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Perspectivas 2019: Artesanal brasileira projeta conquistar até 10% de market share

A cerveja artesanal brasileira enfrentou algumas barreiras em 2018, como a crise econômica e a retração do consumo, a matriz tributária pouco efetiva e a dificuldade em baratear o preço para democratizar seu acesso. Tudo, porém, deve ser diferente para o novo ano.

Confiantes na recuperação conjuntural e em um melhor ambiente de negócios às artesanais, especialistas apontam que o ano tende a ser positivo para o setor. É o caso de Carlo Giovanni Lapolli, presidente da Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva). Para ele, em breve espaço de tempo, o mercado de artesanais pode saltar do market share atual – entre 1% e 2% – para expressivos 10%.

“Iremos trabalhar por uma reforma tributária, por melhores condições às pequenas empresas, às pequenas cervejarias e, assim, ajudar a baratear o custo da cerveja artesanal e torná-la mais popular. Com certeza ganharemos mais mercado. Nossa meta é chegar a 10% em um breve espaço de tempo”, revela o presidente da Abracerva ao Guia.

Seu otimismo é compartilhado por José Bento Valias Vargas, sócio da Lamas Brew Shop de BH, da Dunk Bier e um dos fundadores da Acerva Mineira. A melhora do ambiente econômico do país, segundo ele, impactará diretamente no nicho de artesanais, que deve “ter um aquecimento de mercado como um todo”.

José Bento cita ainda um exemplo específico – a nova lei de ocupação de solos em Belo Horizonte – para redobrar a aposta no crescimento de brewpubs. Ainda assim, ele pondera: a artesanal brasileira precisa de um melhor equilíbrio conjuntural para crescer sustentavelmente.

“Creio que vá ter um surgimento grande desse tipo de negócio [brewpubs], mas ainda desproporcional ao consumo. Nem todos obviamente vingarão, mas vai trazer visibilidade”, avalia José Bento.

“O amadurecimento do mercado de cerveja está sendo visto a passos largos, mas ainda é um setor muito novo e com problemas fundamentais, como a regulação incorreta, a alta carga de impostos, a disparidade cruel entre grandes e pequenas indústrias”, acrescenta o sócio da Dunk Bier.

Já Patrícia Sanches, fundadora da Confraria Maria Bonita Beer, sócia da cervejaria Patt Lou e do Instituto Ceres de Educação Cervejeira, aponta que ainda é difícil fazer previsões sobre 2019, mas pondera ser possível vislumbrar uma “antecipação de um futuro próximo no cenário cervejeiro nacional”, uma vez que especialistas já especulam uma melhora na economia para 2019.

E, partindo dessa premissa, ela avalia que o mercado precisará ser criativo para ganhar novos consumidores. “Sendo bem otimistas, podemos pensar em um crescimento tímido, impulsionado principalmente pelas cervejas mais leves, refrescantes e que inovam na criatividade fazendo uso de produtos brasileiros (com frutas, especiarias e madeiras locais)”, conclui Patrícia.

Queda expressiva em novembro amplia baque na indústria de bebidas alcoólicas

A produção industrial de bebidas alcoólicas ampliou a tendência negativa em novembro. Caiu 7,2% na comparação com o mesmo período de 2017, segundo dados divulgados nesta terça-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Manteve, assim, o cenário de baixa dos três meses anteriores.

Essa redução sequencial ampliou os números negativos de 2018. Depois de um início promissor, a produção do setor sentiu o baque do consumo e aponta agora baixa de 1,3% no acumulado do ano. E também há registro de redução nos últimos 12 meses, de 0,6%.

Cenário parecido viveu a fabricação de bebidas não alcoólicas em novembro: caiu 0,7% na comparação com o mesmo período de 2017. Apesar disso, registra alta de 2,1% em 2018. E o resultado é positivo em 1,9% nos últimos 12 meses.

Como havia ocorrido nos meses anteriores, a indústria de bebidas também apresentou queda, agora de 4,2% na variação porcentual mensal. No ano, por sua vez, há crescimento acumulado de 0,3%, enquanto o índice dos últimos 12 meses é de 0,6%.

