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Há um ano no Brasil, Brooklyn mira triplicar produção para driblar crise econômica

Em agosto de 2018, o mercado brasileiro recebeu uma notícia bombástica: a Brooklyn Brewery, uma das mais renomadas e conhecidas marcas do mundo, passaria a produzir alguns rótulos no Brasil. Prestes a completar um ano, a cervejaria mais famosa de Nova York admite ter enfrentado certa instabilidade. Mas, satisfeita, já planeja triplicar sua produção, segundo releva Marina Daur, gerente da marca no país.

Com mais de três décadas de história, a Brooklyn vivenciou um ano de turbulências e conquistas no mercado nacional. Depois de fazer uma joint venture com a curitibana Maniacs, a marca norte-americana desembarcou no país em um momento de crise econômica e política, mas tem conseguido prosperar, a ponto de planejar a expansão dos rótulos produzidos por aqui.

Atualmente, a cervejaria produz dois estilos no Brasil, a Lager e a East India Pale Ale, importando todos os demais. Mas, com a previsão de ampliar sua presença no território nacional, a ideia é fabricar um terceiro ou até mesmo um quarto rótulo. Clássicos como a Sorachi e a Defender estão entre as opções.

“Com o crescimento da marca no Brasil (queremos triplicar o volume nos próximos meses) a ideia é escolher um ou dois desses skus para produção aqui”, conta Marina Daur ao Guia, detalhando quais seriam essas opções.

“Temos um carinho especial pela Sorachi, que é a menina dos olhos do Garrett (Oliver, mestre cervejeiro da Brooklyn) e é uma cerveja feita com lúpulo japonês. Mas, considerando que IPA é praticamente sinônimo da categoria de artesanais, há grandes chances de produzirmos a Defender por aqui, que é uma IPA mais leve, com 5,5% de teor alcoólico, muito saborosa e é a cerveja oficial do Comic Con de NY”, detalha a gerente da marca.

Controle rígido
A chegada da Brooklyn ao Brasil se deu inicialmente em 2011, mas apenas com a importação da marca que surgiu em Nova York, passou depois a ser distribuída pela Carlsberg na Europa e, em 2016, teve 24,5% das suas ações adquiridas pelo grupo Kirin.

E, diante do crescimento do mercado brasileiro de artesanais, a marca norte-americana optou por produzir no país em 2018. Surgiu, assim, a parceria com a Maniacs. Mas com uma característica especial: todo o processo segue os rígidos padrões estabelecidos na sua sede, em Nova York.

“Para que a produção aqui fosse possível, além do investimento em uma planta fabril, nossa equipe foi até os Estados Unidos receber um rígido treinamento. Garrett Oliver, o mestre cervejeiro da Brooklyn e ícone no mercado, visitou as instalações por aqui. Depois homologamos os mesmos fornecedores de NY e mandamos todos os lotes para testes sensoriais e laboratoriais antes de colocar o produto à venda”, explica Marina.

O processo de produção e a conquista do mercado no Brasil começaram a se intensificar neste ano, especialmente a partir da realização e participação em eventos. “De janeiro pra cá, aos poucos, a marca vem ganhando mais força nos principais clientes através de ações como a Brooklyn Burger Week que realizamos em maio, em mais de 30 hamburguerias. Também estivemos presentes no Festival de Pinheiros, no Mondial de la Bière SP e no Curitiba Blues Festival”, diz.

Turbulência econômica
Mas os desafios e problemas no processo também apareceram no primeiro ano. E o maior deles foi a crise econômica. De maneira geral, em um cenário que impactou todo o setor, especialmente no segundo semestre de 2018, a turbulência acarretou diretamente na diminuição do poder de compra do consumidor e restringiu o acesso às artesanais.

“O Brasil é o terceiro maior consumidor de cerveja no mundo, mas é também um país que está passando por uma crise político-econômica, que reflete no consumo de modo geral”, conta a gerente, avaliando como esse cenário impactou a Brooklyn.

“Dentro das artesanais, que já são naturalmente mais caras que os rótulos mainstream, a Brooklyn também se enquadra em um perfil de cervejas premium. Com a nacionalização, o produto ficou, sim, mais barato, mas ainda pode ser um desembolso alto para o consumidor brasileiro”, admite Marina, também apontando a variação cambial como outro entrave.

Isso pode dificultar os planos de expansão no país. Mas, para driblá-lo, a Brooklyn tem apostado na boa recepção aos seus rótulos e no crescimento do conhecimento de seus produtos. “A marca é muito querida aqui e no mundo todo! Quem já conhece, adora. E quem não conhece, quando tem o primeiro contato, logo se encanta pelo produto, pela história e isso tudo é muito positivo”, celebra Marina.

O suporte da Maniacs
Para compreender mais rapidamente as especificidades do mercado brasileiro, nada melhor do que contar com um apoio local. E foi o que se deu com a Brooklyn a partir da joint venture com a Maniacs, que lhe tem ajudado com esse conhecimento, segundo aponta Marco Koch, gerente de marca da cervejaria curitibana.

“A experiência da Maniacs e de todo o nosso time nas especificidades comerciais do mercado brasileiro é fundamental para o crescimento das duas marcas aqui no Brasil. O mercado brasileiro e o norte-americano estão em momentos de maturação distintos. Então, ter a Maniacs para desbravar o país ajuda a Brooklyn a crescer mais forte por aqui”, avalia Marco.

E a Maniacs, evidentemente, também tem se beneficiado com essa parceria. Seja pelo chamariz provocado pela joint venture com uma marca tão renomada, seja por conhecer de perto o padrão de produção e as práticas da Brooklyn.

