviera Ignácio Rasch, de 34 anos. Aí, ele abriu um armazém de secos e molhados, um serviço de barcas destinado ao transporte de cargas pelo Rio dos Sinos e uma fábrica de cerveja. Na verdade, não era propriamente uma fábrica, mas uma pequena produção caseira, suficiente apenas para ser comercializada no seu próprio armazém. Infelizmente, pouco se sabe sobre Rasch e os seus negócios. Apenas que o imigrante morreu em São Leopoldo apenas 11 anos depois de chegar, em 1835.

Edgar Köb afirma que era comum, entre esses pioneiros da produção cervejeira, a comercialização por meio de “vendas-cervejarias”. Onde eles “podiam vender sua cerveja caseira, ainda que de baixa qualidade, por estarem afastadas dos principais mercados”. Afirma ainda que “se estima a presença de mais de 100 destas vendas-cervejarias durante um certo tempo no Rio Grande do Sul”. Köb provavelmente está se referindo a negócios como o de Rasch: armazéns de secos e molhados onde se produzia também cerveja. E que servia também de moradia do proprietário, uma vez que era muito comum, até o começo do século XX, que o comerciante morasse no andar superior ou, até mesmo, nos fundos do seu negócio.

Outro desses “caseiros” do Rio Grande do Sul foi George Heinrich Ritter (1822-1889), sobre o qual estamos um pouco mais bem informados. Ele chega ao Brasil em 1846, com 23 anos, com os pais e cinco irmãos. Nos anos iniciais, trabalhou como agricultor, mas depois de alguns anos abriu a primeira casa comercial de Linha Nova, onde viveu entre 1847 e 1883, ano em que retorna para a Alemanha com a esposa e os quatro mais novos dos seus 11 filhos. Mas em 1889 voltou para o Brasil, falecendo no mesmo ano em Linha Nova. Seu negócio era também uma venda-cervejaria, uma vez que Ritter tinha aprendido o ofício de cervejeiro com seu tio Roth, na Francônia, e passou a produzir cerveja no sótão de sua casa para abastecer o seu negócio. Ritter vai dar origem a uma dinastia de cervejeiros que fundarão grandes fábricas no Rio Grande do Sul, que vão chegar até meados do século XX.

Entre as primeiras levas de imigrantes alemães vieram não só agricultores e comerciantes, mas também militares mercenários para compor o exército imperial. Era comum que exércitos imperiais utilizassem o serviço de mercenários de outras nacionalidades. Durante o Primeiro Reinado (1822-1831), o Império do Brasil manteve relações bem estreitas com os estados germânicos. Seja por meio da primeira imperatriz, D. Maria Leopoldina (1797-1826), arquiduquesa da Áustria; seja por meio da segunda, D. Amélia Augusta (1812-1873), filha do Duque de Leuchtenberg (Eugenio de Beauharnais) e da Princesa da Baviera (Augusta Amalia). E D. Pedro I utilizou o serviço de muitos mercenários alemães e austríacos.

Um desses mercenários, chamado Carl Gustav Seidler, passou pela colônia de São Leopoldo em algum momento entre 1825 e 1828. E, no livro que escreveu sobre o tempo que passou no Brasil, afirma que ali “estavam em vias de se estabelecer alguns cervejeiros, que certamente aqui hão de fazer bons negócios, pois a cerveja que é importada da Inglaterra e de Hamburgo é horrivelmente cara, por causa do transporte e dos impostos constantemente crescentes”. Por isso, esses comerciantes incorporavam a produção de cerveja nos seus negócios por ser uma atividade bastante lucrativa.

Dessa forma, antes do aparecimento das primeiras indústrias, eram os “caseiros”, que fabricavam cerveja como ocupação secundária, que abasteciam o mercado local de cerveja. Pelo menos, nas áreas onde a cerveja importada não chegava ou chegava com dificuldade.


