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11 fatos sobre a Magic Booze, a primeira cerveja instantânea do mundo

A segunda edição paulistana do Mondial de la Bière ficou marcada pela curiosidade e repercussão provocadas pelo lançamento da Magic Booze, que ficou mais conhecida como a primeira cerveja instantânea do mundo. A novidade rapidamente se tornou a sensação do mercado brasileiro de artesanais. Mas, também, como quase todo produto que ganha grande repercussão, tornou-se alvo de alguns pontos de interrogação.

Criada pela Pratinha, premiada marca de Ribeirão Preto, a cerveja instantânea é uma artesanal ultra concentrada e que fica pronta com a adição de um copo de água com gás gelada, resultando em 250ml de bebida. O produto é comercializado em sachês individuais, podendo ser preparado em qualquer lugar. Foram nove meses de pesquisas capitaneadas no Beer Hack Lab, espaço de inovação e experiências da cervejaria, e cerca de R$ 9 milhões investidos até chegar ao produto final.

Mas se, por um lado, parte dos consumidores e dos envolvidos no setor foi tomado pela curiosidade de conhecer melhor os detalhes, como seu gosto e seu inovador processo de tecnologia, houve também quem questionasse sua real efetividade para o mercado.

Para deixar de lado o “Fla-Flu cervejeiro” e compreender em detalhes sobre o que levou a sua criação, bem como os possíveis benefícios que a Magic Booze pode trazer ao mercado, o Guia conversou com José Virgílio Braghetto Neto, fundador da cervejaria de Ribeirão Preto e idealizador da bebida.

Confira, a seguir, nas palavras de José Virgílio, 11 fatos interessantes sobre a Magic Booze, a cerveja instantânea que se tornou sensação no mercado.

1- Uma cervejaria de experiências
A Pratinha vem seguindo a sua vocação original. O que parecia no início algo um pouco abstrato, até cult, com algumas nuances de segredo e mistério, como fomos referenciados no passado, percebo que agora tem feito mais sentido para o público que vem decifrando as nossas entregas e as traduzindo na nossa essência. Ou seja, a cerveja para nós não é um produto final, é um veículo para criarmos experiência para nosso público, seja ela ao estabelecer uma memória afetiva com algum ingrediente ou sabor, ter uma oportunidade para repensarmos a nossa relação com a cadeia de consumo e a sustentabilidade, nos entretermos com tecnologias de mídia, como realidade aumentada ou virtual, dividir conhecimento sobre o universo da fabricação e consumo da cerveja, reconstruir receitas de cerveja de forma fidedignamente tradicionais ou desconstruir outras de forma disruptiva. Sempre a serviço de provocar, encantar, espantar e lembrar a nós mesmos que a cerveja foi uma das invenções mais divertidas da humanidade e que tem uma capacidade natural de juntar pessoas e iniciar conversas. Esta é a Pratinha, este é o nosso Beer Hack Lab, esta é a nova vocação. Nascemos com este DNA.

2- Uma cervejaria recente
No início, o nosso espaço era o de uma nano-cervejaria/laboratório e que, no final de 2017, ganhou musculatura de produção com uma fábrica novíssima com capacidade de dar escala nacional a qualquer produto que tenha a demanda necessária. Porém, só entramos como players comerciais no início de 2018. Ou seja, comercialmente a Pratinha é muito nova e chegamos até aqui com um time pequeno mas apaixonado e comprometido com o nosso propósito citado a pouco, além de amigos que não nos deixam sonhar sozinhos.

3- De onde veio a Magic Booze
A Magic Booze surgiu deste contexto de inovação e procura por novas experiências em torno do produto cerveja. A minha esposa é natural do Estado de Santa Catarina e há muito tempo ela havia me apresentado algumas bebidas à base de cerveja, como o liquor de lúpulo e de malte que gostei muito e me despertou a curiosidade. Em paralelo a este histórico,  no passado já havíamos feito alguns ensaios com parte das técnicas aplicadas na Magic Booze de desconstrução, mas tudo de forma fragmentada e não conectada e aplicada a um só produto. Aí só precisou de uma “fagulha” vinda de um amigo junto com uma provocação – “imagina só…” – para colocarmos tudo junto. E o resultado acabou nos surpreendendo. Foi desta forma que a Magic Booze se tornou nossa linha que ficou conhecida como a “cerveja instantânea”.

4- Cerveja ou bebida mista?
Como em termos regulatórios, devido ao caráter super-inovador, ainda não há uma classificação em que este produto se enquadre e por atender as especificações e caraterísticas de uma bebida alcoólica mista, é desta forma que ela foi registrada. E, para respeitar os regulamentos e as normas atuais, devemos tratá-la assim, e não como cerveja – e também porque ela pode ser consumida pura (pronta para consumo) ou em drinks e coquetéis. Sabemos que a grande curiosidade e preferência do público é de consumi-la diluída em água com gás, ou seja, da forma que ela ficou conhecida. E quando apresenta as características da cerveja, quando digo que não há uma norma atual “ainda”, é porque apesar de não haver nenhuma promessa por parte do Mapa (Ministério da Agricultura), percebemos uma atitude muito positiva à frente das inovações e à evolução do mercado por parte deles. Tive uma impressão muito diferente da que tinha anteriormente e vejo um Mapa progressista e com o olhar no futuro. Um pequeno exemplo são os avanços com o novo sistema da Sipeagro que facilitou em muito a vida de todas as partes (cervejarias/fiscais/ministério). Estou muito otimista.

