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Semana de 22 em cerveja: As razões para a continuidade da influência do marco cultural

Ao refletirem mudanças da sociedade e se organizarem em um movimento para a realização de uma semana de eventos, expoentes do modernismo brasileiro mostraram que era possível construir uma arte que rompesse com as tradições europeias, que dominavam os pensamentos da elite brasileira no início do século XX. Foi assim que a Semana de Arte Moderna, também eternizada como Semana de 22, se tornou um dos marcos culturais do país, a ponto de repercutir 100 anos depois, se tornando, inclusive, alvo de homenagem em rótulos de cerveja no seu centenário.

Realizada de 13 a 17 de fevereiro de 1922, a Semana de Arte Moderna reservou um dia para cada manifestação artística – pintura, escultura, poesia, literatura e música –, se transformando em uma das referências culturais do Brasil no século XX pela renovação da linguagem e a experimentação, vista em atos hoje corriqueiros, como a declamação de poesias. Mudou, assim, a cultura brasileira e sua manifestação dali em diante.

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O encontro, em São Paulo, reuniu nomes hoje consagrados na arte brasileira, como Mário e Oswald de Andrade, Víctor Brecheret, Plínio Salgado, Anita Malfatti, Menotti Del Picchia, Heitor Villa-Lobos e Di Cavalcanti. E se deu em meio a um período em que oligarquias dominavam o país politicamente, na República Velha, representada pela política do café com leite, mas que contrastava com o início da explosão urbana na capital paulista.

Ao usar esse momento de mudanças para expor um movimento, a Semana de 22 se tornou um marco do modernismo brasileiro, embora não tenha representado, de fato, o início da sua manifestação no país. Mas a reunião de eventos serviu para exibi-lo como algo coletivo, como destaca, ao Guia, André Cáceres, jornalista cultural, escritor e editor da Sesi-SP Editora.

“Embora o modernismo já existisse em manifestações artísticas e literárias isoladas no Brasil, a Semana de 22 foi o primeiro grande evento a organizar o modernismo como um movimento coletivo e a disputar com a crítica reacionária da época, colocando novas formas de pensar e fazer arte no centro de um debate que contribuiu, posteriormente, para desenvolver culturalmente o país”, afirma.

Essa apresentação do modernismo, com o abandono de estéticas, caso da parnasiana, atacada na leitura do poema “Os Sapos”, de Manuel Bandeira, não se deu, porém, de forma pacífica. Houve choque, provocação e enfrentamento com o público presente ao Teatro Municipal, como nas vaias a Heitor Villa-Lobos, por se apresentar calçando um chinelo.

E os debates acalorados que prosseguiram por semanas, à época, através de artigos publicados na imprensa, com representantes relevantes do evento, como Menotti del Picchia, Mário e Oswald de Andrade, se manifestando a favor do modernismo e seus ideais artísticos como resposta às reações conservadoras. “Se o choque foi duro na época, foi também importante para que a arte moderna passasse a ser aceita nos círculos culturais do país nos anos seguintes”, avalia Cáceres.

A união entre os modernistas que fizeram a Semana de 22, porém, durou pouco, em função de divergências, sejam as de caráter ideológico ou algumas de fundo estético. Nem por isso aquele período deixou de repercutir ao longo das últimas décadas, mostrando que a sua relevância é inegável.

Afinal, o Movimento Antropofágico, o tropicalismo e mesmo a bossa-nova sofreram sua influência. E seus principais representantes seriam eternizados em representações décadas depois, seja com Macunaíma, de Mário Andrade, filmado por Joaquim Pedro de Andrade, ou Rei da Vela, de Oswald, encenado no teatro por Zé Celso, ambos produzidos em meio à ditadura militar brasileira e que podem ser vistos como resposta a ela. E mesmo Villa-Lobos ganhou espaço nas trilhas sonoras dos filmes Terra em Transe e Deus e o Diabo na Terra do Sol, ambos de Glauber Rocha, além de ter influenciado Tom Jobim.

“Vários fatores mantiveram a Semana de 22 em destaque: o regime varguista usurpou o imaginário modernista para construir uma visão nacionalista; os movimentos concretistas e neoconcretistas, nos anos 1950, e a Tropicália, nos anos 1960, foram influenciados pelo grupo; comemorações e homenagens ao evento reavaliaram constantemente seu legado ao longo do século 20. Por essas e outras, até hoje há um grande debate em torno da Semana de 22 e de suas repercussões na arte e na sociedade brasileira”, avalia o jornalista cultural.

Na visão de Cáceres, há outros motivos, esses mais relacionados ao processo de construção e realização da Semana de 22, assim como dos seus participantes, que ajudam a explicar a longevidade da relevância do evento modernista, ocorrido em um período em que a arte das oligarquias começaria a ser suplantada pela sociedade de massas.

“Talvez pelo ineditismo do evento em terras brasileiras; talvez pela forma como, pela primeira vez, um movimento tentou pensar uma arte verdadeiramente brasileira a partir de influências de dentro e de fora do país, sem a ingenuidade do indianismo do século 19, por exemplo; talvez pela destreza com que seus integrantes desfilassem pelas trincheiras da imprensa da época, tornando o evento um marco incontornável também por questões midiáticas”, enumera Cáceres.

A homenagem em cerveja à Semana de 22
A repercussão da Semana de 22 e, agora, do seu centenário também ganhou seu espaço no setor, através de uma cerveja recém-lançada. Marca que costumeiramente aposta em elementos relacionados com a brasilidade nas suas receitas, a Colorado participou da celebração com o lançamento da Vendedor de Frutas, rótulo que leva o nome de um famoso quadro de Tarsila do Amaral.

A cerveja para marcar o centenário da Semana de 22 é uma Catharina Sour, um estilo surgido no Brasil e reconhecido recentemente pelo BJCP. Ela leva abacaxi e coco na sua receita, tendo 4% de teor alcoólico e baixo amargor, com apenas 6 IBUs. E é feita a base de trigo. De acordo com o seu descritivo, a receita destaca o sabor e o aroma das frutas, sendo o abacaxi o protagonista no paladar e, o coco, no aroma, “combinação que traz para a cerveja um equilíbrio entre a acidez cítrica e o aroma doce.”

“Em cada receita de nossas cervejas buscamos retratar a riqueza dos sabores brasileiros. Assim como o modernismo, chegamos para quebrar o ‘complexo de vira-lata’ e focar na valorização do que temos aqui em nosso país. Os quadros de Tarsila transbordam brasilidade, por isso, o ‘Vendedor de Frutas’ foi um convite para os nossos mestres cervejeiros. Esperamos que os amantes de arte e de cerveja apreciem essa novidade e que nossa homenagem esteja à altura do legado de Tarsila”, defende Daniel Carneiro, gerente de marketing de Colorado.

Tarsilinha do Amaral, presente ao lançamento da Vendedor de Frutas, celebrou a iniciativa da Colorado. “Estou muito feliz com a parceria Tarsila e Colorado. A embalagem com o quadro ‘Vendedor de Frutas’ ficou maravilhosa e ainda a cerveja tem na sua composição as frutas do quadro. A parceria ficou completa. Tenho certeza de que as pessoas vão adorar o produto e vão colecionar a embalagem”, comenta a sobrinha-neta de Tarsila do Amaral,

E Tarsila?
Embora homenageada pela Colorado com uma cerveja que leva o nome de um dos seus quadros, Tarsila do Amaral não participou diretamente da Semana de 22. Afinal, embora em consonância artística com os modernistas da época, especialmente com Anita Mafalti, ela estava fora do Brasil, em Paris, quando da realização do evento em São Paulo.