Referências bibliográficas:

CHAVES, Ricardo. Conheça a história dos fundadores de duas das maiores cervejarias do RS. GZH Almanaque. Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/cultura-e-lazer/almanaque/noticia/2019/04/conheca-a-historia-dos-fundadores-de-duas-das-maiores-cervejarias-do-rs-cjv45f77g02il01roxtx2z1od.html

COUTINHO, Carlos Alberto Tavares. Cervejaria Ritter 1 – Cervejaria Georg Heinrich Ritter. Cervisifilia: a história das antigas cervejarias. Disponível em: A História das Antigas Cervejarias: Cervejaria Ritter 1 – Cervejaria Georg Heinrich Ritter (cervisiafilia.blogspot.com)

DUARTE, Tiaraju Salini; LOURENÇO, William Martins; FONTANA, Guilherme. Origem, ascensão e decadência das cervejarias no Estado do Rio Grande do Sul: um recorte espaço-temporal do século XIX e XX. Caminhos de Geografia. Uberlândia – MG, v. 21, n 73, março 2020, p. 368-379.

KÖB, Edgar. Como a cerveja se tornou bebida brasileira: a história da indústria de cerveja no Brasil desde o início até 1930. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Rio de Janeiro, 161 (409), 2000, p. 29-58.

SEYFERTH, Giralda. A dimensão cultural da imigração. Revista Brasileira de Ciências Sociais. V. 26, nº 77, Outubro de 2011, p. 47-62.


Sérgio Barra é carioca, historiador, sommelier e administra o perfil Profano Graal no Instagram e no Facebook, onde debate a cerveja e a História

Dama se une a marca de biscoitos artesanais para lançar Cookie Brown Ale

A cervejaria Dama Bier, de Piracicaba (SP), acaba de lançar um rótulo “fora da curva”. Elaborada com a marca de biscoitos artesanais Dona Maricota, a bebida é uma Cookie Brown Ale e faz parte da série Dama/LAB.

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A Cookie Brown Ale é marrom-avermelhada, com características sensoriais maltadas e notas de caramelo. A bebida ainda traz um toque de chocolate, baunilha e açúcar mascavo. Com amargor suave, o rótulo tem 35 IBUs e 5,7% de teor alcoólico, com corpo macio e final agradável.

“Não há mistérios, afinal o próprio nome entrega a receita – uma English Brown Ale com Cookies -, porém cultiva o desejo da degustação. Ainda mais quando contamos que serão garrafas limitadas”, destaca o sócio da cervejaria, Renato Bazzo.

A série Dama/LAB tem o objetivo de levar ao mercado rótulos limitados produzidos em pequenos lotes de estilos que passeiam entre o experimental e o histórico. As garrafas de 500ml estão à venda na loja especializada da marca em Piracicaba e nos principais pontos do estado de São Paulo.

Criada em janeiro de 2010, a Dama tem seu nome inspirado nas mulheres que foram as responsáveis pela produção de cerveja na história. A marca já ganhou premiações nacionais e internacionais e tem como propósito levar cerveja de qualidade para uma ampla gama de consumidores.

Fundada por Renata Fiuza Turozi  e seu marido “Eto”, por sua vez, a Dona Maricota tem sua produção 100% artesanal e todas as receitas são autorais, com mais de 20 opções de sabores.

No Dia dos Namorados, Proa faz ação para cervejeiro encontrar “match perfeito”

No Dia dos Namorados, o melhor “match” pode ser com uma cerveja. Seja para presentar o amor ou para quem vai passar a data sem uma companhia, a Proa Cervejaria criou a campanha Encontre o Match Perfeito, um quiz para quem estiver em busca do rótulo que mais agrade ao seu paladar.

A ideia da Proa é demonstrar que uma cerveja pode ser um presente melhor e mais inventivo para a celebração do Dia dos Namorados, neste sábado, do que acessórios, perfumes e roupas. Assim, quem estiver interessado nessa possibilidade pode, a partir do perfil no Instagram da marca baiana, fazer um teste rápido para encontrar a cerveja perfeita.

