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Inclusão e preconceito: O que 4 especialistas pensam sobre diversidade no setor

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É provável que, olhado com um distanciamento histórico que em alguns momentos é necessário para a melhor compreensão dos fatos, o ano de 2020 seja lembrado como um marco da luta pela diversidade dentro do setor cervejeiro. Afinal, ao mesmo tempo em que se escancararam casos abomináveis de preconceito, algumas reações demonstraram que o processo de mudança não será facilmente freado. E que essas atitudes não podem ser mais toleradas.

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A exposição de casos de preconceitos, seja contra marcas, como a Implicantes, ou figuras atuantes no segmento, também trouxe consequências, reflexões e ações. Foi dessa forma que se lidou com um cenário adverso, colocando a diversidade, a inclusão e a equidade como temas prioritários do debate dentro do setor cervejeiro.

A Associação Brasileira da Cerveja Artesanal (Abraceva) passou por uma mudança de diretoria e elegeu uma mulher, negra e nordestina, Nadhine França, para a sua presidência. Já em outra importante ação para fomentar a diversidade, o coletivo AfroCerva foi criado, tendo o intuito de lutar por equidade racial dentro do setor cervejeiro, a partir da capacitação e da profissionalização.

Além disso, a pauta antirracista ganhou valorização, passando a ser tema de aulas, seminários e debates. E a atuação coletiva de combate aos preconceitos ganhou destaque.

Para discutir os efeitos dos acontecimentos de 2020 sobre diversidade dentro do setor cervejeiro e o rumo que esse tema fundamental terá no ano recém-iniciado, o Guia ouviu quatro especialistas sobre o assunto. Confira as análises.

Como avalia o ano de 2020 para a diversidade dentro do setor cervejeiro? Quais os impactos que a exposição de casos de preconceito trouxeram ao segmento? Como foi possível lidar com esse cenário?

Cilene Saorin (Sommelière, mestre-cervejeira e diretora da Doemens Akademie no Brasil)
A pandemia trouxe ao Brasil e ao mundo não somente uma crise de saúde pública. Trouxe também uma crise econômica exaustivamente discutida e uma crise ética-social quase sempre negligenciada. A fragilidade ética ficou escancarada e algumas pessoas se superaram em comportamentos hostis.
Sem que vivêssemos a usual dispersão do cotidiano pré-pandemia e, ao contrário, tendo de lidar com o distanciamento social e a conexão exclusivamente virtual, o momento de exposição, discussão e reflexão sobre a estupidez humana finalmente chegou. Creio que tenha sido a primeira vez que a comunidade cervejeira brasileira se reuniu fortemente em torno do tema diversidade, inclusão e equidade.

Diego Dias (Fundador da Implicantes)
A diversidade ainda é bem escassa. E infelizmente ainda é motivo de chacota no meio cervejeiro, tanto que ocorreram casos em grupos privados de cervejeiros. Ainda é preciso lidar com isso. E só vai conseguir a partir do momento em que todo mundo notar que existe racismo, homofobia, misoginia neste meio, entre outros preconceitos. E quando todo mundo entender, escutar e realmente fizer ações afirmativas para combater esses problemas. Só vamos conseguir mudar a partir do momento em que as pessoas admitirem seus preconceitos. Eu acredito que a gente ainda vai lidar com isso por uns bons anos, infelizmente.

Madu Victorino (Coletivo Pretas Cervejeiras, pesquisadora em biotecnologia)
2020 foi um ano que exigiu muito de todos nós. Expôs nossa fragilidade enquanto espécie, provou que muitas das nossas prioridades estavam equivocadas e deixou claro que absolutamente tudo está conectado. O setor cervejeiro não é uma ilha. Apesar de possuir diversas peculiaridades, é estruturado por uma sociedade racista, elitista, misógina, LGBTfóbica e, consequentemente, reflete tudo isso.

A exposição dos casos evidenciou aquilo que há muito tempo já era denunciado pelas minorias do setor cervejeiro, coincidindo com um momento histórico em que estas pautas estão sendo amplamente debatidas e comportamentos que até pouco tempo atrás eram tolerados, estão sendo rechaçados.

Para lidar com esse cenário, precisamos voltar às nossas raízes e fazer uso de uma tecnologia ensinada por nossos ancestrais: o aquilombamento! Transformamos coletivamente o nosso luto em luta e nos unimos, a fim de elaborar melhor o ocorrido, nos fortalecer coletivamente e pensar em formas de colaborar para a construção de um setor (e sociedade como um todo) mais justos. Assim nasce a Afrocerva, um coletivo formado por profissionais negros do mercado cervejeiro, que tem como sua principal bandeira a igualdade racial e visa a profissionalização e capacitação de pessoas negras.

Sara Araujo (Sommelière)
2020, em relação aos outros anos, não foi muito diferente. Corpos como o meu, pretos, sempre foram lidos como não pertencentes ao espaço entendido como artesanal. Essa ausência era objeto de questionamento. Eu fui uma das pessoas a questionar. O impacto às vítimas foi grande. Eu sofri muito e ainda não superei.

No que tange ao mercado, tivemos casos explícitos como o da Dogma no final de junho, o caso da Implicantes e o meu, o que rendeu a saída do presidente da Abracerva. Lembrando que houve caso de machismo no setor, oriundo da mesma vertente que direcionou os comentários racistas a mim e a Implicantes. No caso da Dogma, ela tomou uma atitude louvável, contratou pessoas negras para fazer consultoria. Promoveu ações afirmativas, financiando bolsas para diversidade étnica.

Em relação aos outros casos, tivemos a eleição da presidência da Abracerva, que levou pela primeira vez uma mulher negra e nordestina à presidência. Isso é um marco histórico. É importante pontuar esses marcadores sociais tão desprezados socialmente. Penso que foi uma resposta das pessoas que acreditam de verdade que a cerveja não combina com desigualdade e opressões e deram uma resposta à altura a quem não compreendeu que violência não cabe nesse universo. Aliás, não cabe em lugar algum.

Mas sabemos que nem tudo são flores, há notícias de que várias pessoas se desfiliaram da Abracerva e estão montando outra associação. Isso mostra que nem todo mundo está disposto a mudar e quem perde é o mercado e toda a sociedade, porque o mundo mudou e o comportamento segregatório não será mais tolerado.

Quais aprendizados e ações concretas o setor deve levar para 2021? O que esperar para o setor em termos de diversidade para este ano?