A queda da fabricação de bebidas em novembro se deu em um cenário de crescimento tímido da produção industrial brasileira. Na comparação entre outubro e novembro, a expansão foi de 0,1%. Mas quando a base é o mesmo período de 2017, o índice é negativo em 0,9%.

“Em novembro de 2018, a produção industrial nacional variou 0,1% frente a outubro (série com ajuste sazonal), interrompendo quatro meses seguidos de taxas negativas”, explica o IBGE. “Os índices acumulados do ano (1,5%) e nos últimos 12 meses (1,8%) continuam positivos, mas o setor seguiu mostrando perda de ritmo frente aos meses anteriores.”

Paralisação nos EUA ameaça abertura de novas cervejarias

A paralisação de grande parte do governo federal dos Estados Unidos entra em seu 18o dia e já aparece como uma ameaça para a indústria cervejeira, impossibilitando a abertura de novas cervejarias e a inovação nos rótulos.

A paralisação é uma resposta do governo do presidente republicano Donald Trump à negativa dos parlamentares de oposição a aceitarem a proposta de dotação orçamentária de R$ 5 milhões para a construção de um muro – uma das principais promessas de campanha de Trump – na fronteira com o México.

Ao todo, cerca de 800 mil funcionários do governo norte-americano estão sem trabalhar e sem receber salários. Desse modo, serviços públicos de diversas naturezas (limpeza, burocracia, programas federais de assistência, etc.) estão suspensos e sem previsão de retomada.

Uma das agências federais prejudicadas pela paralisação é a Alcohol and Tobacco Tax and Trade Bureau (algo como divisão de taxas e comércio de álcool e tabaco). A TTB é responsável pela regulação das indústrias de bebidas e fumo e, portanto, é para ela que empreendedores devem pedir a licença para iniciar a operação de uma nova cervejaria.

Assim, os processos de abertura de cervejaria foram colocados em espera, segundo um dos diretores da Brewers Association, Paul Gatza. “Isso pode atrasar a abertura de novas cervejarias após o final da paralisação”, afirma ele.

Além do processo de abertura de novas cervejarias, o lançamento de produtos também precisa passar pelo crivo da agência. “Se a paralisação durar por muito tempo, o público não vai ver muita inovação nas prateleiras”, diz.

Brewpubs e gastropubs devem se consolidar entre os bares em 2019

O consumidor de cervejas fora do domicílio deve encontrar novidades em 2019, quando decidir sair de casa em busca de opções de bares. Após o ano passado ficar marcado pela consolidação das tap house, o brasileiro terá agora o brewpub e o gastropub como uma opção constante de lazer.

“Para 2019 acreditamos que duas tendências chegam fortes: o brewpub e o gastropub”, afirma Rodrigo Sena, sommelier e gestor da Escola da Cerveja BaresSP, apontando o que considera ser a tendência dos bares neste ano.

Os brewpubs são uma interessante alternativa para o microcervejeiro, pois ele pode vender a cerveja no mesmo local onde produz. Sem precisar gastar com logística e distribuição, o preço pode se tornar mais competitivo, algo que em alguns momentos ainda é um problema no setor.

“O brewpub é o lugar que vende a cerveja feita lá mesmo, e algumas mudanças de entendimento da fiscalização de Anvisa e MAPA [Ministério da Agricultura] estão favorecendo esse tipo de negócio”, explica Rodrigo, apontando também que mudanças recentes na legislação devem facilitar esse tipo de negócio.

O gastropub, por sua vez, deve se tornar uma tendência no mercado de bares a partir de uma demanda crescente do setor, com a busca por opções gastronômicas aliadas ao consumo de cervejas artesanais.

“O gastropub foca em um público que ama cerveja artesanal e que também ama gastronomia, e que hoje encontra pouquíssimas alternativas em São Paulo. Bistrôs onde a cerveja é o tema central aliada à alta gastronomia devem aparecer mais”, conclui o gestor da Escola da Cerveja BaresSP.

