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Entrevista: A mitologia irlandesa e os segredos de uma marca novata e premiada

Unir precocidade com reconhecimento e boas histórias culturais. O fato é raro e dá um sinal claro do que a St. Patrick’s Beer, marca de Ipeúna (SP) que se inspira na mitologia irlandesa, tem alcançado já no primeiro ano de vida. Tendo feito a sua estreia em um evento do setor em março, no Festival Brasileiro da Cerveja, em Blumenau, e sido oficialmente lançada ao mercado em julho, a marca vem alcançando sucesso instantâneo.

Logo em seus primeiros meses, a St. Patrick’s Beer conquistou medalhas relevantes, como as de ouro com a sua American IPA na Copa Cerveja Brasil e no World Beer Awards, em Londres. A sua Acid Trip também foi reconhecida com a medalha de ouro na edição do Rio do Mondial de La Bière. E a Dry Stout levou o bronze na Copa Cervezas de Américas, no Chile.

O resultado é fruto do que Candy Nunes, embaixadora da St. Patrick’s Beer, define como humildade no processo de concepção dos rótulos, mas também de outros aspectos.

Afinal, a St. Patrick’s Beer surgiu e faz parte da Brew Center Cervejas Especiais, que levou o prêmio de melhor microcervejaria de 2019 da Copa Cerveja Brasil, um concurso organizado pela Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva), o que significa o reconhecimento como melhor do setor no país.

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Além disso, Candy conta que a cervejaria se inspira na energia de alegria, celebração e sorte dos Leprechauns, figuras folclóricas da mitologia irlandesa, considerados guardiões de tesouros escondidos e detentores de moedas mágicas.

A lenda diz que esses seres de estatura diminuta vivem nas florestas, sempre vestidos com roupas verdes. E sua felicidade e sorte inspiraram os novos rótulos dessa cervejaria novata, já repaginados para que eles fossem incluídos com a intenção de ampliar essa ligação, exibida, inclusive, em uma série de vídeos.

A associação com uma lenda irlandesa, aliás, não foi à toa. Afinal, foi na celebração do dia de St. Patrick’s, padroeiro da Irlanda, que um dos sócios viveu um dia especial de celebração, comemoração e sorte. Agora, então, busca replicar essa energia na marca. E tem sido retribuído com as medalhas “trazidas” pelos Leprechauns.

Confira, a seguir, a entrevista completa com Candy Nunes, embaixadora da St. Patrick’s Beer.

Candy Nunes, embaixadora da St. Patrick’s

Como foi sua trajetória até chegar ao universo das cervejas?
Eu sempre trabalhei com arte. Fiz faculdade de interpretação de artes cênicas na UFBA (Universidade Federal da Bahia) e depois vim com uma banda para São Paulo, para abrir um show do Ira!. Aqui fiquei e fiz uma banda, a Orgânica Rock. Fiquei com essa banda até 2011 e trabalhava na Secretaria de Cultura do Estado, no Departamento de Artes e Ciências Humanas. Fui uma das primeiras produtoras a fazer a Virada Cultural. Em 2014, comecei a estudar e a conhecer a cerveja, fiz cursos de sommelier, o curso avançado em tecnologias e o de mestre em estilos, começando a me envolver mais no mercado. Até que fui convidada para ser embaixadora da St. Patrick’s, que era uma marca que estava surgindo, ainda sem vida comercial. Me deparei, então, com um universo maravilhoso, onde não existia apenas a intenção de fazer cerveja, mas a intenção de fazer história, o que foi muito bacana. E eu me encaixei muito nesse papel.

Quando e como surgiu a St. Patrick’s?
A cervejaria Brew Center existe desde 2000. Tinha dois sócios, o Nirlei Baumgartner e seu primo. E durante muito tempo ficou produzindo um tipo de chope, até a sociedade se desfazer. O Nirlei decidiu, então, fazer o chope Vila Alemã, que hoje é o da casa da Brew Center, que é muito difundido no Brasil. A cervejaria começou a ganhar um caráter de qualidade e abriu para os ciganos produzirem com a gente. Ela investiu muito em qualidade pensando principalmente em tecnologia e no laboratório para controle de produção, para manter padrão, e isso ganhou o coração da Brew Center. Nesse ínterim, o Lucas, filho do Nirley e meu chefe, vinha com a ideia de ter uma cerveja artesanal própria. E demorou um tempo para conseguir junto ao INPI a liberação do nome, que tem tudo a ver com cerveja, sendo utilizado em bares e festas. No nosso caso, era específico para a marca de cerveja. Saiu a liberação e aí veio a linha de entrada que a gente tem, que é a Premium Lager, a Hoppy Lager a American IPA e a Irish Dry Stout.

Quando foi o lançamento oficial da cerveja e como está se dando a sua consolidação no mercado?
O lançamento para o público foi em Blumenau, no Festival (Brasileiro da Cerveja), em março. Foi a primeira vez que aparecemos para o público em um estande, com o chope. Depois, começou todo o trabalho para a gente entrar no mercado comercial. E aí veio a parceria com o grupo Multifoods, através da Multibeer, que é quem distribui a gente em todo o estado de São Paulo. E, recentemente, em setembro, começamos a ser distribuídos no Rio de Janeiro pela Premium Brands.