Ainda assim, muitas características a aproximam daquele grupo, como detalha Cáceres. “Sua capacidade de síntese, de construir formas e imagens sugestivas a partir de elementos mínimos; sua compreensão de que a arte de um país não pode abdicar dos aspectos nativos de sua terra, mas também de que a formação de um artista deve passar pelo cânone tradicional; sua vontade de inovar, de buscar uma arte não formulaica, que rejeitasse rótulos acadêmicos em prol de um novo padrão estético”, diz.

Além disso, embora a homenagem da Colorado para a Semana de 22 e Tarsila tenha sido com uma cerveja que leva o nome do quadro Vendedor de Frutas, a sua principal obra – e uma das mais icônicas da história da arte brasileira – é outra: Abaporu. Para Cáceres, uma consequência do movimento que ganhou espaço com a realização da Semana de 22. E que, na sequência de um evento que deu vazão à arte brasileira, foi levada por ela para todo o mundo.


“Tarsila do Amaral concebeu aquela que talvez seja a obra mais icônica da arte brasileira, o ‘Abaporu’, símbolo máximo do movimento antropofágico, que foi consequência direta da Semana de 22. A importância de Tarsila talvez tenha sido sua capacidade de internacionalizar a arte brasileira, levando-a para além das fronteiras do país”, conclui Cáceres.

Para se aproximar mais do público, Matisse inaugura bar que homenageia a arte

A Matisse é uma cervejaria que tem sinalizado, ao longo da sua trajetória, o cuidado em homenagear as artes plásticas em seus rótulos, além do desejo de se manter próxima ao consumidor. Essas duas características estarão estreitadas a partir do próximo sábado, quando o bar da Matisse será inaugurado em Niterói (RJ).

Les Fauves é o nome do espaço, localizado na Vila Cervejeira da cidade fluminense, e também o termo, utilizado inicialmente de forma pejorativa, para se referir ao que seria reconhecido como o Fauvismo, movimento artístico do início do século XX que tinha Henri Matisse, homenageado pela cervejaria em sua identidade, como um dos expoentes.

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“Les Fauves (do francês) significa ‘os feras’, mas também é o nome de uma tendência artística associada à pintura, que teve início no ano de 1901, na França, com Henri Matisse e outros pintores contemporâneos. Tinha como característica principal o uso de cores puras, sem misturas e intensas”, explica Mario Jorge, sócio-fundador da Matisse.

No bar, o público terá acesso a 20 torneiras, com várias das mais conhecidas cervejas da Matisse, além de novidades e cervejas maturadas em barril de madeira, assim como rótulos de marcas convidadas. Também estarão plugadas duas opções não alcoólicas, a água tônica e o ginger ale, ambos de produção artesanal, que vão compor alguns dos drinques oferecidos pela casa.

Ao comentar sobre as opções que estarão à disposição do público, Mario Jorge destaca que será possível contar com cervejas que dificilmente poderiam ser oferecidas se a Matisse não tivesse o seu bar. “Teremos um espaço para plugar todas as nossas cervejas, mesmo as mais especiais, envelhecidas em barril de madeira e produzidas com ingredientes especiais, que acabam sendo caras para revenda e o público em geral tem poucas oportunidades de experimentar”, comenta.

A cozinha do bar da Matisse será comandada pelo chef Ruann Bravo, responsável por um cardápio que terá os tradicionais petiscos de boteco e algumas inovações da casa. Além disso, haverá petiscos veganos produzidos pela chef Mari Menezes, do Restaurante Aluá, e pratos tradicionais da culinária internacional.

A Matisse precisou encarar o desafio de construir o bar durante a pandemia do coronavírus. Algo que também levou os seus responsáveis a prepará-lo com espaços amplos e abertos. Assim, as mesas são posicionadas com o espaçamento necessário ao atendimento dos protocolos sanitários. Um cenário que se repete nos espaços internos, com dois andares. No total, o bar da Matisse tem capacidade para 80 pessoas sentadas, com 70m2 de área coberta para os clientes, além da sua área externa.

“Foi um grande desafio, porque a obra envolve muitas pessoas e com os protocolos de segurança para prevenção da Covid eu tinha que ficar administrando o pessoal para que não tivesse muita gente na obra ao mesmo tempo. Além disso, a pandemia provocou falta de alguns materiais, principalmente os que são de aço, pois não os encontrava ou estavam muito caros”, relembra Mario Jorge.

A inauguração do Les Fauves será no próximo sábado (5), a partir das 16 horas. O bar da Matisse na Vila Cervejeira de Niterói fica na rua Professor Heitor Carrilho, 250, no centro da cidade. O espaço, que contará com apresentações musicais, também é visto pelos profissionais responsáveis por ela como uma oportunidade de encontro com o público para falar sobre o que os mais inspira: cerveja, arte e as relações que elas propiciam.

“É o que mais gostamos de fazer, conversar com os clientes, ouvir feedback, falar sobre as cervejas, os ingredientes, as histórias por trás dos nomes e das artes que compõem a identidade visual da cervejaria, do bar e dos rótulos”, conclui Mario Jorge.

Especial rotulagem: Confira tendências e novidades para identificar as embalagens

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Elementos fundamentais para identificar um produto dentro de um universo competitivo e repleto de opções, os rótulos das cervejas podem se destacar por uma série de motivos. Além do nome e credibilidade alcançados por uma marca ao longo de anos, o visual e o formato das embalagens provocam impacto importante para a escolha de uma lata, garrafa ou growler em meio a dezenas de outras apresentadas aos compradores, tornando fundamental que as empresas entendam quais são as tendências em rotulagem para se destacarem.

Na quarta e última matéria da série especial sobre rotulagem, que o Guia começou a publicar no mês passado, ouvimos a opinião de especialistas que apontaram algumas das principais tendências de identificação das embalagens, que são um elo essencial de comunicação entre uma marca e o consumidor.

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Bruno Lage, sócio-proprietário da empresa de rótulos Label Sonic, destaca que o enorme número de opções disponíveis aos fabricantes e lembra de uma opção de rotulagem, a sleeve, cujo custo-benefício é considerado satisfatório pela economia que pode proporcionar, além da praticidade de aplicação, o que a tem tornado uma das tendências do setor.

“Uma das tendências de hoje em rotulagem é termos vários tipos de embalagens para garrafas, latas e growlers. E as latas cresceram muito e vão continuar crescendo. O rótulo adesivo na lata é uma tendência mundial, pois é mais rápido, acessível e barato. O sleeve também fica muito bonito e é muito utilizado em lata, principalmente na de cerveja”, ressalta Lage.

O sleeve, um filme termoencolhível de PVC ou PET transparente que cobre 100% da área da embalagem, é uma impressão realizada por meio de uma flexografia, similar a um carimbo. Neste método, as partes que não forem impressas são retiradas das gravações das matrizes, permitindo que as áreas pintadas fiquem em alto relevo no rótulo.

Este modelo, porém, é mais caro do que o do rótulo adesivo, que dá ao fabricante a opção de imprimir pequenas tiragens, diferentemente do que acontece com o próprio sleeve.