5- O “segredo” da Magic Booze
Tecnicamente, a Magic Booze é uma bebida alcoólica mista feita de cerveja desconstruída e reconstituída parcialmente para facilitar a diluição imediata quando necessário. Não há “pozinhos” mágicos ou algo que não seja relacionado aos ingredientes de produção de uma cerveja artesanal “normal”. Todo o “segredo”, que não é um segredo, pois a patente já foi requisitada, está no processo pela qual a cerveja artesanal é submetida após estar pronta. Isto já responde a curiosidade de muitas pessoas. Sim, a cerveja precisa ser produzida normalmente antes para se transformar na Magic Booze depois.

6- O investimento na Magic Booze
Contamos com o investimento na estrutura para a fabricação da cerveja (fábrica nova) e todos os equipamentos e pesquisa para chegarmos ao resultado final da Magic Booze. Foram investidos aproximadamente R$ 9 milhões, mas não dá para separar apenas o que foi investido exclusivamente na Magic Booze, porque todo o processo é amarrado.

7- A tecnologia da Magic Booze
O processo para se chegar à Magic Booze passa pela fabricação artesanal de uma cerveja de alta qualidade. Depois, utilizamos duas técnicas diferentes de descarbonatação, liofilização, reconstituição em sistema fechado e ajustes aromáticos e de extrato. Todas estas são tecnologias que já existiam de forma isolada. O que fizemos foi entender como o produto se comporta e colocar cada uma destas técnicas a serviço do resultado que queríamos. Nos sentimos honrados ao ver as pessoas tentando explicar o processo na internet, mas confesso que nos divertimos muito assistindo aos vídeos! Na trajetória de desenvolvimento surgiram outras idéias e, por “acidente”, outros possíveis produtos também, mas ainda é cedo para divulgarmos algo concreto. A Magic Booze tem sido muito importante para tornar o Beer Hack Lab da Pratinha conhecido, mas temos muita coisa acontecendo e sendo feita por lá além dela.

8- Os próximos passos da Magic Booze
Inicialmente, apresentamos uma versão que tem como ingrediente base a Pratipa, nossa IPA inglesa, e já estamos bem evoluídos com mais duas versões com base em uma receita de Weizen e outra de uma American Lager que estamos trabalhando sob o nome de Bohemian Spring em função do perfil aromático dos lúpulos que estamos utilizando na receita. Houve uma pré-venda da Magic Booze pela internet de um primeiro lote de aproximadamente 1000 unidades que se esgotou em menos de 24 horas e que será entregue no mês que vem (julho). Já estamos nos preparando para outros lotes que estarão à disposição também durante o mês de julho para pré-venda. O preço sugerido tem sido de R$ 14,99 e, à medida que formos ganhando escala, a tendência é do preço diminuir um pouco, mas não muito, considerando que o conteúdo da Magic Booze tem de partida o mesmo custo da cerveja que lhe dá origem – e estamos falando aqui de cerveja artesanal de verdade, o que sabemos que não é barato. Depois, ela ainda passa por todo processo tecnológico até se transformar no produto final.

9- A funcionalidade da Magic Booze
O nosso foco comercial principal para a Magic Booze está em condições em que a logística e a portabilidade são fatores importantes, como nos serviços de “catering” e serviços de bebida “embarcados”, como no avião e nos marítimos. A  versão ao consumidor final surgiu para despertar a atenção e curiosidade das pessoas pela novidade e pela possibilidade de consumo em situações inusitadas.

10- Uma resposta aos críticos
Apesar de nós mesmos termos utilizado o termo “instantânea” no início do projeto, este é um termo que acabou nos deixando divididos, pois ao mesmo tempo que ele explica, ele atrapalha, principalmente porque o termo, quando utilizado em bebidas e alimentos, geralmente nos remete imediatamente a produtos artificiais ou de baixa qualidade, o que é o oposto do que a Magic Booze é. Como já dissemos, o ingrediente principal é uma cerveja artesanal de alta qualidade que apenas passa por um processo especial para conseguir ter o seu volume reduzido e adquirir as propriedades que desejamos. É normal algumas pessoas resistirem ao novo e ao inusitado, principalmente quando quebra alguns paradigmas, mas isso faz parte dos processos de inovação e sabemos que é muito difícil agradar a todos. Não conseguimos isso nem com as nossas cervejas “tradicionais” e premiadas, quem dirá com algo disruptivo! É difícil prever ou controlar o desenrolar de algo assim, mas o fato de mostrarmos para o mundo que é possível e fazer as pessoas pararem para pensar e discutir sobre as possibilidades já nos deixa imensamente felizes, pois na Pratinha acreditamos que sempre há uma nova forma de se olhar para algo e fazer diferente.

11- Um marco para o setor
De uma forma muito humilde e sem querer traçar nenhum paralelo, mas apenas no intuito de relembramos algumas transformações históricas pelas quais a relação das pessoas com a cerveja passou, até o século IX não se fazia o uso de lúpulo (era utilizada uma combinação de ervas e raízes para aromatizar a cerveja) – o lúpulo entrou com uma “inovação tecnológica” pelas suas propriedades de conservação da bebida. Depois, em 1516, com a Reinheitsgebot, veio a primeira regulamentação da bebida que se tem conhecimento na história com o uso apenas de água, cevada e lúpulo. O fermento veio a agregar a lista como ingrediente em 1857 com a “descoberta” de Louis Pasteur e  depois, com a popularização da vidraria (copos de vidro), a estética do líquido passou a ter uma nova importância e concomitantemente a isso veio a tecnologia da filtragem da cerveja entre 1880 e 1900, nesta época criticada pelos puristas que acreditavam que a cerveja não deveria ser filtrada, o que depois se tornou o “padrão”. Depois de 1933, com o final da proibição nos Estados Unidos, as cervejas passaram a ser mais “diluídas” e a poucas décadas se popularizou a utilização de frutas nas cervejas. Isso também causou muita polêmica e muitos diziam não poder chamarem “aquilo” de cerveja (apesar dos belgas já estarem fazendo isso desde 1930), o que ironicamente se tornou uma das características do primeiro estilo oficial de cerveja no Brasil com as Catharinas Sours. E não para por aí. Houve adição de jatobá, piqui, cumarú, tomate, milho, erva-mate, chocolate, mel e assim vai. Este universo é riquíssimo e, quase em 2020, vejo as inovações acelerando em uma razão exponencial. Que bom que podemos testemunhar estes tempos.