Qual o diferencial para vocês conquistarem tantos prêmios em tão pouco tempo?
Dedicação, amor e humildade marcam a nossa equipe, que é muito unida. Todos somos muito humildes no sentido literal da palavra, que é querer conhecer, querer saber. Ficamos muito atentos ao que os outros nos colocam. E tentamos absorver essas críticas de uma forma positiva e edificante. Desde as primeiras provas das cerveja, com a gente mesmo identificando possíveis off-flavors, a gente foi mudando. O Lucas e o Cauê, que são cervejeiros, foram mudando, até chegarmos em uma qualidade bacana para apresentar ao público. A gente tem duas premissas muito importantes: entregar um produto de excelência e ter um preço acessível.

Em relação aos prêmios, é literalmente merecimento. Pensando que a gente tem três meses de vida comercial e já soma cinco medalhas, a gente fica muito feliz, é um retorno grande do nosso esforço, de toda a equipe, passando por quem faz o café, pelo comercial, por mim, pelo Lucas, pelo cervejeiro, todos envolvidos. Cada um com o seu ponto, mas todos muito unidos.

Como fazer para ter uma cerveja com bom custo-benefício, sendo premiada e não tão cara em um mercado que ainda sofre com a questão dos preços?
Temos um ponto favorável que é ter a indústria, o que facilita em relação aos ciganos, que precisam pagar o aluguel. O equipamento já é da própria marca, o laboratório, os cervejeiros. Tudo isso facilita. Mas o que a gente pensa é em ganhar no volume. Quando pensamos no produto e no público final, o desejo é que o consumidor pegue o nosso six-pack e vá para casa. E não que pegue uma IPA de R$ 30 e mais um pack de uma mainstream. Queremos que pegue todas da cerveja que mais gosta – e que possa pagar por isso.

Mesmo com pouco tempo de mercado, vocês já fizeram algumas mudanças nos rótulos. Como seu deu isso e como foi a inserção dos Leprechauns em cada um deles?
Nossa ideia inicial era fazer com que os rótulos tivessem a característica do Pantone (escala de cores utilizada especialmente na indústria) da cor verde, que possui relação com o St. Patrick’s, só mudando o que estava escrito nos rótulos, a graduação da cor e o estilo. Mas a gente percebeu, depois que surgiu a (Irish) Car Bomb e a Acid Trip (lançadas no Mondial de la Bière Rio) que, junto do resto da linha, seria muito bacana pensar em um rótulo que tenha o Pantone diferenciado, com uma paleta de cores diferenciadas que remetam ao sensorial da cerveja, a seus aromas e sabores. Hoje você vê o rótulo da Car Bomb e sabe que é forte e pesada, com o dourado do uísque. A mesma coisa com a Acid Trip, que é prata com rosa. Você vê logo que é algo diferente, uma cerveja ácida. A gente vai fazer isso com todos os rótulos. E aí veio a ideia de fazer a carinha do personagem com uma sensação emocional em relação a cada rótulo. Na Car Bomb, por exemplo, ele está bêbado como um irlandês, enquanto na Acid Trip tem cara de quem teve uma “viagem”. E isso também vai ter nos outros rótulos.

Como surgiu a ideia de fazer uma série com o personagem e como isso será?
O Leprechaun é uma figura mítica irlandesa. Reza a lenda que quando o ser humano avistava o Leprechaun antes dele avistar o humano, o humano poderia ser conduzido por ele até o pote de ouro, até a fortuna, a sorte. Ele significa isso: o afortunado, o sortudo, de alguma forma, o merecedor, porque encontrar uma figura mítica em uma mata antes dele te ver é muita sorte. A gente tem feito essa brincadeira: que as nossas medalhas estão indo todas para o pote do Leprechaun. Nos nossos vídeos, a gente brinca com isso.

A série é uma forma divertida de a gente levar conteúdo para o público, através de um conteúdo que é uma viagem real. A gente vislumbrou essa ideia de que os Leprechauns invadem a Brew Center na calada da noite e fazem as poções cervejeiras quando não tem ninguém lá utilizando os insumos. No dia seguinte, as pessoas chegam para trabalhar e os tanques estão cheios de cervejas que eles não sabem quais são. Essa é a brincadeira. E a contrapartida para esses Leprechauns é colocá-los nos rótulos.

Para assistir ao primeiro vídeo da série, clique aqui

Censo: Só 9% das artesanais tiveram prejuízo em 2018, mas poucas lucram em 2019

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Dentre as cervejarias independentes brasileiras, 28% estão tendo lucro neste ano, enquanto uma parcela significativa, de 22%, revelaram ter prejuízo. É o que informa o 1º Censo das Cervejarias Independentes Brasileiras, divulgado nesta quarta-feira pelo Sebrae e pela Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva).