Cilene Saorin (Sommelière, mestre-cervejeira e diretora da Doemens Akademie no Brasil)
Bons frutos já surgem e ainda hão de surgir das inúmeras conversas apresentadas ao longo do ano sob diferentes perspectivas. A pauta diversidade, inclusão e equidade seguirá sendo imperativa. O povo brasileiro é multicolorido na pele, no amor e na fé. A comunidade cervejeira brasileira deve aprender a coexistir e a prosperar na pluralidade.

Diego Dias (Fundador da Implicantes)
Muitas pessoas que achavam que a nossa luta antirracista, da Implicantes, era “mimimi”, vitimista, viram que realmente existe racismo. Que ele é cruel. O pior racismo que tem é o estrutural, aquele que todo mundo acredita que não seja racista, mesmo sendo e tomando atitudes racistas. E é o mais difícil de combater.

O que espero para o setor é que a Afrocerva, a qual eu sou um dos fundadores, faça o seu papel com a questão de educação, de combate, e que as cervejarias entendam que a luta antirracista não é somente postagem de uma foto preta, ou o uso de hashtags ou compartilhar alguma personalidade negra. Não é somente “eu tenho um preto aqui na minha cervejaria”. Qual posição esse preto está? Na liderança ou subalterno? Temos de refletir para ter realmente uma equidade, uma representatividade e diversidade neste meio.

Madu Victorino (Coletivo Pretas Cervejeiras, pesquisadora em biotecnologia)
Se me contassem lá em 2015, quando comecei a me interessar por cervejas, que estaríamos tendo essa conversa, eu provavelmente não acreditaria e isso já é um sinal de mudança. Em passos lentos, mas mudança. Não existe futuro fora daquilo que construímos no presente. O que espero que seja levado para 2021 é um compromisso real com a pauta antirracista, com a valorização de vozes e experiências diversas. Que a diversidade seja incorporada à cultura das empresas e organizações e traduzidas em ações concretas.

Sara Araujo (Sommelière) 
O mercado aprendeu muito, tivemos a criação da Afrocerva, um coletivo de profissionais negros que estão dispostos a lutar por um mercado mais democrático e justo. Tivemos também a manifestação de diversos setores da cadeia cervejeira se posicionando contra as opressões, principalmente, contra o racismo. Escolas levando a temática para sua grade de ensino, lives de conscientização, webinares com temática voltada para diversidade. Nunca se falou tanto sobre o tema, que era tabu no meio cervejeiro. Vejo um movimento do mercado para treinar os profissionais para diversidade.

Isso é ótimo, toda sociedade ganha. O mundo cervejeiro está compreendendo que a diversidade é salutar e que todos ganham com ela, um exemplo, é o caso da Fundação Michael Jackson, criada em 2020 e gerenciada pelo mestre-cervejeiro Garret Oliver. Espero que o mercado fique atento a tudo isso e que coíba de forma veemente atos como o ocorrido em 2020.

Dalla renova linha de cervejas em garrafas de vidro em parceria com a Verallia

A Dalla Cervejaria iniciou o ano com uma boa novidade: repaginou o seu portfólio de rótulos. A marca catarinense alterou a linha de garrafas a partir de uma parceria firmada com a Verallia, umas das principais fabricantes de embalagens de vidro para alimentos e bebidas do mundo.

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Com esse acordo, a Dalla Cervejaria renovou o formato do seu portfólio de cervejas dos estilos Pilsen, IPA, triplo malte e Weiss, agora envasadas em garrafas de vidro fornecidas pela Verallia nos formatos de 355ml (long neck) e de 500ml (premium).

“Escolhemos a Verallia para envasar nossas cervejas Pilsen, IPA, triplo malte e Weiss por indicação de outros players do mercado. A empresa nos proporcionou um excelente atendimento”, explica Braulio Dalla Vecchia, CEO da marca catarinense.

A garrafa long neck de 355ml fornecida pela Verallia para a Dalla pesa 190 gramas e possui fechamento twist-off, que permite uma abertura ágil e prática, facilitando a vida do consumidor. Já a premium, de 500ml, teve o seu design inspirado nas cervejarias inglesas, de acordo com a sua fabricante.

Saiba mais sobre a Verallia em nosso Guia do Mercado

Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria da Cerveja (CervBrasil), a produção de garrafas de cerveja no país supera a marca de dois milhões de unidades, o que representa mais da metade do que chega à mesa do consumidor. No caso das cervejas da Dalla, elas podem serem encontradas para venda na região Oeste de Santa Catarina.

Balcão do Tributarista: Novo ano, velhos problemas tributários

Balcão do Tributarista: Novo ano, velhos problemas tributários

Esperava-se que 2020 fosse marcado pela reforma tributária. Contudo, o ano foi marcado pela pandemia, sob a qual ainda vivemos, e pela manutenção do sistema tributário que fez com o que o Brasil aparecesse no 184º lugar de um ranking com 190 economias divulgado pelo Banco Mundial (Doing Business 2020).

A elevada carga tributária imposta aos que se dedicam a praticar alguma atividade econômica, bem como a pesada tributação do consumo, além da grande complexidade do nosso sistema tributário, que demanda, segundo o mesmo relatório do Banco Mundial, mais de 1.500 horas (ou 62 dias) por ano apenas para o cumprimento das chamadas obrigações acessórias (como o preenchimento de declarações e outros documentos fiscais), podem ser apontadas como as principais causas do tão falado “custo Brasil”, que rotineiramente aparece em manchetes atrelado ao fechamento de empresas.

Exemplo das dificuldades decorrentes da complexidade de nosso sistema tributário tem sido verificado por muitos contribuintes que recentemente passaram a receber cobranças da Receita Federal do Brasil referentes a tributos que estão em dia e, em alguns casos, até mesmo sendo multados, mesmo cumprindo todos os prazos de pagamento. É que, como foi amplamente divulgado como medida de combate à crise econômica desencadeada pela pandemia, no primeiro semestre do ano passado o governo prorrogou a data de pagamento de diversos tributos. E agora, mesmo pagando os tributos dentro dos novos prazos, prorrogados, ainda assim muitos contribuintes têm sido penalizados como se estivessem em atraso com suas obrigações.