“Havia uma dúvida se um tipo de rótulo iria eliminar o outro. E o que vimos é que os dois sistemas possuem mercados próprios. O motivo é que há vantagens e desvantagens nos dois tipos de rótulos para latas. Os adesivos são mais fáceis de aplicar, possuem menor preço para as quantidades mínimas menores e tiragem mínima menor. Já o rótulo sleeve cobre a lata por completo e tem preço equivalente, mas somente em grandes quantidades, se for feito com uma tiragem mínima maior”, explica Lage.

Donos do maior mercado de artesanais do mundo, com mais de 9 mil cervejarias, os Estados Unidos usam os rótulos adesivos em grande quantidade, por causa de diversas vantagens, incluindo o preço mais acessível.

“Se a gente for analisar o mercado americano, vai ver muito forte este processo de impressão no rótulo das cervejas. A principal tendência entre as cervejarias menores ou de edições especiais é o rótulo adesivo, pois é mais prático e mais fácil de aplicar. Há uma variedade de embalagens e a aplicação do adesivo em lata está crescendo para a cerveja artesanal”, completa Lage, enaltecendo também que a tecnologia permite a impressão de tiragens reduzidas, específicas para cada estilo de cerveja a ser evidenciada com eficiência na comunicação dos seus respectivos rótulos. “Cada vez mais as cervejarias fazem pequenos lotes de cervejas especiais”, acrescenta.

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Tecnologia que “despadrozina”
Regina Sugayama, mestre em Biologia e Genética e doutora em Ciências pela Universidade de São Paulo (USP) com mais de 30 anos de experiência em pesquisa e consultoria em agricultura e alimentos, enfatiza que as novas tecnologias também propiciaram uma “despadronização” das embalagens, que anteriormente eram muito parecidas entre si.

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“Até a década de 1990, rótulos de cerveja eram meio sem graça e parece até que padronizados, com a mesma combinação de cores, o tipo de letra… De longe já dava para sacar que era uma cerveja. Não sei ao certo como o uso de imagens criativas e tipologias sofisticadas começou a acontecer no setor, mas o fato é que elas aguçam a curiosidade e acabam se tornando diferenciais competitivos”, ressalta Regina. 

O avanço da tecnologia de impressão e, mais recentemente, o uso de rótulos adesivos em latas barateou o processo, o que deve ter possibilitado que um grande número de indústrias cervejeiras nascentes fizesse sua estreia, trazendo propostas inovadoras e muita personalidade

Regina Sugayama, profissional com mais de 30 anos de atuação em pesquisa e consultoria em agricultura e alimentos

Ela também aponta que o uso da realidade aumentada deverá se popularizar com o passar dos anos e o consequente avanço da tecnologia, se tornando uma das tendências em rotulagem por permitir que as embalagens das cervejas se tornem cada vez mais “high-tech” e inovadoras aos olhos dos consumidores.

“Para os próximos anos, com a democratização de tecnologias em dispositivos móveis, deve se consolidar o uso de recursos de realidade aumentada nos rótulos de alimentos e bebidas. Ou seja, ao apontar a câmera do celular para o rótulo, o potencial comprador pode ser transportado para a lavoura, a fábrica ou para uma cozinha onde vai aprender a como preparar o produto. Isso amplifica a experiência de compra em milhões de vezes”, indica.

Storytelling e minimalismo
Além do tipo de impressão escolhida para sua exposição, da identidade visual adotada e os recursos tecnológicos que o tornam cada vez mais modernos, os rótulos contam cada vez mais com ilustrações e histórias que ajudam a conectar o universo de uma marca com os seus potenciais consumidores.

Gabriel Lopes, presidente da Associação Brasileira de Empresas de Design (Abedesign), destaca como as storytellings, palavra em inglês relacionada com uma narrativa e que significa a capacidade de contar histórias relevantes de um produto por meio da exploração dos seus elementos específicos, têm ganhado relevância.

“Passamos por diversas transformações em um curto período, principalmente com a entrada de cervejas artesanais que acabam por questionar o status quo, trazendo novos elementos para o segmento cervejeiro. Em um dado momento tivemos a invasão de ilustrações. Logo em seguida, veio a evolução das storytellings. Deixamos de (somente) comprar cerveja e passamos a ver os seus ingredientes e tipos, em seguida o terroir, logo após as histórias das cervejas, da sua origem”, ressalta.

O especialista, que é formado em Design, com especialização em embalagens, inteligência artificial e ciência de dados pela Universidade de Chicago, avalia que o consumidor não compra uma cerveja apenas pela qualidade do produto, mas também pela mensagem que transmite e pode estar presente no seu rótulo.

“Além de comprar histórias, passamos a ter uma expectativa do propósito dessas histórias. Entrou a experiência no jogo e agora, além da cerveja, o copo, o local, ingredientes, o tipo, a história, o propósito por trás da história”, completa Lopes.

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Um rótulo tem de ser completo em informações ao consumidor e até em experiências oferecidas, mas isso não significa necessariamente que a embalagem de um produto precise possuir a sua área de exposição repleta ou até mesmo “poluída” em sua identidade visual. E Regina ressalta, inclusive, que existe uma tendência crescente pela adoção de rótulos cada vez mais “limpos”.

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“Uma macrotendência do setor de alimentos em nível mundial é a que se chama de ‘clean label’ ou etiqueta limpa, em tradução livre. Isso se refere ao uso de elementos mínimos no layout. Por exemplo: apesar de, num primeiro momento, parecer estar na contramão do que se vê nas prateleiras de cervejas nos pontos de venda, uma rotulagem limpa pode também ser efetiva para comunicar as propriedades associadas à bebida, no caso, tranquilidade e bem-estar pelo uso de substâncias psicoativas. O termo ‘clean label’ refere-se também a uma lista de ingredientes ‘limpa’, ou seja, produtos cujas formulações não usem substâncias que despertem sentimentos negativos no consumidor, tais como corantes artificiais, conservantes, entre outros”, detalha.

Ambev vê ação valorizar após balanço e está otimista para 2022, apesar dos custos

O balanço do quarto trimestre de 2021 da Ambev, que também conta com os resultados financeiros do ano passado, foi bem recebido, ainda que sem euforia, pelo mercado financeiro e por analistas de bancos de investimentos. E isso acabou sendo fundamental para que a ação da companhia cervejeira encerrasse fevereiro em alta na B3, ainda que com só dois dias de atividades na bolsa, na quinta e sexta-feira, depois da publicação dos resultados.

O papel da Ambev, que havia fechado a sessão da última quarta (23), cotado a R$ 14,81, na véspera da divulgação do balanço de 2021, encerrou a semana passada valendo R$ 15,20. E essa valorização foi fundamental para que o ativo apresentasse valorização de 1,54% em fevereiro, ainda que acumule perdas de 1,43% no acumulado dos dois primeiros meses de 2022.

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O balanço financeiro da Ambev apontou quedas no lucro líquido, de 45,6%, no quatro trimestre de 2021, para R$ 3,747 bilhões, e no Ebitda ajustado, de 24,1%, para R$ 6,784 bilhões, mas alta na receita líquida, de 18,6%, para R$ 22,01 bilhões. Já em todo o ano passado, a companhia cervejeira teve lucro líquido de R$ 13,122 bilhões, um incremento de 11,6% em comparação a 2020. A receita líquida da empresa alcançou R$ 72,854 bilhões, expansão de 24,8% ante o ano anterior. E o Ebitda ajustado atingiu R$ 22,869 bilhões, um aumento de 5,9%.