“Do ponto de vista comercial, ter a Brooklyn ao nosso lado é uma honra e ajuda a abrir portas por todo o Brasil. Há também alguns processos de produção e boas práticas que são padrão na Brooklyn e que nossos cervejeiros implementaram nas cervejas feitas pela Maniacs”, comenta o gerente, que também enxerga similaridades entre as marcas.

“Colocar no mercado cervejas que sejam especiais para o beergeek e que, ao mesmo tempo, encantem o consumidor iniciante é algo que ambas as marcas estão comprometidas”, conclui Marco.

Premiado diretor de O Cheiro do Ralo estreia documentário sobre cerveja

Existe uma cerveja perfeita? Essa foi a pergunta que levou Heitor Dhalia, conceituado cineasta brasileiro, a viajar por mais de 10.000 km no universo cervejeiro. O resultado dessa trajetória está no documentário Em Busca da Cerveja Perfeita, que teve sua avant-première nesta terça e estreia na quinta-feira nos cinemas nacionais.

E o filme, além de buscar a bebida ideal, surge com a importância de reforçar a conexão entre cerveja e cinema nacional. O pernambucano Heitor Dhalia, afinal, é um dos grandes nomes atuais da sétima arte brasileira e ganhador de importantes prêmios nos últimos 15 anos.

Seu filme de estreia como diretor, Nina (2004), que fez uma livre recriação de Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski, recebeu uma menção especial da crítica no Festival de Moscou. Mas seu grande sucesso viria com O Cheiro do Ralo (2006), filme estrelado por Selton Mello que levou o prêmio do júri e da crítica de melhor filme na Mostra de São Paulo, prêmio especial do júri no Festival do Rio e foi selecionado para o Sundance Film Festival de 2007.

Depois, em 2009, Dhalia chegaria ao cultuado Festival de Cannes – na mostra Um Certo Olhar – com À Deriva. Com 12 Horas, por sua vez, ele dirigiu seu primeiro filme nos Estados Unidos. E ainda ganharia quase todas as telas nacionais com Serra Pelada, de 2013.

Agora, após encarar seu novo desafio, Dhalia celebrou a imersão no universo cervejeiro. “Fiquei muito feliz em fazer parte desse projeto, pois além de ter tido a oportunidade de fazer parte da concepção criativa, pude contribuir com meu olhar de cineasta e suporte de produção da Paranoid para imprimir no documentário um olhar de obra cinematográfica de verdade”, explica o cineasta, antes de acrescentar.

“Ver de perto os processos de produção de cerveja em diferentes lugares do mundo e ter conhecido alguns dos maiores mestres cervejeiros tornou o trabalho ainda mais interessante e rico em termos de cultura. Seja para um especialista ou apenas apreciador, esse documentário é uma imersão ao universo de uma das bebidas mais populares do mundo”, complementa Dhalia.

O filme
Patrocinado pela Ambev, o documentário mostra a busca do diretor pela origem dos ingredientes, pelas diversas escolas, pelos estilos existentes e pelos grandes especialistas cervejeiros de todo o mundo.

Trata-se de um documentário que nasceu buscando a história, o presente e o futuro da cerveja, segundo detalham os produtores. Ao todo, mais de 20 especialistas – como sommeliers de cerveja, mestres-cervejeiros, peritos em malte e lúpulo, fundadores de cervejarias, entre outros – relatam a sua relação com a cerveja e o que, na opinião deles, a fez passar por tantos séculos como querida em todos os continentes.

Em pouco mais de uma hora, o documentário traça um panorama da bebida e procura entender o porquê da existência de diversas cervejas perfeitas, a depender do paladar e da ocasião em que são apreciadas.

Em Busca da Cerveja Perfeita terá sessões em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Porto Alegre, Salvador e Belo Horizonte nas redes Kinoplex, Espaço Itaú, Multiplex e Cine Belas Artes a partir da próxima quinta-feira. Além destas, outras sessões especiais serão realizadas em Porto Alegre, Curitiba, Belo Horizonte, Salvador, Brasília, Recife e Fortaleza.

Em Busca da Cerveja Perfeita
Documentário / 61min
Produtora: Paranoid
Direção: Heitor Dhalia

Programação a partir de 18/7
São Paulo
Locais: Rede Kinoplex – R. Joaquim Floriano, 462 – Itaim
Espaço Itaú Frei Caneca – R. Frei Caneca, 569 – Bela Vista
Espaço Itaú Pompeia – R. Palestra Itália, 500 – Pompeia

Rio de Janeiro
Local: Espaço Itaú Rio de Janeiro – Praia de Botafogo, 316 – Botafogo

Porto Alegre
Local: Espaço Itaú Porto Alegre – Av. Túlio de Rose, 80

Recife
Local: Multiplex – R. do Giriquiti, 48 – Boa Vista

Salvador
Local: Espaço Itaú Glauber Rocha Salvador – Praça Castro Alves, s/n

Belo Horizonte
Cine Belas Artes Belo Horizonte – R. Gonçalves Dias, 1581

AB InBev cancela “maior IPO do mundo” em Hong Kong

Anunciada há dois meses, a “maior abertura de capital do ano” dentre todos os mercados do mundo não vai mais acontecer. A AB InBev planejava o IPO de sua subsidiária asiática Budweiser Brewing Company APAC na bolsa de Hong Kong para a próxima sexta-feira, dia 19. No entanto, na última sexta, a empresa anunciou a mudança de planos.

Assim, apesar de todo alvoroço causado, a Ab Inbev não vai mais proceder com a abertura. A decisão freia o ímpeto do conglomerado de aumentar sua influência na Ásia mas, ao mesmo tempo, deixa de amenizar suas dívidas bilionárias.

