Balcão do Profano Graal: A revolta da Lager de Chicago
Alguns meses atrás, eu contei como uma pequena revolta ocorrida na cidade de Pilsner, em 1838, deu origem ao estilo de cerveja mais popular do mundo. Neste mês e no próximo, vou falar sobre duas outras revoltas ocorridas no século XIX e que também tiveram a cerveja como um dos seus elementos. A primeira é uma revolta que ocorreu em Chicago, em 1855.
A cidade de Chicago passou por um rápido crescimento nas décadas de 1840 e 1850, em grande parte por causa da imigração de alemães e irlandeses católicos. Esses imigrantes se estabeleceram no lado norte da cidade e trabalhavam seis dias na semana, deixando o domingo como seu principal dia para socializar.
Boa parte dessa socialização acontecia nas pequenas tavernas que pontilhavam o lado norte de Chicago. Como afirma o historiador Brian Alberts: “A cerveja era mais do que uma bebida – era um apoio cultural integral para os imigrantes que se instalavam em um novo lar.”
Em várias partes dos Estados Unidos, de maioria protestante, o crescimento da influência católica produziu uma reação na forma de um movimento populista e xenófobo que ficou conhecido como Know Nothing, que levantava uma bandeira anticatólica e anti-imigração.
Seu nome coloquial se deve ao fato de que os membros do movimento eram obrigados a dizer “não sei de nada” sempre que fossem questionados por pessoas de fora sobre suas especificidades. Originalmente uma sociedade secreta, o movimento assumiu a forma de partido político por meio do Partido Americano, que foi um dos precursores dos movimentos de temperança nos Estados Unidos.
Foi com uma plataforma anti-imigração, anticatólica e pró-temperança que Levi Boone (1808-1882) se elegeu prefeito de Chicago em 1855 pelo Partido Americano. Em seu discurso de posse, Boone declarou: “Não posso ficar cego para a existência em nosso meio de uma poderosa organização político-religiosa, onde todos os seus membros e seus principais oficiais estão vinculados sob um juramento de fidelidade ao temporal, bem como a supremacia espiritual de um déspota estrangeiro”.
Boone fazia menção à uma teoria da conspiração, na qual acreditavam os membros do movimento Know Nothing, segundo a qual os católicos (chamados “romanistas”) procuravam subverter a liberdade civil e religiosa nos Estados Unidos sob o comando do Papa (o “déspota estrangeiro”). Nas eleições daquele ano, os Know Nothings ocuparam seis dos dez assentos do Conselho Municipal de Chicago.
Associado à sua xenofobia, Boone, um pastor batista e defensor da temperança, acreditava que os mandamentos eram profanados por ter estabelecimentos de bebidas abertos no fim de semana. E, dessa forma, decretou que os bares permanecessem fechados aos domingos. Ao mesmo tempo, o Conselho Municipal decidiu aumentar o custo da licença para a venda de bebidas alcoólicas de US$ 50 para US$ 300, renovável trimestralmente.
Aos olhos dos imigrantes alemães e irlandeses, essas medidas eram vistas como um meio de controle usado pelas elites para controlar a classe trabalhadora imigrante e de impor o que era considerado um comportamento socialmente aceitável. Para aqueles que a fabricavam ou vendiam, a cerveja representava seu sustento econômico. Cervejeiros alemães locais, como John Huck e Conrad Seipp, forneciam Lagers alemãs para os bares, cuja remessa diária podia secar às três da tarde.
Por isso, apesar da proibição, os donos de bares continuaram a vender cerveja aos domingos. Alberts afirma que, para fugir da fiscalização, Valentin Blatz, dono de um bar alemão, fechava as cortinas e empilhava copos de cerveja vazios contra as janelas, abafando o som para que policiais não pudessem ouvir o burburinho dentro do estabelecimento, enquanto seus clientes entravam por uma porta secreta no consultório médico adjacente.
Isso resultou na prisão de mais de 200 alemães por violação tanto da licença quanto das ordenanças dominicais. Os donos de “saloons” decidiram, então, se unir para se defender e resistir, formando um conselho de representação e contribuindo para um fundo comum. E marcaram uma manifestação para 21 de abril, quando o tribunal de Justiça de Chicago deveria emitir uma sentença sobre as prisões.
No dia da audiência, centenas de manifestantes encheram a sala do tribunal e os corredores externos e acabaram entrando em confronto com a polícia. Na tarde do mesmo dia, ondas de imigrantes vindos da parte norte invadiram o centro da cidade, tocando pífanos e tambores.
Quando os manifestantes se aproximaram do rio Chicago, na altura da Clark Street, o prefeito ordenou que as pontes giratórias fossem abertas para impedir que eles cruzassem o rio, deixando muitos manifestantes presos nessas pontes. A polícia disparou contra os manifestantes, que revidaram, havendo mortes dos dois lados. Canhões carregados foram posicionados na praça do tribunal para conter os manifestantes.
Apesar disso, em certa medida a Revolta da Lager de Chicago foi vitoriosa, levando a um acordo no qual o conselho da cidade baixou a taxa de licenciamento de bebidas de US$ 300 para US$ 100. Depois que Boone deixou o cargo, no ano seguinte, a proibição de funcionamento dos bares aos domingos foi revogada. Apesar de ter decidido não libertar aqueles donos de bares que haviam sido detidos por não pagarem a taxa, a maioria dos presos durante o tumulto foi libertada, não indo a julgamento.
Por outro lado, o movimento ilustrou o risco que os imigrantes alemães estavam dispostos a assumir para proteger os proprietários de bares alemães que eles consideravam líderes de sua comunidade, levando à criação de um maior senso de comunidade dentro desse grupo. Como conclui Brian Alberts: “Para os imigrantes alemães de Chicago em 1855, seu desejo por um espaço cultural próspero em sua nova casa espumava dentro de seus copos de cerveja. Eles consideraram que valia a pena lutar.”
A força de uma marca de cerveja passa, evidentemente, pela excelência do que é fabricado, mas também precisa englobar as experiências com o que o seu consumo está envolvido. É essa a premissa que tem guiado a bem-sucedida estratégia de marketing da Heineken e que a leva a estar vinculada, através de patrocínios, a grandes eventos esportivos e musicais no Brasil e no mundo, sendo um dos nomes mais fortes e consolidados da indústria cervejeira.
Para entender as estratégias por trás dos patrocínios e ativações da Heineken, o Guia Talks recebeu Beatrice Jordão, gerente-sênior de marketing da marca no Brasil. Na entrevista, ela explicou que é fundamental para a marca estar associada a momentos de socialização e celebração para construir uma conexão direta com o consumidor.
É a partir dessa necessidade de relacionamento com o público que a Heineken se faz presente em grandes eventos musicais, como o Rock in Rio, além de estender seus patrocínios a importantes competições globais, como a Liga dos Campeões da Europa e a Fórmula 1.
Mais recentemente, a Heineken ampliou a sua gama de patrocínios ao fechar acordos com competições femininas, como a Liga dos Campeões e a Eurocopa, além da W Series, uma categoria de automobilismo destinada apenas a mulheres. “É importante para dar visibilidade a esses campeonatos para o mundo todo”, justifica Beatrice.
Atenta às mudanças e tendências da sociedade, a Heineken também contou com o marketing para auxiliar no sucesso alcançado pela sua cerveja sem álcool, lançada no Brasil no segundo semestre de 2020, o que a levou, em uma recente campanha, a apresentar o slogan “Brindar sem álcool. Agora você pode”, em um sinal dos tempos, com o aumento do consumo desse tipo de bebida.
A Heineken 0.0, aliás, será um dos carros-chefe dos patrocínios e ações da marca em 2022, como adiantou Beatrice ao Guia Talks. E ela destacou que, embora a Heineken esteja bastante atenta aos eventos, o mundo online não ficará em segundo plano nos próximos meses. Pelo contrário, a ideia será oferecer várias experiências através do aplicativo da marca.
Saiba mais sobre os planos e visões por trás dos patrocínios da Heineken na entrevista do Guia com Beatrice Jordão, gerente-sênior de marketing da marca no Brasil:
Estudos sempre apontam a Heineken como uma das mais valiosas marcas de cerveja do mundo. Em sua visão, qual é a razão para isso? E qual é o papel do marketing nesse reconhecimento? Eu acredito que é muito sobre a consistência dessa marca ao longo de tantos anos, com a mesma qualidade e receita desde os anos 1870. É um somatório de valores. Além disso, tem todas as experiências que essa marca proporciona aos consumidores, com sensações únicas. O papel do marketing como um todo é contar histórias, gerar conexões verdadeiras e relevantes com o consumidor. Como diz um amigo, não existe memória sem emoção. Eu amo isso, porque, para mim, o marketing é gerar memórias com emoção. Então, o nosso papel, na Heineken, é gerar conexões verdadeiras e relevantes com o setor por meio de todos os patrocínios que temos, que são super conhecidos, de plataformas e campanhas.