Analistas do mercado viram o resultado apresentado no balanço de 2021 da Ambev como positivo, destacando a produção recorde de cerveja para um ano, de 180,3 milhões de hectolitros. Mas a pressão dos custos persiste, especialmente pela alta do câmbio e das matérias-primas, mesmo com o reforço dos canais digitais e das marcas premium do portfólio.

Na conversa com os analistas após a divulgação do balanço, o CEO da Ambev, Jean Jereissati, minimizou a pressão que possa existir sobre os preços em 2022, apontando que o cenário está positivo para a companhia. “De modo geral, a questão do preço já está endereçada. Estamos muito confiantes com a melhoria do mix ao longo do ano. Acho que as tendências estão a nosso favor. As garrafas de 600ml estão ganhando tração, o que vai nos ajudar. As inovações estão dando resultados”, afirma.

Os desafios dos custos não foram ignorados pela XP Investimentos em sua análise do balanço de 2021 da Ambev e avaliação das perspectivas para 2022. Mas a sua equipe de analistas vê a companhia à frente das concorrentes no setor cervejeiro e, assim, segue com a recomendação da compra da ação da empresa, com o preço-alvo de R$ 18,80. Ou seja, enxerga um potencial de valorização de mais de 20%.

“Esperamos um ano desafiador pela frente, com pressão de custos em todos os níveis e inflação persistente, mas continuamos otimistas e impressionados com a rapidez com que uma empresa com mais de 100 anos conseguiu mudar durante a pior crise de todos os tempos, aumentando sua vantagem sobre seus pares no mercado”, diz.

Assim, mesmo a queda de 3,1% na produção de cerveja no quarto trimestre no Brasil, para 25,6 milhões de hectolitros, foi minimizada pela XP Investimentos. “O volume de Cerveja BZ ficou em linha com nossa projeção (-3% A/A e +2% vs. XPe), pois já esperávamos uma pressão no consumo devido aos efeitos negativos da persistência da inflação no Brasil. As restrições da Covid continuaram em vigor ao longo de 2021, no entanto, o volume da AmBev diminuiu 3,1% enquanto o índice do setor (IBGE) recuou 8,5%”, avalia.

Jereissati também avaliou que as marcas premium (Corona, Beck’s, Original e Stella Artois) da Ambev têm alavancado suas forças de marca, o que pode resultar em aumento do volume de cerveja vendido ao longo do tempo, algo que, inclusive, já se percebeu em 2021.

“Nosso principal objetivo vem sendo ter força de marca acima do volume, para construir desejo E isso tem sido muito bem-sucedido. Estamos começando a ver aumento da demanda, com crescimento de 44% para Corona, 59% para Beck’s, mais de 30% para a Original, bom desempenho da Stella… São produtos com médias altas e boas margens. A principal estratégia é ter mais força de marca do que participação. E isso garante um espaço grande para crescer com o consumidor”, comenta.

Os analistas da XP também aguardam o avanço no incremento das margens de lucros da Ambev ao longo de 2022 com a aceleração do consumo fora de casa. “Como o volume não é mais uma variável estratégica, estamos ansiosos para ver como as margens podem melhorar à medida que a dinâmica do canal on-trade recomece, juntamente com o impacto positivo dos BEEs atingindo 85% da base de consumidores”, comentam.

Jereissati reconheceu que janeiro, com o aumento dos casos da variante Ômicron do coronavírus, foi um mês difícil para o setor cervejeiro. Porém, lembrou novidades do calendário de 2022, com os principais desfiles das escolas de samba do carnaval tendo ficado para abril, assim como a realização da Copa do Mundo nos meses de novembro e dezembro, para exibir otimismo.

Tivemos o impacto em janeiro. Mas vamos ter 2 carnavais, um agora e outro em abril, e ainda a Copa do Mundo no verão, o que é algo inédito. E estamos bem estruturados em termos de portfólio e valor de marca

Jean Jereissati, CEO da Ambev

A Bolsa no mês
Assim como a ação da Ambev, o Ibovespa, o principal índice da B3, terminou o mês de fevereiro em alta, ainda que modesta, de 0,89%, aos 113.141,94 pontos. E agora tem valorização de 7,94% no primeiro bimestre de 2022.

Isso em um mês em que a taxa básica de juros subiu, logo no seu começo, para 10,75%, o que sempre atrai investidores de fora do Brasil para a Bolsa de Valores. Porém, a aversão ao risco, com a eclosão da invasão da Ucrânia pela Rússia, traz dúvidas sobre essa continuidade da alta do Ibovespa.

Essa valorização também foi impulsionada pela Vale, mineradora que responde por 15% do Ibovespa e teve a quarta maior alta do mês entre as ações que compõem o índice, de 14,11%. Foi um dos 53 ativos que apresentou valorização, com outros 38 tendo queda nos seus preços em fevereiro. As maiores altas foram de SulAmerica (38,58%) e Rede D’Or (15,07%), que anunciaram plano de fusão. Mas essa junção também provocou a principal queda, da Qualicorp (30,11%), companhia na qual a Rede D’Or possui participação de 30%.

O Top 5 das maiores valorizações de fevereiro possui, ainda, Carrefour e Totvs, com as principais quedas também contando com BRF, Banco Inter, Via e Méliuz.

Ações cervejeiras fora do Brasil
Na Bolsa de Valores de Nova York, a ação da Ambev terminou a sessão da última segunda-feira sendo negociada a US$ 2,93. Com isso, valorizou 3,83% no período de um mês.

Já os papéis das duas maiores companhias cervejeiras do mundo desvalorizaram em fevereiro no mercado europeu. A ação da AB InBev fechou o mês com valor de 55,14 euros, perda de 1,04% em relação ao fim de janeiro. Já a ação da Heineken tinha preço de 90,08 euros ao fim da segunda-feira, com queda de 5,20% no mês.

Fundador da Seasons, Léo Sewald deixa cargo na CBCA

A Companhia Brasileira de Cerveja Artesanal (CBCA) passou por uma importante mudança de gestão. Fundador da Seasons, uma das marcas componentes do grupo, Léo Sewald deixou o cargo de mestre-cervejeiro, sendo sucedido por Patrick Zanello, que também ficará responsável pelas áreas de qualidade e inovação.

O anúncio da CBCA representa um retorno para Zanello, que teve outras duas passagens pela Schornstein, outra marca que faz parte da companhia, como mestre-cervejeiro. Com formação de biólogo, ele adquiriu experiência nos últimos anos no exterior, onde estudou no Instituto de Tecnologia de Siebel, em Chicago, e na Doemens Akademie, nas proximidades de Munique.

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“É um orgulho receber Patrick de volta, ele teve uma importância muito grande no momento que a Schornstein estava se afirmando como uma das grandes cervejarias do Brasil e retorna em um momento de muitos projetos”, comenta Gustavo Barreira, CEO da CBCA.  “Estou feliz em ver como a empresa avançou e por todas as oportunidades que podemos ter a partir daqui. Sou fã do Léo e será uma honra fazer parte dessa história e expandir o legado da Seasons”, acrescenta Zanello.