Outro exemplo é a perspectiva de que o novo imposto a incidir sobre transações digitais, o qual o governo federal pretende instituir neste ano, seja levado à discussão e votação no Congresso Nacional já agora, no mês de fevereiro, e independentemente das discussões pertinentes à reforma tributária. É caso que exemplifica bem os velhos problemas tributários que enfrentamos: ao invés de se otimizar o sistema vigente, o que geraria benefícios tanto para contribuintes, quanto para o Fisco, busca-se a instituição de um novo tributo como prioridade, deixando novamente a reforma tributária para momento posterior.

E a reforma tributária, aliás, é novamente apontada como prioridade para o ano de 2021 (assim como aconteceu no início de 2020, de 2019…). Espera-se que seja realmente discutida com a profundidade e a atenção que merece, a fim de que efetivamente traga mudanças que possam simplificar o sistema, diminuindo o custo tributário e, consequentemente, o custo Brasil, ainda que sem a redução de carga tributária efetiva.

Para os contribuintes do setor cervejeiro, como já tivemos a oportunidade de comentar em duas oportunidades, é de se ressaltar a importância para que fiquem atentos aos chamados impostos seletivos (IS) que possam vir a ser instituídos, já que há a possibilidade de que estes incidam de forma a onerar mais determinados setores, como o de bebidas alcóolicas.

Enfim, mais um novo ano se inicia e, infelizmente, novamente acompanhado pelos mesmos problemas tributários, deixando ainda mais clara a importância de que os contribuintes estejam sempre atentos às discussões e alterações no sistema tributário.


Clairton Kubaszwski Gama é advogado, sócio do escritório Kubaszwski Gama Advogados Associados. Especialista em Direito Tributário pelo IBET e mestrando em Direito pela UFRGS. Também é cervejeiro caseiro

Entrevista: ‘Somos a maior cervejaria do país, se o setor se eleva, vão todos juntos’

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Fomentar o crescimento do setor cervejeiro a partir da unificação de conhecimento, iniciativas e diferentes escolas, permitindo a maior profissionalização das atividades. Foi com essa premissa que a Ambev, a maior companhia do segmento no país, decidiu procurar e se unir a algumas das principais instituições de ensino do setor para criar a Academia da Cerveja, como explica Alexandre Esber em entrevista exclusiva ao Guia.

Gerente de conhecimento e cultura cervejeira na Ambev, Esber iniciou há cerca de um ano o desenvolvimento do plano de unificar atividades educativas realizadas de modo esparso pela marca. Para isso, se juntou a algumas das mais importantes escolas cervejeiras do país, como a Escola Superior de Cerveja e Malte, o Instituto Ceres e o Instituto Marketing Cervejeiro, além da VLB Berlin, da Alemanha, viabilizando a Academia da Cerveja.

Apresentada ao mercado em dezembro, a instituição iniciou as suas atividades na semana passada com um primeiro webinar, do cientista inglês Charles Bamforth. E foi só o primeiro passo da Academia da Cerveja, que inicialmente vai operar online, mas que, até maio, prevê a inauguração de um espaço físico em São Paulo.

Lá, em um mesmo local, serão ministrados cursos das diferentes escolas parceiras da Ambev, sob a expectativa de atingir 2 mil estudantes em seu primeiro ano de atividades. Entre eles, estarão de curiosos a adquirir maior conhecimento cervejeiro a profissionais do setor em busca de novos aprendizados para suas carreiras.

Da junção desses grupos, a cervejaria espera estimular um mercado mais profissionalizado, além da ampliação de ações inovadoras, crescendo junto a um segmento que ainda tem muito potencial para expansão. “(Queremos) democratizar o conhecimento cervejeiro no país, trazendo novas abordagens, fazendo o ecossistema crescer como um todo”, afirma Esber.

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Confira os planos da Academia da Cerveja e quais serão suas primeiras atividades em 2021 na entrevista de Alexandre Esber, gerente de conhecimento e cultura cervejeira da Ambev, ao Guia:

Como surgiu a ideia de criar a Academia da Cerveja?
Já tem vários anos que começamos a fomentar ideias de conhecimento cervejeiro, com o Beer Talks, que não era algo comum. Abrimos as cervejarias para visitas guiadas. Em 2019, recebemos quase 90 mil visitantes, que conheceram mestres-cervejeiros. Fizemos cursos de consumidores, de educação cervejeira em várias capitais, falando de cevada, lúpulo. Começou a fazer sentido unir todas essas iniciativas para compartilhar para fora. A gente pode chamar mais gente para o jogo.

Como se definiu esse modelo na Ambev de se juntar a renomadas escolas para criar a Academia da Cerveja?
Vem se conversando há mais de um ano. Em 2019, chamamos as escolas e nossos especialistas internos e vimos que esse é um modelo que faz sentido. A gente não sabe se vai ser perfeito, mas acredita que é um modelo para democratizar o conhecimento cervejeiro. Há 5 anos, você não venderia um Catharina Sour para um supermercado. Faz parte da construção do público, do especialista ao consumidor. Agora temos o lugar para amplificar e fazer mais gente entrar.

Qual é o público-alvo da Academia da Cerveja e quantas pessoas vocês esperam alcançar no primeiro ano?
É bem abrangente. A ideia é dialogar com todos os públicos. A gente quer atingir mais de 2 mil alunos nesse ano nas nossas experiências. Temos, claro, incertezas, até por causa da pandemia. Mas a ideia é essa, com os perfis do iniciante, do meio e do mais profissionalizante.

Onde será a sede física da Academia da Cerveja e quando ela estará operando?
Estamos trabalhando na implementação da sede física em São Paulo, no bairro de Pinheiros. Vamos fazer a adequação para ter aula, com espaço para nanocervejaria, para aulas práticas, ampliando o repertório de experiências que podemos trazer, e ainda com um espaço de convivência. Estamos prevendo inaugurar entre abril e o início de maio, mas muito atrelado ao momento em que as atividades presenciais puderem acontecer. Há atividades que fazem mais sentido presencialmente, como curso de sommelieria.

Enquanto não é possível abrir um espaço físico, a Academia da Cerveja vem oferecendo conteúdo online. O que o público já tem à disposição?
A programação online está dividida em dois tipos. Há os cursos com grade fixa, que vão dos mais básicos, como introdução à cerveja, que são gratuitos. Quando se avança para cursos como tecnologia cervejeira, aí é cobrado, para manter os custos com professores e manutenção do espaço. A grade móvel receberá palestras, webinares, variando de acordo com o que fizer sentido para o mercado e for relevante. Temos cursos agendados para consumidores, na ideia inicial de ser menos profundo e mais abrangente. É um curso chamado Introdução ao Mundo da Cerveja, sendo online e ao vivo com um mestre-cervejeiro, de 1h30, sobre a história da cerveja.

