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13 avaliações sobre como deve ser a nova gestão da Abracerva

Especialistas ouvidos pelo Guia esperam que próxima gestão da Abracerva tenha composição mais plural e aposte na diversidade

A divulgação de mensagens de teor preconceituoso de diferentes personalidades do setor cervejeiro provocou uma mudança relevante no segmento. Responsável por parte desse conteúdo, o então presidente da Associação Brasileira da Cerveja Artesanal (Abracerva), Carlo Lapolli, renunciou ao cargo no início de setembro, assim como os demais membros da sua diretoria, abrindo espaço para uma nova gestão. Afinal, eleições foram convocadas para 15 de outubro. Até lá, a entidade será administrada por Nadhine França, coordenadora do núcleo de diversidade.

A mudança iniciada na Abracerva e que terá na escolha de uma nova diretoria um passo importante, porém, não pode ficar restrita aos nomes. Diferentes especialistas ouvidos pelo Guia destacaram a importância de que a chapa eleita preze pela diversidade em sua composição e, também, em suas iniciativas, fortalecendo o recém-proposto código de ética, pautando-se por ele e pelos conceitos de igualdade. Além disso, é necessário condenar qualquer atitude preconceituosa e lutar pela inclusão dentro do segmento.

Leia também – Mudança na Abracerva era fundamental e fortalece código de ética, dizem especialistas

Eles ressaltam que a Abracerva precisa ser inclusiva nas suas ações, para que os diferentes participantes do setor de artesanais se sintam representados pelas suas iniciativas, sem que apenas os interesses das cervejarias tenham proeminência, embora reconheçam a importância das demandas das marcas.

Apontam, ainda, a necessidade de uma gestão descentralizada, que permita a expansão do setor e das suas atividades para diferentes regiões do país e segmentos da sociedade. Isso seria, na visão dos especialistas, fundamental para que o setor se torne, de fato, inclusivo e mais democrático.

Confira, abaixo, 13 avaliações sobre como deverá ser a nova gestão da Abracerva.

Sara Araújo (sommelière)
Seria inaceitável que pessoas que estiveram naquele grupo (Cervejeiros Illuminati, do qual foram vazadas mensagens preconceituosas) continuassem gerindo uma associação que representa o campo da cerveja. Corroboraria com as violências e atitudes abjetas direcionadas a mim e as outras pessoas, mencionadas nas mensagens.

Imagino que (a nova gestão da Abracerva) seja pautada pelo direito à dignidade humana, que seus dirigentes possam lutar para que nenhuma pessoa seja vítima de violência no campo da cerveja, que haja maior controle e rigor, que as pessoas sejam responsabilizadas pelos seus atos, que lutem por equidade e diversidade, que levem a pauta racial e de toda minoria política a sério, que lutem pela melhor inclusão das mulheres no meio cervejeiro. Que essas mulheres sejam plurais, que lutem pela inclusão das pessoas LGBTT+, indígenas e pessoas com deficiência. Que busquem melhorias para o setor e que todas as vidas sejam tratadas com respeito e equidade. Que rótulos de cervejas não reproduzam nem naturalizem violências.

Quando uma pessoa negra aponta o racismo, as pessoas brancas não as levam a sério. Isso é um dos pontos que a nova gestão precisa se atentar: a forma como as minorias políticas são representadas nos rótulos de cervejas, para evitar a naturalização de violências a esses corpos vulnerabilizados.

Fabiana Arreguy (jornalista e sommelière)
Penso que deve ser uma gestão plural, com representantes de todos os grupos atuantes dentro do segmento cervejeiro artesanal. É preciso que os negros, que as mulheres, que os nordestinos, que os LGBTQIA+ estejam presentes e com representatividade em uma nova diretoria da associação que pretende ser a representante de todo o segmento. Do contrário, será trocar 6 por meia dúzia.

Além de uma composição plural, a atuação da nova gestão da Abracerva deve estar atenta a todas as dores do setor, não somente aos interesses de cervejarias. Há outros players no mercado, que atuam em outras frentes que não a produção de cervejas. Eles também devem ser ouvidos, contemplados com ações e medidas adotadas pela associação.
O código de ética, proposto há poucos dias pela Abracerva através do núcleo pela diversidade, é um instrumento importantíssimo, ao qual a nova diretoria deve se subordinar para uma gestão mais ética e equânime.