Confira o vídeo de apresentação da Magic Booze

Balcão do Luba: Regulamentação local da cerveja artesanal

Regulamentação local da cerveja artesanal

O mercado cervejeiro artesanal do Brasil ainda é muito recente, estando em plena expansão, muito embora logo chegará em seu momento de depuração, onde os melhores se firmarão. Várias cervejarias se registraram no Ministério da Agricultura (MAPA) nos últimos anos e estão em plena expansão de mercado em busca ávida por consumidores e apreciadores.

Nesse contexto, muitas delas estão se instalando em cidades do interior do Brasil, municípios pequenos que não contam com regras claras para autorização ou não de estabelecimentos voltados para a produção da cerveja artesanal, tais como microcervejarias e brewpubs.

Para o gestor público local, isso é uma completa novidade, gerando certo impasse no sentido de que, por um lado, vê-se compelido a fomentar a produção e a comercialização da cerveja, com vistas à criação de empregos diretos e indiretos, sem contar o estímulo à atividade turística local; por outro lado, sente-se obrigado a regulamentar o exercício de tal atividade como administrador público, zelando pelo cumprimento das regras sanitárias e de zoneamento que o município reclama.

A questão do zoneamento é o maior tormento daqueles que reclamam a autorização para instalação de microcervejaria e brewpub perante a administração pública local, que muitas vezes se vê em xeque, pois não tem regra legislativa local que contemple tais atividades.

Via de regra, e por motivos óbvios, os planos diretores da maioria dos municípios brasileiros, para não dizer 100% deles, não contemplam tais atividades, de modo a balizar o poder público municipal à outorga da necessária licença para funcionamento.

Diante disso, como sair desse imbróglio? Conceder alvará de instalação e funcionamento sem previsão legal? Como proceder, já que a alteração de plano diretor demanda processo legislativo específico e demorado? A resposta a essas indagações é simples.

À ausência de contemplação no plano diretor a respeito da instalação e funcionamento de estabelecimentos voltados à produção e venda de cerveja artesanal, ou seja, instalação de microcervejarias e brewpubs na área sob competência do administrador público local, basta a criação e aprovação de uma lei ordinária municipal, cujo processo legislativo é relativamente fácil, com algumas adaptações.

Esse novo dispositivo legal, além de regulamentar toda a forma de instalação dos empreendimentos, diferenciando microcervejaria de brewpub, traçando limites de produção e formas de comercialização, reafirmando a obrigatoriedade de cumprimento das normas federais e estaduais, definirá por analogia os locais onde poderão ser instalados, respeitando aquilo já existente no plano diretor da localidade.

Basta, portanto, a simples inserção de um capítulo ou artigo dedicado a esse respeito, onde o legislador municipal traria para a nova lei as áreas, corredores, bairros ou zonas municipais já contemplados no plano diretor, onde estão instalados dispositivos análogos, tais como cozinhas industriais, fábricas de sorvete, pastifícios, bares e restaurantes.

Essa solução regulamentar foi adotada pelos municípios de Valinhos/SP (Lei Municipal nº 5773/2019) e Niterói/RJ (Decreto nº 12.916/2018).

Solucionado o problema legal, poderá o Poder Público outorgar a autorização para instalação de microcervejarias e brewpubs, fomentando a cultura cervejeira no âmbito de sua competência administrativa.


Luiz André Marqueti Rodrigues, o Luba, é oficial de justiça avaliador federal, cervejeiro caseiro e medalhista de concursos da Bräu Akademie

Ser ou não ser: Invicta atende ‘clamor popular’ e dá guinada com série frutada

A Invicta decidiu deixar de lado o ditado popular de que “não se mexe em time que está ganhando”. E, para isso, apostou em outra frase conhecida, um clássico da literatura de Shakespeare pronunciada por um não menos clássico Hamlet: To be, or not to be.

Mas ela veio em forma de paródia. A reinterpretação da Invicta diz respeito a uma nova linha de cervejas que acaba de lançar, a Finito, com duas Fruit Beer e duas Catharina Sour feitas com as mesmas frutas, para que possam ser comparadas. Daí surgiu a inevitável questão: Sour or not too sour?.

A reflexão shakespeariana, porém, indica também uma possível reinterpretação de identidade da própria Invicta, uma marca reconhecida pela excelência de suas cervejas fortes e lupuladas, como a 1000 IBUs, que se tornou um clássico nacional. Nada mais natural, então, que a aposta em cervejas frutadas venha acompanhada de um divertido “ser ou não ser, eis a questão”.

Uma questão, aliás, que nasce após a marca ouvir o seu próprio público. Afinal, de acordo com Rodrigo Silveira, mestre cervejeiro e diretor da Invicta, a alteração na rota se deu após o apelo dos consumidores.

“É preciso ouvir o público e inovar sempre. A inspiração das novas cervejas nasceu com o desejo de desenvolver algo diferente e, ao mesmo tempo, refrescante. Atendemos aos pedidos dos nossos clientes e trouxemos um estilo mais leve, que somado às frutas proporciona essa sensação. As cervejas são ótimas para serem apreciadas no clima tropical brasileiro”, conta Rodrigo ao Guia.