A interessante pesquisa, que traça o primeiro grande mapa da cerveja brasileira independente, foi realizada entre 07/04/2019 e 12/05/2019. O estudo contou com 486 respondentes, entre representantes de fábricas, marcas ciganas (que terceirizam a produção) e brewpubs.

Se 28% dos entrevistados disseram estar tendo lucro e 22% prejuízo até maio deste ano, 50% garantiram estar “empatando”, ou seja, não têm superávit ou déficit significativos, conforme descrição do estudo. Mas uma análise global da pesquisa demonstra que o entusiasmo envolvendo o mercado de artesanais tem, sim, razão de existir.

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Quando questionados sobre como foi o faturamento do seu negócio em 2018 na comparação com 2017, 61% dos entrevistados afirmaram que foi melhor. Já 30% declararam que “se mantiveram”, enquanto apenas 9% apontaram prejuízo.

O resultado parece ainda mais expressivo quando se coloca em perspectiva o difícil cenário conjuntural de 2018, emperrado por uma disputa eleitoral caótica e uma economia ainda morosa – o PIB teve crescimento de apenas 1,1% no ano passado e a produção industrial de bebidas alcoólicas recuou 1,4%.

Em 2019, por sua vez, a economia teve recessão de 0,1% no primeiro trimestre e crescimento de 0,4% no segundo. E a produção industrial de bebidas alcoólicas, depois de subir até maio, vem decaindo desde então.

“Esses resultados (do censo) também podem indicar um cenário mais difícil em 2019 (para as cervejas independentes)”, analisa o estudo do Sebrae e da Abracerva.

Projeções e empregos
Em relação às projeções para 2019, 34% das cervejarias pesquisadas calculam que vão faturar até R$ 180 mil, enquanto 17% esperam entre R$ 180 mil e R$ 360 mil. Ou seja, mais da metade – 51% – projetam até R$ 360 mil.

Já 14% calculam faturamento entre R$ 360 mil e R$ 720 mil, 13% entre R$ 720 mil e R$ 1,8 milhões, 6% entre R$ 1,8 milhões e R$ 3,6 milhões. Apenas 4%, por sua vez, esperam faturar acima de R$ 3,6 milhões, enquanto 11% preferiram não informar.

O censo da cerveja destaca, ainda, a quantidade de empregos gerados em cada fábrica: 19% trabalha sozinho, 57% possui entre 1 e 4 funcionários, 12% entre 5 e 9, 7% entre 10 e 19, 5% entre 20 e 49 e 1% acima de 50.

O estudo também informou que o enquadramento tributário que prevalece entre as cervejarias artesanais independentes é o Simples Nacional (82%). 

Outros itens
Além de levantar aspectos econômicos, o censo da cerveja traça um interessante mapa sobre o mercado de independentes. O estudo aponta, por exemplo, a dominância masculina no setor, com 89% dos cervejeiros sendo homens, contra 11% de mulheres. Já a idade média dos profissionais é de 39 anos, com alto grau de escolaridade.

Em relação aos estados, os que concentram o maior número de negócios são Rio Grande do Sul (20%), São Paulo (18%) e Minas Gerais (13%). Já 70% das marcas que fizeram parte da pesquisa têm de um a quatro anos de fundação, o que mostra um mercado bastante jovem.

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Quanto à fabricação da bebida, o tipo mais comum ainda é a produção em fábrica própria (67%). Em segundo lugar estão as ciganas (25%) e, por último, os brewpubs (8%).

“Para nós, enquanto associação, é essencial entender e conhecer o segmento para podermos direcionar as ações e incentivos em prol da maioria. Somente desta forma é possível mantermos um crescimento saudável do setor”, afirma Carlo Lapolli, presidente da Abracerva.

Balcão da Matisse: Que arte é essa?

Balcão da Matisse: Que arte é essa?

Em sua obra “Estética”, o filósofo alemão Hegel (1770-1831) fez a distinção de seis tipos de arte: Arquitetura, Escultura, Pintura, Música, Dança e Poesia. A Sétima Arte foi proposta em 1912 pelo italiano Ricciotto Canudo em referência ao cinema. Essa lista foi ampliada e, atualmente, fotografia, história em quadrinhos, jogos multimídia e arte digital são amplamente aceitos como arte.

Cada forma de arte pode ser analisada a partir da maneira como ela nos afeta. Assim a música tem a ver com som, a dança com movimento, a pintura com cor, a escultura com volume, o teatro com representação, a literatura com palavra. O cinema, no entanto, tem uma característica diferente: integra os elementos das artes anteriores e, por isso, é tão fascinante.

Outra forma de arte que também tem essa capacidade de integrar múltiplos elementos que nos afetam é a gastronomia, que tem a ver com sabor, aroma, cor, textura e, de forma mais ampla, com cultura, costumes, valores e tradições.