E os cursos com parceiros? Quando irão começar?
Em fevereiro, teremos cursos mais técnicos com a VLB Berlim, com a chancela e o material, frutos dessa parceria. Os professores treinaram lá, o material didático foi traduzido e adaptado para o português, com a adoção de temas mais locais, como, por exemplo, cerveja sem álcool.

Como se dará essa parceria com a VLB e com as demais escolas cervejeiras parceiras da Ambev nesse projeto?
O grande trunfo é estar aberto para ouvir, por isso estamos com o Ceres, o Instituto Marketing Cervejeiro e a Escola Superior de Cerveja e Malte. A ideia é trazer, além desses especialistas, profissionais de atuação no mercado cervejeiro. A gente não acerta tudo na saída. O importante é ouvir os players para tirar parcerias e modelos para um espaço colaborativo, que vai ser físico, no centro econômico do país para trazer escolas e seus profissionais para compartilhar experiências.

Qual é a participação da Ambev nos cursos oferecidos pelas escolas parceiras? Elas são independentes para definição de conteúdo e professores participantes?
Os conteúdos são todos das escolas. Vamos abrir o espaço e estar atentos para as possibilidades de aprendizado. Queremos valorizar a independência das escolas, o público que elas cativaram, o papel delas no mercado cervejeiro. Não tem interferência. Claro que podemos juntar forças com nos profissionais para dar cursos conjuntos.

Quais são as vantagens de unir diferentes instituições de ensino cervejeiro e diferentes cidades em um espaço físico e em São Paulo?
Ter um espaço físico é importante, traz facilidades. Amplifica a atuação das escolas e ajuda a democratizar. Algumas escolas não estão presentes em São Paulo. As escolas acharam que cursos presenciais fazem mais sentido porque já possuem bom trabalho online. Queremos dar mais espaço e voz. Quanto mais pessoas falarem, quanto mais interessados em cerveja, isso fortalece a categoria.

Haverá políticas de inclusão nos cursos da Academia da Cerveja? Quais?
Nos cursos pagos, vamos destinar de 10% a 15% de bolsas para vulnerabilidade socioeconômica, inclusão racial e de gênero. Estamos montando os critérios. Também estamos conversamos com o grupo interno de inclusão de diversidade racial, que nos guia sobre ações afirmativas. A primeira é ter as cotas para as pessoas, por democratizar de saída.

Quais são os benefícios para a Ambev com a criação da Academia da Cerveja?
Ouvir o que tem sentido. Estamos em uma fase mais de escutar o mercado, elevar a categoria como um todo. Somos a maior cervejaria do país, se a categoria se eleva, vão todos juntos. A troca com o mercado cervejeiro é fundamental para ver tendências, novas parcerias, novos pontos de vista que auto-centradamente nós não enxergaríamos. A gente tem se reinventado e em 2020 ainda mais, com o Zé Delivery e o Empório da Cerveja se abrindo para as cervejarias artesanais. Abrimos as portas da Bohemia para cervejarias ciganas. Dá gosto de conversar com eles, ouvir suas ideias disruptivas.

Como espera que a Academia da Cerveja seja vista pelo mercado?
Um espaço colaborativo onde é possível democratizar o conhecimento cervejeiro no país, trazendo novas abordagens, fazendo o ecossistema crescer como um todo.

Festival e Feira da Cerveja são adiados; Concurso é mantido para março

Apesar do início da vacinação no Brasil contra o coronavírus, a pandemia continua afetando a agenda de eventos do setor. Nesta terça-feira, a Associação Blumenauense de Turismo, Cultura e Eventos (Ablutec) anunciou o adiamento do Festival Brasileiro da Cerveja e da Feira Brasileira da Cerveja, que estavam previstos para março. Mas confirmou a realização da 9ª edição do Concurso Brasileiro de Cervejas na data prevista. Os eventos iriam ocorrer paralelamente.  

De acordo com a Ablutec, o Concurso Brasileiro de Cervejas, que conta com a coordenação técnica da Escola Superior de Cerveja e Malte, será realizado entre os dias 6, 7 e 8 de março no Parque Vila Germânica, em Blumenau, reabrindo o calendário do setor, paralisado em função da pandemia do coronavírus.

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Após o adiamento, os organizadores trabalham com a perspectiva de realizarem o Festival Brasileiro da Cerveja e a Feira Brasileira da Cerveja no início do segundo semestre deste ano.

A Ablutec também destacou que o Concurso Brasileiro de Cervejas foi mantido por não ser um evento aberto para o grande público. Assegurou, ainda, que contará com todos os protocolos de segurança sanitária.

As inscrições para o Concurso Brasileiro de Cervejas se encerram nesta quarta, através do site do evento.

Sobre o CBC
O Concurso Brasileiro de Cervejas é considerado um dos principais do mundo, sendo o maior na América Latina. O encontro de 2020 foi o último concurso nacional de cerveja realizado antes da pandemia. E contou com a participação de 634 marcas, com 3.284 amostras inscritas.

Na edição 2021, além da premiação, as avaliações e comentários dos juízes ficarão disponíveis para que os inscritos possam melhorar os seus processos produtivos. E houve renovação de 40% do conselho consultivo criado para a organização, buscando aumentar a representatividade dos grupos sociais, abrindo mais espaços para mulheres, negros e representantes da comunidade LGBT+.

Sobre o Festival e a Feira
O Festival Brasileiro da Cerveja e a Feira Brasileira da Cerveja, normalmente, também são abertos ao público e realizados junto ao CBC.

O festival traz mais de mil produtos do universo da cerveja artesanal nacional. Já a feira é voltada para profissionais e reúne empresas nacionais e internacionais que produzem insumos, produtos, serviços e tecnologia para o setor.

Com lei seca, SAB cancela aporte de R$ 1,4 bi e amplia conflito na África do Sul

As medidas restritivas adotadas pelo governo da África do Sul durante a pandemia do coronavírus, incluindo a proibição da venda de bebidas alcoólicas, têm irritado e provocado críticas e conflitos com a maior cervejaria do país, a South African Breweries (SAB). Nas últimas semanas, a marca anunciou o cancelamento de investimentos de US$ 265 milhões (aproximadamente R$ 1,4 bilhão), além de ter anunciado que iria à Justiça contra a lei seca.