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Nele, o participante responde apenas algumas perguntas. E, ao fim do quiz, a Proa indica a cerveja ideal a ser presenteada e consumida no Dia dos Namorados. “A campanha Encontre o Match Perfeito vai ajudar os amantes do pão liquido, de maneira bastante simples, a escolher uma cerveja ideal para presentear os apaixonados no próximo sábado (12)”, diz a marca.

Além do teste, a Proa vem realizando outras ações e promoções para o Dia dos Namorados, como a venda de kits. No site da marca, há algumas opções: um super balão e mais três cervejas a sua escolha ou duas cervejas e um copo – os rótulos disponíveis são Vienna Lager, Acapulco, Carrie Nation, Caiu Cacau ou Iris.

A Proa também disponibiliza em seu site outras opções com souvenirs da marca, como o Kit Amor em Alto Mar, que vem com um balde Proa, duas garrafas à sua escolha e que pode ser complementado com chaveiro e porta copos, por exemplo.

Rótulo da Nacional e tragédia social: A atemporalidade de Lélia Gonzalez

Mulher, negra, filósofa, professora, militante e periférica, Lélia Gonzalez carrega essas centralidades e características em sua trajetória, o que a torna uma figura fundamental para entender o Brasil em profundidade. Algo reconhecido pela escolha para ser a homenageada de 2021 de uma iniciativa da Cervejaria Nacional para valorização da presença feminina no setor. E, infelizmente, por mais uma vida negra interrompida no país.

Aos 24 anos, Kathlen Romeu, mulher, negra, com uma recém-descoberta gravidez, foi morta nesta semana em meio a uma ação policial no Lins de Vasconcelos, na zona norte do Rio, sendo mais uma vítima da tragédia cotidiana que também havia levado João Pedro, em 2020, e feito o STF restringir ações policiais durante a pandemia.

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A exclusão dos negros e a violação dos direitos humanos são, assim, temas urgentes e presentes na formação da sociedade brasileira, como trabalhado por Lélia Gonzalez em sua atividade intelectual. O que inclui a consolidação do conceito de amefricanidade, para relembrar os efeitos da dominação europeia, além da sua crítica ao racismo estrutural, como lembra, ao Guia, Sara Araújo, sommelière de cervejas e acadêmica de Ciências Sociais. Para ela, o colonizador europeu, além de dominar e controlar os corpos nativos, também tomou conta do imaginário.

“Foi uma das primeiras teóricas a denunciar a exclusão dos povos negros e povos originários do tecido social brasileiro. Diante disso, criou o conceito amefricanidade, que fala sobre a experiencia comum de mulheres e homens negros da diáspora na América. Fala, também, da experiencia dos povos originários nas Américas”, detalha Sara, sobre os pensamentos de uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado e do Olodum.

Em 2021, Lélia Gonzalez, pioneira nos estudos da cultura negra no Brasil, foi a homenageada pela Cervejaria Nacional no projeto Musas do Versão. Nele, a marca convida mulheres que atuam no setor cervejeiro para criarem uma sazonal com o intuito de dar uma resposta à baixa representatividade feminina nesse nicho.

Dessa vez, então, a Nacional convidou Eneide Gama e Melissa Miranda, ambas da Cervejaria Benedita, e Carol Chieranda, da Cervejaria Trilha. Juntas, elas criaram a Lélia, uma Saison leve e aromática, preparada com seriguela e manjericão-limão. Como a Musas do Verão tem o objetivo de dar visibilidade para a luta das mulheres, enaltecendo o trabalho delas, o trio responsável pela criação considerou até natural a definição de Lélia Gonzalez como homenageada da vez.

“A escolha de homenagear Lélia a partir dessa cerveja veio, principalmente, das propostas e reflexões importantíssimas que a filósofa promoveu para a interpretação da nossa população e suas identidades. A luta e presença acadêmica de Lélia Gonzalez, ao nosso ver, merecem mais notoriedade, já que notamos pouquíssimos ambientes em que seu nome corre livremente em contraste com a importância de sua obra e militância”, afirmam, ao Guia, Eneide Gama, Melissa Miranda e Carol Chieranda.