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A cerveja artesanal sobressai na gastronomia pela grande variedade de estilos e diversidade de ingredientes que podem entrar em sua composição. Pode ser apreciada como bebida, harmonizada com pratos ou utilizada como ingrediente. Seus sabores e aromas são ressaltados em degustações em harmonizações com queijo, pães, chocolate e pratos diversos. Abrir uma garrafa de cerveja e despejá-la no copo com cuidado, observar a cor, o aspecto, a formação de espuma, sentir o aroma e provar com cuidado, atentando para os sabores e textura, é como contemplar um quadro, uma estátua, ouvir uma música.

A cerveja artesanal, muito mais do que um alimento, é uma arte e, como tal, pode refletir o universal e o regional ao mesmo tempo. Uma cerveja tradicional feita no Brasil pode conter um ingrediente local como uma semente da Amazônia ou uma fruta da Mata Atlântica e mudar completamente a percepção de sabor, sem fugir do estilo. É como ouvir uma música do Tom Jobim interpretada pela Elis Regina.

Por isso tornou-se tão importante para nós ter uma escola brasileira de cerveja, produtos que reflitam o nosso terroir, lúpulo e malte nacionais de qualidade. E utilizar ingredientes brasileiros nas receitas, criar nossos estilos, beber local, integrar a cerveja aos nossos valores e tradições, desenvolver a nossa cultura cervejeira e mostrar para o mundo, pois não se trata simplesmente de uma bebida, mas de arte.


Mario Jorge Lima é engenheiro químico e sócio-fundador da Cervejaria Matisse

Carlsberg está próxima de lançar a primeira garrafa de papel do mundo

Como resultado de quase cinco anos de pesquisa, a cervejaria dinamarquesa Carlsberg apresentou ao mercado dois protótipos do que pode vir a ser a primeira garrafa de papel cervejeira a chegar ao mercado.

Os dois protótipos de pesquisa são feitos de fibra de madeira de origem sustentável, totalmente recicláveis. Ambos conseguem armazenar líquido devido a uma fina barreira que impede o contato do líquido com o papel. Em um deles, essa barreira é feita de filme de polímero PET reciclado, enquanto o outro leva filme de polímero PEF (polietileno furanoato) com 100% de base biológica.

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Esses protótipos, no entanto, ainda estão em fase de teste. O principal desafio é justamente atestar a eficiência das tecnologias usadas em cada opção de barreira e, assim, determinar qual delas será o caminho para a possível embalagem biológica.

“Continuamos a inovar em todos os nossos formatos de embalagem e estamos satisfeitos com o progresso que fizemos com a Green Fiber Bottle até agora. Embora ainda não tenhamos conseguido o produto final, os dois protótipos são um passo importante para realizar nossa ambição maior que é levar essa inovação ao mercado”, afirma Myriam Shingleton, vice-presidente de desenvolvimento da Carlsberg Group.

“A inovação leva tempo e continuaremos a colaborar com os principais especialistas para superar os desafios técnicos que ainda existem”, acrescenta a executiva, destacando os desafios da garrafa de papel.

Parcerias
A Carlsberg iniciou seu projeto para desenvolver uma garrafa feita de fibras de madeira de origem sustentável – a “Green Fiber Bottle” – em 2015, junto com especialistas em inovação da ecoXpac, da empresa de embalagens BillerudKorsnäs e de pesquisadores do pós-doutorado da Danish Technical University.

Dessa parceria nasceu a Paboco (Paper Bottle Community), hoje uma joint venture entre a BillerudKorsnäs e a fabricante de garrafas Alpla, que busca o desenvolvimento de soluções sustentáveis em parcerias com grandes empresas.

Recentemente, a Coca-Cola, a Absolut (marca da Pernod Ricard) e a indústria de cosméticos L’Oréal se juntaram à “comunidade de garrafas de papel”, que une empresas que compartilham o objetivo de promover embalagens sustentáveis – dando uma pista de para que lado os esforços de grandes companhias podem apontar nos próximos anos.

A Carlsberg também tem se esforçado para se posicionar globalmente ao lado da causa da responsabilidade ambiental. A busca pela inovação em embalagens sustentáveis é parte do programa de sustentabilidade Together Towards ZERO, que prevê um compromisso de redução da emissão de carbono de suas cervejarias espalhadas pelo mundo em 30% até 2030.

Antes de mostrar sua garrafa de papel, no ano passado, a companhia deu um passo significativo para a redução do volume de plástico gerado por suas embalagens ao anunciar o “Snap Pack”, uma tecnologia que une latas com uma simples gota de cola, substituindo invólucros plásticos para os “6 pack”.

Tecnologia Snap Pack já reduz o volume de plástico

Colorado lança cerveja com umbu e cajá para homenagear Alceu Valença

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A brasilidade da Colorado se encontrou com a de Alceu Valença. Para homenagear um dos músicos icônicos do país e, mais especialmente, sua música Morena Tropicana, a marca que aposta em ingredientes nacionais acaba de lançar uma cerveja com umbu e cajá.