A Heineken possui uma comunicação global em suas campanhas de marketing. Como vocês fazem para que ela dialogue com o consumidor brasileiro? A maioria das nossas campanhas são globais e veiculadas em muitos países. E isso fortalece a marca, pois temos uma comunicação extremamente consistente para o consumidor de qualquer país. Então, em qualquer lugar que você chegue, você tem a mesma comunicação e reconhece essa marca. A gente recebe essas campanhas globais, elas vêm com todas as premissas de onde partiu, com muita pesquisa mundial. E aí trazemos isso para o Brasil, começamos uma extensa pesquisa de como vamos conectar isso com as premissas do consumidor, quais são os hábitos que podem estar relacionados. E sempre mantendo o formato da comunicação Heineken, de fazer repensar algumas coisas, com aquele leve toque que provoca o sorriso no canto da boca. Gerar essas reflexões é muito importante, pois a gente traz um pressuposto de olhar o mundo de outra forma. E aí é só adaptar ao nosso conceito brasileiro. A gente faz o nosso dever de casa aqui dentro. Temos, hoje, um time de marketing amplo, com diversidade de gênero, de raça, de idade. O Grupo Heineken assumiu o trabalho remoto para funções de escritório e conseguimos contratar pessoas de diversos estados, tendo uma representatividade do Brasil inteiro, com um olhar plural dentro da marca.
Como você avalia o resultado dos rótulos lançados com a estrela verde, para dar destaque às ações de sustentabilidade da Heineken? É uma embalagem exclusiva do Brasil, criada aqui. Foram três rótulos colecionáveis e limitados. Estão quase no fim, mas ainda dá para encontrar em algumas lojas de São Paulo. Tem uma ideia comemorativa, de celebrar nossos compromissos de sustentabilidade. Como é que a gente podia dar ainda mais visibilidade para contar essa história ao consumidor? E, também, para consolidar o nosso quarto ingrediente, um elemento novo, a energia verde. Essas embalagens vieram para fortalecer isso. Foi por isso que a gente pegou a estrela vermelha, o nosso símbolo mais icônico, e a colocou verde, que é a cor do futuro, da sustentabilidade.
Qual é o papel do marketing para ajudar a expandir a presença de um rótulo como a Heineken Zero? O lançamento veio para desenvolver e promover a categoria de cerveja sem álcool no Brasil. Ela foi pensada com muito cuidado. Existe uma grande tendência de consumidores que não querem mais consumir álcool em determinadas ocasiões. E parte do nosso trabalho é ouvir os consumidores, entender as tendências e trazer soluções de alta qualidade para essas necessidades. Como é que a gente poderia realmente trazer uma inovação com a mesma qualidade, mesmo sabor da Heineken com a 0.0? Os nossos melhores mestres-cervejeiros foram trabalhar nessa receita, para ter uma inovação que tivesse muita qualidade. E acho que acertamos muito nessa receita. A Heineken Zero vem para abrir possibilidades aos nossos consumidores. Agora, eles podem consumir uma cerveja de alta qualidade, com ótimo sabor, em várias ocasiões em que você não pode tomar álcool, dirigindo, no meio do trabalho ou mesmo no happy hour, caso você não queira beber, ou indo para a academia, pós-academia… Abriu um leque de oportunidades de consumo. É importante atender essas necessidades. E agora estamos com uma nova campanha de que você pode brindar e socializar sem álcool. Não precisa mais se sentir estranho. E esse é um lançamento muito ligado aos nossos valores de consumo responsável.
Recentemente, a Heineken acertou patrocínios a competições femininas, como a Liga dos Campeões e a Eurocopa, assim como para a W Series, no automobilismo. Qual é o intuito dessas ações? É um caminho muito importante da concretização de uma marca inclusiva em um esporte cada vez mais inclusivo. Para nós, é muito importante também patrocinar as versões femininas desses campeonatos, porque a marca Heineken já traz esse olhar de que não existe diferença. A gente cuida bem das consumidoras que amam uma boa cerveja e se preocupa em trazer o melhor para elas. Eu, como mulher, tenho o prazer de liderar a parte de comunicação para essa marca no Brasil. A gente precisa realmente caminhar em ações concretas que tragam a inclusão e o protagonismo para a mulher. Então, é um passo muito importante do esporte ter marcas grandes olhando para os campeonatos femininos. Vai ser não só uma forma de se conectar com as mulheres, porque as mulheres também amam a Liga dos Campeões masculina, mas é importante para dar visibilidade a esses campeonatos para o mundo todo. A gente quer proporcionar a mesma experiência para todos os fãs. É um longo caminho.
E, de uma maneira mais ampla, o que motiva a Heineken a fechar patrocínios a grandes eventos esportivos e festivais de música? Para a marca Heineken, patrocinar esses eventos, tanto de música quanto de esporte, é importante. É um pouco inerente ao mercado, uma marca de cerveja estar em momentos de celebração e socialização. Tantos os festivais como o esporte estão dentro dessa mesma estratégia de estar nesses momentos importantes para o consumidor. A Fórmula 1 é outra plataforma muito importante no sentido de celebrar o esporte. E como uma plataforma para a Heineken Zero, para que a gente possa construir o consumo responsável ao dirigir. Neste ano, todos os nossos patrocínios a festivais e eventos de música estarão dentro da plataforma Green Your City. É um movimento para que a gente possa repensar os nossos espaços urbanos. Nessa retomada, que a gente faz com muita esperança, acreditamos que, nesses momentos, podemos refletir sobre isso.
Quais serão os principais focos do marketing da Heineken e seus patrocínios ao longo dos próximos meses de 2022? Uma das inovações é o nosso aplicativo, o MyHeinekenApp. Ele está disponível já em todas as lojas online. Você pode ter a experiência Heineken, experiências e conteúdos únicos, que só a marca pode oferecer. É um aplicativo que mostra o entretenimento com o olhar Heineken. Vai ser um canal para conhecer as inovações da marca. A Heineken também manteve todos os nomes da plataforma de patrocínios. Vocês vão nos ver em muitos eventos. Tem muitos patrocínios bacanas para a Heineken destacar. E a gente sempre vai fortalecer a agenda de sustentabilidade, em tudo que a gente faz. Então, além da plataforma Green Your City, a gente está levando a energia verde para os estabelecimentos. Além disso, também tem a expansão da Heineken Zero. Vocês vão ver muitas coisas legais acontecendo, a gente vai participar de muitos eventos, com patrocínios da Heineken Zero, com a comunicação sempre tendo aquele toque de humor.
O Polo Cervejeiro, núcleo setorial do Programa Empreender da Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto (Acirp), lançou a programação preliminar da 2ª edição do Craft Beer Ribeirão, cujos eventos foram confirmados para ocorrer em um intervalo de quatro dias durante a primeira quinzena de setembro.
A principal destas atrações será a 10ª South Beer Cup, conhecida como a “Copa Libertadores da América da Cerveja”, que acontecerá entre 8 e 10 de setembro, datas em que também será realizada a 1ª edição da Copa Paulista de Cerveja Artesanal, aberta para a participação de todas as empresas deste ramo registradas no Estado.
O evento ainda contará com um festival de cervejas artesanais marcado para ocorrer entre os dias 9 e 11 do mesmo mês e que disponibiliza suas inscrições para interessados de todo o Brasil. Para completar, neste mesmo período, será realizado o 1º Meeting da Cerveja Artesanal, feira que visa promover negócios entre empresas do setor, contando com espaço para exposições de marcas e produtos.
Presente ao evento de lançamento da 2ª edição do Craft Beer Ribeirão, o prefeito da cidade do interior paulista, Duarte Nogueira, exaltou a tradição da cidade na produção de rótulos cervejeiros de qualidade e lembrou da famosa choperia Pinguim, cuja primeira unidade foi lançada em 1937, e, ao longo das décadas seguintes, ajudou a tornar a bebida fabricada no município mais valorizada. Para ele, o fato serviu como incentivo e pavimentou o caminho para a abertura de várias cervejarias de alto nível na cidade e na sua região.
“Dentre várias chancelas que Ribeirão Preto tem, uma lembrada aqui foi o Pinguim. Para qualquer lugar que você for no mundo, todos que falam de Ribeirão, lembram do Pinguim. É uma marca extremamente forte da cidade, que leva a nossa gastronomia cervejeira para o mundo todo. E depois, com o papel empreendedor dos cervejeiros locais, 15 cervejarias, todas de altíssima qualidade. Hoje, você vai a vários lugares do Brasil e vê cervejas de Ribeirão Preto dentro das geladeiras. E isso nos enche de orgulho”, ressalta o prefeito.
Ao celebrar a escolha de Ribeirão Preto como palco da South Beer Cup, o vereador Alessandro Maraca enfatizou a importância que o setor cervejeiro tem para a economia do município. “É um setor gerador de muitos empregos, que paga os seus impostos e precisa de um olhar diferenciado. As nossas cervejarias têm ganhado o gosto dos brasileiros, mas elas podem ir muito mais longe. O anúncio deste evento que acontecerá aqui é muito importante para nós”, destaca.
Por causa da pandemia do coronavírus, a South Beer Cup não foi realizada em 2020 e 2021, após nove anos seguidos em que Brasil e Argentina se revezaram como sedes da competição. Buenos Aires, em 2011, 2013 e 2019; Blumenau (2012); Belo Horizonte (2014); Mar del Plata (2015 e 2017); Curitiba (2016); e Belém (2018) abrigaram as edições anteriores.