De acordo com a CBCA, Léo Sewald vai se mudar para os Estados Unidos, onde atuará em projetos pessoais. Mas garantiu, em uma carta aberta destinada aos fãs das Seasons, que continuará ligado à companhia, podendo desenvolver projetos nos Estados Unidos. “Acredito muito no modelo de negócios da CBCA e continuarei ligado à empresa e ao mercado cervejeiro. Farei o possível para ajudar a desenvolver pontes para a CBCA por lá”, declara, em trecho do material.

Essa possibilidade de abrir conexões nos Estados Unidos através do fundador da Seasons foi destacada como um ponto positivo para a CBCA pelo seu CEO, Gustavo Barreira. “Tal movimento é positivo, pois Sewald se torna um braço de novos negócios, colaborativas e contribui com possíveis aproximações com o mercado fornecedor de lúpulo americano”, afirma.

Carta aberta
Com a sua saída do dia a dia da CBCA e da Seasons, Léo Sewald, que fundou a marca gaúcha em 2010, divulgou uma carta aberta aos fãs. Nela, o profissional elenca pontos que considera marcantes da trajetória da cervejaria, como a criação de “produtos diferentes da curva normal”.

“Criamos produtos que convidavam os consumidores a embarcar em uma jornada de conhecimento cervejeiro conosco, tais como a Green Cow que, lá em 2010, se apresentou como uma das primeiras American IPAs brasileiras; ou ainda a Basilicow, com ingredientes não convencionais para dentro do universo cervejeiro; a Loverboy, que foi a primeira Gruit Ale brasileira; ou até a linha de hidroméis, dentre uma porção de outras criações que trouxe novas experiências sensoriais e mais cultura para as mesas dos consumidores”, escreve.

Sewald também cita os processos produtivos adotados na Seasons. “Introduzimos no Brasil os conceitos por trás da escola americana, pregando criatividade com qualidade e tratando a cerveja não apenas como um produto ligado à indústria de alimentos, mas sim como um produto multifacetado e conectado com a indústria do entretenimento”, afirma.

Outro ponto destacado por Sewald como diferencial da Seasons é a “conexão com a comunidade”. “Sempre fez questão de estar conectada com a comunidade de homebrewers, seja compartilhando conhecimento por meio de cursos, brassagens coletivas e outros eventos; em colaborações com os parceiros de negócio da cadeia produtiva, seja no âmbito de novos produtos com cervejas colaborativas nacionais e internacionais, com engajamento junto aos órgãos setoriais e de fomento a novos negócios, como também com representatividade de marcas parceiras”, diz.

Sewald ainda avalia que a entrada, em 2019, na CBCA representou uma melhoria na gestão, ampliando o nível de maturidade e alcance da Seasons. Mas afirma ter chegado o momento de dar outros passos na sua carreira.

Tenho um tremendo orgulho de ver o que a marca conquistou ao longo dos anos. Mas… Chegou a hora de passar o bastão e me dedicar a novos projetos

Léo Sewald, fundador da Seasons

Confira lançamentos realizados pelas cervejarias em fevereiro

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Os lançamentos de rótulos no mês de fevereiro ficaram marcados pelas opções das cervejarias em realizarem diversas homenagens, além da aposta em novidades que conquistaram premiações recentemente. Foram os casos, por exemplo, da Alrirght Brewing, com a produção de uma cerveja medalhista de ouro no Brasil Beer Cup, e da Blumenau, com uma ganhadora de uma prata no Concurso Brasileiro do ano passado.  

Já na linha das homenagens entre os lançamentos das cervejarias em fevereiro, a Landel lançou uma English Pale Ale para marcar o aniversário de 70 anos de reinado da rainha Elizabeth II. Enquanto isso, a Nacional criou um rótulo especial e brilhante para saudar o carnaval.

E aproveitando uma efeméride, a Colorado se inspirou nos traços de Tarsila do Amaral para criar uma cerveja em comemoração ao centenário da Semana de Arte Moderna.

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Confira a seguir alguns lançamentos das cervejarias artesanais em fevereiro selecionados pelo Guia:

Alright Brewing
No mês de fevereiro, a Alright Brewing lançou a premiada Gose’n Berries, que conquistou uma medalha de ouro no Brasil Beer Cup de 2021, em Florianópolis. A cerveja é levemente ácida, com adição de sal, sementes de coentro e amora. Tem, de acordo com a sua descrição, notas de frutas amarelas frescas, como pêssego, carambola e nêspera em segundo plano, provenientes da fermentação. Ela tem 5,0% de graduação alcoólica e 10 IBUs de amargor.

Blumenau
O primeiro lançamento do ano da Cerveja Blumenau foi a Fruit Lambic Blend #10, rótulo premiado no Concurso Brasileiro de Cervejas em 2021 e no Brasil Beer Cup, sendo parte da coleção Mestres do Tempo, criada para levar ao mercado cervejas maturadas na adega de barris, blends exclusivos e itens de guarda. Sensorialmente, tem aroma de framboesa, notas florais, funcky, frutas secas e uvas rubi. No paladar, traz destaque para frutas vermelhas, com acidez assertiva e final seco. O teor alcoólico é de 7,5% e a graduação de amargor é de 6 IBUs.

Colorado
A Colorado se inspirou nos traços (e frutas) de Tarsila do Amaral para criar uma cerveja em comemoração ao centenário da Semana de Arte Moderna. A Tarsila é uma homenagem ao quadro “Vendedor de Frutas”, trazendo os ingredientes brasileiros representados em uma Catharina Sour com abacaxi e coco. Feita a base de trigo, com acidez láctica, limpa e equilibrada pela adição das frutas frescas, o rótulo tem teor alcóolico de 4% e 6 IBUs de amargor.

Cruls e Zanadu
A Cruls e a Zanadu se juntaram pela primeira vez e lançaram a cerveja Caminho do Viajante, uma Imperial Stout de 9,8% de teor alcoólico, feita com adição de nibs de cacau da Bahia e de cold brew (café extraído a frio). Os principais elementos da bebida são o cacau, oriundo de Uruçuca, na Bahia, torrado especialmente pela Rubato Chocolate, e o cold brew, uma extração a frio feita a partir de um café da região das Matas de Minas (MG).

Implicantes
A Implicantes apresentou, em fevereiro, a primeira cerveja da linha  Ref*, a Ubuntu, que significa “eu sou porque nós somos”. De acordo com a marca, Ubuntu é uma filosofia de vida que se baseia nos princípios da lealdade, humildade, empatia e respeito. O rótulo é uma New England IPA e foi produzido com o lúpulo australiano Galaxy, tendo adição dos lúpulos americanos Warrior, Citra e Mosaic, o que resulta, segundo o seu descritivo, em uma cerveja com notas de uvas verdes, frutas amarelas combinada com um amargor suave.

Landel
Em comemoração aos 70 anos de reinado da Rainha Elizabeth II, um jubileu de platina celebrado em fevereiro, a Cervejaria Landel homenageou a monarca no “Growler Day da Rainha”, em Campinas (SP). No evento foi lançada a Vira-Lata, uma cerveja da escola inglesa. Essa English Pale Ale tem 5% de graduação alcoólica e 35 IBUs de amargor. Apresenta aroma moderado de perfis herbais e terrosos vindos dos lúpulos ingleses e predominância dos aromas dos maltes caramelados, com sabor de toffee, biscoito e caramelo.