Analistas do mercado financeiro internacional previam que o IPO (sigla da expressão em inglês Initial Public Offering) da APAC resultaria em torno de US$ 9,8 bilhões. A estimativa é de que seriam postas na bolsa de Hong Kong 1,63 bilhões de ações a preços iniciais entre US$ 5.13 a US$ 6.02 – e 95% das ações supostamente ficariam nas mãos de investidores institucionais.

Com isso, havia grandes chances da operação superar a abertura de capital da gigante dos transportes Uber, a empresa que mais conseguiu arrecadar com um IPO no ano (US$ 8,1 bilhões).

A operação e as metas propostas pela AB Inbev eram “ambiciosas”, segundo os analistas. A estimativa era de que a abertura pudesse levantar um montante equivalente a até 18 vezes o valor da APAC – uma meta agressiva para uma operação que tem dois terços de seus lucros vindos de mercados maduros, como Austrália e Coreia do Sul.

Incertezas
Tamanha agressividade se justificava face à gigantesca dívida da AB InBev. Nos últimos anos, a companhia foi às compras com voracidade (adquirindo concorrentes de peso, como a SABMiller, em 2016) e acumulou débitos da ordem de US$ 100 bilhões.

“A Anheuser-Busch InBev decidiu que, neste momento, não irá mais prosseguir com a oferta pública anunciada de uma fatia minoritária de sua subsidiária na Ásia-Pacífico, a Budweiser Brewing Company APAC Limitada, na Bolsa de Valores de Hong Kong”, informou o maior conglomerado cervejeiro do mundo em comunicado.

Na nota, a companhia explica que não vai prosseguir com a transação por diversos fatores, como as incertezas do mercado – mesmo sem deixar claro que fatores são esses. “A companhia vai monitorar atentamente as condições de mercado, e segue avaliando continuamente suas opções para gerar valor ao acionista, otimizar os negócios e sustentar um crescimento de longo-prazo, sujeito à rigorosa disciplina financeira.”

Na esteira do cancelamento, as ações de empresas ligadas ao conglomerado AB InBev registraram quedas na sexta (12) e na segunda (15). Na Bélgica, sede da companhia, a queda foi de 3,6% na sexta. No Brasil, as ações da Ambev negociadas na Bovespa tiveram baixa de 2,6% no mesmo dia.

Balcão do CerveJoca: A cerveja e a prática do exercício da felicidade

Balcão do CerveJoca: Cerveja e a prática do exercício da felicidade

Pensando bem, trabalhar com o que gosta sempre será recomendado. Cerveja, advocacia, motorista, gari, política, seja o que for, como e para quem for. Vou falar da cerveja porque nela descobri meu verdadeiro bem estar.

(Abro aqui uns pequenos parênteses para salientar que antes dela também era feliz, mas agora sinto motivação dobrada em realizar meus trabalhos cervejeiros.)

Talvez concordem ou não comigo, mas digo que estarmos distantes da nossa natureza quanto mais esperamos pelo happy hour da sexta-feira. Happy hour para cervejeiro é todo dia. Imagino que as pessoas odeiam tanto o que fazem que, na sexta, comemorem o fim do martírio.

Digo natureza me referindo aquilo que proporciona alegria plena. Quer saber quando sabotamos fazer aquilo que está próximo da nossa natureza? Quando dizemos “tenho que pagar as contas”, “isso é coisa de sonhador”, “nunca vou poder fazer isso”, “ como eu gostaria de ser”, “ah tá, impossível para mim isso”, “meu pai me mata’, “até parece”.

Este artigo não é para deixar leitores deprimidos, pelo contrário. Busque, no seu bem estar, praticar o exercício da felicidade. Cerveja me aproxima da natureza de estar próximo de pessoas alegres, empreendedoras, motivadas e parceiras.

Lembro até hoje o primeiro passo dado por mim nesta busca: a satisfação de secar o primeiro barril de chope em um evento. Satisfação de ser criador das minhas próprias experiências e tomar nas mãos as rédeas da minha vida.

Promover marcas em eventos, encontros e festivais está sendo meu propósito. Rede de amigos cresce a cada ação, cada encontro. Novos desafios desenhados com parcerias sólidas e objetivos claros. Esta é minha missão trabalhando com cervejas artesanais.

Inspirado? Busque sua natureza e bem-estar.

Cheers…


Joaquim Campos, o Joca do Cervejoca, é executivo de contas da ForBeer – Feira para a Indústria da Cerveja

A indústria ideal: A necessidade dos controles de custo e de qualidade

Ter um bom controle para aliar custo e qualidade. Lidar com esse desafio e equilibrar a balança entre os investimentos realizados na concepção de uma cerveja e a qualidade desse produto são fatores vistos como fundamentais por especialistas para quem deseja empreender no setor.

Em um cenário de crescimento em ritmo exponencial no número de microcervejarias nos últimos anos, manejar os controles de custo e qualidade é fundamental para que os empreendedores consigam ter êxito e sucesso no setor. Para que isso ocorra, bons planejamentos são fundamentais.

Edmundo Albers, sócio do Beer Business, uma consultoria empresarial de Porto Alegre, lembra que a adoção de boas práticas é algo inerente aos processos de controle de qualidade e independe do tamanho do empreendimento. Ele cita, inclusive, o comportamento das multinacionais do setor como exemplo para quem está atuando, independentemente das escalas envolvidas.

“Ao se decidir por empreender no ramo microcervejeiro, é necessário convencer-se de que, mesmo sendo pequena, a cervejaria precisa ter processos de controle de qualidade. Existe um entendimento generalizado no setor de bebidas e alimentos de que tudo o que é artesanal, caseiro, alternativo, é bom, e o que é industrial, produzido em larga escala, é ruim. Isto é um grande engano, pois quem conhece as grandes cervejarias, sabe o quanto elas investem em controle de qualidade visando oferecer constantemente produtos comprometidos com a segurança alimentar”, diz.