O pensamento de Lélia
Essa representatividade que a Nacional buscou dar para Lélia Gonzalez ao homenageá-la em uma série elaborada por mulheres, na prática, Sara espera ver no setor cevejeiro, com a maior presença e participação nas decisões para consolidação do segmento. “É preciso que profissionais negros estejam no processo de construção desse mercado, não em postos de subalternidade, mas, em cargos de decisões. É preciso escurecer os espaços.”

Sara destaca, ainda, que o pensamento de Lélia Gonzalez sempre buscou a valorização e, principalmente, o protagonismo das vozes negras, em um contraponto aos efeitos duradouros da opressão colonial.

Lélia reivindica a humanidade de pessoas negras e povos originários. Diferente dos teóricos brancos que exotizam esses corpos, ela reivindica suas vozes, reivindica seus lugares enquanto elaboradores do conhecimento, enquanto produtores de riquezas das sociedades, e, portanto, deveriam ser parte

Sara Araujo, sommelière de cervejas

Ela lembra, ainda, a importância de Lélia para a criação de espaços pelos direitos das mulheres negras, incluindo a questão da raça na luta feminista, destacando como a diferença de classes afetava as demandas. “Lélia, uma grande militante do feminismo negro, mesmo que o conceito não lhe abrigasse, lutou em prol da emancipação das mulheres negras, as quais eram subalternizadas pela estrutura patriarcal e racista. Ela abriu caminho, o que reverbera de forma inconteste na construção do pensamento das mulheres negras que vemos hoje levantando pautas e bandeiras, reivindicando efetivação de direitos às mulheres negras, LGBTQI+ e pertencentes aos povos originários”, argumenta.

Na visão de Sara, inclusive, o trabalho de Lélia Gonzalez trazido para o contexto do setor cervejeiro aponta para outro problema: o eurocentrismo na narrativa da história da bebida em detrimento de outras sociedades, como a egípcia, fundamental para o seu surgimento, mas muitas vezes esquecida pelas instituições de ensino no segmento.

“O meio cervejeiro, não sendo estanque do tecido social, deverá acolher esses corpos. Por exemplo: as escolas que formam profissionais para o mercado cervejeiro, sempre que contam a história da cerveja, excluem o continente africano. Sabemos que Egito/Kemet foi um dos maiores produtores de cervejas, quem mais propagou a cultura cervejeira, a cerveja fazia parte da economia daquele país, servindo inclusive como moeda, mas, me diz, qual escola que trabalha essa questão?”, questiona Sara.

A cerveja da Lélia
As criadoras da cerveja para a Nacional contam que a escolha dos ingredientes está relacionada aos conceitos que Lélia Gonzalez trouxe em sua trajetória. Assim, a ideia de amefricanidade, citada por Sara, estaria relacionada com a definição da seriguela para a receita.

“Relacionando com os ingredientes da cerveja Lélia, temos a seriguela, que apesar de ter se popularizado como uma fruta nordestina, principalmente no Sudeste, sua origem, na verdade, é da região México-América Central. Outro fator importante é a presença do manjericão, que dá uma refrescância necessária e adaptada ao clima tropical”, dizem Eneide Gama, Melissa Miranda e Carol Chieranda.


Além disso, elas apontam que a escolha do estilo passou pela valorização do local. “Lélia, filósofa e ativista, veio para inverter as lógicas, retirar as amarras coloniais e reconhecer as riquezas do nosso território e nossa gente. A cerveja Lélia vem para homenageá-la com essa mesma proposta de inversão, de que a refrescância e leveza de uma cerveja pode ser justamente para satisfazer quem está nesse território com suas características e gostos locais”, completam as cervejeiras.

Confira opções de cervejarias da Rota RJ para celebrar o Dia dos Namorados

Para quem ainda não escolheu o presente para festejar o Dia Dos Namorados, comemorado no próximo sábado, 12 de junho, as cervejarias integrantes da Rota RJ anunciaram boas opções de celebração da data. São lançamentos de cervejas, promoções, passeios em segurança e até sorteios para agradar a todos os gostos.