Nacional
A Nacional criou um rótulo especial e brilhante para o Carnaval, a Glitter Ale. A bebida se destaca pelo seu visual dourado e com muito glitter comestível, trazendo como base a Summer Ale, sendo uma cerveja de baixo corpo, 4,6% de teor alcoólico e 20 IBUs. O lúpulo confere sutis notas de maracujá e grapefruit.

Balcão do Profano Graal: História da cerveja no Brasil – A cerveja como forma de lazer

Balcão do Profano Graal: História da cerveja no Brasil – A cerveja como forma de lazer

Uma questão que frequentemente ocupa a cabeça de quem estuda história da cerveja é: como ela veio a se tornar a bebida preferida dos brasileiros, superando o vinho (importado de Portugal em grandes quantidades desde o período colonial), a cachaça (um produto tipicamente nacional) e outras bebidas fermentadas à base de frutas, açúcar, milho ou farinha de mandioca muito populares até o século XIX, como o aluá, o jacubá, o xibê e a jinjibirra (esta última, uma bebida originária do Caribe, produzida com gengibre e muito semelhante à cerveja)?

Essa preocupação está, inclusive, expressa no título de um artigo de Edgar Köb, leitura obrigatória para qualquer um que queira estudar história da cerveja no Brasil. Em Como a cerveja se tornou bebida brasileira: a indústria da cerveja no Brasil desde o início até 1930 (2000), ele cita como fatores para a popularização do consumo de cerveja no Brasil, ainda no século XIX: o hábito das classes mais abastadas de imitar o estilo de vida europeu; a abolição da escravidão e a formação de uma classe de trabalhadores com poder de consumo; o desenvolvimento econômico no princípio do período republicano; o crescimento de grandes cidades como mercados consumidores e uma campanha de temperança que aconselhava o consumo de cerveja como uma bebida mais saudável que a cachaça e mais adaptada às condições tropicais do país.

Mas outro fator parece ser mais importante do que esses: a relação da cerveja com o lazer. Como mostram Thaina Schwan Karls e Victor Andrade Melo, ainda em meados do século XIX, as fábricas de cerveja no Rio de Janeiro, além de venderem a bebida, ofereciam outras formas de entretenimento. Dois anúncios publicados no Almanak Laemmert, nos anos de 1856 e 1857, de duas cervejarias diferentes que tinham o mesmo nome e ficavam na mesma rua, exemplificam essa relação entre cerveja e lazer. Primeiro, o anúncio da Imperial Fábrica de Cerveja Nacional, de Alexandre Maria Villasboas e Cia., fundada em 1855 e que ficava na Rua de Matacavallos, 27:

“Esta fábrica, já tão conhecida e frequentada pelos amadores desta corte, é por sem dúvida a mais bem montada que neste gênero existe no Império do Brasil e com todas as proporções para vir a ser o mais útil e agradável recreio dos fluminenses, já pela extensa e pitoresca chácara em que está situada, pois naturalmente convida ao passeio o constante panorama que ao correr dos olhos se desliza, já pela multiplicidade de jogos, como sejam os de bola, bagatela, etc. etc., que oferece um exercício tão útil à saúde do corpo e do espírito, para o que nada tem poupado os seus proprietários”. (Almanak Laemmert, 1856, p. 627)

A então rua de Matacavallos é a atual rua do Riachuelo, em pleno centro barulhento e engarrafado do Rio de Janeiro. Mas, em meados do século XIX ela se encontrava em uma região fronteiriça do centro, no limite entre o rural e o urbano, a caminho da Tijuca, espremida entre as encostas do Morro de Santa Teresa e do Senado (que ficava onde hoje é a Praça da Cruz Vermelha, demolido entre 1895 e 1906), em um ambiente cercado de muita vegetação nativa.

A edição de 8 de abril do mesmo ano do jornal Correio da Tarde traz um relato de um anônimo, que visitou a fábrica a convite do seu proprietário. Como relatam Karls e Melo, chamou a atenção do convidado a gentileza dos funcionários, “a conversa animada que se dava não só ao ar livre, à luz do luar, como também no salão, iluminado a gás (…). Jovens fazendo ginástica em aparelhos oferecidos pela fábrica, bem como apresentações musicais e danças” (KARLS e MELO, p. 150). O segundo anúncio é da Imperial Fábrica de Cerveja Nacional de Henrique Leiden, fundada em 1848, que funcionava na rua de Matacavallos, 78:

Achando-se o seu estabelecimento em um dos sítios mais amenos desta corte, a sua visita se recomenda a todos os amadores de recreios honestos e sociais, os quais, além de ótima cerveja de vários gostos, encontrarão arranjos cômodos, caramanchões, diversos jogos e boas companhias

Almanak Laemmert, 1857, p. 95

Afirmam Karls e Melo que o seu funcionamento era similar ao da fábrica de Villasboas e Cia., com frequentes apresentações musicais e de exercícios ginásticos, com performances de amadores que usavam os aparelhos de ginástica oferecidos pela fábrica. Em determinado momento, Leiden fundou também um teatro no espaço da fábrica. Que, em 1861, se chamava Teatro da Imperial e Antiga Fábrica de Cerveja.

Eduardo Marcusso, por sua vez, nos informa que foi fundamental para a popularização do consumo de cerveja no Brasil a sua relação com as grandes festividades de expressão nacional, como o carnaval, reforçando essa relação entre cerveja e lazer. Em 1913, o rancho carnavalesco Recreio das Flores, da região portuária do Rio de Janeiro (que viria a dar origem à escola de samba Império Serrano) já havia sido patrocinado por uma cervejaria. Essa relação se estreitou depois que o desfile das principais escolas de samba passou a ser realizado na avenida Marquês de Sapucaí, endereço da primeira fábrica da Cervejaria Brahma (fundada em abril de 1888). No carnaval de 1934, para promover as vendas da sua cerveja engarrafada, a Brahma lançou a marchinha “chope em garrafa”, considerado o primeiro jingle da publicidade brasileira, composta por Ary Barroso (compositor de “Aquarela do Brasil”) e Bastos Tigre (jornalista e publicitário, criador do slogan “Se é Bayer, é bom”) e cantada por Orlando Silva, também conhecido como “o cantor das multidões”, que fez muito sucesso na era do rádio.

Dessa forma, a associação do consumo de cerveja à uma vida saudável, a momentos de lazer e de grandes festividades foi uma forma encontrada pelas cervejarias brasileiras para impulsionar as suas vendas. E foram tão bem-sucedidas nessa estratégia que a cultura cervejeira do brasileiro está hoje indissociavelmente ligada ao consumo de cerveja em momentos de lazer, festa e descontração.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ALMANAK Administrativo Mercantil e Industrial da Corte e Província do Rio de janeiro para o ano de 1856. Tipografia Eduardo e Henrique Laemmert: Rio de Janeiro, 1856.

ALMANAK Administrativo Mercantil e Industrial da Corte e Província do Rio de janeiro para o ano de 1857. Tipografia Eduardo e Henrique Laemmert: Rio de Janeiro, 1857.

KÖB, Edgar. Como a cerveja se tornou bebida brasileira: a história da indústria de cerveja no Brasil desde o início até 1930. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Rio de Janeiro, 161 (409), 2000, p. 29-58.

MARCUSSO, Eduardo Fernandes. Da cerveja como cultural aos territórios da cerveja: uma análise multidimensional. Tese de doutorado. Programa de Pós-graduação em Geografia da UnB. 2021.