Para poder participar da South Beer Cup, um pré-requisito obrigatório para as microcervejarias é ter conquistado ao menos uma medalha de ouro, em 2020 ou 2021, em um dos concursos considerados de ponta listados pelos organizadores: a Copa Argentina de Cervejas, o Concurso Brasileiro de Cervejas, o Brussels Beer Challenge, o European Beer Star e “outras competições internacionais acontecidas na América Latina”.
‘Prioridade’ para abrigar a South Beer Cup em 2024 Também durante a cerimônia de anúncio da programação do Craft Beer Ribeirão, o argentino Tio Limongi, chef internacional, sommelier, mestre cervejeiro e sócio da cervejaria SP 330, de Ribeirão Preto, afirmou que a cidade do interior paulista também já está com o caminho aberto para voltar a ser o palco da South Beer Cup em 2024.
“Recebi uma ligação (da organização da competição) falando que Ribeirão Preto tem prioridade para organizar a South Beer Cup em 2024″, diz. “Ainda nem fizemos nada, mas já estão nos oferecendo isso”.
O Polo Cervejeiro reúne 11 cervejarias independentes de Ribeirão Preto e região. São elas: Alquimia, BR Brew, Experiência, Invicta, Lund, Maltesa, Martinica, SP 330, Walfänger, Weird Barrel Brewing Co. e Wolfes Bier, que fazem parte do Programa Empreender da Acirp. Os seus integrantes são formados por micros e pequenas empresas do mesmo segmento ou que atuam em diferentes setores para colocar em prática ações realizadas em conjunto como associados da entidade, em parceria também com o Sebrae.
A californiana Stone Brewing será indenizada em US$ 56 milhões (aproximadamente R$ 263 milhões, na cotação atual) pela MillerCoors após um tribunal de San Diego considerar que o conglomerado cervejeiro lhe provocou danos em função do uso indevido da marca Stone. O caso foi iniciado em fevereiro de 2018, quando a cervejaria artesanal ajuizou ação contra a gigante pela utilização indevida da marca registrada Stone na apresentação da lata da Keystone Light.
A Stone Brewing, fundada em 1996 pelo cervejeiro Greg Koch, sempre foi vista como uma antítese das “Big Beers”, principalmente por levantar a bandeira da autenticidade e do movimento das cervejarias independentes.
Em 2017, a MillerCoors mudou o design da sua cerveja Keystone Light, dando destaque à palavra “stone” na lata, separando-a do nominativo “key”, que aparecia em fonte menor. Esse formato com palavras separadas foi usado em outros anúncios da marca.
No processo judicial, a Stone Brewing argumentou que a MillerCoors vinha tendo um declínio na venda das cervejas Keystone há anos e mudou sua marca para capitalizar em cima do sucesso da Stone Brewing no cenário artesanal. A Stone Brewing pediu US$ 216 milhões pelos danos causados em virtude da confusão das marcas provocada no público consumidor.
Em sua defesa, a MillerCoors sustentou que as marcas são facilmente distinguíveis e que o uso das palavras “key” e “stone” separadamente já ocorria antes da atualização da marca, feita em 2017.
Além disso, alegou que não houve confusão entre os consumidores, tendo em vista que a marca tentava recuperar a participação de mercado de outras fabricantes mainstream, como a AB Inbev, não de cervejarias artesanais.
Mas o júri entendeu que, ainda que não intencional, ocorreu a violação do direito de marca pela MillerCoors, condenando o conglomerado a pagar à Stone Brewing US$ 56 milhões pelos danos causados. “A Molson Coors ameaçou nossa herança, mas enfrentamos essa ameaça”, celebrou Koch.
A MillerCoors ainda pode recorrer da decisão. Seu porta-voz, Marty Maloney, declarou em comunicado que o julgamento mostrou que o processo da Stone Brewing não foi motivado pela confusão do consumidor e que a cervejaria artesanal detinha uma grande quantidade de dívidas corporativas. “Os jurados rejeitaram a afirmação de que a MillerCoors violou intencionalmente a marca registrada e concedeu à Stone Brewing uma fração do que eles exigiam”, argumentou.
As estimativas da Stone Brewing são de que a MillerCoors vendeu mais de US$ 1,7 bilhão em cerveja Keystone com a marca Stone durante o período da infração. Até por isso, posteriormente à decisão, entrou com um pedido de liminar permanente no qual busca uma ordem judicial para impedir a MillerCoors de usar a marca Stone em latas e anúncios.
Para André Lopes, sócio do escritório Lopes, Verdi & Távora Advogados, criador do Advogado Cervejeiro e colunista do Guia, o caso reforça a importância do registro de marcas pelas cervejarias. “As marcas são ativos importantíssimos e deixar de registrá-las é simplesmente abdicar de garantir a exclusividade”, afirma.
Sem o registro, qualquer outra cervejaria pode lançar uma marca igual ou até registrar antes e se apropriar dela. O registro ainda permite combater o uso indevido e pleitear indenização nesses casos, assim como aconteceu com a Stone Brewing. A condenação milionária imposta à MillerCoors apenas reforça a importância do registro
André Lopes, sócio do escritório Lopes, Verdi & Távora Advogados, criador do Advogado Cervejeiro e colunista do Guia
A Stone Brewing é a 9ª maior cervejaria artesanal dos Estados Unidos, mas em 2020 produziu 347 mil barris de cerveja, apenas 0,5% do volume de cerveja produzido pela Molson Coors, que adquiriu a MillerCoors em 2016.
Dentro desse cenário, Lopes destaca, ainda, que a condenação de uma das gigantes do mercado dos Estados Unidos demonstra que pequenas cervejarias estarão em condições de igualdade na Justiça caso se protejam para evitar esse tipo de violação.
“Se na maioria das esferas ainda é impossível de as microcervejarias competirem com os grandes conglomerados cervejeiros, pelo menos no campo marcário existe uma chance: basta as cervejarias realizarem o registro de suas marcas e buscarem seus direitos em caso de violação”, conclui.
O processo para levar uma cerveja até o consumidor vai além da sua fabricação. Realizar a rotulagem adequada, sem erros e de uma forma que não seja morosa, é um dos desafios para o segmento, especialmente no caso de pequenos e médios produtores. Para ajudá-las a encarar esse desafio, a Label Sonic lançou a rotuladora Sensorless.
De acordo com Bruno Lage, sócio-proprietário da empresa de rotulagem, o novo produto contribui para evitar erros humanos e, mesmo, eventuais perdas por causa de equívocos na aplicação das marcas das cervejarias em suas embalagens, por ser realizada de modo mecânico. Além disso, acelera esse processo.
“Muitas vezes, a aplicação do rótulo é a última etapa no processo de produção de cervejas. E é um gargalo muito grande. Quando feita manualmente, a chance de aplicação de rótulos tortos ou fora do local correto é grande. Com este equipamento, o cliente pode rotular a produção em poucas horas”, afirma.
De acordo com Lage, as vantagens de uma rotuladora com processos automatizados foram percebidas pelos clientes da Label Sonic, que solicitaram o desenvolvimento de um produto do tipo. “Após vendermos mais de 500 rotuladoras manuais, desenvolvemos, a pedido dos clientes, uma rotuladora semiautomática que não tem sensores, ou seja, mais econômica e fácil de usar”, explica Bruno Lage, sócio-proprietário da Label Sonic.
A facilidade citada pelo profissional se dá em função da necessidade de não se repetir ajustes para a realização da rotulagem de embalagens com o mesmo formato. “A rotuladora foi desenvolvida para ser simples nos ajustes. Uma vez ajustada para determinada embalagem, você não precisará alterar mais nada”, afirma Lage.
A nova rotuladora da Label Sonic pode ser utilizada em qualquer tipo de embalagem, desde que seja cilíndrica, com diâmetro de 1 a 23 centímetros. A estimativa dos seus criadores é de que ela seja capaz de aplicar até 500 rótulos por hora. E ainda possui sistema de datação para fácil ajuste, tendo sido construída em aço inox. Além disso, promete manutenção simples e barata.
Lage assegura que a rotuladora da Label Sonic é a mais barata entre as semiautomáticas presentes no mercado, algo possível em função do método utilizado para a sua criação. “Foi desenvolvida pela Grafix a partir do modelo manual (que vendemos mais de 550 unidades) e pensada para ser muito barata. Nós cortamos as chapas e fazemos as peças em impressão 3D, o que reduz em muito o custo”, diz.
O proprietário da Label Sonic cita a sinergia da empresa, especializada em rótulos para embalagens, para ressaltar o esforço de oferecer ao mercado cervejeiro uma rotuladora com preço competitivo. “É um equipamento que agrega na nossa parceria com o cliente, uma vez que somos especialistas em rótulos, por isto o esforço para manter os custos muito baixos e o preço final excelente para o cliente”, conclui Lage.
Balcão do Aloisio: Cevada – Da Antiguidade aos dias atuais
A cevada é um dos alimentos mais antigos cultivados pelo homem. Evidências arqueológicas indicam que os primeiros sinais de cultivo de cevada datam do período neolítico, aproximadamente 7.000 a.C., e apontam a região do “crescente fértil” (atualmente Israel, Jordânia, Síria, Turquia, Iraque e Irã) como sendo a de origem da cevada cultivada. Nesse tempo, a cevada era o principal cereal utilizado na alimentação humana e permaneceu durante um longo período sendo o grão mais consumido.