A cerveja Poção do Amor foi criada especialmente pela Doutor Duranz para o Dia dos Namorados. A bebida é uma Milk-Shake Strong Ale, que leva uma generosa quantidade de amora na sua fermentação, além de uma grande adição de trigo – conferindo uma cor bastante turva – e lactose. A cerveja tem 7% de álcool, 25 IBUs e está disponível em growlers de 500ml.

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A Colonus apostou em parceria com a casa de carnes Churrascada By Disbeef para um sorteio, que garantirá ao felizardo um voucher de R$ 250 para jantar na steakhouse; um voucher para realização de uma sessão de drenagem linfática em uma clínica de estética e um corte de cabelo e barba. O vencedor ainda leva um kit com cervejas da Colonus. Para concorrer basta seguir as orientações do post no perfil da casa de carnes no Instagram.

Para a data, a Cervejaria Odin, de Petrópolis, decidiu colocar todos os seus rótulos em promoção. O desconto é de 15% em garrafas e growlers. Além disso, a cervejaria está promovendo um sorteio junto com a Pousada Paraíso Açú, onde o casal ganhador levará um kit Odin para casa (garrafas, copo, etc) e uma diária na pousada. O post do sorteio está no perfil no Instagram da cervejaria.

A Brewpoint, outra cervejaria integrante da Rota RJ em Petrópolis, montou um kit especial para presentear neste Dia dos Namorados. Ele é composto por uma garrafa de 500ml e uma taça Dublin. Além disso, a marca anunciou a retomada de seu beer tour exatamente em 12 de junho, data da celebração do Dia dos Namorados. A visita guiada pela fábrica estava suspensa desde março do ano passado, quando teve início as restrições ocasionadas pela pandemia. Agora, de forma adaptada e de acordo com as medidas de flexibilização da cidade, a visita volta a funcionar.

Saiba mais sobre a Rota Cervejeira RJ em nosso Guia do Mercado

Com uma hora de duração, o passeio percorre todas as etapas de produção de uma cerveja artesanal: moagem dos grãos, brassagem, filtragem, fervura, resfriamento, fermentação, maturação, envase e rotulagem. Ao final do tour, o visitante ganha um copo e pode degustar o chope retirado direto do tanque de maturação.

Nova Friburgo
Em Nova Friburgo, a cervejaria Pontal também apostou em uma parceria. Em seu caso, com a Pride & Joy Hamburgueria para o Dia dos Namorados. O casal vencedor do sorteio poderá comemorar a data com um petisco da hamburgueria e dois copos de 300ml de chope. Para participar basta seguir as regras no post oficial no Instagram da cervejaria. ⠀

Caso Backer: Vítima relata luta após 82 dias em coma e perda do sogro

As festividades de final de ano costumam ser regadas a bebidas, músicas e comidas para celebrar a passagem de mais uma fase, com o varejo as aproveitando para oferecer promoções, sobretudo na Black Friday. Justamente naquela época, em 2019, para aproveitar os “super descontos”, o capixaba Luiz Felippe Teles Ribeiro não perdeu a chance de comprar caixas de cerveja. Ele não podia imaginar, mas se tornaria, posteriormente, vítima do Caso Backer, o mais trágico da história das cervejas artesanais no Brasil. Mais do que o início de uma fase, enfrentou uma perda e ainda encara a maior batalha da sua vida, com as sequelas da síndrome nefroneural, como relembra em conversa com a reportagem do Guia.

Compradas para o Natal e o Ano Novo, as cervejas também fizeram parte da comemoração do aniversário de Felippe, em 10 de dezembro, quando começou a consumi-las. Poucos dias depois, o engenheiro, hoje com 38 anos, passou a ter ânsia de vômito, diarreia e dificuldade para urinar – eram os primeiros sinais da intoxicação provocada na vítima pelo dietilenoglicol, presentes em rótulos da Backer, como indicou a investigação do caso.