Caravan repaginada, 4 lançamentos da Nils: As novidades do fim de ano

O mercado cervejeiro acelerou o passo e trouxe boas novidades na virada de 2018 para 2019. A Caravan, por exemplo, com sua inspiração no jazz, aproveitou o lançamento de quatro rótulos para mudar sua identidade visual. Já a sueca Nils Oscar apresentou quatro rótulos, enquanto a Croma anunciou que irá inaugurar seu brewpub na Vila Madalena. Confira, a seguir, as novidades do final de ano.

Caravan repaginada
Cervejaria criada com a inspiração do jazz, a Caravan Beer aproveitou um novo lote de lançamentos para mudar sua identidade visual. A ideia, segundo a marca, foi “destacar os rótulos com cores mais vibrantes, sem perder a identidade e, claro, a influência do jazz”. Já as novidades chegam em quatro estilos distintos: West Coast Style IPA, Summer Ale, West Coast Citrus IPA e Ginger Pale Ale.

4 rótulos da Nils
A cervejaria sueca Nils Oscar apresentou quatro rótulos ao mercado brasileiro: a Imperial Stout, a Celebration, a Scotch Ale e a Rökporter. A Imperial Stout tem notas de café e chocolate balanceadas com o floral do lúpulo, enquanto a Celebration, com cana de açúcar e um teor alcoólico de 9,9%, foi elaborada em comemoração ao aniversário de Nils Oscar (avô do fundador da cervejaria). Medalha de ouro na World Beer Cup, a Scotch Ale é sazonal e tem notas de caramelo e castanha. E, por fim, a Rökporter leva notas torradas e levemente defumadas.

Lançamentos da Synergy
Depois de abrir recentemente seu brewpub em Sorocaba, a Synergy lançou duas novidades. A primeira delas é a variação de uma receita de sua Daily Blonde, que agora chega com um lúpulo diferente, o Saaz – o rótulo, inclusive, nasceu com a proposta de alterar os lúpulos em cada receita. O segundo lançamento é a Overbatch – Maple Syrup Bourbon Barrel Aged, uma Russian Imperial Stout com 12% de teor alcoólico. É um rótulo limitado, experimental e a princípio engatado apenas no taproom da cervejaria, servido em doses de 100ml. “O Maple Syrup foi envelhecido em bourbon e depois adicionado ao lote da Overbatch, que é uma Russian Imperial Stout com 12% de graduação alcoólica”, explica a cervejaria.

Brewpub da Croma
A cervejaria Croma entrou em 2019 com uma boa novidade: vai inaugurar seu brewpub na Vila Madalena, em São Paulo. O bar terá 15 torneiras, cozinha e capacidade de produção inicial de 5.000 litros. “O sonho da casa própria é antigo. Estar mais perto dos nossos clientes e ter capacidade para experimentação em pequena escala é um passo fundamental para a evolução e crescimento da cervejaria”, aponta Rodrigo Nogueira, sócio da cervejaria. “A Croma já atende 15 estados em território nacional. A meta é ampliar e consolidar ainda mais nossa marca em São Paulo e em outros estados.”

Hops na Azul
O cliente da Azul ganhou uma interessante novidade neste final de ano: o happy hour da companhia aérea passou a contar com a Skol Hops, cerveja que apostou em uma carga reforçada de lúpulos aromáticos. A bebida está sendo disponibilizada em voos de quarta a sexta-feira, das 17h às 21h, em 12 aeroportos brasileiros – São Paulo (Congonhas, Guarulhos e Viracopos), Curitiba, Fortaleza, Goiânia, Recife, Rio de Janeiro (Santos Dumont), Salvador e Vitória. “O nosso já consagrado happy hour Azul é uma das iniciativas diferentes que torna a experiência do cliente ainda melhor. Com a Skol Hops, a Azul mantém um padrão diferenciado em seus produtos, sempre pensando em viagens mais leves e agradáveis”, afirma Claudia Fernandes, diretora de marketing e comunicação da Azul.