Com o aperfeiçoamento das técnicas de produção de pães, a cevada foi perdendo popularidade até ser completamente substituída pelo trigo nesse processo. Por conter menos glúten, a cevada dá origem a um pão mais denso, de textura áspera e cor escura, enquanto o maior teor de glúten do trigo confere aos pães produzidos a partir deste uma textura firme e elástica e a capacidade de “crescer”, os tornando mais apreciados pela população. Após ser substituída pelo trigo, a cevada continuou sendo cultivada, porém, com uso primordial na alimentação animal e na produção de cerveja.
Atualmente, a cevada é o quarto cereal e o quinto grão mais produzido no mundo, perdendo apenas para arroz, milho, trigo e soja. A nível mundial, em torno de 70% da produção é utilizada na alimentação animal, seja como forragem verde, na forma de silagem ou com o uso dos grãos na composição de rações. Devido ao conteúdo de β-glucanos presentes nos grãos de cevada, esta vem novamente despertando a atenção para uso na alimentação humana, em função dos benefícios proporcionados à saúde proporcionados.
Os maiores produtores mundiais de cevada são Rússia, Espanha, Alemanha, Canadá, França, Austrália, Turquia, Reino Unido e Ucrânia que, juntos, foram responsáveis por 98,4 (64%) das 152,6 milhões de toneladas fabricadas em 2020.
A área destinada a seu cultivo no mundo vem caindo desde o final da década de 1970, quando chegou a ser cultivada em 80 milhões de hectares. Atualmente, são em torno de 50 milhões de ha. O volume produzido, entretanto, tem aumentado, a despeito da redução da área plantada, graças aos constantes aumentos de produtividade conferidos pelas melhorias nas técnicas de produção e pelo melhoramento genético da cultura.
No Brasil, em função de alternativas mais econômicas para uso na alimentação animal, o cultivo da cevada se desenvolveu, primordialmente, para a obtenção de grãos destinados à malteação, ingrediente básico para a fabricação da cerveja. Em torno de 90% da cevada cultivada no Brasil tem como finalidade a produção de malte, só sendo destinada a outros usos caso os grãos produzidos não apresentem a qualidade necessária para utilização com essa finalidade.
Com a alta no preço do milho e pelo fato de Rio Grande do Sul e Santa Catarina não serem autossuficientes na produção de milho, o cultivo da cevada, assim como de outros cereais de inverno, vem sendo estimulado para substituição de parte do milho utilizado na formulação de rações.
No País, embora a área destinada ao cultivo da cevada, desde a década de 1970, tenha oscilado ao redor dos 100 mil ha, a produção passou de 85 mil toneladas, em 1979, para 425 mil toneladas, em 2021, quase alcançando o recorde de 429 mil toneladas, obtido em 2019.
Esse volume ainda não atende à necessidade das indústrias de malte instaladas no País, da mesma forma que a produção de malte não atende à necessidade das indústrias de bebidas. No entanto, com os constantes aumentos na produtividade e qualidade da cevada nacional e com o aumento da capacidade instalada das maltarias e surgimento de novas, é provável que um dia sejamos autossuficientes nesse insumo essencial para a nossa tão apreciada cerveja.
Aloisio Alcantara Vilarinho é engenheiro agrônomo com doutorado em Genética e Melhoramento de Plantas. Pesquisador da Embrapa desde 2003, ele atua, desde novembro de 2019, como melhorista de cevada na Embrapa Trigo.
A entrega dos prêmios do Barcelona Beer Challenge ocorreu no último dia da InnBrew, The Brewers Convention, a feira profissional do setor de cervejas artesanais da Espanha, como contei aqui no Guia, e se deu de modo especial. Em 2022, além do número recorde de participantes, houve a primeira entrega de prêmios, o que resgata o momento de maior emoção e importância do ano para o setor. As restrições dos dois últimos anos não permitiram que se vivesse a premiação com plateia e audiência aos nervos, contando pontos, na torcida. E, o que mais se vê aqui, união.
Não tem como. Falou em setor cervejeiro, falou em prêmios, concursos, medalhas, selos e certificados. É fato que a galera gosta e aqui não deixa de ser diferente. O Barcelona Beer Challenge é sobretudo um grande encontro e já está na história como um marco no setor, já reconhecido internacionalmente.
Transmitido ao vivo (começa no ’51), rolou até um “bom dia, Brasil” em português, saudação feita por Milkel Rius da Beer Events, responsável pelos eventos, sendo que o concurso tem uma recente parceria com o Concurso Brasileiro de Cervejas.
Baseado nos estilos do Beer Judge Certification Program (BJCP), o Barcelona Beer Challenge concede medalhas de ouro, prata e bronze. O prêmio de Melhor do Ano foi conquistado pela Basqueland Brewing pela segunda vez consecutiva. O mesmo prêmio é estabelecido para as fábricas recém-criadas, com o prêmio Novel Brewer of the Year, que foi de novo para a Itália, mas trocou de mãos. A Birrificio Liquida ocupou o topo do pódio no lugar da Torre Mozza.
O terceiro “grande prêmio” do Barcelona Beer Challenge é o Molina for Brewers Innovation Award, que homenageia a criatividade no processo cervejeiro e foi conquistado pela Màger, uma cervejaria que, amigos ou não, lhes garanto que vale a pena buscar.
E o quarto e último prêmio, que envolve ainda mais emoção é o Steve Huxley, que esse ano foi para as mãos de Salvador Marimoon, um profissional que desde que cheguei aqui, juro, não o vi parar de trabalhar um minuto que seja. Quer maior representação dentro de um mercado que tem que ralar para acontecer do que ele? Aqui tem muita gente massa e eu gostaria de apresentar todo mundo para vocês, um dia.
Um grande parênteses inicial, porque contexto é importante Quando me dispus a escrever sobre a premiação para o Guia, não consegui deixar de pensar que, do outro lado do monitor, pode ter gente que mal sabe da existência do movimento de cerveja artesanal espanhola. Estamos sempre muito apegados à cerveja que vem dos países das grandes escolas, como é o caso dos Estados Unidos, que chega aí com maior facilidade. Um jeito rude de ilustrar: sabemos que não se exporta muito para aí. Minha lua em Aquário não me permite não pensar no crescimento do outro, seja ele mercado, seja ele pessoa, a adquirir novas informações.
Acabei tecendo um mini-dossiê (que de mini tem nada) sobre o Barcelona Beer Challenge. Pode procurar aí e você não encontrará um texto que condense todas as informações em um só lugar. Fiz questão de buscar links para quem quiser conhecer mais as marcas, conhecer um pouco dos projetos e produtos e, quem sabe vir a visitar a gente aqui um dia. Obrigada, editor, pela consideração.
O concurso
São 64 categorias divididas em três blocos, de acordo com os critérios do BJCP: família das Lagers, depois, alta fermentação. Mikel Rius, atento à questão de ser “pedagógico”, explica que durante as análises, “competem cervejas relativamente diferentes e isso é um exercício que os juízes têm que fazer. O de entender que cada uma compete em sua categoria, ou seja, se analisa dentro dos parâmetros aos quais ela está inscrita. Logo, se avalia qual delas está mais adequada, sempre pensando que se julga dentro de sua subcategoria e, depois, opinam conjuntamente”.
Vamos ao exemplo prático, porque quem não está acostumado pode fazer confusão, coisa que eu sou especialista. Tanto que parto da explicação dada pelo próprio Rius e a incremento. Por exemplo, na categoria Standard American Beer concorreram cervejas dos estilos American Light Lager, American Lager, Cream Ale e American Wheat Beer. Nesse caso, estava aí a primeira categoria do bloco Lager que foi apresentada. Dela, saíram duas medalhas: uma de ouro para Cream AleGuadalquibeer, de Sevilha, e uma bronze para a Artic Mosaic, que se apresenta como Session Wheat IPA da francesa Le Père L’amer. Nenhuma outra amostra garantiu pontuação necessária para ser prata, logo, a colocação ficou deserta.
Como meu objetivo é fazer conhecida a cerveja daqui, conto que a Guadalquibeer levou ainda outro ouro, na Córdoba Irish Red Ale. Já estou em compasso de bulerías, bailando (sem meus saudosos tacones flamencos que ficaram no Brasil) louca para ir lá conhecê-los. Em Sevilha, eles estão no centro da cidade, no Mercado de La Calle Feria. Guadalquivir é o nome do rio que corta Sevilha e a calorenta e calorosa cidade andaluza de Córdoba (onde está enterrado meu umbigo). “Sorria para a foto”, voltemos à Catalunha.
Para levar o canecão mais cobiçado, o de melhor cervejaria do ano, e o de melhor novata, para quem existe há menos de dois anos no mercado, ganha quem somar mais pontos. É assim: uma medalha de ouro vale cinco pontos, a prata vale três e a de bronze, resulta em dois pontinhos. “Dá quatro, vai um, menos dois são cinco”, eu confesso que se tivesse que somar ali ao vivo, lascou! “Com mais sete, vinte e um” e a Basqueland Brewing Co. venceu outra vez. Em segundo, eu não consegui fechar a conta direito e, em terceiro, a La Salve de Bilbao. Ponto para o País Basco, onde estão ambas.