Também pode vir da grande indústria outra característica intrínseca a ela e que também precisa ser seguida pelos empreendedores iniciantes: a padronização do produto, algo que só é possível a partir do correto alinhamento tecnológico.

“Isso é fundamental e se dá a partir do momento em que você tem uma maturidade tecnológica, para manter o padrão e a qualidade. É um ponto previsto e necessário em qualquer modelo de negócios”, acrescenta Lidia Espíndola, gestora estadual do projeto de cervejas do Sebrae no Rio.

Controle total
Os controles envolvidos no setor cervejeiro devem ser observados atentamente antes mesmo do início da produção. José Antunes, especialista setorial de bebidas da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), aponta que na entrega e instalação dos equipamentos já se torna fundamental a adoção de preocupações que passam pela montagem. Ele aponta, inclusive, situações simples, mas que podem provocar grande impacto.

“É imprescindível que conste no contrato a entrega técnica dos equipamentos. Durante a montagem deve ser dada especial atenção às soldas. Soldas mal feitas no futuro tornam-se áreas de acúmulo de sujeira e posteriormente focos de contaminação”, aponta José Antunes, antes de acrescentar.

“Posteriormente à montagem, ainda, pelo fornecedor do equipamento, a planta tem que ser testada para verificação de todas as suas partes. Verificação de vazamentos, check de sensores. Deve ser também procedida a limpeza dos equipamentos, bem como a passivação das peças de inox para prolongamento de sua vida útil”, exemplifica o especialista da Firjan.

Controle de custo
Outro ponto importante, segundo Edmundo Albers, é ter um olhar atento aos recursos empregados na produção cervejeira. Ele lembra que custos fixos podem afetar a produtividade, assim como a mão de obra, minimizando potenciais lucros advindos do empreendimento.

“De suma importância para o êxito de um empreendimento micro cervejeiro é o constante controle de custos. Temos observado que algumas cervejarias artesanais operam com baixíssima produtividade, não só considerando o grau de utilização de seus ativos, mas com uma elevada incidência de custos fixos devido ao excesso de mão de obra. Em algumas cervejarias artesanais, chegamos a verificar que operam com mais pessoal do que cervejarias industriais que produzem em volumes muito maiores”, afirma.

Essa opinião é replicada por Lídia, que enxerga dificuldades para o prosseguimento próspero de um negócio sem que exista uma clara definição sobre o custo de produção. “Desde a realização do plano de negócios, se você não tem controle financeiro, do retorno, do custo fixo, vai ser complicado para ganhar dinheiro e até para manter a empresa aberta”, alerta a consultora do Sebrae.

Perguntas importantes
A pedido do Guia, José Antunes apontou uma série de questionamentos sobre controle de custos e de qualidade que um empreendedor deve se fazer. Confira os principais dicas do especialista da Firjan.

– Qual o consumo de água e energia por litro de cerveja produzida?

– Qual o rendimento da minha sala de brasagem para as diferentes receitas que fabrico?

– Será que minha receita está otimizada, ou, em outras palavras, será que eu preciso para obter a mesma característica sensorial, de tantas variedades de malte e lúpulo?

– Vale a pena e, em caso positivo, quantas vezes eu posso reaproveitar o fermento que utilizo na minha fermentação?

– Finalmente, mas muitas vezes negligenciada, como será a minha logística e distribuição? Uma fábrica só gera receita se seu produto é vendido. Quem é e como eu atinjo o meu consumidor? Qual tipo de vasilhame é o mais rentável e mais aceito pelo mercado que eu pretendo atuar (barril, garrafa, lata, growler)? São aspectos que tem que ser pensado e não estão diretamente ligados à produção de cerveja.

Confira, nas próximas semanas, a sequência do nosso especial sobre como montar uma indústria cervejeira ideal. E, se quiser indicar alguma demanda, escreva para nosso editor: itamar@guiadacervejabr.com.

Vendas do Mondial Rio, festival em Curitiba: As novidades da semana

O cervejeiro que gosta de festival pode começar a se preparar para semanas agitadas. Os organizadores da edição carioca do Mondial de la Bière Rio anunciaram o início das vendas de ingressos. Foram, também, reveladas, novas atrações musicais da Oktoberfest São Paulo. E os paranaenses contam os dias para o DUM Day, no próximo sábado, em Curitiba. Confira essas e outras novidades.

Mondial Rio
Os organizadores do Mondial de la Bière Rio anunciaram mais detalhes do evento, que terá a sétima edição sendo realizada entre 4 e 8 de setembro, nos armazéns 2, 3 e 4 do Píer Mauá, na zona portuária da cidade. Serão 17 mil metros quadrados ocupados por cervejarias de diversos estados do Brasil e de outros países, que apresentarão rótulos já consagrados e lançamentos em primeira mão. Uma das novidades será o lançamento do Mondial Club. E os interessados em participar do MBeer Contest Brazil, que selecionará os melhores rótulos nas categorias ouro e platina, já podem se inscrever. “A cada edição conseguimos captar mais cervejarias e cervejeiros. Em 2013, 40 expositores viram um potencial e 15 mil visitantes compraram a ideia. Seis anos depois, 45 mil entusiastas e 160 cervejarias participavam do evento, ‘fermentando` o cenário no Rio de Janeiro e no Brasil. Cada um ajudando a construir a história do Mondial e dessa (re)evolução cervejeira”, comemora Luana Cloper, diretora do Mondial. Os ingressos podem ser encontrados no site do evento e em 10 bares espalhados pela cidade.