A série Finito
Essa aposta da Invicta originou a série Finito, composta por quatro rótulos: dois de frutas amarelas e dois de frutas vermelhas. Cada um deles resultou em uma Fruit Beer, refrescante e mais adocicada, e uma Catharina Sour, primeiro estilo de cerveja brasileiro reconhecido pelo Beer Judge Certification Program (BJCP), com acidez marcante e amargor mínimo. A proposta, assim, é que o consumidor possa responder a questão: Azedinho ou não muito?

As novas receitas estão sendo envasadas em latas de 437 ml e barris de chope. E o diretor da cervejaria promete novas surpresas para os cervejeiros a partir dessa guinada da Invicta.

“A nova linha Finito da Invicta trará edições limitadas de cervejas que serão produzidas em novas brasagens com capacidade de produção de até 1500 litros. A nossa ideia é proporcionar uma experiência inesquecível para os nossos clientes com cervejas e barris de chope. Serão grandes lançamentos que acontecerão com mais frequência. Já podemos adiantar que nesse mês ainda devemos ter mais uma novidade para os Invictos”, antecipa.

Rodrigo, contudo, lembra que a ação não é inédita, pois a marca já havia apostado no estilo Sour quando concebeu o rótulo Transatlântica Brett, em parceria com o alemão Sebastian Mergel (Bierfabrik) e o belga Sebastien Morvan (Brussels Beer Project).

“Nós já produzimos o estilo em parceria com a Bierfabrik (Alemanha) e o Brussels Beer Project (Bélgica), que é a Transatlântica com cajá. Nós fomos uma das primeiras cervejarias brasileiras a produzir o estilo Sour’, destaca.

Confira a descrição dos quatro novos rótulos da Invicta, de acordo com o material divulgado pela cervejaria.

Fispal Tecnologia mira setor cervejeiro com soluções por diferencial competitivo

Considerada a principal feira para a indústria de alimentos e bebidas da América Latina, a Fispal Tecnologia começa nesta terça-feira em São Paulo tendo o setor cervejeiro como um dos focos, seja por atrações preparadas pelos organizadores ou pela presença de expositores que prometem apresentar boas soluções. É o que promete Clélia Iwaki, diretora do evento.

“O setor cervejeiro consegue encontrar todas as soluções que precisa para otimizar sua produção. A Fispal Tecnologia reúne inovações para envase, equipamentos de processo, opções de embalagens e rótulos e tecnologias diversas para marcação e codificação de cervejas”, afirma Clélia ao Guia.

Clélia Iwaki, diretora da Fispal Tecnologia

A executiva lembra que o setor de artesanais está em crescimento, com a ampliação da concorrência. E acredita que a feira pode ajudar na busca pelos diferenciais necessários para a conquista e consolidação da participação no setor.

“O setor cervejeiro está em transformação e o consumidor busca, cada vez mais, produtos personalizados e diferenciados. As inúmeras soluções apresentadas na feira oferecem ao setor cervejeiro um caminho para garantir diferencial competitivo no mercado”, acrescenta.

Em sua 35ª edição, a Fispal Tecnologia contará pelo segundo ano consecutivo com a Arena da Cerveja Artesanal, que oferece palestras ministradas por especialistas do Instituto da Cerveja Brasil (ICB). Além disso, os interessados poderão agendar consultorias gratuitas de 15 minutos com especialistas do ICB e, também, terão direito à degustação de cervejas.

A Fispal Tecnologia contará, ainda, com visitas técnicas ao Grupo Petrópolis em Boituva (SP), onde os convidados poderão observar os detalhes da fabricação de marcas como Petra, Itaipava e Crystal. O Beer Tour será gratuito, sendo realizado em grupos de, no máximo, 40 participantes. E a feira ainda promoverá a visitação da fábrica do ICB.

A Fispal Tecnologia ocorrerá até sexta-feira no São Paulo Expo, reunindo mais de 400 expositores de 35 países, que exibirão novas tecnologias, soluções e tendências para a indústria de alimentos e bebidas. O evento também contará com mais de 200 horas de conteúdo, especialmente em palestras.

Após campanha por igualdade, Brewdog é condenada por preconceito contra o homem

Mais uma vez, uma ideia “genial” dos criadores da escocesa Brewdog acaba como um tiro que sai pela culatra. Depois de se envolver em polêmica com apoiadores de Donald Trump, dessa vez o problema foi com sua campanha do Dia das Mulheres, que culminou em multa por “preconceito contra o homem”.

Como parte das comemorações e homenagens ao Dia das Mulheres de 2018, a marca, que tem como um de seus principais rótulos a Punk IPA, produziu e vendeu a preços promocionais uma versão chamada “Pink IPA”. Segundo as regras, pessoas que se identificassem como mulheres teriam 20% de desconto na garrafa de Pink IPA – cujo conteúdo era idêntico ao da garrafa com rótulo azul.

A ideia da campanha era alertar para o preconceito e a diferença de remuneração entre homens e mulheres. Em seu texto, a campanha dizia que homens costumam ter salários 20% maiores do que as mulheres, e questionava: “é homem?Você vai pagar o preço cheio. A realidade é dura assim.”

A campanha contra o preconceito causou polêmica logo de cara e, mesmo que a companhia tivesse anunciado que a “cerveja para mulheres” não tinha nada de diferente em relação à cerveja original, a marca foi acusada de certo sexismo em sua postura.