Assim nasceu a Tropicana, uma Fruit Beer com 4,3% de teor alcoólico e 10 IBUs. Trata-se de um rótulo feito “para valorizar ainda mais todos os ingredientes brasileiros e tudo aquilo que o país tem de melhor, seja isso dentro do copo ou com canções”, conforme descreve a marca.

O umbu e o cajá conferem um sabor frutado e um leve dulçor para a cerveja, resultando em uma bebida suave e leve. Ou seja, assim como a música, é a cerveja perfeita para diversas ocasiões, segundo acrescenta a marca de Ribeirão Preto.

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“Alceu Valença é um dos principais músicos do Brasil. Resolvemos fazer essa homenagem, combinando toda a brasilidade dele com a da Colorado. Encontramos na música Tropicana a forma perfeita de fazer isso. Dessa maneira, destacamos não apenas dois ingredientes tipicamente nacionais, como também valorizamos um grande artista do país”, explica Guilherme Poyares, gerente de marketing da cervejaria.

Em Morena Tropicana, Alceu Valença lista ingredientes brasileiros para fazer comparações com sua musa morena. E as duas frutas utilizadas na receita servem para descrever seu “beijo travoso de umbu-cajá”.

O lançamento da Colorado estará disponível nos Bares do Urso e no site do Empório da Cerveja.

https://www.youtube.com/watch?v=XABq09zWmp0
A clássica canção de Alceu Valença

Câmara da Cerveja deve estimular exportação e reforma tributária do setor

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Criada no âmbito do Conselho Nacional de Política Agrícola pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), a Câmara Setorial da Cadeia Produtiva da Cerveja deve agilizar os processos decisórios em cada órgão regulatório envolvido com a bebida no Brasil.

Essa é a análise de Carlo Lapolli, presidente da Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva), ao avaliar o surgimento dessa câmara como um importante passo para o setor.

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“Cria um fórum permanente de discussão do setor com os principais players envolvidos, com as grandes cervejarias, as pequenas cervejarias e os gestores de políticas públicas. Em razão disso, a gente pode ter uma ação bem mais rápida e pontual de vários assuntos que merecem a atenção regulatória e precisam de um debate e de uma reformulação”, afirma ao Guia.

Lapolli enumera situações e cenários que deverão ser favorecidos pela criação da câmara setorial, como a capacitação das microcervejarias, o apoio aos exportadores e a discussão de uma nova carga tributária para o setor.

“Desde a capacitação das pequenas empresas, passando pelo Sebrae, o estímulo da exportação de cervejas, passando pela Apex. Ou até mesmo a nova política de tributação, pelo Ministério da Economia, com a reforma tributária batendo em nossa porta. Isso tudo passa por uma discussão em um foro competente, que é a câmara da cerveja”, relata o presidente da Abracerva.

A câmara
O grupo terá como intuito analisar o mercado, colaborar com a criação de políticas públicas e assessorar o governo federal sobre temas do setor, que vem em crescimento e demanda o estabelecimento de políticas públicas que apoiem sua competitividade.

A criação da câmara foi assinada pela ministra Tereza Cristina com previsão de atuação em três áreas: a avaliação, elaboração e divulgação de estudos sobre a produção de cerveja no Brasil em todos os âmbitos; a colaboração na identificação das prioridades atendidas pelas políticas públicas que afetam o setor; e o assessoramento ao Mapa nos assuntos relacionados ao segmento.

A câmara é composta por Abracerva, Secretaria de Defesa Agropecuária (SDA/MAPA), Secretaria de Agricultura Familiar e Cooperativismo (SAF/MAPA), Cooperativa Agrária Agroindustrial (Agrária), Associação Brasileira de Produtores de Lúpulo (Aprolupulo), Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Federação Brasileira das Acervas (Acerva Brasil), Associação Brasileira dos Fabricantes de Latas de Alumínio (Abralatas), Associação Brasileira da Indústria do Vidro (Abividro), Associação Brasileira de Bebidas (Abrabe), Associação Brasileira da Indústria da Cerveja (Cervbrasil), Associação Brasileira de Supermercados (Abras) e Associação Brasileira dos Exportadores e Importadores de Alimentos Bebidas (Abba).

Menu degustação: Vienna da Pratinha, festa da ZEV, colab entre Synergy e 5Elementos

Vienna da Pratinha
A cervejaria de Ribeirão Preto acaba de lançar um rótulo ideal para climas mais quentes. É a Caramuru, uma Vienna Lager que possui baixo amargor e teor alcoólico entre 4,8% e 5,4%. Sazonal, a novidade foi produzida no Beer Hack Lab – laboratório de inovação cervejeira da Pratinha – e tem o processo de fermentação aberto, ou seja, a pasteurização não é realizada, mantendo a alta sensibilidade e frescor. Por isso, as vendas ficarão concentradas na região de Ribeirão Preto. Leva o lúpulo checo Saaz e é feita em tanques abertos, técnica usada na República Checa. “Depois deste processo de fermentação, a cerveja desce por gravidade sem o uso de bombas, evitando assim a oxidação da cerveja, através de uma tubulação preenchida por CO2. Quando chega aos tanques fechados, a temperatura é reduzida a 4 graus para uma maturação de pelo menos 30 dias antes da primeira prova”, conta José Virgílio Braghetto Neto, sócio-proprietário da Cervejaria Pratinha.