Carlo Enrico Bressiani (diretor da Escola Superior de Cerveja e Malte)
Toda crise pode ser positiva se bem aproveitada. Essa crise fará a preocupação com a diversidade ser maior. A Abracerva é uma associação de cervejarias, embora congregue a maior parte do mercado, e esse precisa ser o foco. Ela precisa defender o interesse das microcervejarias. Não acho que a Abracerva possa perder esse norte, porque foi constituída para isso. O seu papel é fazer a interlocução com as entidades governamentais e os grandes grupos. Isso não sai de pauta, mas a questão de diversidade passa a ser também prioritária.

Diego Dias (fundador da Cervejaria Implicantes)
Ficou comprovado como não existe mais espaço para preconceitos como misoginia, racismo e homofobia. A nova gestão da Abracerva tem de abraçar essas causas, não sendo só da boca para fora, mas atuando na parte prática. Com a internet, como nós vimos, todos têm acessos ao histórico dos candidatos. Se porventura a nova presidência não abraçar as causas, isso vai repercutir de maneira negativa para o mercado. É preciso pensar em ações afirmativas.

Anne Galdino (sommelière e tecnóloga cervejeira)
A exposição de pessoas que o público cervejeiro tinha uma super consideração foi o mais impactante. Porém, em tudo que acontece, temos de ver o lado positivo. O lado positivo foi ver que temos de mudar a postura em relação à sexualidade, gênero, raça, etc., no meio em que estamos.
O mercado cervejeiro brasileiro é tão pequeno e precisa de mais avanço, e nada melhor do que agora lutarmos por respeito, termos associações cervejeiras – como a Abracerva – que sejam inclusivas e que realmente tenham iniciativas que façam com que todos no meio cervejeiro se sintam representados. Espero ver um mercado cervejeiro mais inclusivo, menos preconceituoso e próspero.

Sady Homrich (cervejeiro, sommelier e baterista do Nenhum de Nós)
Tenho certeza de que a Nadhine conduzirá bem as ações até a eleição em outubro. Resta a esperança de que a nova diretoria eleita dê sequência ao importante trabalho político que vinha consolidando sua representatividade com importantes conquistas. Cabe às cervejarias dar essa legitimidade à sua associação brasileira. Ainda haverá muito trabalho para reverter os desafios que esse ano de 2020 está trazendo. Espero que com mais convergência, objetividade, igualdade, tolerância e recuperação da autoestima. Esses conceitos terão de fazer parte das receitas das próximas cervejas.

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Diego Masiero (sócio da editora Krater)
A nova gestão necessariamente precisa ser mais representativa e diferente da Brewers Association, que levou décadas para se posicionar a respeito. Precisa trabalhar sob a lógica que inclua e dê protagonismo às minorias.
Imagino uma gestão principalmente composta por mulheres, que siga comprometida em atender as demandas e a fomentar mercado em todo território nacional. Necessariamente, deve-se pautar políticas afirmativas como valores dos associados para contratação de profissionais, na linha do que se apresentou no esboço do código de ética.

Acredito também que a gestão precisa ser conduzida de forma não personalista, buscando horizontalidade que permita à associação uma maior presença e fluidez em um trabalho descentralizado. Hoje não existem recursos financeiros suficientes para que haja representantes executivos em todas as regiões do país, e uma direção horizontal poderia dar conta disso.

Candy Nunes (sommelière)
Avalio que, assim como na vida em geral, enquanto tivermos que colocar máscaras físicas para nos protegermos, as máscaras sociais vão caindo e expondo a face preconceituosa e retrógrada de um comportamento social em absoluto declínio.

Acredito ser de suma importância, dada a possibilidade que se abre para uma mudança estrutural, que isso aconteça de forma genuína! Que haja força capaz de gerir a associação, colocando como prioridade a ética e criando ferramentas práticas para a inclusão, que possibilite que a diversidade seja o padrão e não um sistema de cotas. Mais importante ainda é que não haja espaço para a adesão de pessoas que de fato não representam as minorias sociais, que nunca fizeram nada pelos movimentos e que porventura desejem “surfar” essa onda para mais uma vez se beneficiar pessoalmente, apropriando-se da luta apenas para criar seu palanque e se auto-beneficiar. Que a Abracerva seja ocupada por uma força genuína e capaz!

André de Polverel (presidente da Cooperbreja)
Sem entrar no mérito da questão, olhando apenas para o mercado cervejeiro e para o futuro da Abracerva da qual sou associado, vejo com grande apreensão a decisão de Carlo Lapolli. Espero que possamos encontrar uma liderança à sua altura que possa dar continuidade a todas as demandas da cerveja artesanal e independente.