Mas os problemas não se limitaram a isso. Eis que um engenheiro de softwares de 27 anos de Cardiff, no País de Gales, chamado Thomas Bower, pediu a tal a garrafa promocional em um bar da marca na cidade e exigiu seu desconto dizendo ser uma mulher.

O barman se recusou a aplicar o desconto pois ele, claramente, era um homem. “Eu me senti obrigado a mentir meu gênero para poder receber o produto com preço mais baixo” afirmou ele, reclamando então de “discriminação de gênero”.

Em duas oportunidades, diz Bower, ele reclamou com a cervejaria do tratamento recebido, mas foi ignorado. Em seguida, moveu uma ação no tribunal de pequenas causas. O juiz do caso decidiu a seu favor, entendendo que a cervejaria havia quebrado o Ato de Equidade do Reino Unido de 2010, e impondo uma multa de £ 1.000 (pouco mais de R$ 4,8 mil) à companhia.

Mas o engenheiro foi enfático em dizer que não pretendia sair mais rico do episódio. Descontados os custos que teve com o processo, diz, Bower fez doações correspondentes a esse mesmo valor para a Young Women’s Trust, associação que busca ajudar as mulheres a conseguirem mais igualdade no trabalho, e para a Campaign Against Living Miserably, que faz campanhas contra o suicídio entre homens.

Cerveja e Negócios: Chegamos a 1000 cervejarias no Brasil. E agora?

Coluna cerveja e negócios Escola Superior de Cerveja e Malte Calo Bressiani

Chegamos a 1000 cervejarias no Brasil. E agora?

Chegamos a 1000 cervejarias no Brasil. E que isso quer dizer? Nada. Ou quase nada. Quer dizer que o mercado segue crescendo e, ao que parece, o número de cervejarias cresce em ritmo mais acelerado do que o mercado consumidor. Ao que parece.

Quando entrevistamos vendedores de insumos, eles nos dizem que a venda de insumos segue em alta, com taxas de crescimento acima de um dígito. Quando conversamos com o pessoal das consultorias, eles se queixam que o mercado deu uma parada.

Com a Escola Superior de Cerveja e Malte, estivemos presentes em duas grandes feiras nos últimos dias, e o que pudemos perceber é um grande interesse por parte das pessoas em resolver problemas já existentes em suas cervejarias. A nossa leitura é que há muito menos gente entrando no mercado e mais gente dentro, querendo melhorar seus negócios.

Nos parece que este é o caminho natural. Não há mercado que cresça 500% em poucos anos e não passe por um processo de ajuste. O ajuste chegou para alguns, e é normal e esperado.

Nas praças onde há muitas cervejarias, há dois caminhos a serem seguidos. O primeiro e mais natural é a competição, que deixará mortos e feridos pelo caminho. O segundo caminho, antinatural, que requer esforço, é a cooperação. Através da colaboração entre cervejarias, com ações regionais, estaduais e nacionais, o caminho pode ser de crescimento sustentável, sinergias, reduções de custo, melhoria de comunicação, incremento de mercado e melhoria de qualidade.

Quais caminho cada cervejaria vai tomar? Espero que a maioria tome a segunda opção. E que temas relacionados à concorrência desleal, à sonegação e à compra de pontos de venda fiquem em segundo plano.

Nas regiões onde há poucas cervejarias, as empresas seguem nadando de braçada. O país é grande e ainda há muitas oportunidades. O Brasil está em crise desde 2014. O mercado de cervejas artesanais só sentiu a onda a partir do 2º trimestre de 2018. Há fatores externos às cervejarias que empurram o mercado para um lado e para outro. Ou para frente e para trás.

Após chegarmos a 1000 cervejarias, o trabalho segue. Um pouco mais complicado que em anos anteriores, mas os desafios sãos oportunidades de melhoria. Seguimos trabalhando por um mercado profissional, sustentável e ético, por isso estamos aqui. Para isso viemos. E queremos viver de cerveja em um ambiente saudável. É isso que desejamos.


Carlo Enrico Bressiani é diretor geral da Escola Superior de Cerveja e Malte, sommelier de Cervejas ESCM/Doemens, PhD em Finanças pela Universitat Ramon Llull em Barcelona, consultor e autor de livros nas áreas inovação, projetos e finanças

Argentina reduz compra e exportação brasileira de cerveja despenca 52% em maio

Depois de um primeiro quadrimestre difícil, a exportação brasileira de cerveja sofreu baque ainda maior em maio, quando negociou apenas US$ 3,11 milhões com o mercado internacional, segundo dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC). Refreado pela diminuição do volume vendido à Argentina, o valor representa uma significativa queda de 52,1% na comparação com igual período de 2018.

Quando somados os cinco primeiros meses de 2019, a diminuição também permanece relevante: foram negociados apenas US$ 29,89 milhões de cerveja brasileira, o que representa uma queda de 21,9% na comparação com o ano anterior.

Em termos de volume exportado, o cenário também se demonstra complicado. O país negociou em maio 4,91 mil toneladas de cerveja com o mercado externo, queda de 44,8% no comparativo com 2018. E 44.079,54 toneladas nos cinco primeiros meses de 2019, o que leva a uma baixa de 25,1%.

Com esses números, a cerveja é responsável por apenas 0,03% das exportações brasileiras de janeiro a maio de 2019, ocupando a 190ª posição entre os produtos negociados pelo Brasil ao exterior – perdeu oito colocações na comparação com abril.

Os principais destinos da cerveja brasileira em maio continuaram sendo países da América do Sul, especialmente o Paraguai, com 82%. Bolívia (9,7%), Uruguai (4,1%) e Argentina (0,98%) são outros países com exportação relevante do produto.