Desvalorização de moedas deve pressionar artesanais latinas em 2019

O ano de 2019 deve ser complicado ao mercado de cervejas artesanais na América do Sul. É o que garante Daniel Trivelli, presidente da Copa Cervezas de América, a mais importante competição do setor no continente. Segundo ele, a desvalorização de moedas, principalmente do real brasileiro e do peso argentino, vai pressionar os produtores em função da elevação do preço dos insumos, que em sua maior parte são importados.

“2019 será um ano de dificuldades para as cervejarias no Brasil e na Argentina, especialmente para a cervejaria artesanal que utiliza uma grande quantidade de insumos importados, que tiveram um aumento de preço devido ao enfraquecimento de algumas moedas, principalmente o real e o peso argentino”, avalia Trivelli.

Ele também expressa a mesma preocupação sobre o lúpulo, pois o aumento da demanda não vem sendo acompanhado pela produção. “O mercado de lúpulo continua a produzir abaixo de uma demanda crescente, especialmente em variedades de sabor e aroma, que empurram o preço para cima”, acrescenta.

O cenário complicado para o produtor de artesanais na América do Sul também se soma a uma outra preocupação. Embora o crescimento de microcervejarias e rótulos à disposição do público seja notório, o mercado consumidor não tem acompanhado essa tendência. Ou seja, há mais aumento na concorrência do que na demanda.

Assim, para o presidente da Copa Cervezas de América, a tarefa em 2019 é educacional e cultural: ampliar a presença das artesanais no mercado a partir de ações que, com algum didatismo, estimulem o consumo dessas cervejas.

“O principal desafio é aumentar a participação de mercado das cervejas especiais, por meio da educação e promoção da cultura da cerveja, ensinando ao consumidor as diferentes variedades e estilos, além de educar sobre a forma de consumo. As cervejarias precisarão tomar medidas para aumentar a visibilidade de suas marcas e destacar a qualidade de suas cervejas em um mercado com cada vez mais participantes”, alerta.

Balanço positivo
Se o cenário para o próximo ano parece desafiador, 2018 terminou como um ano de conquistas. Em um marco que pode ser considerado histórico, o Beer Judge Certification Program (BJCP), a mais importante instituição mundial de juízes do setor, catalogou o primeiro estilo brasileiro da bebida, a Catharina Sour.

Ao citar como referência a Copa Cervezas de América de 2018, concurso que teve a Wäls, de Belo Horizonte, e a Pratinha, de Ribeirão Preto, como destaques, Trivelli aponta que a Catharina Sour já está se globalizado. Tanto que está sendo feita em países como Argentina e Estados Unidos, e com produção qualificada, como indicam as medalhas conquistadas.

“O concurso Cervezas de América foi o primeiro concurso internacional a incorporá-la [a Catharina Sour] e vimos 30 cervejas cadastradas, sendo um dos 15 estilos com maior participação. Representou 1,8% do total de cervejas cadastradas”, detalha o especialista, antes de arrematar.

“O mais interessante é que não só as cervejas brasileiras participaram desse estilo, mas também da Argentina e dos Estados Unidos, mostrando que a comunidade cervejeira internacional acolheu o novo estilo de uma forma positiva. Podemos concluir que o estilo Catharina Sour já possui personalidade própria. Além disso, foram concedidas 8 medalhas a esse estilo, de um total de 170, representando 4%, demonstrando o bom trabalho realizado pelos produtores brasileiros”, elogia Trivelli.

O presidente da Copa Cervezas de América também revelou um acréscimo de 24% na participação de artesanais do continente no concurso, um dado que indica o crescimento do setor. Porém, ele alerta não ser possível realizar uma avaliação unificada sobre o mercado de artesanais nas Américas do Sul e Latina. Afinal, enxerga cenários bem diferentes para países como Brasil, Argentina e Chile na comparação com outros, como Colômbia, Equador e Peru, que enfrentam um período de crise no setor.