Bud e Dia do Rock
Em mais uma ação ligada ao universo musical, a Budweiser aproveitou a celebração do Dia do Rock no sábado para lançar um filme publicitário. A peça é liderada por Andreas Kisser, guitarrista do Sepultura. E conta com a participação de 14 bandas de rock surgidas após 2014, em uma “provocação” a Gene Simmons (fundador do Kiss), que há cinco anos havia declarado que o rock estava morto.

Imperial da Hausen
Lançado anualmente no inverno pela cervejaria de Araras (SP), o rótulo H5 será em 2019 uma Imperial Schwarzbier, que maturada ganhou notas amadeiradas e de uísque com um toque especial de baunilha e coco. Possui 30 IBUs e graduação alcoólica de 8,2%. Está sendo disponibilizado em produção limitada a 900 litros, em chope (barris de 20 e 30 litros) e garrafas de 300ml.

Agenda I: Atrações da Oktoberfest SP
Os organizadores da terceira edição da Oktoberfest de São Paulo anunciaram mais cinco bandas que vão participar do evento. São elas: Raimundos (04/10), Terra Celta (05/10), Armored Dawn (05/10), Queen Experience (06/10) e a dupla Overdriver Duo (shows diários). A festa ocorrerá de 20 de setembro a 6 de outubro no Jockey Club de São Paulo.

Agenda II: Copa Cerveja Brasil
As inscrições para a Copa Cerveja Brasil, concurso exclusivo para cervejarias artesanais independentes, estão abertas até o próximo sábado. A competição é promovida pela Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva) e a premiação está marcada para 16 de agosto. Poderão participar do concurso cervejarias artesanais independentes e ciganas, não vinculadas a grandes grupos econômicos do setor e com produção anual em 2018 de 50 mil hectolitros.

Agenda III: DUM Day
O festival cervejeiro DUM Day terá sua edição de 2019 ocorrendo no próximo sábado, no Distrito 1340, em Curitiba. Cinquenta rótulos de cerveja artesanal, shows e gastronomia compõem as atrações da festa, que também celebra o nono aniversário da premiada cervejaria curitibana DUM, que dá nome ao evento.

Em meio à insegurança jurídica, cervejas puro malte ganham espaço e atraem fãs

Na terça-feira, uma notícia com ares de bombástica pegou o mercado de surpresa: um decreto presidencial mudou praticamente toda a legislação que regulava a produção de cerveja do país. Informação que trouxe algumas dúvidas e deixou com certa desconfiança os defensores da “puro malte”, variedade que nos últimos anos ganhou volume e prestígio entre o público mais amplo.

Se, a princípio, o decreto veio para regulamentar o uso de produtos de origem animal – como mel e leite – na composição da bebida, ele também extinguiu a resolução anterior que limitava em 45% o uso de adjuntos – como o milho – na cerveja. O Ministério da Agricultura alegou que uma Instrução Normativa (IN) de 2001 ainda assegurava esse controle. Juristas consultados pelo Guia, contudo, explicaram que uma IN não pode se sobrepor a um decreto. Portanto, fazendo soar o alarme dos “puristas”, ficou no mínimo uma insegurança jurídica sobre o uso sem controle desses ingredientes.

E essa discussão nunca foi tão atual. Um estudo do instituto de pesquisas Kantar divulgado em abril revela que o segmento puro malte tem crescido rapidamente no mercado brasileiro. Em 2018, o volume vendido de cerveja com essa denominação foi 81% maior do que no ano anterior, enquanto o aumento do volume de cerveja com cereais não maltados foi de apenas 2%. Em 2019, a chegada de marcas populares como a Skol ao segmento confirmou a tendência de crescimento.

As puro malte já correspondem a 10% de todo o volume comprado para o consumo em casa. A pesquisa aponta, ainda, que produtos do segmento foram consumidos em 23% dos domicílios pesquisados, alcançando um total de 12 milhões de lares em 2018. Já no consumo fora de casa, as puro malte ganharam ainda mais espaço.

“O bar é o principal canal de consumo fora do lar de cervejas puro malte, representando quase metade (47,3%) das ocasiões”, analisa Giovanna Fischer, diretora de Marketing e Consumer Insights da Kantar.

Mas essa nova legião de fãs das puro malte, ao se manifestar contra cervejas feitas com outros ingredientes no lugar do malte de cevada, expressava seu repúdio a qualquer receita que contenha adjuntos como milho ou arroz. O milho, mais especificamente, foi alçado ao papel de “vilão”, o suposto ingrediente responsável pela má qualidade das marcas comerciais brasileiras.

Os cereais não maltados, mais baratos do que os “originais”, são usados principalmente como ferramentas para baratear a produção. Como regra geral, é possível observar que a incidência de adjuntos acompanha o preço do produto. Mas há outros componentes a serem observados.

Qualidade x preço
De fato, há uma relação entre os adjuntos e a baixa qualidade de produtos no mercado brasileiro, segundo o sommelier e estudioso da cerveja Ulisses Malacrida, do canal Malte Papo. No entanto, não se trata de uma consequência imediata do uso, e sim do mal uso – ou uso em excesso – dos adjuntos. Quando isso ocorre, as características sensoriais do produto se afastam do que é esperado.

 “O uso do adjunto é para baratear a produção. E a qualidade, às vezes, acaba se tornando duvidosa se a produção não tem a preocupação de trazer satisfação sensorial para o consumidor”, explica ele. “Assim, a satisfação passa a ser mesmo o consumo em grande volume.”

Mas, apesar da “regra geral”, ter ou não adjuntos não é o que faz da cerveja boa ou ruim em seu aspecto sensorial. Ulisses lembra que há cervejas que levam adjuntos, mas que conseguem oferecer sabores mais sofisticados do que outras feitas apenas com malte.