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Dogfight em SP
Trabalhando com lúpulos selecionados e IBUs elevados, a Dogfight chegou oficialmente em São Paulo na última quinta-feira. Lançada no início do mês em Ribeirão Preto, a marca tem como inspiração grandes batalhas históricas, além de armas e jogos de guerra. Seu principal ícone é o caça britânico Spitfire, o “cuspidor de fogo” que foi um dos aviões mais letais e famosos da Segunda Guerra Mundial. Foi criada por dois cunhados cervejeiros, Matheus Cardoso e Jaime Fabreti. “Queremos abastecer nossos fronts em São Paulo e Ribeirão Preto lembrando que, das batalhas do dia-a-dia às grandes guerras, a Dogfight vem para comemorar batalhas conquistadas, celebrar parcerias e honrar o prazer do dever cumprido”, dizem os dois cunhados. O primeiro rótulo da Dogfight é uma Imperial IPA que reúne uma combinação intensa de lúpulos ingleses e norte-americanos em um potente dry hopping.

Colab da Synergy
Em parceria com a 5Elementos, de Fortaleza, a cervejaria Synergy lança nos próximos dias a Fortitudine. Trata-se de uma New England American Pale Ale, bem juicy e suculenta, segundo a marca de Sorocaba. O rótulo estreará também um novo modelo de negócios para o estado de São Paulo: as vendas serão feitas de forma direta, da fábrica ao ponto de venda. Com isso a cervejaria espera aumentar ainda mais a sinergia com seus clientes. “Fortitudine é algo forte, fortificado. Fortaleza na sua essência. É uma cerveja fortuita já no nascimento”, conta Eduardo Sampaio, cervejeiro da Synergy.

Agenda: 1 ano da ZEV
A cervejaria ZEV vai comemorar seu primeiro ano de existência no próximo sábado, com uma festa em sua fábrica, na Rodovia Índio Tibiriçá, em Suzano. Serão 12 torneiras, com rodízio de rótulos como Lager, IPA, NE IPA, Session IPA, Witbier, Vienna Lager, Berliner Weisse e Dry Stout, além de uma Double NE IPA com coco queimado, que será lançada na festa. “É a realização de um sonho que aconteceu graças à ajuda de nossos parceiros e clientes. Uma jornada que começou com muito trabalho e dedicação para desenvolver os melhores produtos para o público apreciador de uma boa cerveja”, aponta Mikhail Ganizev, sócio-proprietário da ZEV. Haverá vans saindo de São Paulo. Para mais informações, clique aqui.

Primavera cervejeira: Dicas de harmonização para a estação mais querida do ano

A primavera é a estação do ano mais festejada na história da humanidade. Isso porque ela nos tira do inverno, do frio e dos períodos com menos sol. Em países tropicais, como o Brasil, talvez essa diferença de uma estação para outra não seja tão grande, pois mesmo no inverno temos sol e calor. Mas, em grande parte do mundo, a chegada da primavera sempre foi muito comemorada por permitir a retomada dos plantios e das colheitas.

Ela nos traz o sol de volta, temperaturas altas e mais umidade, que são fundamentais para o crescimento das plantas, deixando as paisagens mais coloridas e alegres. Esse renascimento provocado pela primavera sempre foi tema de poesias e músicas, com suas analogias ao recomeço e à esperança. Por tudo isso, a primavera é a estação do ano mais simbólica que existe.

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Há, também, uma união perfeita entre cerveja e primavera. Primeiro porque a bebida depende diretamente da agricultura e da natureza. E é na primavera que começa o ciclo de crescimento dos lúpulos (que são colhidos no final do verão) e as plantações de cevada ficam mais vistosas.

Depois, assim como a primavera, a cerveja também tem muita importância na história da humanidade. Além disso, há uma influência grande da primavera na culinária, não só pelo aumento das temperaturas, mas também da oferta de frutas, legumes e verduras.

Para celebrar a primavera com cerveja, o Guia ouviu especialistas para dar dicas de harmonização. A sommelière e tecnóloga cervejeira Anne Galdino, também especializada em harmonizações, destaca a alegria e as cores da estação. “Para a primavera pensamos em alimentos coloridos, leves, e harmonizar isso com cerveja se torna ainda mais leve e alegre”, explica Anne, que foi a primeira mulher a vencer o reality show Eisenbahn Mestre-Cervejeiro, em 2018.

Na mesma linha, o sommelier Rodrigo Sena, que também é especializado em harmonizações, destaca a importância dos alimentos vindos direto da natureza. “A estação pede pratos e bebidas leves que conversem com ingredientes frescos, vindos diretamente da terra”, salienta ele.