“Países como o Brasil, a Argentina e, em menor grau, o Chile, mostraram um crescimento saudável, sustentado por fortes bases para o desenvolvimento da demanda, bem como uma oferta de cervejas que melhora constantemente sua qualidade e consistência. Por outro lado, países como Costa Rica, Equador, Peru e Colômbia, que apresentaram forte crescimento, estagnaram e estão passando por uma crise que se reflete em uma estagnação ou queda nas vendas”, aponta.

A dificuldade de alguns “vizinhos”, no entanto, não atingiu o Brasil, que fechou o ano em crescimento e com a entrada de novas artesanais no mercado, sinais que apontam para a sustentabilidade desse mercado no país, na avaliação de Trivelli.

“O número de cervejarias registradas aumentou em mais de 20% em relação a 2017, atingindo mais de 800 cervejarias. Um número que ainda não considera as cervejarias ciganas”, afirma o presidente da Copa Cervezas de América. “Além disso, o número de produtos registrados entre rótulos e variedades de cerveja vendidos em todos os países ultrapassa os 170 mil.”

Verão: Artesanais apostam em cervejas leves para expandir mercado consumidor

A chegada do verão ao Hemisfério Sul, a estação mais aguardada pelos brasileiros, também significa às artesanais um importante momento para adotar estratégias que ampliem vendas e presença de mercado. E é o que vem sendo feito por diferentes marcas, com lançamentos de rótulos e ações específicas para atrair um público que ainda dá os primeiros passos no setor de artesanais.

A tendência das microcervejarias foi apostar em cervejas mais leves para o verão, mas sem deixar de lado um traço diferenciado das artesanais. Foi o que fez a Barco ao apresentar a Summer Sour, com a qual espera agradar o público ao trazer a leveza tradicional das cervejas brasileiras, mas também com alguma acidez.

“O paladar do brasileiro é acostumado a um tipo só de cerveja: muito leve, além de extremamente gelada. A Summer Sour é uma cerveja muito leve e traz a acidez como característica sensorial principal, algo novo para a maior parte do público. Ainda carrega toques cítricos, vindos do lúpulo. Mas sem soar amarga”, explica Fernando Lapolli, consultor da Cervejaria Santa Catarina, fabricante das Cervejas Barco.

Assim, com sua novidade de 4% de teor alcoólico, 5 IBUs e notas de frutas ácidas, como o maracujá, a marca espera aproveitar o verão para utilizar a Summer Sour como uma porta de entrada do consumidor ao mercado de cervejas diferenciadas.

“Ela é pensada tanto para o público já iniciado nas artesanais, quanto para quem nunca provou uma cerveja ácida. É uma ‘azedinha fácil'”, acrescenta Lapolli.

Catharina e Brut
A BR Brew, que aposta na Amigo da Onça para o verão, também segue a mesma linha. Com a sua refrescante Catharina Sour com adição de goiaba, cereja e hibisco, com visual rosa intenso e 3,7% de teor alcoólico, a marca espera alcançar um público que busca novidades por estar cansado das Pilsens, que dominam o mercado cervejeiro no Brasil.

“O público-alvo está aberto a provar novidades e se dispõe a entrar no mundo das Sour, mas não vai se assustar por não ser uma cerveja muito ácida. Tem uma acidez que chama para o próximo gole. Então queremos o público que está entrando no mundo das artesanais. E também o público que não é tão cervejeiro, mas quer tomar algo para provar, saindo da zona de conforto das Pilsens tradicionais”, conta Patrick Bannwart, mestre-cervejeiro e sócio da BR Brew.

E ele assegura que os primeiros resultados da aposta vêm sendo positivos, com a expansão do público consumidor. “A nossa aposta é pegar a faixa de mercado de quem nunca provou uma Sour. Fizemos um primeiro lote que vendemos em menos de dez dias. E foi para consumidores que levam a cerveja para eventos de família e churrascos”, acrescenta.