Leia também – Abracerva convoca assembleia para eleger nova diretoria em 15 de outubro

Gabriella Rubens (sommelière)
Os casos de preconceito expostos nas últimas semanas só transparecem o que o mercado é: elitista, machista e, acima de tudo, racista. Isso é algo que quem faz parte das minorias não questiona. Eu trabalhei como chão de fábrica, no salão de um brewpub em Santos e não vi um dia em que minha qualificação não fosse questionada. Isso tem de mudar, eu não posso nem devo ser questionada pelo que o cliente vê (uma mulher negra), acho que minha qualificação basta.

Vi a gestão da Abracerva desmoronar. Sinceramente, gostei de ver a Nadhine assumir, me vejo nela, vi um ambiente seguro para mim nessa mudança. Só quem faz parte do grupo que sofre ataques sabe o que é ter a paixão pela cerveja e tentar viver, sobreviver nesse mercado não sendo parte do perfil padrão. Spoiler: dói.

Imagino uma nova gestão inclusiva com filtros, filtros que não aprovem o racismo recreativo, que não aprovem o machismo, a LGBTfobia. Estamos em 2020, chega dessa postura exclusiva em um mercado de uma bebida tão inclusiva.

Sulamita Theodoro (sommelière de Cervejas pela Escola Mineira de Sommelieria)
A Abracerva tem a sua razão para existir, está no seu propósito o “objetivo de fortalecer o segmento”. As maneiras para se dar este fortalecimento podem ser amplas e precisamos enfatizar que a diversidade e ações de inclusão não desfavorecem o crescimento. Pelo contrário, são capazes de garantir ainda mais visibilidade profissional, de serviço e dos produtos. A população brasileira é composta em sua maioria por negros e negras, com cada vez mais consciência sobre raça e classe, além de poder econômico. No caso de uma nova gestão que não inclua em seus objetivos concretos ações que possam garantir a fidelização deste público, vai se abrir mão de um capital econômico e humano qualificado. Mas o racismo e os preconceitos tratam disso: ignorar os diversos aspectos das relações humanas, econômicas, estruturais e socioculturais que podem, em conjunto, contribuir para avanços significativos sem que haja prejuízo para estes que escolhem essa posição criminosa das agressões pelo ódio.

A nova gestão deve focar em refletir as demandas da sociedade e do mercado, assegurando representatividade em sua estrutura de conselho e diretoria, mas também investindo em ações de ampliação e fortalecimento de iniciativas que possam agregar às estratégias e planejamento de médio e longo prazo para atender ao seu objetivo.

Eu desejo que entendam que essa demanda, apontamentos e propostas não vão desaparecer como em um piscar de olhos e que, a partir dos últimos ocorridos, cada profissional e indivíduo que compõe a nossa sociedade e, principalmente, o mercado cervejeiro, possa repensar suas ações nas esferas das relações comerciais e humanas. Se a máxima de que “Vidas Negras Importam” não for suficiente, entendam que “nossa grana” não contribuirá com essas estruturas mais.

Cilene Saorin (sommelière, mestre-cervejeira e diretora da Doemens Akademie no Brasil)
Sobre uma nova composição e gestão da Abracerva, penso que é preciso ter olhos atentos para a pluralidade e a representatividade. Que seja uma equipe de mulheres, homens, pretos, brancos, heteroafetivos, homoafetivos, dentre outras diversidades. Não temos tempo a perder. No mundo dos negócios, o inevitável capitalismo tem de ser inteligente – ou seja, inclusivo. Daqui adiante, é sim ou sim.

Ivan Tozzi (sócio-proprietário da Three Hills)
A nova gestão deve ser formada por pessoas que acreditem na inclusão, que apostem na diversidade e que saibam de fato entender que precisamos, mais do que nunca, democratizar o acesso ao nosso setor, seja o acesso à cerveja artesanal, seja o acesso ao aprendizado. Precisamos sair urgentemente do meio elitizado, precisamos chegar às comunidades. A nova gestão deve pensar a partir do foco nesse público. Buscar alternativas para ajudar a baratear produtos, levar conhecimento e propor debates contínuos sobre o tema.

1 Comment

  • José Reply

    19 de setembro de 2020 at 13:59

    É bom ver que as mudanças necessárias serão realizadas. Infelizmente o meio cervejeiro ainda é repleto de machismo e preconceito de todos os tipos, e quando leio o depoimento do presidente da Cooperbreja, André de Polverel, vejo que o caminho para a melhoria ainda é muito longo. O sujeito definitivamente não leva a questão a sério e prefere “não entrar no mérito da questão”. O cara vê racismo e misoginia e prefere ignorar! Isso é um absurdo sem tamanho, especialmente para alguém na posição dele!

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