A África do Sul registrou, até a última segunda-feira, 37.105 mortes pelo coronavírus. E uma nova variante da doença foi descoberta no país na semana do Natal, tendo múltiplas mutações, além de ser associada a uma maior carga viral, causando preocupação nas autoridades sanitárias.  Até por isso, no fim de 2020, o governo da África do Sul impôs, pela terceira vez no período de um ano, a proibição total da venda de bebidas alcoólicas.

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Tendo a medida como justificativa, a SAB anunciou o cancelamento do investimento de US$ 265 milhões (R$ 1,4 bilhão) nas suas instalações na África do Sul. Com o corte, a cervejaria deixará de utilizar os recursos em melhorias nas suas fábricas, como em novos maquinários e sistemas operacionais.

A medida do corte de investimentos já havia sido adotada pela SAB, uma subsidiária do grupo multinacional AB Inbev, em agosto, quando o governo sul-africano impôs a segunda proibição da venda de bebidas alcoólicas desde o início da pandemia do coronavírus.

“Dado o impacto material que esta terceira proibição da venda de álcool tem em nosso negócio e a possibilidade de novas proibições, não temos escolha a não ser interromper esses investimentos”, destaca Richard Rivett-Carnac, vice-presidente de finanças da SAB, que possui cervejas renomadas no país, como a Castle e a Carling Black Label.

Já o presidente da África do Sul, Cyril Ramphosa, se disse “preocupado” com a decisão da SAB. “A South African Breweries é uma importante empresa em nosso país, há mais de 100 anos. E obviamente estamos preocupados que eles tenham tomado esse tipo de decisão”, lamenta.

Ramphosa, porém, ressaltou a necessidade de adoção da lei seca na África do Sul para ter mais leitos hospitalares disponíveis durante a pandemia do coronavírus. “Vimos como a proibição do álcool por um período resultou na abertura de vagas em nossos hospitais. E a utilização de leitos hospitalares por pessoas que vêm de traumas, como acidentes, esfaqueamentos induzidos por álcool e assim por diante, estão ocupando leitos hospitalares que são muito necessários para lidar com a Covid-19.”

Recentemente, também durante o terceiro período da lei seca na África do Sul, a SAB havia anunciado a intenção de acionar a Justiça contra a medida governamental por considerá-la inconstitucional, mantendo o tom crítico diante das políticas proibitivas adotadas durante a pandemia do coronavírus.

Atuação ampliada e mais produtos: Os planos da indústria cervejeira para 2021

Os efeitos duradouros da pandemia do coronavírus sobre a sociedade forçaram adaptações que modificaram operações e ainda afetam os diferentes setores da economia nas primeiras semanas do ano. Ainda sob os efeitos do difícil 2020, os fornecedores da indústria cervejeira fazem projeções para 2021 com dois focos principais: a ampliação do campo de atuação e dos produtos oferecidos e o fortalecimento de parcerias. A isso soma-se planejamento e inovação. Além da inteligência emocional para lidar com as incertezas.

Entre os desafios, os fornecedores terão de garantir a segurança dos funcionários e dos clientes enquanto aprimoram seus canais de comunicação, elaboram novas estratégias, parcerias e soluções para se manterem ativos e saudáveis no mercado.

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Heitor Wermann, sócio-proprietário da gaúcha Smart Mash, que desenvolve soluções tecnológicas para precisão e segurança nos processos de produção de cerveja, destaca a aposta na inovação e em novidades. “Pretendemos seguir o plano de 2020 e, paralelamente, lançar novos produtos para atender outras etapas como fermentação.”

É uma visão parecida com a apresentada pela M&P Facility Services, empresa com experiência em facilitação para feiras e eventos, mas que decidiu expandir a sua presença no mercado com a oferta de serviços terceirizados e de soluções de segurança, aos quais migraram durante o início da crise, obtendo bons resultados no ano passado, como relatam os sócios-proprietários, Michel Gervasoni e Patrícia Lopes. “Abriu um horizonte antes não considerado e que nos trouxe resultado satisfatório o suficiente para investirmos nestes departamentos,” comentam.

Na Zero Grau, por sua vez, o foco do planejamento e os principais investimentos na retomada em 2021 deverão estar em parcerias. A ideia da empresa é ser um ponto de apoio que fornece desde informações sobre produtos até modelos de negócios para seus clientes na indústria cervejeira.

“Estamos fazendo um movimento ousado perante o mercado para 2021 que vai desde melhorias industriais ao lançamento de novos produtos em nichos de mercados que achamos relevantes e promissores”, explica o coordenador de marketing da Zero Grau, Leandro Spaniol.

Fortalecer parcerias entre os próprios fornecedores também é um dos melhores caminhos para o setor trilhar em 2021, de acordo com a avaliação de Bruno Lage, sócio-proprietário da Label Sonic. Para ele, isso será um desafio contínuo e intensificado no ano recém-iniciado.

“E parceria significa ser generoso nas soluções de problemas e também nos bons resultados, quando houver. Da mesma forma, entender mais a dinâmica de consumo dos nossos clientes para antecipar as demandas”, esclarece Bruno Lage.

Foi apostando na inovação que a Damek, fornecedora de fermentadores plásticos, resolveu investir em tecnologia no ano passado. Ampliando a automação de sua fábrica, Fabio Joel, técnico projetista, explica que verificou um grande impacto nos processos. Um caminho que será reforçado em 2021.

“Nos fez enxergar as mudanças necessárias para que nossa produção ao longo de crises como essa não fosse tão afetada”, aponta Fabio Joel. “Nossa empresa está engatinhando ainda e, para o ano de 2021, esperamos que nossos esforços ao longo de 2020 sejam refletidos em atendimento e produção.”

Já para Bento Ferreira, sócio-proprietário da Agência Alvo, a palavra de ordem neste ano vai ser planejamento. “Com muito planejamento, acreditamos que 2021 será um ano de superação para continuarmos atendo ao mercado cervejeiro.”

Os fornecedores também destacam que a crise trouxe desafios no ano passado para as empresas da indústria cervejeira, que precisaram lidar com situações emergenciais, afetando pontos estratégicos das suas operações. Um cenário que afetou até aspectos emocionais, o que foi um aprendizado que será utilizado agora, como relata Nelson Karsokas Filho, sócio-proprietário da Porofil.