MARQUES, Teresa Cristina de Novaes. Cerveja e Aguardente sob o foco da temperança no Brasil, no início do século XX. Revista Eletrônica de História do Brasil. v.9, n.1, jan-jul 2007, p. 48-70.

MELO, Victor Andrade; KARLS, Thaina Schwan. Novas dinâmicas de lazer: as fábricas de cerveja no Rio de Janeiro do século XIX (1856-1884). Movimento: Revista de Educação Física. Porto Alegre, vol. 24, n.1, p. 147-160, jan./mar. 2018. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/Movimento/article/download/69803/47800


Sérgio Barra é carioca, historiador, sommelier e administra o perfil Profano Graal no Instagram e no Facebook, onde debate a cerveja e a História.

Festas, apoio a catadores e ajustes: Como o setor lida com ausência do carnaval

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Iniciado oficialmente neste sábado, o período de carnaval não repetirá, novamente, a folia de outrora em 2022. Afinal, não haverá celebrações nas ruas pelo segundo ano consecutivo, assim como os desfiles de escolas de samba foram adiados para abril em São Paulo e no Rio de Janeiro. As restrições, adotadas em função do aumento de casos da variante Ômicron do coronavírus, forçaram a adoção de adaptações pela indústria cervejeira, pelas marcas e pelo público.

Raramente, é verdade, o consumo de cervejas artesanais se dá em meio a blocos no carnaval de rua, que normalmente tem grandes marcas como patrocinadores oficiais, o que, em alguns casos, inclusive, restringe a venda de outros rótulos, a não ser aqueles dos apoiadores. Porém, representantes de algumas microcervejarias reconhecem a existência de impactos pela menor movimentação da população nas cidades com a falta de celebrações abertas e populares.

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“Nossas projeções já foram ajustadas para o cancelamento do carnaval. Apesar do impacto em volume, acreditamos que a decisão foi acertada e esperamos que, em breve, possamos comemorar juntos o fim da ômicron”, afirma Alida Walvis, CFO da Hocus Pocus, uma das marcas icônicas do segmento de artesanais no Rio de Janeiro.

É um cenário semelhante ao percebido pela Louvada, cervejaria de Cuiabá. Seu sócio e diretor-geral, Gregório Balarotti, avalia que o cancelamento de qualquer festividade do calendário, mesmo aquelas que não causam tanto impacto na atividade das artesanais, traz efeitos negativos para quem atua no segmento, com a redução dos volumes vendidos.

“O carnaval nunca foi um evento de muita venda no nosso caso. Mas sim, qualquer evento, confraternização, reunião que seja cancelado ou adiado, atrapalha nossa performance. Somos uma empresa que busca gerar reuniões, alegrias e experiências para nossos clientes”, diz.

Carnaval com rock?
Como a realização de eventos privados estão permitidos nesse período do carnaval, algumas marcas atuantes no setor cervejeiro aproveitaram para incrementar a programação dos seus estabelecimentos no período de recesso. De Santo André (SP), a Madalena preparou um evento na sua fábrica-bar, que se iniciou na sexta-feira e irá até a próxima terça.

O CarnaRock conta com apresentações musicais diárias, a partir das 13 horas. A casa tem 20 torneiras de chope e a entrada custará R$ 20 no sábado e R$ 10 no domingo, sendo gratuita na segunda e terça-feira.

“Mesmo sem o carnaval de rua, muitas pessoas gostam de aproveitar os dias de folga para passear com os amigos, com a família e se desconectarem um pouco das preocupações do dia a dia. A cervejaria tem amplo espaço, com bebida de primeira, gastronomia e música boa para soltar a voz e celebrar a vida”, afirma Renan Leonessa, diretor de marketing da marca.

Em Belo Horizonte, o Porks realiza, também, o seu “carnarock”. São 30 shows nas suas duas unidades, em eventos que começaram na segunda-feira e vão até 6 de março.

Por lá, até domingo, acontece o Carnaval Neon, com monitores pintando os participantes com tintas fluorescentes, além de também haver máscaras típicas do carnaval de New Orleans. Já o período entre os dias 2 e 6 será dedicado à “ressaca do carnaval”.

Apoio a catadores
Mais, porém, do que cervejarias e foliões, a ausência do carnaval nas ruas afeta, principalmente, a vida daquelas pessoas que dependem da renda obtida com as latinhas e outras embalagens coletadas para posterior reciclagem – estima-se que são 800 mil. Por conta disso, a Ball Corporation se juntou à Associação Nacional de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis para prestar algum auxílio.

Junto ao ator e humorista Rafael Portugal e aos blocos Galo da Madrugada, Mulheres de Chico e Timbalada, a Ball convida o público para sugerir músicas que vão compor playlists no Spotify, incentivando o público a aproveitar o feriado longe das multidões. Cada música sugerida nos comentários dos posts oficiais da campanha nas redes da Ball e do humorista equivale a R$20 em cestas básicas que serão doadas para os catadores das principais praças do carnaval no país

Já os blocos Galo da Madrugada, Mulheres de Chico e Timbalada atuarão como influenciadores, incentivando as doações por meio de suas próprias redes sociais. A doação total da campanha pode chegar a R$ 150 mil, sendo destinada à compra de cestas básicas para cooperados das capitais São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Salvador.

Marca ucraniana que insulta Putin em cerveja premiada se mobiliza contra invasão

A tensão política que marca a relação entre Rússia e Ucrânia de modo contínuo ao menos desde 2014 atingiu seu ápice na última quinta-feira, com a invasão realizada pelas forças de Moscou. Tanto tempo de discordâncias e embates provocou ranhuras eternas na relação entre os países, levando personagens a se transformarem em ícones, adotados com o viés que mais se aproxima de cada visão sobre esse conflito, como se dá com uma marca de cerveja de Lviv, que “homenageou” Vladimir Putin, presidente russo, de forma muito jocosa em um dos seus rótulos.

Criada em 2014, a Pravda lançou, em 2017, uma linha de cervejas com temas políticos, por acreditar, de acordo com Yuriy Zastavny, seu cofundador, que o público consumidor das artesanais não fica apenas atento ao sabor, mas também ao design das garrafas e dos rótulos. E essa coleção trazia estampada, em quatro embalagens de cerveja de estilos diferentes, as imagens da ex-chanceler alemã Angela Merkel, dos ex-presidentes dos Estados Unidos Barack Obama e Donald Trump, além de Putin. À época, Zastavny declarou que os personagens da série tinham em comum o fato de terem decepcionado os ucranianos.

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A cerveja política que cita Putin é uma Golden Ale com 8% de graduação alcoólica e 27 IBUs de amargor. E se chama Putin Huilo, que significa “Putin é um idiota” em russo. É uma alusão a um cântico criado por torcedores do Kharkiv Metallist, que foi entoado pela primeira vez em um estádio em março de 2014, após a anexação da península da Crimeia pela Rússia. Depois, a expressão tornou-se muito difundida em toda a Ucrânia entre os defensores da soberania e integridade territorial do país.

Desde a sua criação em 2014, a Pravda teve vários dos seus rótulos premiados com medalhas em concursos internacionais. E a Putin Huilo também ganhou uma, de bronze, no World Beer Idol de 2018, na República Checa. “Os rótulos das nossas garrafas de cerveja levam mensagens sobre nós para todos os cantos do mundo”, afirma a Pravda em texto de apresentação no seu site oficial.