Vale destacar, porém, que embora permaneçam entre os principais compradores da cerveja brasileira, Bolívia e Uruguai diminuíram significativamente o valor negociado, com baixas respectivas de 28,9% e 37,9%. Ainda mais drástica foi a queda com o mercado argentino, que importou apenas US$ 292 mil de cerveja brasileira em maio – baixa de 95,9%.

Já os maiores estados exportadores de cerveja foram São Paulo, com participação de 73,7%, Paraná, com 20,3%, e Rio Grande do Sul, com 2,97%.

Avós na Negroni Week, Donavon com a Corona: As novidades da semana

A semana cervejeira foi muito além da bebida. A Avós, por exemplo, decidiu preparar a releitura do clássico drinque Negroni, enquanto a Corona fez uma parceria com o músico Donavon Frankenreiter em sua nova campanha de conscientização contra o uso de plásticos. Além disso, vários cursos e palestras estão agendados para os próximos dias. Confira, a seguir, essas e outras novidades.

Avós e Negroni
A marca paulistana entra no clima da Negroni Week, celebrada na próxima semana, e se junta aos participantes com a apresentação de um releitura do clássico drinque. A partir da próxima terça-feira, a cervejaria disponibiliza na Casa Avós uma Baltic Porter maturada em barril de carvalho norte-americano, onde descansou um típico Negroni. A novidade de 8,5% de teor alcoólico foi desenvolvida em parceria com o Difford’s Guide Brasil e poderá ser encontrada em garrafas de 330ml.

Corona, Donavon e Ceu
A cerveja Corona e a Parley for the Oceans realizaram mais uma ação do projeto global de combate ao plástico nos oceanos com o lançamento da campanha “ListentotheOcean”. Na iniciativa, o compositor norte-americano Donavon Frankenreiter criou uma música tendo o movimento do mar da Barra da Tijuca, no Rio, como inspiração – ela foi gravada com a participação da cantora Ceu. Além disso, as marcas também promoveram uma limpeza da praia, com a presença de Donavon e de outros artistas, em que foram recolhidos 73 quilos de lixo, sendo que 85% era dejeto de plástico. “Queria participar de uma maneira ativa dentro de um projeto que buscasse provocar uma mudança real de comportamento de todos, o que considero como algo fundamental para o sucesso dessa causa. E ‘Listen to the Ocean’ foi a oportunidade que eu encontrei de me dedicar a criar algo que eu acredito que vai fazer as pessoas escutarem o pedido de ajuda que os oceanos estão emitindo diariamente”, conta Donovan.

Curso de marketing
A instituição Marketing Cervejeiro realiza na próxima semana, de segunda até sexta-feira, o curso de Marketing de Cerveja, em São Paulo, na sede da Cervejaria Tria. Será a 12ª edição do curso, abordando desde conceitos básicos sobre cerveja artesanal, harmonização e mercado cervejeiro, até cases de marketing, publicidade, administração e marketing digital aplicados ao universo da cerveja, com exercícios práticos e atividades complementares. Ministrado por Érica Barbosa, fundadora do Marketing Cervejeiro, o curso contará com a participação das sommelières Bia Amorim e Luana Cloper. Depois da capital paulista, o curso também deve passar por Petrópolis, Curitiba e Rio.

Balanço do Mondial SP
Os organizadores da edição paulistana do Mondial de la Bière revelaram que a edição deste ano atraiu cerca de 12 mil visitantes nos quatro dias do evento, realizado entre 30 de maio e 2 de junho, no espaço Arca. Esse público pôde acompanhar as novidades de cerca de 80 cervejarias e foi responsável pela arrecadação de 5 toneladas de alimentos não perecíveis através do ingresso da categoria Cervejeiro Solidário, uma parceria entre o evento e o Sesc-SP, onde os alimentos são doados para o Projeto Mesa Brasil.

Agenda I: Feira em Vitória
A cidade de Vitória (ES) receberá a ExpoBrew – Feira Brasileira da Cerveja Artesanal Independente – nos dias 15 e 16 de agosto, no Parque de Exposições Floriano Varejão, evento que será realizado pela Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva). A iniciativa contará com diversas atrações, como uma feira de exposição de fornecedores do setor e o Harmoniza Beer, espaço dedicado às marcas de todo o Brasil, além de palestras sobre o mercado e troca de experiências entre profissionais. Paralelamente, ocorrerá a 2ª Copa Cerveja Brasil, que começa no dia 13 e vai até 16 de agosto.

Agenda II: Cursos da ESCM
A Escola Superior de Cerveja e Malte (ESCM) realizará vários cursos de 8 a 27 de julho. São eles: Aprofundamento em Lúpulo (8/07 a 12/07), Gestão de Microcervejarias (8/07 a 13/07), Microbiologia da Cerveja (8/07 a 13/07), Produção de Cervejas Não Convencionais (8/07 a 12/07), Cervejeiro Artesanal – Home Brewer (15/07 a 26/07), Como Montar a Sua Cervejaria (15/07 a 26/07), Tecnologia Cervejeira Avançada (15/07 a 26/07), Mestre Destilador (15/07 a 27/07) e Sommelier de Cervejas (15/07 a 27/07). Todos os cursos serão realizados na sede da ESCM, em Blumenau (SC).

Agenda III: Cursos sobre IPA
O Dia da IPA, organizado pela Matinê Cervejeira, será celebrado em 6 de julho, em Porto Alegre. O escritor Stan Hieronymus, autor de diversos livros que são referência no tema lúpulo, incluindo For the Love of Hops, é uma das principais atrações. A programação também conta com a participação de Laures Francisco Cieslik, José Raimundo Padilha, Daiane Colla, Estevão Chittó, João Henrique Nascimento Franco e Bruno Koerich Andriani.