“Não deixar o pessimismo passar da porta para dentro da Porofil foi algo que fez a diferença e que pretendemos adotar como premissa”, destaca Nelson Karsokas Filho.

E, na Hoplog, Luciano Demattio, seu fundador, também defende que a inteligência emocional foi um dos frutos positivos da crise e será aplicada nas atividades em 2021. “Tomar decisões em situações extremas e com inteligência emocional é necessário para não tornar o momento pior do que já se apresenta.”

Menu Degustação: Bar da Maniacs em SP, Lohn em lata, Amstel no Nordeste…

O começo de 2021 tem ficado marcado para algumas cervejarias pela expansão da presença no mercado. É o que acontece com a Maniacs Brewing, marca de Curitiba que está com o seu primeiro bar em São Paulo em funcionamento. Mas também com a Amstel, agora presente em todos os estados do Nordeste com suas embalagens descartáveis.

Além disso, o Concurso Brasileiro de Cervejas entra no seu período final para inscrições – os interessados em participar do tradicional festival, marcado para março, em Blumenau, devem fazê-lo até a próxima quarta-feira. E, seguindo uma tendência que tem marcado o setor desde o ano passado, a Lohn Bier lançou a Unfiltered em lata.

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Confira as novidades da semana no Menu Degustação:

Maniacs em São Paulo
A cervejaria paranaense Maniacs Brewing inaugurou seu bar em São Paulo, em ação que faz parte do projeto de expansão da marca. Perto da avenida Paulista, nos Jardins, o espaço pretende criar experiências com as marcas para todos os públicos, além de permitir relacionamentos com clientes e distribuidores. No local, são comercializados os principais produtos da Maniacs e de marcas parceiras, como a Brooklyn Brewery e a Morada Cia Etílica. Ao todo, são 11 torneiras com chopes rotativos e todo o portfólio de cervejas. Em breve, o local também deverá oferecer espaço para treinamento e pequenas degustações guiadas. “Estamos cada vez mais presentes na vida dos consumidores, através dos mais diversos canais de venda”, explica Iron Mendes, CEO da Maniacs.

Amstel no Nordeste
A Amstel, cerveja puro malte do Grupo Heineken, está ampliando a sua distribuição de embalagens descartáveis no Nordeste. Agora, com seu portfólio completo, a marca estará presente em todos os estados da região. Para sua expansão, contará principalmente com o centro de distribuição em Pacatuba (CE), de onde sairá o envio para a maioria das localidades. “Temos observado uma grande evolução no segmento mainstream puro malte nos últimos anos, apresentando crescimento superior a 200% desde 2018. A Amstel tem tudo para alcançar números importantes na região”, afirma Renan Ciccone, diretor de marketing da Amstel.

Inscrições do Concurso Brasileiro
As inscrições para o Concurso Brasileiro de Cervejas se encerram na próxima quarta-feira. O evento está previsto para ser realizado em Blumenau entre os dias 6 e 8 de março, no Parque Vila Germânica. As inscrições podem ser realizadas pelo site e custam R$ 295 por amostra. “Manter o Concurso dentro da programação e ter sua cervejaria participando é mais uma maneira da chama do mercado seguir acesa, mostrando para o Brasil que mesmo com a pandemia o segmento continua produzindo boas cervejas, e que 2021 promete muitos sabores e aromas aos fãs dessa bebida tão complexa e especial”, destaca Fernanda Bressiani, coordenadora técnica do concurso pela Escola Superior de Cerveja e Malte.

Lata da Lohn
A marca catarinense Lohn Bier lançou a Unfiltered em lata. A cerveja é do estilo Pilsen especial, sendo mais maltada, frutada e não filtrada para uma versão mais “democrática”. “O lançamento da Unfiltered na lata é uma boa oportunidade para falarmos sobre algumas verdades sobre o universo cervejeiro de uma forma diferente! Com sabor artesanal, esse rótulo especial é excelente para quem está ingressando no mundo das cervejas especiais”, comenta o cervejeiro e sommelier da Lohn Bier, Richard Brighenti.

Balcão do Profano Graal: Uma brevíssima história do lúpulo

Balcão do Profano Graal: Uma brevíssima história do lúpulo

A História é uma ciência humana. Com certeza você já ouviu essa frase. O que significa dizer que ela se ocupa de fenômenos produzidos pelos homens ao longo do tempo. Mas também é possível escrever uma história onde os homens não são os protagonistas. A história desse mês é a história de uma planta. Não uma planta qualquer, mas a planta preferida dos cervejeiros: a história do lúpulo.

O lúpulo (Humulus lupulus L., 1753) pertence à famiglia Cannabaceae. Sim, ela é uma prima distante da cannabis sativa. É uma liana (grupo de plantas que germina no solo durante toda a sua vida e necessita de um suporte para manter-se eretas, também conhecidas como trepadeiras), dioica (que apresenta flores masculinas e femininas), perene, herbácea, nativa da Europa, Ásia Ocidental e América do Norte.

Cresce no início da primavera e definha restando somente o rizoma (caule subterrâneo) no inverno. Floresce no verão, frutifica no outono e as flores são polinizadas pelo vento. Ela cresce espontaneamente nas margens dos cursos d’água. As condições mais favoráveis para o seu cultivo são encontradas entre os paralelos 35 e 55 de latitude norte ou sul. O clima não deve ser muito quente, nem excessivamente frio ou úmido. Os invernos devem ser bem longos e os verões, amenos e chuvosos.

O seu uso mais conhecido é justamente como ingrediente da cerveja. Dando a essa o sabor amargo, aromas variados e funcionando como um excelente conservante natural, sendo considerado, por isso, o “tempero” da cerveja. Há alguma controvérsia com relação às datas, mas as fontes indicam que o seu uso na cerveja já era conhecido entre os séculos VIII e IX.

Segundo Martyn Cornell, no artigo A Short History of Hops, publicado no seu site Zythophile, o primeiro documento a fazer menção ao uso do lúpulo na cerveja é uma série de estatutos sobre a administração de uma abadia escritos pelo abade Adalhard do mosteiro beneditino de Corbie, no vale do Somme perto de Amiens, norte da França, em 822. 