Seu sogro, Paschoal Demartini, também manifestou esses sintomas e se tornou uma vítima fatal no início de 2020, quando Felippe já estava em coma e sua esposa começava a descobrir que as cervejas da Backer estavam contaminadas, provocando os danos que levam o seu marido a lutar, desde então, para se recuperar das sequelas – o que incluiu, inicialmente, a perda de movimentos e da audição, além de uma paralisia facial.

Recentemente, a Backer anunciou a volta da fabricação e da venda de cervejas. Para o engenheiro, a notícia traz “indignação e revolta”, mas, pelo lado racional, também provoca esperança. “Que o faturamento dessa comercialização seja tanto para manter os empregados, quanto para honrar com os compromissos junto às vítimas. Espero encarecidamente que a justiça seja feita”, falou Felippe ao Guia.

Em setembro de 2020, o Ministério Público de Minas Gerais (MP-MG) denunciou à Justiça os três sócios-proprietários e sete responsáveis ​​técnicos da Backer em função da contaminação. Houve, ainda, o indiciamento de uma 11ª pessoa por ter realizado declarações falsas durante as investigações. O consumo da bebida adulterada provocou dez mortes, sendo as duas últimas em julho de 2020. Felippe é uma das outras 29 vítimas.

Leia também – Caso Backer: Volta esperada e legítima juridicamente, mas sob desconfiança

Confira abaixo o depoimento de Luiz Felippe ao Guia sobre o Caso Backer e a sua luta desde o consumo da cerveja contaminada:

O consumo
Me mudei para Belo Horizonte em 2019 e passei a consumir a cerveja desde que cheguei à cidade. Em novembro, na Black Friday, comprei 7 caixas da Belorizontina, da Backer. Comecei a tomar no dia 10 de dezembro, no meu aniversário. E a compra também já foi para as festividades de final de ano – tanto meu aniversário, quanto o Natal e o réveillon –, época em que iria receber o meu sogro, sogra e cunhado aqui em casa, e assim foi. Em 22 de dezembro, meu sogro chegou para as festividades de final de ano e fizemos um churrasco. Eu consumi uma grande quantidade da cerveja Belorizontina. O meu sogro também consumiu.

Intoxicação e internação
Entre os dias 23 e 24 [de dezembro de 2019], eu comecei a passar mal. Sentia dores abdominais, vômitos e diarreia. No dia 26, fui para o hospital e só retornei para a minha casa cinco meses e meio depois. O meu sogro foi internado em 27 de dezembro de 2019, com os mesmos sintomas que eu havia sentido. Ele foi a óbito em 7 de janeiro de 2020. Eu estava em coma.

O coma e a descoberta da contaminação
Foram 82 dias em coma. Com isso, a minha esposa Camila começou a investigar o que poderia ter ocorrido e foi feita a necropsia do meu sogro. A minha esposa, junto com a esposa do Cristiano [Cristiano Mauro Assis Gomes, que também foi vítima de intoxicação por dietilenoglicol, provocada pelo consumo da cerveja da Backer], também estava internado. Elas, por um acaso, se encontraram, trocaram telefones e começaram a investigar o que tinha em comum na casa de um e de outro. Chegaram ao denominador comum que foi a cerveja. Enquanto isso, na necropsia do meu sogro, descobriram mono e dietilenoglicol no organismo dele. Imediatamente fizeram exames comigo e encontraram a mesma substância. É a substância encontrada na cerveja que a gente tinha aqui dentro de casa, a Belorizontina. Nesses 82 dias em coma eu fiquei tendo alucinações. Vivendo uma outra realidade. Acordei já no quarto, já tinha passado por UTI, CTI… Sem saber ao certo o que era real ou o que era o delírio que eu havia vivido durante o coma.

De volta à realidade
À medida que eu fui voltando à realidade, a minha esposa me contou tudo o aconteceu. Já era maio de 2020 quando eu fiquei sabendo o que aconteceu comigo e com o meu sogro, porque eu estava no hospital. Tinha passado cinco meses.