Rótulo da cerveja Putin Huilo

Quando a cerveja de Putin foi lançada, a produção desse e de outros rótulos era estimada em até 2 mil litros diários. A artesanal também exporta sua cerveja para outros países, como República Checa, Polônia, Alemanha, Áustria, Reino Unido, Belarus, Canadá, Suíça, Itália, Suécia, França, Espanha e Bélgica.

O seu mais famoso estabelecimento, o Pravda Beer Theatre, está localizado em Lviv, considerada um dos lares do nacionalismo ucraniano, e um local onde muitos turistas aproveitavam para apreciar a arquitetura renascentista da cidade enquanto experimentavam as cervejas artesanais da marca.

A Pravda também assegura usar produtos típicos da Ucrânia como ingredientes, casos de ameixas, peras e flores de sabugueiro, para combinar com estilos internacionais. Além disso, afirma adotar uma dupla fermentação, permitindo que a cerveja fique armazenada na garrafa por mais tempo do que outras, permanecendo não filtrada e não pasteurizada.

Agora, então, a Pravda decidiu se mobilizar diante do conflito na Ucrânia. Em publicações no seu perfil no Instagram, avisou estar arrecadando recursos para destiná-los ao Exército do seu país. Além disso, abriu seus espaços para receber cidadãos ucranianos, mas adiantou que não servirá russos.

“A guerra começou na Ucrânia. Sim, está acontecendo há mais de um ano, mas esta manhã (manhã de quinta-feira) o apetite do inimigo tornou-se maior e mais agressivo. Não devemos encarar a situação de ânimo leve, mas devemos manter a cabeça fria e permanecer juntos. Por favor, leia apenas fontes verificadas e não se deixe enganar. Cuide de sua vida, cuide de você e de seus entes queridos”, conclama a Pravda.

Com recuo de 45,6% no 4º trimestre, Ambev tem lucro de R$ 13,122 bilhões em 2021

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A Ambev fechou o ano de 2021 com resultado financeiro melhor do que o do ano anterior, mas com desempenho no quarto trimestre pior do que o do mesmo período de 2020. É o que indica o balanço financeiro divulgado nesta quinta-feira pela companhia, apontando um lucro líquido de R$ 3,747 bilhões nos últimos três meses do ano passado, um recuo de 45,6% em relação ao último trimestre de 2020.

De acordo com a Ambev, nos comentários do balanço, esse resultado se deu “principalmente em virtude de créditos fiscais não recorrentes em 2020”. De fato, no 4º trimestre de 2020, a companhia relatou ter recebido “R$ 4,3 bilhões de créditos tributários extemporâneos decorrentes da decisão do Supremo Tribunal Federal de 2017 pela inconstitucionalidade da inclusão do ICMS na base de cálculo do PIS e da Cofins”.

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O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado da Ambev também caiu no 4º trimestre do ano passado. Ele foi de R$ 6,784 bilhões no período, o que representou recuo de 24,1%.  Isso se deu “devido ao impacto de câmbio, preços de commodities e maiores despesas com vendas, gerais e administrativas (SG&A), que foram afetadas principalmente por maiores provisões para remuneração variáveis”, de acordo com a companhia.

A receita líquida da Ambev no 4º trimestre de 2021 ficou em R$ 22,01 bilhões, uma expansão de 18,6% em relação ao mesmo período do ano anterior.  Segundo a empresa, isso foi impulsionado “pelo crescimento da receita líquida por hectolitro (“ROL/hl”) de 15,2% no 4T21.”

Mas o panorama apresentado pelo balanço da Ambev é melhor quando se compara o resultado obtido em 2021 com o de 2020. Nesse caso, a companhia cervejeira teve lucro líquido de R$ 13,122 bilhões, um incremento de 11,6% em comparação a 2020. A receita líquida da empresa alcançou R$ 72,854 bilhões, expansão de 24,8% ante o ano anterior. E o Ebitda ajustado atingiu R$ 22,869 bilhões, um aumento de 5,9%.

O caixa líquido da Ambev também cresceu de 2020 para 2021, passando de R$ 13,998 bilhões para R$ 15,411 bilhões ao término do ano passado.  

Cerveja, brasil e perspectivas
O balanço financeiro também indicou que a produção de cerveja da Ambev cresceu 0,8% no último trimestre do ano passado, para 51,3 milhões de hectolitros. Uma expansão que chegou aos 8,8% ao longo de 2020, com um total de 180,3 milhões de hectolitros. No Brasil, porém, o resultado foi pior. O volume de cerveja produzida pela Ambev no quarto trimestre de 2021 caiu 3,1%, para 25,6 milhões de hectolitros. E o crescimento em todo o ano foi de 7,1% ante 2020, para 90,8 milhões de hectolitros.

A Ambev, nos comentários do balanço, reconheceu que a indústria teve um desempenho fraco no quatro trimestre, mas declarou estimar que foi um resultado melhor do que a de toda a cadeia produtiva. Também destacou o aumento da receita orgânica líquida em contraponto à queda do Ebitda.

“Nosso momentum de receita líquida também foi evidenciado pelo crescimento da ROL/hl de 9,3%, devido ao aumento de preços, iniciativas de gerenciamento de receita e mix favorável, além de uma base de comparação difícil. O EBITDA ajustado caiu 19,6%, pois o crescimento da receita foi compensado pelos impactos esperados na taxa de câmbio transacional e commodities, provisões para remuneração variável e investimentos em vendas e marketing”, afirma a administração.

A Ambev também aponta a expansão de 13% do volume do segmento premium, com Original e Chopp Brahma crescendo duplo dígito como alguns dos seus destaques comerciais de 2020, juntamente com Beck’s, Corona e Stella Artois, que ampliaram o volume no mesmo patamar. E revela que o Zé Delivery atendeu mais de 17 milhões de pedidos apenas no quarto trimestre de 2021.

Desafios de 2022
A Ambev, ao projetar as expectativas para 2022, relata que o aumento dos casos de coronavírus, especialmente da variante Ômicron, traz “desafios e volatilidade no curto prazo”, pois já causou impactos no fim de 2021 e no começo deste ano. E ainda afirma que as pressões nos custos dos insumos ainda não foram completamente superadas, embora já minimizadas. Além disso, relata a expectativa de elevação relevante dos custos de produção.

Nossa taxa média de hedge para o real versus o dólar para 2022 é de 5,39 (+2,1%), e estamos enfrentando uma inflação de commodities sem precedentes. Como resultado, esperamos que nosso CPV por hectolitro excluindo depreciação e amortização em Cerveja Brasil aumente entre 16-19% (excluindo produtos de mercado não-Ambev em nosso marketplace e considerando os preços atuais de commodities)

Ambev, em comentários do balanço do 4º trimestre

Ab InBev
Maior grupo cervejeiro do mundo, a AB InBev também divulgou o seu balanço financeiro nesta quinta-feira. E o seu lucro em 2021 cresceu 50% ante 2020, ficando em US$ 5,7 bilhões. O Ebitda da companhia ficou em US$ 19,2 bilhões, uma expansão anual de 10,9%, enquanto a receita cresceu 15,8%, para US$ 54,3 bilhões.

No quatro trimestre, o lucro da AB InBev ficou em US$ 1,8 bilhão, recuo de 16,6% em relação ao mesmo período de 2020. O Ebitda caiu 3,6%, para US$ 4,9 bilhões, mas a receita da companhia expandiu 11,2%, para US$ 14,2 bilhões.