4 Dicas de harmonização na primavera

1 – Moqueca de Camarão no Abacaxi com Bottega Mungunzá

Bottega Mungunzá

Anne Galdino mora na cidade de Teresina, capital do Piauí, onde tem uma marca de cervejas chamada Bottega Birra & Vino. Ela utiliza nas receitas muitos ingredientes que tenham a ver com a região. A dica dela é unir abacaxi com camarão, um casamento que dá uma incomparável sensação de leveza. “Uma deliciosa moqueca de camarão no abacaxi traz todo o frescor que queremos para essa estação”, explica. A dica dela é harmonizar essa moqueca com o rótulo Bottega Mungunzá, uma Cream Ale com 4,5% de teor alcoólico, refrescante, que possui flocos de milho e coco na receita. “Imagina a complementação de sabor que o coco dá a esse prato. Eu já salivei aqui, e você? ”, brinca Anne.

2 – Flores de Abobrinha com Blanche de Bruges

Blanche de Bruges

Não é muito comum no Brasil, mas na Ásia as flores comestíveis são usadas em pratos e sobremesas há muito tempo, e não só para decoração. As flores podem ser doces, picantes, cítricas, amargas, e com muitos outros sabores. “A flor é a imagem que simboliza a primavera, portanto, pratos que contenham flores têm tudo a ver com a estação”, reforça Rodrigo Sena. 

A dica é uma porção de flores de abobrinha empanadas e fritas, recheadas com ricota e manjericão. Para harmonizar, uma clássica Witbier Belga, a Blanche de Bruges da cervejaria De Halve Maan. “A cerveja é leve e refrescante, com o coentro que conversa direto com o manjericão da comida, notas cítricas da cerveja complementando a ricota, e a ótima carbonatação e acidez da Witbier equilibrando a gordura da fritura”, orienta Rodrigo. 

3 – Alcachofra ao Molho de Ervas com Dortmund The White IPA

Dortmund The White IPA

Muita gente não sabe, mas a alcachofra é uma flor. Nesse prato, a flor é temperada com alho, limão, sal e molho feito com manjericão, salsinha, tomilho, cebolinha, azeite e tomate. Um prato leve, mas com variedade de sabores. “No prato temos o amargor da alcachofra e a acidez do limão regados com um molho bem refrescante. Para harmonizar com essa combinação toda é necessária uma cerveja que também tenha muitos sabores, mas sem ter mais potência do que o prato”, aponta Rodrigo. A dica de harmonização do sommelier é a Dortmund The White IPA, uma variação de American IPA que contém trigo. “Na cerveja temos muito frescor, notas cítricas, herbais e condimentadas, além do amargor dos lúpulos que irá amenizar o amargor da alcachofra para criar um novo sabor. É uma harmonização que muda tanto a cerveja quanto o prato.”

4- Salada de Frutas Cremosa com Kriek Boon

Kriek Boon

O colorido e o frescor de uma salada de frutas têm tudo a ver com a primavera. As frutas são variadas nas cores e nos sabores, como banana, laranja, mamão, maçã, morango, uva, kiwi, abacaxi, melão, pera, cereja e muitas outras. Ainda, para dar cremosidade à sobremesa, acrescentamos creme de leite e leite condensado, deixando a salada de frutas doce, cremosa e refrescante. “Aqui vamos escolher uma cerveja frutada, que irá colaborar com o mix da salada, e também com acidez para equilibrar a untuosidade do creme de leite e o dulçor do leite condensado”, explica Rodrigo. Para esta harmonização, ele indica a Kriek Boon, uma Lambic tradicional da Bélgica que contém adição de cereja.

Preço da cerveja acompanha IPCA e tem deflação em setembro

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O preço da cerveja em domicílio registrou deflação em setembro, de 0,27%, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Seguiu, assim, o ritmo do que aconteceu com o índice geral, que teve queda de 0,04% no nono mês de 2019, o menor resultado para o período desde 1998.

Com essa redução, o aumento no preço da cerveja em domicílio no ano é de 0,96%. E, de acordo com os dados divulgados pelo IBGE, a inflação da cerveja é de 1,93% quando considerados os últimos 12 meses.

A queda nos preços da cerveja no domicílio se insere na baixa dos preços do setor de alimentação e bebidas, que teve deflação de 0,43% em setembro, pressionando positivamente o índice geral.

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“O grupo alimentação e bebidas já tinha apresentado queda em agosto, de -0,35%, que se intensificou para -0,43%, pressionada pela desaceleração da alimentação fora de casa, associada à queda na alimentação no domicílio, que caiu pelo quinto mês consecutivo”, explica Pedro Kislanov, gerente do IPCA.

Já os preços da cerveja fora do domicílio tiveram alta em setembro, de 0,27%, segundo o IPCA. Também há inflação nos outros dois cenários observados: de 1,16% em 2019 e de 3,09% nos últimos 12 meses.

Os preços de outras bebidas alcoólicas no domicílio tiveram alta de 0,33% em setembro, mantendo a tendência de inflação em 2019 (1,58%) e nos últimos 12 meses (1,79%).