Além da presença em Porto Alegre, Stan proferirá a palestra “Lúpulos Americanos” em São Paulo, na Tarantino, no dia 4. No dia 9, falará sobre “Lúpulos do Século XXI”, em Belo Horizonte, no Auditório da Fiemg. E “Do Amargor ao Aroma” será o seu tema no dia 10, em Campinas, no Lamas Brew Shop.

Reconhecimento está mais difícil com amadurecimento do mercado cervejeiro

Com o mercado cervejeiro brasileiro se expandindo anualmente a passos largos, os padrões de qualidade e exigência vêm crescendo nas diversas fases do processo de produção. E essa qualificação acarreta em uma necessidade quase paradoxal ao setor: ao mesmo tempo em que fica mais difícil se destacar, uma empresa precisa desse reconhecimento para demonstrar que é capaz de oferecer um produto diferenciado.

Não adianta, nesse cenário, apostar em inovações que, por mais tecnológicas ou criativas que sejam, não tenham resultados práticos. Um exemplo foi o Prêmio de Gestão de Negócios em Cerveja, que acontece na Brasil Brau, maior feira de negócios do mercado cervejeiro do país. Na terceira edição da disputa, um júri técnico escolheu vencedores em quatro categorias, enquanto um júri popular elegeu ganhadores para mais duas.

A premiação é voltada para marcas brasileiras que já estão no mercado nos ramos de pesquisa, produção, importação, distribuição, comercialização, comunicação ou consumo de cerveja. Seu objetivo é incentivar a profissionalização da gestão do negócio de cerveja.

No caso da escolha da categoria Design de Embalagens, a iniciativa vencedora foi a Fábrica de Ideias Brasileiras, da cervejaria paulistana Tarantino. O prêmio reconheceu o processo criativo e o resultado final, que tiveram inspiração em uma extensa pesquisa do projeto Entrelinhas Urbanas, em que um artista de cada distrito da capital paulista representa graficamente sua região.

A cervejaria fez uma triagem até chegar aos quatro artistas que pudessem dar às embalagens da marca a pegada urbana desejada. “Uma coisa contemporânea era tudo o que a gente queria, até por sermos a primeira fábrica e produção na cidade de São Paulo”, afirma Gilberto Tarantino, sócio da cervejaria. “Concorremos em 4 categorias, e se fosse escolher uma seria mesmo essa, das embalagens. É uma coisa muito legítima de uma cervejaria urbana”.

Já a Dádiva, marca paulistana eleita pelo júri popular como melhor cervejaria, também passou por um processo de amadurecimento em seu 5 anos de história até chagar a esse ponto. “É muito legal que o reconhecimento tenha vindo pelo voto popular. É um indicador de que o pessoal está gostando do que estamos fazendo, estamos indo para o caminho certo”, comenta Luiza Tolosa, fundadora da Dádiva.

Os mais de 2 mil votos recebidos online, segundo ela, reconhecem a pluralidade e alcance das iniciativas da marca. “Temos dois públicos bem claros que vemos que estamos atendendo nos últimos anos: um que está se aproximando e experimentando a cerveja artesanal agora, e outro mais geek. Temos cervejas mais high end, criativas e um pouco malucas, mas temos a entrada, como IPA, Premium Lager e Munich Dunkel, que são cervejas para todo dia, para todo mundo, para diversas ocasiões”, acrescenta Luiza.

Sustentabilidade reconhecida
Já em categorias mais técnicas, como sustentabilidade, não há espaço para reconhecimento de projetos que não tragam resultados tangentes ao mesmo tempo em que sejam financeiramente viáveis. É o caso da TwinOxide, que implementou o uso do dióxido de cloro como ferramenta de redução do consumo de água, em projeto desenvolvido com a cervejaria Allegra.

“A redução do consumo de água no processo de produção, principalmente em uma cervejaria artesanal, não é uma coisa simples de se alcançar”, avalia Rafael Bianchini, gerente da marca holandesa no Brasil.

A principal dificuldade, conta ele, foi introduzir um sanitizante novo, que dispensa o excesso de água para ter seus resíduos removidos totalmente de tanques e garrafas. “Ele é muito eficaz contra leveduras selvagens, bactérias e biofilmes, mas não interfere nas características da cerveja. Conseguimos eliminar uma etapa de rinsagem, na qual se gasta mais água. É um trabalho simples, mas baseado em alta tecnologia”, finaliza Rafael.

Doria erra ao alegar que liberação de cerveja em estádio é inconstitucional, dizem juristas

O argumento de João Doria (PSDB), governador de São Paulo, de que o projeto de lei que libera a venda e consumo de bebidas alcoólicas nos estádios paulistas é inconstitucional foi avaliado como equivocado por juristas consultados pelo Guia.

A suposta inconstitucionalidade foi utilizada como explicação pelo governador paulista para indicar que vetará o projeto do deputado estadual Itamar Borges (PMDB) que aborda o assunto e foi aprovado em 13 de junho, em votação na Assembleia Legislativa de São Paulo.

Para o advogado João Henrique Chiminazzo, mestre em Direito Desportivo pela Universidade de Lérida (Espanha), o projeto é constitucional por ser dos estados a competência para liberar ou não o consumo de cerveja nos estádios. De acordo com ele, é um erro utilizar o Estatuto do Torcedor para lidar com esse tema.