Já a Júpiter lançou recentemente a Duna, uma Brut IPA com 6% de teor alcoólico, leve, refrescante, frisante e muito lupulada no aroma, mas com amargor bem suave e adição de flocos de arroz e milho. A marca diz ter feito a aposta depois dos últimos anos ficarem marcados por cervejas mais encorpadas e pesadas.

Mas, de acordo com David Michelsohn, fundador e mestre-cervejeiro da Júpiter, as novidades não ficarão por aí e novos rótulos devem ser apresentados nas próximas semanas. “Felizmente o verão – e o calor – ainda vai durar mais uns meses e teremos tempo de envasar mais rótulos sazonais em breve.”

Fidelização do consumidor
Tais estratégias de verão caminham em direção de um importante desafio das artesanais para 2019: democratizar o consumo e conquistar novos segmentos de mercado. E, para que essa expansão seja consistente e duradoura, é importante criar políticas de preço que seduzam consumidores não apenas das classes A e B. Foi o que fez a Schornstein ao apostar na Soul, uma Light Lager com 3,5% de teor alcoólico.

“Para buscar escala e popularizá-la, entramos com uma estratégia de preço final ao consumidor bastante agressiva, a fim de dar visibilidade do produto ao consumidor”, conta Elton Fedalto, gerente comercial da Schornstein.

E a estratégia foi um sucesso. Embora a marca tenha lançado em abril a Schornstein Soul, é no verão que está a expectativa de maior venda. E, para dar conta da demanda, houve até um realinhamento da produção.

“A aposta tem também o objetivo de buscar uma parte do consumo das cervejas mais comerciais, onde tradicionalmente são mais leves, mas com o nosso diferencial de ser puro malte. A aceitação esta sendo fantástica, tanto que estamos revendo toda programação de produção, pois há risco de não conseguirmos atender toda demanda”, detalha Elton.

Ele aponta que até a embalagem da cerveja foi pensada para chamar mais a atenção do público. “Ela tem como característica ser uma Light Lager, leve, refrescante e com toda qualidade 100% puro malte da Schornstein”, acrescenta o gerente comercial. “A aposta nela tem, além das característica da cerveja, a própria embalagem em garrafa long neck de vidro transparente, que dá um charme a mais.”

Perspectivas 2019: Preços altos travam democratização do mercado de artesanais

A democratização inerente ao conceito de cervejas artesanais em função da grande oferta de opções e sabores tem esbarrado em um fator que, inclusive, o impede de alcançar um público maior: os preços. Em um país onde a desigualdade é uma marca indesejada, os valores cobrados por uma artesanal impõem travas ao mercado consumidor dessas cervejas, que também são duramente afetadas pelas regras tributárias.

“As cervejas têm qualidade melhor, mas o preço chegou a um nível absurdo, quase impagável. Virou um produto de elite da elite. Um negócio que deveria ser acessível está se tornando inacessível. Não tem como meio litro de cerveja custar R$ 50. Tem algo errado nessa conta”, avalia Luis Marcelo Nascimento, consultor cervejeiro, juiz do BJCP e sócio do Volátil, do H. e do The Lab.

Esse é um desafio que reflete um problema conjuntural brasileiro. Fundadora da Confraria Maria Bonita Beer, sócia da cervejaria Patt Lou e do Instituto Ceres de Educação Cervejeira, Patrícia Sanches lembra a desigualdade social e a concentração do consumo em classes privilegiadas em detrimento de grande parcela da população, que não tem como pagar o preço alto e fica à margem do setor de artesanais.

“Os consumidores de cerveja artesanal têm como preocupação optar pela qualidade ao invés da quantidade, comportamento de fácil observação nas classes A e B, com difícil penetração na classe C em virtude dos preços praticados no mercado, influência direta da carga tributária e dos baixos volumes produzidos pelas nano e microcervejarias”, comenta.

Para Patrícia, esse difícil cenário foi amplificado pela crise econômica dos últimos anos, algo que forçou o público a adaptar seus hábitos de consumo a partir dos preços, sem se preocupar tanto com a qualidade.