Melhor Cervejaria
A bicampeã Basqueland juntou oito medalhas no Barcelona Beer Challenge. Levou dois ouros, cinco pratas e um bronze para a cidade de Hernani. Os rótulos medalhistas foram: Cat Skills, Santo Tomás, Matryoshka, S’Mores, Tiki Idol, Barrelworks Cognac, A Lager A Day e Live Forever. Foi fundada em 2015 por Kevin Patricio (de Maryland), Benjamin Rozzi (de Akron, Ohio), dois estadunidenses com passado na Port Brewing e Stone Brewing. São cervejas bem fáceis de se encontrar e mais fáceis ainda de se encantar.
De acordo com um ranking setorial de empresas exportadoras, a Basqueland está como a 10ª em volume vendido para fora da Espanha e vende para toda Europa, especialmente para Bélgica e Alemanha e ainda, Japão e China. São receitas geniais, IPAs cada dia mais equilibradas, assinadas pelo maestro “donostiarra” Oscar Saéz e, junto aos co-fundadores, há o head escocês Cosmo Sutherland.
Iniciadas em 2018, até os últimos dados do informe de exportadores do CESCE, o faturamento em vendas externas deles tinha dobrado em 2020. Curiosa estou para saber como estão atualmente, depois dos prêmios. Será que tem Brasil na mira? Volto ao meu movimento revolucionário de uma pessoa só de “abram o coração para as cervejas espanholas”, minha gente. Eu garanto que é muito melhor que paella. Ops! Paella é de Valencia. Lá em Euskadi (nome do País Basco em euskera, idioma oficial da comunidade autônoma) soa bem dizer que seria melhor que um pintxo. Porém, o País Basco é tão alto nível em gastronomia que qualquer coisa que eu falar, serei julgada pelo meu próprio pensamento. Renuncio ao atrevimento e os convido a ousarem buscar mais sobre o que criam aqui.
Melhor Cervejaria Revelação: a “novinha” é gringa e fala italiano
Birrificio Liquida é o nome dela, de Ostellato, município da província de Ferrara, na Emilia-Romagna. Os três sócios estavam en persona para receber o prêmio. Luca Tassinati, Christian Bertoni e Luca Drudi, tutti già provenienti dal mondo della birra artigianale antes de abrir a “championíssime”. As medalhas foram em clássicos. Três. Ouro na American IPA, prata com American Pale Ale e bronze em German Pils. Tem juízo quem respeita clássicos e mais ainda quem leva “estrelas no peito”. Seja na cerveja, seja no futebol. Imagina a alegria de estar em Barcelona para receber esse prêmio. No vídeo dá para sentir a vibração. A viagem valeu a pena.
Foi bem o que li por aí em algum artigo desses dias, a de que “os italianos não vêm à Barcelona por turismo”. As cervejarias italianas, assim como em anos passados, arrebataram um punhado de medalhas. Com uma relação de amizade de muitos anos com os cervejeiros e organizadores de eventos daqui, a cada ano o número de prêmios que vão para a Itália aumenta. Se fosse a Copa do Mundo de futebol, a gente já teria entendido. A Itália é danada.
Prêmio Inovação Molina for Brewers
Este é o terceiro ano que a maltearia patrocina este prêmio. Ainda bem que eu não sou jornalista e não preciso parecer imparcial. Eu fiquei estalando de alegria com o resultado. É que nem futebol. Sou Galo e pronto. Na cerveja, ¡dame las ácidas! E a Màger levou o Molina for Brewers Innovation Award (não aguento esses nomes em inglês farialimer)! Concorriam ao certame de processo criativo na fabricação de cerveja cinco finalistas. Cervejaria Castrum, com a Quadruppel; a valenciana Cervesa Tyris, com Tyris Orangito; barcelonesa Animus Brewing, com Swept Aside; AndBeer de Andorra, com Hidrobeer; e a catalã Cervesa Màger, com Dolça Sour.
A Dolça Sour é um resgate à técnica vi bullit, em tradução livre, vinho fervido. Uma técnica da elaboração de vinhos que está quase esquecida. A Màger fica em La Llacuna (Barcelona), e o mestre-cervejeiro responsável é Àlex Puig. E o que fazem ali? Cervejas azedas, de fermentação selvagem e mista que derretem meu coração peludo de amor. Puig é da região vinícola com denominação de origem, Penedès. É daí e de sua experiência prévia trabalhando nas cavas e vinícolas da região que vem a expertise. Em entrevista ao La Vanguardia, ele disse que “funde técnicas muito semelhantes e traz essa parte selvagem às cervejas”.
Àlex quer mais é que outros cervejeiros repliquem o processo e que a Sweet Sour, nome que ele batizou o estilo, vire uma realidade. Conheci o Àlex e a Mireia em julho de 2019 na feira de cerveja de Jafre, a uns 30km daqui de Girona. Na ocasião, queria ter uma cadeira de praia para ficar sentada ali de frente à barraca deles, bebendo a Wild Beats. Era uma Berliner Weiss maturada com framboesas que ganhou como “la cervesa de l’any” do evento. Perfeita para aguentar aquele calor de 40ºC do inferno que é o verão europeu. Na verdade, eu queria trocar o filtro daqui de casa por barris da Màger. Foi paixão ao primeiro gole. Eu torço para eles que nem em partida do Galo mesmo. Merecidíssimo prêmio.
Prêmio Steve Huxley
O Steve Huxley Lifetime Achievement Award (misericórdia diabo de nome extenso que até clamei “mi’a Nossa Senhora da Abadia’Água Suja”, nome da santa que acode o povo da minha terra Patrocínio) também foi entregue nesta gala, dessa vez pelo vencedor anterior, Andrew Dougall. Nesta edição, optam pelo prestigioso prêmio Guillem Laporta, do Homo Sibaris; Susana Giner, da 2D2Dspuma; Boris de Mesones, da Boris de Mesones Engenharia Cervejeira; Guzmán Fernández, do Cluster Cerveja Artesanal; e Salvador Marimon, da Install Beer.
O “Salva” está envolvido em tudo que é evento cervejeiro, bar novo, projeto de restaurante e é até um dos sócios do Barcelona Beer Festival. O troféu de flor de lúpulo lhe caiu muito bem.
Categoria nova: Platinum
Este ano, como grande novidade, o evento criou a categoria Platinum, que distingue as cervejarias que obtiveram cinco medalhas no Barcelona Beer Challenge, mas em anos diferentes. “O objetivo desta nova categoria é valorizar o trabalho bem-feito e constante dessas cervejarias, que ao longo dos anos conquistaram medalhas, até cinco, nos sete anos de história do evento”, diz a organização.
Premiada na categoria Strong American Ale, essa Red IPA é complexa, vem mais alcoólica e maltosa que uma Red Ale normal (claro, Andreia, é imperial), por isso se enquadra no estilo que concorreu. Já são cinco anos recebendo medalha. A cervejaria Arriaca foi fundada em 2014, sendo a primeira a usar lata no setor artesanal espanhol.
Porter, com lúpulo três tipos de lúpulo, porém inovadora. A marca registrada da cervejaria de Sóller são as laranjeiras, produto de cultivo local. Na Fosca, agora também por cinco anos consecutivos ganhando medalhas, uma parte do malte é trigo. E se utilizam, claro, de flor de laranjeira e cacau.
Antes, um armazém de beneficiamento de grãos. Hoje uma senhora cervejaria que nos beneficia com cervejas em um senhor espaço de degustação em Cardedeu. O prédio assinado pelo arquiteto modernista Cal Peó fica no centro da cidade e dali saem produtos que fazem referência ao passado carvoeiro da região de Vallès, como essa Irish Extra Stout, com maltes defumados.
A eleição dos vencedores A análise das amostras pelos jurados do concurso se realizou no início de março, no Clúster Craft Beer em Lliçà d’Amunt. Um total de 1.315 cervejas de 215 participantes bateram o recorde das edições anteriores, mesmo que a cada ano saiam críticas sobre a participação e conquista de medalhas por grandes marcas da indústria cervejeira do país.
De acordo com a organização, participaram 60 juízes profissionais de 15 nacionalidades diferentes, na função de pontuar a análise sensorial. São 64 categorias e alguns estilos seguem uma lógica diferente da que estamos acostumados no Brasil, que seria BJCP “puro”. A lista de medalhas tem 178 premiadas com a possibilidade de usar o selo da medalha até o próximo ano.
O local escolhido para a atuação do júri também pode receber visitas guiadas ao espaço, que é como uma incubadora de cervejarias, oferecendo cursos, e tem vários profissionais de ponta reunidos para dar gás na economia da cidade de Can Malè a partir do setor cervejeiro. As candidatas puderam se inscrever até 23 de janeiro, com as amostras sendo enviadas de 7 a 18 de fevereiro. O preço das inscrições variava de 145,20€ para uma única amostra, com descontos progressivos, até a bagatela de 764,72€ para 20.