Cornell também afirma que é “surpreendentemente obscuro” quando exatamente o lúpulo passou a ser cultivado para ser usado na cerveja, em vez de ser apenas colhido nas florestas. Segundo o Fórum Cervejas do Mundo, o primeiro campo de cultivo de lúpulo dataria de 736, na Alemanha. Em 768, Pepino, o Breve (Rei dos Francos entre 751 e 768), concedeu plantações de lúpulo à abadia beneditina de Saint-Denis, em Paris. Patrick e Valéria Sarnighausen e Alexandre Dal Pal, por sua vez, afirmam que as primeiras evidências do seu cultivo são datadas entre 859 e 875, na Abadia de Freisingen, na Baviera.

Datação mais próxima a feita pelo próprio Cornell, que afirma que os jardins de lúpulo aparecem em registros alemães da segunda metade do século IX em torno de Hallertau, também na Baviera. Que é, ainda hoje, a maior área de cultivo de lúpulo no mundo. Mas afirma também que a melhor evidência do cultivo comercial do lúpulo seria do Norte da Alemanha e não antes dos anos 1100 ou 1200.

A princípio, o lúpulo era utilizado como parte do gruit, uma mistura de ervas que era usada para aumentar o tempo de conservação da cerveja e para torná-la mais aromática. Compunham essa mistura ervas como a murta de Brabante, alecrim selvagem, folhas de louro, aquiléia mil-folhas e resinas de coníferas. Inclusive, ervas com conhecidos princípios psicoativos como o meimendro. A esse respeito, no canal do Profano Graal no Youtube há um vídeo sobre o uso de ervas alucinógenas na cerveja.

Três acontecimentos colaboraram para alavancar a “carreira solo” do lúpulo como principal ingrediente da cerveja. O primeiro foi a existência de impostos sobre o gruit. Datam do século IX os primeiros decretos que concediam o seu monopólio aos mosteiros (os gruitrecht). Segundo Giovani Messineo, no site italiano Giornale della Birra, mosteiros, bispos e outros detentores de direitos sobre o gruit também foram autorizados a conceder o usufruto da mistura para outros produtores, mediante taxa.

Dessa forma, a compra e venda de direitos sobre o gruit se transformaram em uma espécie de imposto indireto sobre a cerveja, gerando uma receita significativa para a Igreja Católica. Por outro lado, não havia impostos a pagar para o papa em relação ao lúpulo, nem mesmo em regiões controladas por católicos.

Os outros dois são mais conhecidos do público cervejeiro. Um foi a publicação do tratado de medicina naturalista da freira beneditina Hildegard Von Bingen (1098-1179), mestra do mosteiro de Rupertsberg na cidade de Bingen am Rhein, na Alemanha, intitulado Livro das sutilezas das várias naturezas da criação (ou Livro das propriedades das várias criaturas da natureza, dependendo da tradução), escrito entre 1151 e 1158. E o outro, o mais conhecido de todos, foi a promulgação da Lei da Pureza da Cerveja – ou Reinheitsgebot – pelo Duque Guilherme IV (1493-1550), em 1516. Mas voltaremos a esses três temas em outra ocasião.

A mudança do gruit para o lúpulo, porém, levaria séculos porque, por um lado, havia uma tendência a querer preservar costumes antigos e, por outro, havia o sabor amargo do lúpulo. Uma cerveja aromatizada com o gruit era muito mais doce do que uma cerveja lupulada. E muita água passou por debaixo das pontes da história até que os cervejeiros aprendessem a fabricar, e os consumidores aprendessem a apreciar uma Hazy Double IPA como a que você tem no seu copo no mesmo momento em que lê esse texto.

Referências bibliográficas:
CORNELL, Martyn. A short history of hops. Zytophile. 2009. (http://zythophile.co.uk/2009/11/20/a-short-history-of-hops/). Acesso em 02/01/2021.

COSTA, Marcos Nunes. Mulheres Intelectuais na Idade Média: Hildegarda de Bingen – entre a medicina, a filosofia e a mística. Trans / Form / Ação. Marília, v. 35, 2012, p. 187-208.

História da cerveja – A Era Medieval. Cervejas do Mundo – Tudo sobre cerveja. (http://www.cervejasdomundo.com/EraMedieval.htm). Acesso em 02/01/2021.

MESSINEO, Giovani. La birra protagonista nella storia – capitolo 4. Giornale della Birra. (https://www.giornaledellabirra.it/storia-di-birra/la-birra-protagonista-nella-storia-capitolo-4/) Acesso em: 02/01/2021.

OLIVER, Garret (edição). História da Cerveja. in: Guia Oxford da Cerveja. São Paulo: Blucher, 2020, p. 500-505. SARNIGHAUSEN, Patrick; SARNIGHAUSEN, Valéria C. R.; DAL PAI, Alexandre.

O lúpulo e a oportunidade do agronegócio no Brasil. Anais da 6ª Jornada Científica e Tecnológica da FATEC de Botucatu. São Paulo. 2017. (http://www.jornacitec.fatecbt.edu.br/index.php/VIJTC/VIJTC/paper/viewFile/1118/1547) Acesso em 02/01/2021.


Sérgio Barra é carioca, historiador, sommelier e administra o perfil Profano Graal no Instagram e no Facebook, onde debate a cerveja e a História

Entrevista: Participação das ‘minorias’ precisa existir além do mote da diversidade

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Ações práticas e maior participação como melhores respostas para comportamentos que buscaram frear a diversidade. É com essa visão que Leandro Sequelle, um dos fundadores da Graja Beer, avalia, em entrevista ao Guia, que deve acontecer a inclusão no setor de cervejas artesanais, com presença e atuação efetivas para ampliar a participação de nichos do mercado no segmento, permitindo o seu crescimento de forma consistente. 

Com a visão de quem atua a partir da periferia de São Paulo, Leandro Sequelle define como “levante” o agrupamento de iniciativas que ganharam luz no combate à discriminação de negros, mulheres, LGBTQ+ e de diversas outras minorias a partir de lamentáveis ataques expostos no segmento em 2020.

A discussão sobre a necessária inclusão no setor vinha ganhando força com o seu crescimento acelerado. E ganhou urgência com a revelação de comportamentos preconceituosos, alguns deles até então velados. E, para Leandro Sequelle, além de fortalecer as iniciativas de diversidade, também é preciso expandir as ideias para ações que envolvam lançamentos, impressões, análises, métricas de mercado, planejamento e marketing.

“Para 2021, o mercado como um todo precisará se reorganizar no pós-pandemia e caberá, nessas planilhas e organogramas sem fim, o olhar inclusivo. E como tenho dito em outros momentos, não apenas de olho na diversificação, mas, sim, na ampliação dos nichos de mercado e números de arrecadação”, ressalta.