“Não há impedimento na Constituição ou no Código de Defesa do Consumidor sobre a venda de bebidas no estádio. Não é uma competência deles ou do Estatuto do Torcedor. São leis ordinárias aprovadas pelos próprios estados – em São Paulo tem uma, no Rio de Janeiro tem outra, em Santa Catarina, e por aí vai – que proíbem ou não a venda de bebidas alcoólicas nos estádios ou em seu entorno, com algumas regulamentações”, afirma Chiminazzo, lembrando que inúmeros estados vêm aprovando a liberação de bebidas alcoólicas nos últimos anos.

“Então, em que pese ser o governador de São Paulo, eu discordo do Doria. Não há nenhum impedimento na Constituição. Liberar a bebida nos estádios não viola nenhum dos artigos da Constituição. Se não viola nenhum dos artigos da Constituição, não pode ser inconstitucional em hipótese alguma. Ele pode, sim, vetar por uma questão pessoal, e aí vai se ter uma discussão judicial para saber a validade desse veto. Mas eu sou contrário ao fundamento de uma suposta inconstitucionalidade”, acrescenta o especialista.

Em opinião similar, Cristiano Caús, advogado e membro da comissão jurídica da Federação Paulista de Futebol (FPF), até lembra que foi uma lei estadual de 1996 que vem proibindo a venda de cervejas nos estádios de São Paulo, o que seria suplantado pelo projeto recém-aprovado pela Assembleia Legislativa e a sua posterior sanção.

“A Constituição determina que o tema deve ser regulado de forma concorrente por lei federal, estadual e municipal, o que significa que, se não houver lei federal tratando do assunto, ele deve ser previsto em lei estadual e assim sucessivamente. Em São Paulo, temos uma lei estadual de 1996 que proíbe a venda de bebidas alcoólicas, porém um projeto de lei foi aprovado pela Alesp, no último dia 13, para permitir a venda”, diz Caús.

Benefícios da aprovação
A FPF destaca ser favorável ao projeto que libera a venda e consumo de bebidas alcoólicas nos estádios por este ser o interesse dos seus clubes filiados. E acredita que a legislação traria benefícios financeiros aos times, com acréscimos às suas receitas.

“A federação estará sempre a favor de seus clubes filiados e dos torcedores. E, neste caso, o pleito de alteração da lei de 1996 é antigo e unânime. Para os clubes, a permissão das bebidas alcoólicas nos estádios traz novas receitas advindas tanto da venda das bebidas quanto dos novos patrocinadores que tendem a entrar no futebol paulista”, avalia Caús.

Com a postura de quem apoia a volta da cerveja aos estádios, a FPF explica que tem atuado como intermediadora de debates sobre o assunto, além de contribuir com a sua experiência na organização de jogos em São Paulo.

“A FPF apoia a comercialização de cerveja nos estádios e, desde o início da tramitação, colocou seu corpo jurídico à disposição da Alesp e do Governo Estadual para debater o tema. Ao longo dos últimos anos, foram realizadas algumas reuniões, tanto com os entes governamentais quanto com a Polícia Militar, e sempre nos mostramos a favor e dispostos a colaborar dentro de nossa expertise, que é a organização e a fiscalização dos jogos de futebol no nosso Estado”, comenta o especialista.

Na avaliação de Chiminazzo, por sua vez, a proibição do consumo de cervejas nos estádios afeta o conceito de entretenimento envolvido nos jogos e até afasta o público, que não consegue vivenciar uma experiência completa.

“A proibição da venda de bebida alcoólica vai contra o que é, conceitualmente, um espetáculo esportivo. Você vai a ele pelo entretenimento de vivenciar uma experiência completa. Isso inclui experiências de comer algo bom, de beber algo bom, de ver algo bom. E isso é um dos motivos que afasta o torcedor dos estádios. É mais fácil ficar em casa, comer algo bom, beber o que quiser e ainda assistir com a mesma qualidade”, analisa o advogado.

Deputado e autor do projeto que libera a venda de bebidas nos estádios, Itamar Borges disse em entrevista publicada pelo Guia nesta quinta-feira que Doria erra ao afirmar que a legislação aprovada é inconstitucional, acrescentando que o veto só teria uma explicação real se partisse de uma decisão pessoal. O deputado estadual também revelou estar confiante de que Doria irá reconsiderar sua decisão.

Outro lado
O indicativo de Doria de que vetará o projeto de lei veio a partir de orientação da Procuradoria Geral do Estado (PGE). Ela apontou que a esfera estadual não poderia versar sobre algo de competência federal e lembra que o Estatuto do Torcedor, aprovado em 2003, proíbe a venda de bebidas alcoólicas nos estádios.

“A Procuradoria Geral do Estado avalia que o projeto de lei que libera a venda e o consumo de bebidas alcoólicas em estádios de futebol do Estado de São Paulo é inconstitucional, uma vez que fere a competência da União para editar normas gerais sobre consumo e desporto. Vale esclarecer que o Estado de São Paulo está obrigado a respeitar a Constituição Federal e, também, o artigo 13-A do Estatuto do Torcedor, que proíbe que o torcedor porte bebidas que possam gerar a prática de atos de violência nos recintos esportivos. Essa obrigação não pode ser afastada por lei aprovada pela Assembleia Legislativa do Estado”, afirma a PGE em nota enviada ao Guia.

A procuradoria também lembra que uma lei estadual com a proibição está em vigor desde 1996, antes, portanto, da aprovação do Estatuto do Torcedor. “Atualmente, a segurança dos frequentadores de recintos esportivos no Estado de São Paulo é assegurada pela Lei estadual n.º 9.470, de 1996, que proíbe a venda, distribuição ou utilização de bebidas alcoólicas, fogos de artifício, hastes ou suportes de bandeiras, copos e garrafas de vidro e bebidas acondicionadas em lata”, conclui.