Uma informação, reforçada pelo organizador do evento e mestre de cerimônias Mikel Rius na abertura da celebração, é que o Barcelona Beer Challenge foi reconhecido este ano pelo EBCU (European Beer Consumers’s Union) como um dos principais concursos cervejeiros europeus (são nove e você pode conferir quais aqui).
Prêmio para a grande indústria vale? Grandes cervejarias voltaram a participar e até mesmo repetir prêmios, como é o caso da Mahou Cinco Estrellas que levou prata pelo terceiro ano consecutivo em International Pale Lager e repetiu o ouro de 2021 com a Maestra Dunkel, como Dark European Lager. Podem me julgar. Eu compro essa cerveja direto. Bom, até aí, nenhuma surpresa. Certamente é parte da política da empresa participar de concursos, porque a Mahou está como a cervejaria mais premiada da Espanha, com 87 prêmios internacionais desde 2018. O bom de ser grande é poder pagar para participar de tudo, né?
Outra conhecida que papou moedinhas foi a Founders com sua Oktoberfest. E a La Salve levou quatro medalhas. Repetiu o ouro na Lager e tem grandes chances de uma possível platinum aí pela frente.
E volto à minha pergunta inicial… Enquanto algumas cervejarias têm milhões para investir em qualidade e marketing, para as nanocervejarias – como é o caso da acachapante maioria que participa deste concurso – se pode considerar ser difícil até mesmo investir na inscrição de um concurso desses. Por isso, ficam perguntas: deveriam os concursos “proibirem” a participação das grandes? Ou criarem algum tipo de regra especial para as Lagers, categoria que mais gera essa polêmica?
Mas se pensamos que todas as amostras são analisadas às cegas, em um copo x, por vários juízes, então se pode tirar diferentes conclusões. Uma é que em qualidade, independentemente do orçamento, rola para os dois lados, ou seja, temos cerveja boa saindo de tanques enormes e de pequenas cozinhas. É o caso da cervejaria Cacho Beer, que se não me engano, levou medalha pelo terceiro ano consecutivo. O nome vem de alcachofra, utilizada na receita. São nano, mas também são prata em International Amber & Dark Lager. Não sei se isso é uma análise ou uma opinião, mas se quiser me responder, acho interessante a gente debater o tema.
Então a senhora quer dar opinião? Olha, gente… Tá dureza bancar meus luxos e a vida de “sommeliêzice”. Definição dada à chatice de “só bebe artesanais” dada pelo meu grande amigo Elmer Dantas lá por 2015, quando a gente saía para encher a cara em São Paulo.
Voltando ao que interessa e baseada em experimentações anteriores e/ou opiniões de conhecidos dignos de nosso respeito, selecionei algumas das cervejas que ganharam medalha para que elas não sejam apenas um nome, mas que ganhem alguma vida, uma história:
Medalha de Ouro
Respect, Russian Imperial Stout, da Gro Brewers: a cervejaria “d’en Marc i en Pep”, meus companheiros de associação daqui de Girona. Os caras faziam cerveja, cada um na sua casa. Dois apaixonados por cervejas potentes – seja em tosta, seja em IBU, seja em sabor – resolveram se juntar e criaram a Gro que já tem uns 14 rótulos no mercado e “tá que tá” com as colabs. O “obrador” deles, nome dado à fábricas de cerveja em catalão, que produz receitas de até 1.800 litros cada lote, é fácil de chegar e está com as portas abertas para receber interessados em conhecer as criações deles.
Bruna del Pirineu, Belgian Dark Strong Ale da Poch’s: Castellfollit de la Roca é o nome da cidade onde fica o obrador e taproom do Francesc. Ano passado, pegou prata, mas já são cinco medalhas, sendo três de ouro e a Bruna (morena, em catalão).
Medalhas de Prata
Blumenau CraftLab Grodziskie, Historical Beer da Cervejaria Blumenau: o rótulo levou prata na categoria do estilo que foi destaque no Guia, assim como a Mestres do Tempo Lambic #2, da marca catarinense, no estilo European Sour Ale. Em 2019, a Brotas já tinha ganhado duas medalhas de prata e uma de bronze. Investir em concursos internacionais depois da onda da pandemia, é um realmente um risco, por vários fatores. Mas se vem na mala junto a juízes convidados, essa probabilidade de pouco retorno sobre o investimento é diminuída. O carinho com o qual a amostra viaja é outro, não é mesmo?
Black Block Bourbon 2021, Imperial Stout Wood Aged da La Pirata Brewing: faz umas duas semanas que recebi a sorte de poder sair com vida de uma degustação guiada pelo Aran no B112 de Girona. A primeira servida foi a Imperial Stout base de 11%, sem barrica, “suavona”. Gente boa ela. Sabe aquelas pegadinhas que você se apaixona, mas em seguida vêm mais seis na cola? Pois é… Bourbon, vinho do Empordá, barrica de guardar peruca, barrica de Jerez, rolou uns brownie que ainda não sei se foi real ou sonho… Só sei que chipa, untappers! Eu bebi todas as Black Blocks do rolê. Sou agora uma pessoa que tem a força, sou invencível. Zerei a vida.
Medalhas de Bronze
Sour Power, na categoria European Sour Ales, da Juguetes Perdidos: nunca bebi, mas está como dos meus estilos prediletos e destaco porque pode ser que dê para encontrar por aí. A Juguetes Perdidos, da Argentina, chegou aqui no começo do ano. A hermana levou seis prêmios e eu só não dei destaque em ouro porque, né, argentinos, lamento. E Plata é muito “Rio da Plata”. De clichê digo que colocar a Juguetes como exemplo no bronze não fui eu, “fue la mano de Dios”. Bom, deles bebi a “Gose&Tonic”, com pepino e zimbro. Minha amiga peruana Dessirè, chef de cozinha, amou.
Dessa vez, não foi possível acompanhar a premiação pessoalmente porque concomitantemente ocorria uma feira de cervejas rústicas em Santa Pau, interior da Catalunha. Com o pouco do que conheço daqui, sei como é danado para cervejarias participarem e gostaria de transmitir meus parabéns a cada um dos vencedores de medalhas deste Barcelona Beer Challenge, e, claro, a cada um dos participantes e à organização. Especialmente à Anna Portavella, que corta um dobrado para tudo acontecer.
Também vou pedir desculpas públicas para a Mireia, da Máger. Sou tão atenta a detalhes, que às vezes o óbvio me passa despercebido. Antes de ir embora da Rustic&Wild – feira que me fez perder a premiação do Barcelona Beer Challenge – fui até o estande deles para pedir a gentileza de lavar minha taça para levar para casa. Lavado? Sim, mas saí dali com um chorinho (choríssimo, no superlativo, de presente, nesse caso) de uma garrafa comprida das que tinha lá.
Na pressa para não atrasar minha carona, nem vi o troféu que estava ali, todo lindão, reluzente na minha frente! Gente, que vergonha! Não os parabenizei e ainda tive a honra de beber a principal vencedora do concurso, assim, de presente e sem saber do ouro que era. Mentira, porque tudo deles eu bebo como se fossem gotas do perfume da Vênus, lágrimas da lua cheia, a fonte da juventude, eu sei lá como descrever… Ai, credo, que delícia!
Muitas das cervejas que ganharam são locais. Locais no sentido locais mesmo, só se encontra em um raio de poucos quilômetros de distância das fábricas. E muitas delas, edições especiais. É interessante analisar que quanto mais nova a fábrica, maior o atrevimento para criar receitas, enquanto as pioneiras se mantêm fiéis a estilos já bem aceitos pelo público.
Sabe aquilo de “beba menos, beba melhor”? Pois acredito que o leva “pese menos, desfrute melhor” poderia ser utilizado nesse caso. E “respeita as mina”, não importa onde for.
Quer conferir todas as premiadas no Barcelona Beer Challenge? Clica no link.
*Andreia Gonçalves Ribeiro é mestra em Turismo Cultural Gastronômico e em Patrimônio, pela Universitat de Girona. Sommelière de cervejas pelo ICB e sommelière bartender pela ABS-SP. Mineira e atleticana – caipira hooligan – pesquisa sobre a cerveja e seus fenômenos na Catalunha, onde também estuda Antropologia. Se deixar, “só toma azeda” e tem queda assumida pelas cervejas belgas.
A aproximação da Páscoa, que será celebrada no domingo, inspirou as cervejarias artesanais do país para dobradinhas que unam a bebida a produtos consumidos no período, como o chocolate e o pescado, além da organização de eventos. Assim, neste fim de semana, cervejarias que fazem parte da Rota RJ, na região serrana do Rio, vão realizar tours por suas unidades, além de ofertarem pratos especiais.
Essas ações das cervejarias na Páscoa estão entre os destaques do Menu Degustação desta semana. Ainda em função da data, o CyBEER Lab lançou um kit para celebrá-la. Além disso, a Nacional preparou uma cerveja de cacau para ser consumida no período do feriado.
Também por esses dias, a Ambev colheu a primeira safra de lúpulo do Projeto Fazenda Santa Catarina. E uma parceria da Dogma com o Beercrew busca aliar esporte e qualidade de vida ao consumo consciente de cervejas.