Em 19 de maio de 2020, tive alta e montamos um hospital aqui dentro de casa. Ainda de cama, sem movimentar nada, absolutamente nada. Perdi todos os movimentos e iniciei o processo de fisioterapia e fonoaudiologia. Tinha médicos e enfermeiros aqui dentro de casa. E tudo isso custeado pelo plano de saúde. A cervejaria [Backer] não colaborou de nenhuma forma.

As sequelas e a recuperação

Aos poucos, os movimentos foram voltando, com trabalho de fisioterapia e fonoaudiologia. Como uma sequela permanente, perdi 100% da audição e fiz um procedimento chamado implante coclear, que vai me dar a possibilidade, através de aparelhos, de ouvir, mesmo com certa dificuldade. Ainda estou no período de adaptação e voltei a escutar as pessoas em 27 de novembro de 2020. É recente, a adaptação é de 12 meses

Luiz Felippe Teles Ribeiro, vítima do Caso Backer


Ainda não consigo distinguir músicas, por exemplo. Tenho dificuldades [de escutar] quando uma pessoa fala do outro lado da mesa ou não está próxima a mim. Então, ainda estou no processo de adaptação. A gente não sabe como vai ser ao final de um ano, sobre ouvir melhor ou não. Como a televisão, por exemplo, que tenho dificuldade de compreender. Eu escuto o barulho, mas não compreendo. Tenho hoje ainda a paralisia facial completa, que é bem nítida, não consigo fazer as expressões como assustado ou bravo. O sorriso ainda está bem travado. Nas minhas mãos, eu não fecho [flexiono] os dedos indicadores. Eu não consigo fazer o L com os polegares porque não consigo abrir ainda, mas a gente está trabalhando na fisioterapia.

Passei por traqueostomia, colostomia, gastrostomia. Fiz hemodiálise também, mas hoje, graças a Deus, não preciso mais. E hoje também tenho o que chamam de síndrome do pé caído. O meu pé não faz o movimento para cima. Segundo a neurologista que me atende desde que fui internado, o prazo para a recuperação neurológica é de 2 anos e meio. Hoje uso órteses nos pés para conseguir andar e o faço com o auxílio de muletas. Em todo esse período, teve muitas coisas acontecendo, mas graças a Deus estou aqui conseguindo falar e te ouvindo, mesmo pedindo para você repetir algumas vezes [risos]. E só gratidão por tudo que tem ocorrido de bom na minha vida desde que tive esse intercalço.

O retorno da produção e comercialização da Backer
A indignação, eu não posso deixar de expressar pela volta da comercialização de uma cerveja dessa cervejaria que causou um dano na vida de muitas famílias, né? Isso me traz um sentimento de indignação e de revolta. Mas isso é emocional. Racionalmente, espero realmente que eles cumpram aquilo que estão dizendo, que o faturamento dessa comercialização seja tanto para manter os empregados deles quanto para honrar com os compromissos junto às vítimas. Espero encarecidamente que isso seja feito. E que a justiça seja feita.

Em negociação
Enquanto Felippe esteve internado, as despesas médicas foram custeadas pelo plano de saúde da Unimed. O primeiro acordo entre Felippe e a Backer só aconteceu após a saída dele do hospital. Segundo o seu advogado, Claudio Diniz Jr., o acordo não é indenizatório, mas para necessidades emergenciais, uma espécie de auxílio financeiro para custear as despesas médicas durante a recuperação da vítima pela intoxicação.

Após a alta de Felippe, o Ministério Público de Minas Gerais propôs uma ação civil pública das vítimas de intoxicação contra a cervejaria. A ação ainda corre na Justiça mineira, envolvendo as demais vítimas do caso. Entretanto, Felippe, Paschoal e Cristiano iniciaram ações individuais contra a Backer. Procurada pela reportagem do Guia, a cervejaria não respondeu aos pedidos de entrevista.