Na prática, segundo ele, não há um único indício que seja decisivo na identificação de uma puro malte. “É preciso ser bastante treinado para reconhecer. Há alguns atributos que ajudam a perceber: a puro malte tem uma pegada mais maltosa, tem mais sabor, amargor, traz sensação melhor na boca. Mas concordo que algumas vezes as diferenças são muito sutis.”

Os adjuntos, portanto, podem levar a culpa pela falta de qualidade dos produtos, e essa “verdade”, no ponto de vista de Ulisses, está sendo usada de maneira excessivamente marqueteira por algumas marcas para “chancelar” sua qualidade com o selo puro malte, mas sem entregar essa qualidade.

“Aí a marca sugere que as pessoas consumam ‘estupidamente gelada’, o que não deveria acontecer. Deveríamos perder um pouco do preconceito contra o adjunto, pois eles podem ser usados. O que poderíamos olhar com uma certa dose de cuidado é a qualidade sensorial que a cerveja pode trazer, tenha ou não adjuntos”, conclui ele.

Balcão Cervezas de America: É preciso uma classificação das artesanais?

Balcão Cervezas de America: É preciso classificar as artesanais?

É inegável que a indústria cervejeira está passando por um processo de mudança, onde as novas tendências não são mais marcadas por cervejas leves, limpas e refrescantes, mas por novos sabores e estilos que cativam novos consumidores e modificam padrões de consumo.

O Brasil fechou 2018 com 889 cervejarias (210 a mais do que em 2017), somando mais de 1.000 ao incluir as cervejarias ciganas (aquelas com marca, mas sem planta de produção própria). A Argentina possui um número similar de cervejarias, com uma penetração de mercado superior a 2,5% de cerveja artesanal (incluindo os números mais otimistas), somado a um movimento de cervejeiros artesanais muito forte e a muitos pontos de venda, uma moda que parece imparável.

Já o Chile alcança quase 2% de participação, com mais de 400 cervejarias e com um despertar de bares cervejeiros que prometem um aumento no consumo para alcançar um crescimento sustentável. Esse cenário de mudança é ainda mais intenso se incorporarmos o crescimento de cervejas importadas que participam da variedade e diversidade de sabores.

Nesse contexto de mudança, surge a necessidade de poder explicar essa nova tendência, que é popularmente chamada de cerveja “artesanal”, “craft” ou “cerveja de especialidade”.

Definir o que é artesanal vai muito além de identificar uma tendência. Tratam-se de novos e pequenos produtores, ou de alguns não tão novos ou tão pequenos? É sobre se diferenciar da cerveja industrial? É sobre maior igualdade na competição de mercado? Ou de favorecer pequenas e médias empresas?

Fazer uma classificação precisa das artesanais pode soar muito intuitivo para um cervejeiro, mas onde definimos o limite? Desenhar uma linha clara do que são e não são, inevitavelmente, deixará algumas pessoas incomodadas, porque sentem que são artesanais e seriam deixadas de fora.

Na minha opinião, é importante ter uma definição clara e transparente, porque é um setor onde existem grandes potências econômicas, grandes empresas com grande poder comercial capazes de bloquear e controlar o mercado. Apesar do fato de que em muitos países existem instituições pró-competição, há muitas práticas anticompetitivas e concorrência desleal. É um mercado com grandes distribuidores, em que o negócio não é a elaboração, mas a distribuição de cerveja e outras bebidas e onde o varejo está concentrado em algumas cadeias que aproveitam seu poder de impor condições de pagamento e armazenamento, mesmo que isso danifique o produto que comercializam.

Por isso, é importante distinguir o que é e o que não é cerveja artesanal, porque a realidade comercial, produtiva e financeira enfrentada pelas empresas é diferente, e vai em detrimento dos pequenos produtores. É importante fazer uma classificação precisa porque queremos distinguir diferentes tipos de empresas nesta área, a fim de identificar suas características e começar a promover políticas, regulamentações e mudanças que permitam fortalecer as empresas que têm maior impacto sobre o consumo responsável, no emprego e no desenvolvimento de uma economia circular.

Sem dúvida, para poder defender uma definição, devemos considerar as diferentes realidades dos mercados. No entanto, deve-se sempre considerar o tamanho máximo de uma cervejaria, porque uma cerveja artesanal não pode dominar uma porcentagem muito alta do mercado, e de sua independência e interesse econômico, já que o negócio de uma cervejaria artesanal é a cerveja, não a distribuição; do sabor e qualidade, pois um cervejeiro artesanal trabalha para realçar e criar novos sabores e não tem uma filosofia de produção que visa reduzir custos, mas entregar maior valor.

Por fim, é necessário haver uma declaração de princípios e valores que devem governar a coexistência dos diferentes cervejeiros de cada país e região.


Daniel Trivelli é Diretor Executivo e Co-Fundador do Grupo Cervezas de América

No mês com menor inflação do ano, preço da cerveja tem leve alta

O preço da cerveja no domicílio registrou alta irrisória de 0,06% em junho nas principais capitais brasileiras, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), acompanhando o cenário da inflação nacional: com apenas 0,01%, ela teve o menor resultado mensal em 2019.

Esse leve aumento manteve o cenário de deflação no preço da cerveja no domicílio neste ano, agora de 0,13%. Porém, ainda há inflação nos últimos 12 meses, de 2,40%, de acordo com os dados divulgados pelo IBGE nesta quinta-feira.

Ainda que quase irrisória, a alta nos preços da cerveja no domicílio foi na contramão do setor de alimentação e bebidas, que teve deflação de 0,25% em junho.

“Nos alimentos, esse é o segundo resultado negativo seguido, pressionado pela redução nos preços das frutas e do feijão carioca, que somam três quedas consecutivas. O grupo também teve altas de 5,25% no tomate e de 0,47% nas carnes. No primeiro semestre do ano, os preços dos alimentos acumulam crescimento de 2,89%”, aponta o IBGE.