Leandro Sequelle é um dos fundadores da Graja Beer, a autodenominada “cerveja da quebrada”, que está localizada no bairro Grajaú, periferia de São Paulo, além de ser membro da chapa eleita no ano passado para gerir a Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva) até outubro de 2022.

A nova gestão, por sinal, venceu uma eleição realizada após acontecimentos de preconceito racial envolvendo membros da diretoria anterior. Logo, entre as principais propostas do comando, está justamente a ampliação de atividades do núcleo de diversidade e a criação de vários outros, como os de tributação, negócios e acadêmico.

Assim, para 2021, com várias frentes de atuação, Leandro Sequelle promete foco em ações práticas, como na Graja, que tem atividades voltadas para minorias e agora pretende consolidar outras parcerias para expandir ainda mais os seus projetos e, consequentemente, o público alcançado. Para ele, afinal, só haverá crescimento do setor a partir do diálogo com os diferentes atores da sociedade.  

Leia também – Graja Beer abre espaço e amplia ações de capacitação e difusão do conhecimento

Confira, a seguir, a entrevista de Leandro Sequelle ao Guia:

Como avalia o ano de 2020 para a diversidade dentro do setor cervejeiro? Quais os impactos que a exposição de casos de preconceito trouxeram ao segmento? Como foi possível lidar com todo esse cenário?
O ano de 2020 trouxe à tona muito do que ficava escondido nos porões do conservadorismo – e não somente em nosso mercado. E, em um tempo tão globalizado e polarizado como este que vivemos, falas tão retrógradas como as vistas nos episódios ocorridos não passam mais batido. O mercado cervejeiro que por origem e história já é tão plural e diverso, como reflexo de nossa sociedade, também grita pela ampliação e redemocratização social. Isso já vinha ocorrendo a passos calmos com cervejarias como a Complexo do Alemão, Graja Beer, Vielas e outras espalhadas pelo Brasil. Em 2020, houve um levante e agrupamento dessas iniciativas, que ganharam luz, em parte para aliviar as mentes culpadas do mercado e, em parte, para de fato preparar terreno para um crescimento consistente e amplo em médio prazo.

Como o preconceito e a falta de pluralidade atrapalham o crescimento e a forma como ele é visto pela sociedade?
Um dos pontos importantes a serem refletidos está na forma como nós mesmos entendemos a diversidade dentro da nossa sociedade. Vivemos em um país onde 56,1% da população se intitula negra, conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad). Já as mulheres são 51% da população. E é evidente o porcentual ínfimo de participação de mulheres e negros dentro do mercado. Se ampliarmos a lupa, para população LGBTQI+, indígenas, portadores de necessidades especiais, etc., esses números se tornam menores ainda. A ausência dessas parcelas dentro do mercado é uma lacuna do próprio segmento craft, que luta por um crescimento e não passa muito dos 2,3% de representatividade cervejeira. É uma escolha para o segmento se manter assim, ou de fato dialogar com a sociedade.

Ampliar a diversidade no setor parece um desafio urgente. O que esperar nessa área para os próximos meses?
Para 2021, o mercado como um todo precisará se reorganizar no pós-pandemia e caberá, nessas planilhas e organogramas sem fim, o olhar inclusivo. E, como tenho dito em outros momentos, não apenas de olho na diversificação, mas, sim, na ampliação dos nichos de mercado e números de arrecadação.

Quais aprendizados e ações concretas o setor deve levar dos desafios do ano passado para o recém-iniciado?
É preciso fortalecer as pontes que foram criadas. Houve muita gente dando espaço para produtores dentro do mote diversidade exporem suas ideias e é fundamental que continuem existindo além da pauta diversidade. Precisamos falar de lançamentos, impressões e análises sensoriais, métricas de mercado, planejamentos e ações de marketing. Aí, sim, estaremos incluídos no mercado. Termos eleito, dentro da maior associação cervejeira do país, uma diretoria plural já é um passo gigante para manutenção e ampliação da pauta.

Como foi a atuação da Graja Beer no ano passado em meio a tudo o que aconteceu? Quais foram as mudanças mais impactantes para a cervejaria?
Estamos, quanto cervejaria na periferia, dialogando diretamente com as camadas de invisibilidade há cinco anos e não houve muita novidade para nós nos fatos ocorridos. Acreditamos que a cultura cervejeira artesanal é uma ferramenta incrível de transformação e educação, e isso não apresenta resultados concretos do dia para a noite. Seguimos com vários projetos e ações, devagarinho. Tivemos muitos momentos de falas em 2020 e podemos avançar em projetos e parcerias que já estávamos desenvolvendo antes da pandemia. Agora, é maturar os resultados.

Até pela pandemia, a Graja Beer precisou paralisar suas atividades durante meses no ano passado. Como estão os planos para 2021?
Terminamos o ano com o adiamento para 2021 da primeira turma do curso de capacitação cervejeira para a periferia em parceria com a Heineken e o Instituto da Cerveja Brasil. Acreditamos muito nessa ação. Um dos principais planos é, de fato, multiplicar a experiência Graja Beer em nosso território, e ver o surgimento de outras marcas, profissionais e pubs locais. Também em 2020 demos start no Graja Comedy, que faz parte de nosso leque de ações na Graja Beer Pub, que traz o stand-up comedy como ferramenta de cultura e transformação social. Pretendemos ampliar o projeto e desenvolver mais ações com a comunidade LGBTQI+, mulheres, negros e mais. Como marca, acreditamos que tiramos do papel algumas das colaborativas travadas em 2020, e vamos investir no lançamento de novos rótulos tanto para o mercado cervejeiro tradicional, quanto o periférico. Há muita coisa legal por vir.

Pode detalhar mais sobre essas parcerias que estão sendo consolidadas?
Ubuntu! Eu sou o que sou porque nós somos. A Graja Beer não representa o Grajaú, pela sua dimensão territorial, humana e cultural, mas é representada pelo Grajaú em suas ruas, expressões e produções. Nossas parcerias seguem diversas. Nosso trabalho traz na cervical a cultura cervejeira (com todo respeito às suas origens e escolas) e dialoga com as pessoas que nos rodeiam, sejam cervejeiras ou não! Dentro do mercado, há muito sendo criado, mas que fica para as próximas pautas.