“Inserir a cerveja nos hábitos do consumo do brasileiro vem sendo um dos grandes desafios da cadeia produtora de cerveja artesanal no Brasil. Desde a queda do poder de compra, impulsionado pela crise econômica do país, esta situação vem obrigando o consumidor a ser mais seletivo na hora de economizar e, infelizmente, as bebidas alcoólicas vêm brigando por um lugar ao sol na mesa do consumidor”, acrescenta Patrícia.

Possíveis soluções
Em uma ação para alterar esse cenário, José Bento Valias Vargas, sócio da Lamas Brew Shop de BH, da Dunk Bier e um dos fundadores da Acerva Mineira, aponta que a busca por preços mais competitivos pode ser alcançada se o setor mudar o foco. Sua ideia é que se mire totalmente o consumidor, sem esquecer das diferenças entre o público que bebe a cerveja mais tradicional e o que gosta das artesanais.

“O mercado precisa focar menos em querer crescer o número de fábricas e mais em crescer o número de consumidores. Formar cultura para ter cliente perene e não só ficar dando murro em ponta de faca, achando que vai conseguir concorrer com as grandes. O nosso mercado não é o deles. Vamos focar em criar nossos consumidores”, avalia.

Outro ponto importante é reforçar a batalha por uma matriz tributária mais adequada ao microcervejeiro, como aponta Carlo Giovanni Lapolli, presidente da Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva). Os altos impostos provocam uma elevação no custo de produção das artesanais, que acaba sendo repassado ao consumidor.

Diante dessas dificuldades, há expectativa de que os novos governantes e a nova legislatura sejam conscientizados para que a lógica tributária danosa ao produtor – e também ao consumidor – seja modificada.

“O grande desafio para 2019 é buscar, junto com a nova legislatura, com os novos governantes, um ambiente melhor de negócios para a cerveja artesanal. Nossa grande conquista será quando a cerveja artesanal independente for democrática, puder estar em todas as mesas. Esse é o grande desafio”, garante Lapolli, demonstrando otimismo para 2019.

“Tenho certeza que o consumidor é o grande agente transformador do nosso setor. O consumidor está sedento por tomar uma boa cerveja artesanal, e logo logo ele terá uma por um preço mais competitivo”, acrescenta.

Com uma avaliação parecida, mas não tão otimista, Luis Marcelo reconhece que o setor de artesanais sofreu o impacto da crise brasileira nos últimos anos, o que provocou uma retração de mercado. Mas alerta que será difícil o cenário ser alterado se o preço cobrado por uma cerveja não for mais acessível.

“Os últimos dois anos foram ruins para o mercado cervejeiro, a crise foi real, impactou o setor, o consumo baixou, muito bar fechou. O mercado retraiu. Então, vai ser um ano de recuperação. Mas existe um paradoxo aí: o mercado retrair e uma lata custar R$ 50. Então, para o próximo ano, algo precisa ser visto para retomar isso”, conclui o consultor e juiz do BJCP.

Brewers Association revê definição de “cervejaria artesanal”

O que é cervejaria artesanal? A dúvida é comum e, em diversos lugares do mundo, pode-se encontrar definições diferentes e até grandes celeumas em torno dessa definição. Nos Estados Unidos, a entidade que representa a maior parte das pequenas cervejarias, a Brewers Association (BA), reviu em dezembro o conceito de “cervejaria artesanal”.

Desde a primeira definição em 2006 e sem periodicidade definida, o conselho de diretores da associação sem fins lucrativos se debruça sobre o tema para garantir que o conceito acompanhe a evolução do mercado e reflita o que acontece na comunidade cervejeira. O processo de revisão começou no meio do ano de 2018 com uma pesquisa para entender as mudanças nos produtos e nas propostas dos cervejeiros dos EUA.