Já os preços da cerveja fora do domicílio sofreram redução em junho, de 0,25%, segundo o IPCA. Mas ainda há inflação nos outros dois cenários observados: de 0,53% em 2019 e de 3,55% nos últimos 12 meses.

Os preços de outras bebidas alcoólicas no domicílio tiveram alta de 0,29% em junho, mantendo a tendência de inflação em 2019 (0,59%) e nos últimos 12 meses (3,42%). Já os das bebidas alcoólicas fora do domicílio caíram em junho (-0,77%), mas continuam em elevação no ano (0,61%) e nos últimos 12 meses (1,54%).

Decreto da cerveja: A análise dos juristas, da Frente Parlamentar, da Abracerva e do Mapa

As mudanças na legislação que normatiza a produção de cerveja no Brasil, apresentadas na última terça-feira, a partir da assinatura de decreto pelo presidente Jair Bolsonaro e que atualizou texto de 2009, provocaram celebrações, dúvidas, questionamentos e algum alvoroço entre os envolvidos no setor, especialmente pela falta de referência ao uso de cereais não maltados no documento.

Além disso, o decreto liberou o uso de produtos de origem animal – como mel e leite – na composição da cerveja, algo antes que a levava a ser classificada como bebida mista. E também indicou a desburocratização do registro de novas receitas no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

Para explicar o impacto e as dúvidas envolvendo esse importante decreto, o Guia ouviu e reuniu a opinião de diferentes representantes do setor, como o Mapa, a Associação Brasileira da Cerveja Artesanal (Abracerva), a Frente Parlamentar Mista em Defesa da Indústria Brasileira de Bebidas e alguns juristas. Confira.

A nota do Mapa
Após as críticas pela falta de menção no decreto aos limites de uso de cereais não maltados – o texto anterior apontava a necessidade de que as cervejas contivessem ao menos 55% de malte -, o Mapa se manifestou através de nota esclarecendo não ter interesse em alterar essa norma.

“De acordo com Carlos Müller, coordenador-geral de Vinhos e Bebidas do ministério, neste momento,  a única mudança nas normas é a permissão da inclusão nas cervejas de matérias-primas de origem animal, como leite, chocolate com leite e mel”, comunica o ministério.

“Ele (Carlos Müller) esclareceu que o novo decreto não altera o limite mínimo de utilização de malte de cevada nas cervejas. Não há qualquer mudança em relação aos chamados adjuntos cervejeiros, que são as matérias-primas que substituem parcialmente o malte ou extrato de malte na elaboração da bebida”, acrescenta a nota do Mapa.

Mesmo que não esteja explícita no decreto atual, segundo o ministério, a limitação aos cereais não maltados continua em vigor por conta do item 2.1.5. da Instrução Normativa n°54/2001.

“Antes da publicação do novo decreto, a cerveja tinha seu padrão disposto no Brasil em duas normas: o Decreto 6.871/2009 e a Instrução Normativa n° 54/2001. Agora, o novo decreto passa a conter somente a definição da cerveja, enquanto todas as disposições específicas de classificação e rotulagem passam a vigorar somente na Instrução Normativa n°54/2001. Foram corrigidas algumas disposições conflitantes nas duas normas anteriores, tornando o  arcabouço normativo mais compreensível à sociedade”, defende o Mapa.

A análise da Abracerva
Satisfeito com o decreto por conceder maior liberdade de criação às artesanais, Carlo Giovanni Lapolli, presidente da Abracerva, avalia que as críticas ao texto são fruto de desconhecimento. Para ele, não há interesse do Mapa em alterar os limites de malte utilizados na composição da bebida.

“Isso (a desconfiança) é fruto de desconhecimento de como foi elaborada essa norma, que está desde 2013 em discussão. O objetivo sempre foi tirar, enxugar as coisas do decreto, deixar ele mais simples. Não faz o mínimo sentido ser contra, são as pessoas que não conhecem o trâmite. Foi até realizada uma audiência pública e será mantido o mesmo percentual de cereais não maltados”, pontua Lapolli ao Guia, antes de acrescentar.

“É um grande desconhecimento sobre a legislação. As pessoas podem ficar bem tranquilas porque vai ajudar a melhorar e fazer com que tenha mais criatividade, além de poder registrar a cerveja de forma correta, com mel, com lactose, com barril de madeira, com frutas brasileiras. E vai manter como está a questão dos cereais não maltados. Então, não tem nenhuma preocupação com relação a isso, é só desconhecimento”, avalia.

Lapolli também crê que o decreto estimulará a formulação de receitas mais criativas, o que favorecerá o crescimento das artesanais. “Antes, os rótulos que traziam esses itens eram classificados como bebidas mistas. A partir de agora, entram na categoria de cerveja. Essa é uma mudança fundamental e de grande avanço para o universo das artesanais, pois permite a criação de produtos ainda mais diferenciados”, celebra.

A posição da Frente Parlamentar
A liberdade criativa a partir da liberação do uso de produtos de origem animal na receita também é exaltada como fator positivo por Fausto Pinato, deputado federal e presidente da Frente Parlamentar Mista em Defesa da Indústria Brasileira de Bebidas, organização que vem reforçando sua atuação em benefício das artesanais.

“Vejo o Decreto Nº 9.902/2019 como algo extremamente positivo para os produtores de cervejas artesanais, que aguardavam essa decisão desde 2014 e agora poderão criar livremente utilizando outros ingredientes, trazendo a inovação e qualidade que o seu público exige”, avalia Pinato ao Guia, destacando a possibilidade de todo elo produtivo ser beneficiado.