Confira essas e outras novidades no Menu Degustação do Guia:
Cervejarias da Rota RJ se mobilizam na Páscoa Cervejarias da Rota RJ abrirão suas portas para a realização de beer tours, além de oferecerem pratos alusivos ao período da Páscoa neste fim de semana. A Brewpoint, por exemplo, terá passeio guiado pela sua fábrica neste sábado. Já a Bohemia contará com um menu especial para a data neste fim de semana (15 a 17), assim como a Odin. Quem for ao seu casarão poderá aproveitar pratos como peixe inteiro assado e defumado no Pitsmoker, com gremolato e vegetais defumados com páprica e milho assado. Enquanto isso, a Brassaria Matriz oferece, até domingo (17), o Menu Degustação Semana Santa, que conta com ceviche de truta defumada da Quinta das Nascentes com manga, tangerina e limão siciliano.
CyBEER Lab lança kit para celebrar a Páscoa O CyBEER Lab desenvolveu, em parceria com a Art & Gula, um kit para celebrar a Páscoa: duas latas de Hijack Stout de 473 ml, que ganham embalagem especial, acompanhadas por uma barra de 350g de chocolate meio amargo, recheado com Nutella. A bebida é a uma Oatmeal Stout leve, produzida artesanalmente com grist variado, incluindo malte defumado, vienna e aveia. Também conta com a adição de nibs de cacau e notas de uísque, provenientes de chips de carvalho francês banhados em Jack Daniel’s. O kit custa R$ 155,00 e pode ser adquirido na loja física da brewhouse, que fica no bairro de Moema, em São Paulo, ou online.
Cerveja de cacau no feriado de Páscoa Em função do feriado de Páscoa, a Cervejaria Nacional oferece até este sábado (16) a Mula Cacau, nas unidades dos bairros Pinheiros e Tatuapé, em São Paulo. O rótulo temático está disponível no salão e via delivery. A versão comemorativa é uma cerveja com amargor e presença de caramelo. A bebida tem 60 IBUs de amargor e 7,5% de teor alcoólico. No aroma, as notas predominantes são de cacau e chocolate.
Corrida e cerveja Pensando em aliar o consumo consciente de cervejas ao esporte, a Dogma e o Beercrew criaram o Dogma Run Prjct, clube com o objetivo de estimular o consumo consciente, a qualidade de vida e a inserção da corrida na vida das pessoas. O projeto terá acompanhamento de profissionais por meio de planilhas de corrida, com início neste mês e duração até outubro. Ele será dividido em diversos treinos e todos os grupos de corrida serão acompanhados por um professor. Para participar, é necessário pagar uma taxa única, que varia de R$ 260,00 a R$ 300,00, e efetuar o cadastro através do Sympla.
Seminário internacional Com o objetivo de discutir os principais desafios ligados ao desenvolvimento do lúpulo no Brasil, a primeira edição do Seminário Internacional do Lúpulo acontecerá nos dias 19 e 20 de maio, em Paulínia (SP). O evento contará com palestras de especialistas do setor, proporcionando o compartilhamento de experiências e oportunidades entre participantes de diversas localidades. As inscrições já estão abertas e podem ser efetuadas no site do evento, organizado pela Van de Bergen, com patrocínio de Grupo Petrópolis, Brava Terra e Agrofarmpol. Também recebe apoio da Aprolúpulo e de especialistas do setor.
Ambev colhe lúpulo… Após dois anos do início do projeto de fomento e incentivo à produção de lúpulo no Brasil, a Ambev realizou o 1º Festival de Colheita de Lúpulo na Fazenda Santa Catarina, em Lages (SC). E a colheita da primeira safra será destinada para a receita de cervejas locais. O evento aconteceu nesta quarta-feira (13) e ainda inaugurou a fábrica de beneficiamento de lúpulo da Ambev, construída há dois anos.
… e busca startups com foco em impacto socioambiental A Aceleradora 100+, programa de inovação da Ambev, chega à sua 4ª edição e convida startups e empreendedores de impacto socioambiental a apresentarem soluções que unam inovação e sustentabilidade. O objetivo do programa é implementar pilotos que ajudem a companhia e seus parceiros a avançarem em seus compromissos de sustentabilidade para 2025, especialmente os que envolvem mudanças climáticas, embalagem circular, agricultura sustentável, gestão de água, ecossistema empreendedor e Amazônia. Podem se inscrever, até 4 de maio, startups com soluções prontas para serem implementadas e testadas, em fase piloto ou de ida ao mercado. As inscrições podem ser feitas pelo site oficial da iniciativa.
Marca gaúcha conquista mercado na Austrália A Fatbull, de Novo Hamburgo, a primeira microcervejaria gaúcha a ser produzida fora do Brasil, celebra a conquista de mercado. Desde 2020, as cervejas da marca estão sendo feitas em Perth, na Austrália. Em 2021, o volume produzido na capital da Austrália Ocidental cresceu 22% em comparação com o primeiro ano de operação. Para 2022, a meta é ampliar os pontos de venda e entrar na grande rede varejista Liquorland.
Venda de ingressos online para o Festival Brasileiro O Festival Brasileiro da Cerveja abriu a venda online de ingressos para os quatro dias de programação, entre 4 e 7 de maio, na Vila Germânica, em Blumenau (SC). Para a 15ª edição, mais de 80 cervejarias estão confirmadas. O festival acontece em paralelo à Feira Brasileira da Cerveja, que também está com ingressos disponíveis.
O sempre aguardado relatório anual da Brewers Association sobre a produção da indústria trouxe bons resultados para o segmento de cervejas artesanais dos Estados Unidos em 2021. A associação representativa do setor no país apontou expansão de 8% no volume produzido no ano passado na comparação com 2020, atingindo 24,8 milhões de barris de cerveja.
Esse crescimento também se refletiu em aumento da participação das artesanais nos Estados Unidos em volume no mercado cervejeiro, chegando a 13,1%, ante os 12,2% do ano anterior. Isso se deu, também, porque o setor da cerveja em geral teve crescimento de apenas 1% em 2021.
A Brewers Association relata que as cervejarias artesanais dos Estados Unidos forneceram mais de 172.643 empregos diretos em 2021, um aumento de 25% em relação a 2020.
Apesar do resultado considerado positivo, estimulado pela reabertura gradual de bares e restaurantes, a Brewers Association ainda prevê muitos desafios para o segmento ao longo de 2022. Mas também enxerga 2021 como uma recuperação após o primeiro ano desde que iniciou o seu levantamento, em 1980, em que havia ocorrido retração da atividade. “As vendas de cervejarias artesanais se recuperaram em 2021, impulsionadas pelo retorno do chope e das idas às cervejarias”, explica Bart Watson, economista-chefe da associação.
“No entanto, o desempenho misto entre modelos de negócios e questões geográficas, bem como os níveis de produção que ainda estão abaixo de 2019, sugerem que muitas cervejarias permanecem em modo de recuperação. Adicione a isso os desafios contínuos da cadeia de suprimentos e dos preços, e 2022 será um ano crítico para muitos cervejeiros”, acrescenta.
O número de cervejarias artesanais em operação nos Estados Unidos continuou a subir em 2021, atingindo um recorde histórico de 9.118. Ao longo do ano, houve 646 aberturas de cervejarias, com 178 fechamentos. A contagem total de cervejarias em operação foi de 9.247, acima das 9.025 de 2020.
As aberturas diminuíram pelo segundo ano consecutivo, com a Brewers Association enxergando esse declínio contínuo como o reflexo de um mercado mais maduro. “Embora o boom das cervejarias de alguns anos atrás certamente tenha desacelerado, o crescimento contínuo das pequenas cervejarias mostra a base sólida da demanda por seus negócios e cervejas”, avalia Watson.
Além disso, a Brewers Association divulgou sua lista anual das 50 principais cervejarias artesanais produtoras e das cervejarias em geral nos EUA, com base no volume de vendas de cerveja. Das 50 principais empresas cervejeiras em 2021 no país, 40 eram artesanais.
Com números baseados no volume de vendas do ano passado, as principais cervejarias dos EUA permanecem inalteradas em relação a 2020. As cinco primeiras são, em ordem, Anheuser-Busch, o braço da AB InBev no país, Molson Coors, Constellation Brands, Heineken USA e Pabst Brewing.
As cinco principais cervejarias artesanais são DG Yuengling and Son, Boston Beer, Sierra Nevada Brewing, Duvel Moortgat USA, braço nos Estados Unidos da conhecida cervejaria belga, e Gambrinus. Esse Top 5 também não mudou na comparação com 2020.
Para ser considerada artesanal nos Estados Unidos, uma cervejaria deve ter produção anual de até 6 milhões de barris, com menos de 25% da cervejaria sendo de propriedade ou controlada por uma indústria de bebidas alcoólicas produtora de cerveja.
Confira as 50 maiores artesanais dos Estados Unidos em 2021:
Balcão Xirê Cervejeiro: Sejam bem-vindos ao afrobunker de Medida Provisória
Olá, leitores e leitoras do Guia,
Voltei e para fazer um super convite a todos e todas vocês. Vim convidá-lo/as para uma sessão de cinema e vou contar o porquê.