O termo atualizado deixou de lado um dos pilares da definição vigente até então. Na avaliação da BA, os cervejeiros de hoje, na busca por lucro, tentam manter sua produção na capacidade máxima, se preocupam com diversas questões mercadológicas e criam produtos que não se encaixam na definição tradicional de cerveja. Assim, a nova definição diz que “um cervejeiro artesanal americano é um ‘cervejeiro independente e pequeno’”.

Por pequeno, entende-se produtor de menos de 6 milhões de barris (714 milhões de litros) por ano. Por independente, compreende-se que a empresa tenha no máximo 25% de participação acionária de empresas que não sejam também artesanais. E por “cervejaria” entende-se a empresa que tenha licença do Alcohol and Tobaco Tax and Trade Bureal (algo como departamento de comércio e taxação de álcool e tabaco) e, de fato, produza cerveja.

“O mais importante é que essa definição dá à BA a possibilidade de manter estatísticas sobre o crescimento do segmento craft, que comporta a maioria das cervejarias americanas”, afirma Julia Herz, diretora da entidade. “Estatísticas servem como importante ferramenta de planejamento de negócios para cervejeiros e são muito valorizadas pelos outros players do mercado”.

Para ela, a nova definição reflete um momento próspero do mercado. “As cervejarias artesanais estão prosperando, mesmo contra todas as dificuldades, inovando e revirando estilos do Velho Mundo nos EUA, fazendo com que nos tornemos o maior e mais diversificado destino cervejeiro no mundo”, complementa ela.

Retrospectiva: Os momentos mais importantes de 2018 na cerveja

E chegou o fim de 2018. Um ano agitado no universo da cerveja, cheio de novidades, tendências, reviravoltas. E o Guia esteve lá, cobrindo, checando e noticiando os principais momentos da indústria, do mercado e da cultura cervejeira no Brasil e no mundo. Selecionamos em uma retrospectiva os momentos mais significativos de 2018. Confira quais foram esses acontecimentos e que consequências eles podem ter nos próximos anos.

Somos 835: O número de cervejarias instaladas no Brasil cresceu 23% nos primeiros nove meses do ano, chegando a 835, na sua maioria micro cervejarias e concentradas no Sul e Sudeste.

Mais empregos: Em ano de altas taxas de desemprego, a indústria cervejeira fechou o ano com saldo positivo. As micro e pequenas cervejarias puxaram esse movimento, e aquelas com até 4 funcionários foram responsáveis por 45% das 1.757 vagas geradas pelo setor.

União cervejeira: Em cidades como Niterói e Belo Horizonte, o diálogo entre poder público e o setor cervejeiro resultou em legislações que favorecem o desenvolvimento da indústria e do varejo cervejeiro.

Tudo no rótulo: Nova lei determina que cervejarias especifiquem nos rótulos todos os ingredientes da cerveja. Não vale mais dizer apenas “cereais não maltados”: se tem milho, deve constar no rótulo.

Skol se mexe: O desenvolvimento do paladar do brasileiro se consolidou a ponto de ser reconhecido pela Skol. A marca mais valiosa do Brasil tomou diversas atitudes em direção a contemplar um público cada vez mais exigente: em setembro, lançou uma versão lupulada e, em dezembro, anunciou o lançamento da versão puro malte para o início de 2019.

Cevada ameaçada: Estudos acadêmicos mostraram que o aquecimento global pode comprometer a colheita de cevada – e consequentemente a produção de cerveja nos próximos 100 anos.

Cerveja de maconha: Flexibilização das leis que regulam a produção e consumo de maconha em países como EUA e Canadá já faz com que as grandes cervejarias, como a Constellation Brands, se movimentem de olho no mercado milionário de bebidas feitas à base da erva.

A Catharina é nossa: Em marco histórico da cerveja brasileira, a Catharina Sour, variação desenvolvida em Santa Catarina, foi catalogada pelo BJCP como estilo oficial, abrindo novos horizontes para a indústria nacional.

Internacionais: Em agosto, o World Beer Awards, uma das premiações mais importantes da cerveja mundial, coroou 8 rótulos brasileiros, mais um passo importante no processo de consolidação das marcas nacionais no mercado internacional