“Toda a cadeia produtiva do setor cervejeiro foi beneficiada e isso significa, além de produtos diferenciados, maior possibilidade de investimentos, que geram renda, empregos e, consequentemente, desenvolvimento. Ganha o produtor, o consumidor e o Estado”, complementa o deputado.

A avaliação dos juristas
Embora concordem que o novo decreto seja importante para o futuro da cerveja brasileira, os juristas consultados pelo Guia, da maneira geral, avaliam que ele deixa margem à interpretação de que o limite de 45% para o uso de adjuntos – como milho, por exemplo – não está mais em vigor. Seria necessário, assim, na avaliação deles, especialmente para acabar com a insegurança jurídica, a rápida elaboração de uma nova regulamentação que dispusesse de forma clara e precisa sobre essa norma.

Advogado, especialista em Direito Tributário pelo Instituto Brasileiro de Direito Tributário (IBET) e sócio do escritório Kubaszwski Gama Advogados Associados, Clairton Kubaszwski Gama escreveu na terça uma coluna sobre o tema (e publicada na quarta pelo Guia). E, depois de analisar a nota do Mapa, ele reitera sua opinião: o Decreto nº 6.871/2009 prevendo o limite de 45% para uso de adjuntos foi extinto. Portanto, com a adoção de um novo decreto, uma Instrução Normativa – como a de 2001 – não “pode desbordar dos limites estabelecidos pelos atos legais”.

“Primeiramente, quero registrar que entendo ser de extrema importância que haja essa estipulação de limite para o uso de adjuntos e que a postura do Mapa, em defender a vigência da regulamentação, é igualmente importante para o Padrão de Identidade e Qualidade da cerveja brasileira. Contudo, do ponto de vista jurídico, entendo que há margem para discussão e para defender que o limite de 45% para uso de adjuntos não está mais em vigor”, aponta Clairton.

Para ele, a limitação deixou de vigorar a partir do novo decreto. “É que a padronização das cervejas no Brasil é obrigatória por força da Lei 8.918/1994, a qual é regulamentada pelo Decreto nº 6.871/2009. Este decreto previa o limite de 45% para uso de adjuntos. Ocorre que a partir da última terça-feira, através do Decreto 9.902/2019, este limite foi revogado. E, no nosso sistema jurídico, um ato infralegal, como uma Instrução Normativa, por exemplo, não pode desbordar dos limites estabelecidos pelos atos legais (Leis Ordinários e Decretos, por exemplo). Então, se o Decreto não prevê mais o limite para adjuntos, ganha força o argumento de que a IN não pode continuar prevendo”, explica o jurista.

Por isso, Clairton enxerga insegurança jurídica a partir da assinatura do decreto, que só poderá ser sanada com uma nova regulamentação. “Enfim, entendo que o melhor para o setor cervejeiro, neste momento, seja a elaboração de uma nova regulamentação, dispondo de forma clara e precisa não apenas sobre este ponto, mas sobre todas as alterações realizadas pelo Decreto nº 9.902/2019. E que esta nova regulamentação seja feita com a participação dos representantes do setor e o mais breve possível, pois este cenário de dúvidas e posições, a princípio, divergentes, serve apenas para gerar insegurança jurídica.”

A avaliação de Clairton é corroborada por Luiz André Marqueti Rodrigues, oficial de justiça avaliador federal, cervejeiro caseiro e medalhista de concursos da Bräu Akademie. A hierarquia das normas jurídicas, segundo ele, faz com que o novo decreto anule a legislação que estabelecia o uso de cereais não maltados.

“Honestamente, não faz sentido algum o Mapa querer sustentar a vigência da Instrução Normativa 54 após a edição do novo decreto. Em primeiro lugar porque, em respeito à hierarquia das normas, essa Instrução Normativa não pode se sobrepor ao novo decreto que, a princípio, deixou de estabelecer os limites anteriormente fixados, muito embora relegue ao administrador a regulamentação posterior, que ainda não veio”, analisa Luiz André.

“Em segundo lugar porque, no Direito, o que não é proibido, é permitido. Se a proibição deixou de existir no novo decreto, não é a norma infralegal anterior que vai regular isso. Isso é elementar”, acrescenta.

Para ele, será preciso uma nova legislação para evitar a insegurança jurídica provocada pelo novo decreto. “Penso que o Mapa deverá suprir essa lacuna em breve, para acalmar os ânimos e também para não deixar um vácuo legislativo duvidoso. Vamos aguardar”, diz Luiz André.

Outro jurista a reforçar a tese de que as resoluções anteriores deixaram de estar vigentes a partir do novo decreto é o advogado Rodrigo Prado Marques. Para ele, inclusive, a falta de determinação pode trazer um clima de insegurança prejudicial ao setor.

“Há uma referência sobre o texto de 2001, mas isso me parece equivocado por uma questão jurídica. Embora o Mapa tenha vindo a público falar sobre ele, o de 2001 não é um decreto, mas uma Instrução Normativa. E, como há uma hierarquia de normas, se o decreto que o validava – que era o de 2009 – foi revogado, o outro deixa de existir. Tacitamente ele estaria revogado também. Ou seja, a instrução de 2001 não tem mais qualquer validade porque o novo decreto não faz qualquer previsão aos 45%. E isso pode ser bastante prejudicial”, comenta Rodrigo.

Na avaliação do especialista, é preciso que o Mapa encaminhe uma nova resolução que torne mais clara essa definição. “Então, o que seria preciso é regulamentar esse novo decreto. Porque ficou essa questão, ficou meio capenga. Enquanto não tiver uma nova orientação falando especificamente sobre os 45%, sobre os aditivos, esse decreto está manco. Por enquanto, na minha opinião, o que vale é só o decreto, que não especifica nada”, conclui.