Em 28 de março, recebi um convite da Ambev-Ama (água engarrafada e vendida pela Ambev, que tem “100% dos lucros obtidos com suas vendas revertidos para projetos de acesso à água potável no semiárido brasileiro”) para assistir o filme “Medida Provisória”, trabalho que marca a estreia de Lázaro Ramos como diretor. Quem fez a intermediação para que o convite chegasse em minhas mãos foi a Laura Aguiar. Graças a ela, pude assistir a pré-estreia.
E porque você aí do outro lado deve assistir “Medida Provisória”? Bem, já adianto, sem medo de dizer, que o filme é um novo marco do cinema nacional, um divisor de águas e traz uma nova forma de narrativa para a filmografia brasileira e o audiovisual.
“Medida Provisória” é um filme distópico e com altas doses de realismo, que apresenta personagens como o advogado Antônio (Alfred Enoch), o jornalista André (Seu Jorge), a médica Capitu (Taís Araújo), Kabenguele (Flávio Bauraqui), Gaspar (HIlton Cobra), Elenita (Diva Guimarães) e Berto (Emicida). Vou centralizar nestes e nestas, embora todos e todas mereçam a minha e a sua atenção.
A narrativa se inicia quando o governo brasileiro resolve editar a Medida Provisória 1888, no dia 13 de maio, a qual tem como objetivo enviar todos “cidadãos e cidadãs” de melanina acentuada de volta para o continente africano sob o pretexto de uma suposta reparação histórica. O filme foi inspirado na tragicomédia Namíbia, Não!, de Aldri Anunciação, cujo espetáculo teatral foi dirigido por Lázaro em 2011. A peça, por sinal, foi premiadíssima.
No filme, a medida é imposta de forma compulsória e coloca de cabeça para baixo a vida de Antônio, André e Capitu.
– Antônio é um advogado idealista, um ativista social que luta bravamente contra a imposição arbitrária do governo. E ele encontra uma brecha na lei para resistir à imposição da famigerada medida provisória.
– André é um jornalista e ativista que utiliza das mídias sociais para denunciar ao mundo os abusos praticados pelo governo. Algumas frases ditas por ele se assemelham aos dias que temos vivido: “como é que a gente não viu isso? Como é que a gente deixou chegar a esse ponto? Como é que a gente riu disso?”
– Capitu, esposa de Antônio, é uma médica que acreditava na meritocracia e não discutia as relações raciais, até ser “pega” pela medida provisória.
O filme emociona do início ao fim. Uma das coisas que me tocou foi a política de citação tão bem solicitada por Conceição Evaristo: “Antônio e André” em que pese não tenha sido verbalizado pelo diretor, nos lembra os irmãos Antônio e André Rebouças, ambos, assim como eu e Lázaro, nascidos na Bahia. Se vocês nunca ouviram falar dos irmãos Rebouças, entendo, afinal, vivemos uma política de apagamento intencional dos corpos negros no tecido social. Ou, como costumamos dizer, epistemicídio.
Antônio e André são os primeiros engenheiros que revolucionaram o Brasil. Um dos grandes feitos foi a construção da Estrada da Graciosa, no Paraná. Eles colocaram o Brasil na senda da modernidade e dos avanços tecnológicos. Se temos uma Curitiba moderna, muito se dá pela engenhosidade dos irmãos Rebouças. Além do Paraná, Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina são alguns dos estados que devem sua modernização aos irmãos e gênios da engenharia urbana e portuária.
Seguindo na “política de citação para combater a política de apagamento”, “Capitu” é uma das personagens de Machado de Assis, um dos maiores escritores brasileiros. Até pouco tempo, não se falava que ele era negro.
Kabenguele, personagem interpretado por Flávio Bauraqui, é um nome que nos remete ao grande antropólogo Kabengele Munanga. Encontrei seu filho, o ator Bukassa Kabengele, ao final da sessão de pré-estreia e troquei meia dúzias de palavras.
Berto, interpretado por Emicida, nos entrega uma das cenas mais belas do filme. Ele retira das mãos de um menino uma arma de fogo e coloca um livro. Vivemos num país que mata um jovem negro a cada 23 minutos, um país extremamente letal contra a juventude de “melanina acentuada”, com a política do atual governo voltada para armar a população. Um governo que milita contra a educação e promove políticas contra jovens periféricos para que não acessem o sistema educacional. Assim, a cena do livro é um chamamento à sociedade, a uma política de acesso e afeto possível aos corpos construídos socialmente para não existir.
Elenita é interpretada por Dona Diva Guimarães. Guardem esse nome, prestem atenção na atuação dessa grande Griot. Em 2017, durante a Flip (Festa Literária de Paraty), cujo homenageado foi Lima Barreto, Dona Diva fez um dos relatos mais emocionantes, deixou todos os presentes sem chão e nos levou aos prantos. Eu e meu filho estávamos lá, quando ela, durante a mesa de apresentação de Lázaro Ramos, pediu a fala. Choramos todos e todas, incluindo Lázaro.
Desde aquele dia, ele e Diva não se desgrudaram mais. Dona Diva, é uma das maiores defensoras da educação, e sobretudo, dos jovens negros, negras e dos jovens pertencentes aos povos originários, algo que deixou visível na sua fala em Paraty (vejam o vídeo, está disponível no YouTube).
Já HIlton Cobra interpreta Gaspar. Ouvi sobre ele pela primeira vez em 2017, quando, em uma mesa da Flip, Lázaro fez um convite ao público para que assistisse a peça “Tragam-me a cabeça de Lima Barreto”. Peça na qual Cobra interpretava o autor de Triste Fim de Policarpo Quaresma e outras obras. Nela, Hilton demostrava como o racismo científico e os eugenistas tratavam Lima.
Lázaro Ramos faz de “Medida Provisória” um chamamento para o resgate da humanidade aos brancos, que a perdem ao não reconhecerem a humanidade das pessoas negras. O filme olha para o passado do Brasil que a “história não conta”, descortina o presente e nos convoca para construir um futuro em que todos e todas possam estar inseridos de forma igualitária na sociedade brasileira.
Conseguimos observar esse mundo possível através dos personagens trazidos por ele, os personagens negros. Diferentes dos que já foram retratados no audiovisual brasileiro, têm nome e sobrenome, bem do jeito que Lélia Gonzáles nos ensinou. Têm família, têm profissões, são médicos, advogados, jornalistas, professores. Fogem dos estereótipos que estamos cansados de ver. Não estão limpando o chão, não estão fazendo segurança do espaço (nada contra essas profissões, mas por que corpos negros sempre estão nesse lugar?).
Lázaro constrói outra narrativa. Os personagens não são bandidos, todos têm fala e falam por si. É a verdadeira expressão da música tema cantada pela nossa Orí-Presença, Elza Soares, que grita que “meu país é meu lugar de fala”. Os corpos negros não sangram.
Uma das cenas mais poéticas envolve o casal Antônio e Capitu. A câmera foca nos olhos dos personagens. É pelo olhar que eles se reconhecem, se acarinham, se afagam, sonham, transbordam afeto e afetividade, jorram amor. É uma das cenas mais encantadoras e líricas que já vi no cinema. Os olhos dos personagens dançam no mesmo ritmo, na mesma harmonia. E a beleza reina.
Lázaro nos mostra que não é preciso tirar a roupa ou hiper sexualizar corpos negros para chamar a atenção do público. Ele humaniza corpos negros. Houve cuidado e delicadeza na condução da cena, a qual, se transformou na minha favorita da vida.
A lição que “Medida Provisória” nos dá, entre tantas, é que a partir desse marco, qualquer pessoa que esteja à frente de projetos no audiovisual brasileiro, como já bem nos lembrou Maíra Azevedo (Tia Má), não pode dizer de que não existem atores e atrizes negros e negras para atuar em suas produções. Abro um parêntese e aproveito para deixar um recado para o mercado cervejeiro: contratem pessoas negras, somos mais de 56% da população e precisamos ter equidade em todos os espaços.
Abdias Nascimento com o TEN (Teatro Experimental do Negro), um trabalho iniciado no final da década de 1940, Zezé Mota, com seu álbum/catálogo com fotos com atores e atrizes negros e negras, um projeto que iniciou em 1984, e Beatriz Nascimento, em Orí, filme de 1989, já haviam materializado o impecável trabalho que Lázaro continuou.
Outro ponto que o filme nos revela é que não precisamos ver negros e negras interpretando papeis de subalternidade.
Medida Provisória, era para ter estreado em 2019 no Brasil, mas, foi, mas palavras de Lázaro, censurado pelo governo federal. Porém, após longos anos de burocracia, chega aos cinemas de todo Brasil hoje (14).
É importe que assistamos nessa primeira semana, para que o filme alcance bons índices. Dito isso, vejam “Medida Provisória”. Vá com todos os cuidados que o momento ainda requer, usem máscara, álcool gel, mantenham o distanciamento e divulguem o filme sem moderação. Sejam bem-vindos e bem-vindas ao afrobunker, vocês irão se emocionar do início ao fim.
Sara Araujoé graduada em Ciências Jurídicas, pela Instituição Toledo de Ensino (Bauru-SP), atuando na área de execução penal. É graduanda em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Maringá (PR), pós-graduanda em História da África e da Diáspora Atlântica pelo Instituto Pretos Novos do Rio de Janeiro, sommelière de Cervejas pela ESCM/Doemens Akademie e criadora e gestora do @negracervejassommelier.