Já os das bebidas alcoólicas fora do domicílio caíram em setembro (-0,11%), mas continuam em elevação no ano (1,79%) e nos últimos 12 meses (2,19%).

Entrevista: A cerveja está pomposa e chata, precisamos aproveitar melhor seu potencial

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A essência do ato de ir ao bar para se divertir com os amigos, interagir com desconhecidos e consumir uma boa cerveja pode ter se perdido ao longo do tempo. Essa é a avaliação do renomado chef de cozinha e sommelier de cervejas Ronaldo Rossi. Não à toa, ele tem como lema a expressão “mais cerveja, menos frescura”.

Foi pensando em todas as experiências que a cerveja nos bares pode provocar que ele lançou recentemente o livro “Ronaldo Rossi, botecando e harmonizando”, em que apresenta diferentes opões gastronômicas para serem consumidas junto com cervejas, passando por todo o território nacional através de alimentos e rótulos (para comprar o livro, clique aqui).

Se o livro apresenta alternativas de harmonização, Rossi avalia que o mercado ainda precisa evoluir muito, entendendo mais esse conceito. Além disso, critica a concentração de IPAs na produção de artesanais no Brasil. E fala que a cerveja precisa resgatar suas características originais.

“Estamos fazendo a cerveja ficar um treco ‘chato pra caralho’, tudo muito fresco, muito pomposo”, alerta Ronaldo Rossi. “Para, mano. Cerveja é ‘legal pra caralho’. E a ideia do menos frescura é essa: aproveitar tudo o que a cerveja pode oferecer, que vai muito além do copo; tem a experiência, de ter gente junto, de curtir.”

Confira, a seguir, a entrevista completa com Ronaldo Rossi, chef de cozinha, sommelier de cervejas, sócio da Cervejoteca e autor do livro Ronaldo Rossi, botecando e harmonizando.

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O livro apresenta um trabalho extenso, com mais de 60 cervejarias de diversas regiões envolvidas. Como surgiu a ideia do livro, como tais cervejarias foram selecionadas e como contribuíram para a obra?
Eu demorei uns quatro anos para começar. O projeto original acabou sendo muito diferente do que é hoje, teria inicialmente uma parte mais técnica. Mas eu percebi que ainda falta informação básica para a galera. E não tem nada mais simples e acessível do que o boteco. Por isso parti para essa ideia da botecagem. A partir disso, primeiro eu escolhi as receitas a partir das divisões nacionais, porque estamos falando de um país continental, o que torna tudo mais difícil. Então, imaginei coisas locais, como costeleta de pacu, que é sensacional e como toda vez que vou ao Mato Grosso – mas só é possível comer lá. Ou o canapé de linguiça Blumenau, que só tem na região, a carne de onça, que só encontra em Curitiba. Então, a ideia inicial era buscar essas coisas locais, como o caldo de sururu, no Nordeste. Busquei coisas típicas e uma apresentação que não ficasse em uma ordem desequilibrada. Então tem um pouco de carne, de frango, de sanduíche, de fritura e por aí vai.

E, seguindo essa linha, como foram surgindo os convites para as cervejarias?
Feito esse trabalho inicial, eu parti para as divisões técnicas de harmonizações e criei uma série de possibilidades. A partir dessas possibilidades, eu tentei trabalhar primeiro questões regionais e depois culturais. Na maior parte dos casos eu consegui, como a linguiça Blumenau, onde houve um próprio convite à Cervejaria Blumenau. E a Dogma também, quando falo da questão do sanduíche de mortadela que tem toda relação com São Paulo. Já o caldinho de sururu eu peguei a Ekäut, do Nordeste. E, da mesma forma, chamei a 5 Elementos para falar do escondidinho de carne seca. Então, os convites foram todos nesse sentido. E tem também a parte da proximidade, porque conheço muita gente, faço eventos, desenvolvo cerveja junto.

Pensando em toda essa questão culinária envolvendo a multiplicidade cultural e regional, você acha que o mercado de cerveja artesanal aproveita bem esse potencial? E o que pode ser feito para melhorar essa relação?
Estamos muito longe disso, dá pena. Chovemos demais no molhado e uma coisa acaba puxando a outra, às vezes de forma negativa. No mercado, hoje, temos uma explosão de IPAs, com a maior parte dos ciganos trabalhando sua linha – quase 90% dela – com a IPA. E quando você envolve a IPA como o estilo mais tradicional, mais popular entre os cervejeiros, fica difícil falar em harmonização. É muito mais fácil buscar outros estilos menos lupulados, pensando na questão da harmonização, do que o lúpulo.

Como essa saturação de IPA acaba interferindo nesse cenário?
Neste caso, quem sai ganhando é quem tem planta própria. Por mais que elas tenham a IPA na sua linha, elas não vão ter tanto reforço de lúpulo em suas receitas como as ciganas, que precisam fazer isso para vender um pouco mais. É uma pena. Dando aula, por vezes, eu pego cartas de cervejas harmonizadas onde há a orientação de comer hambúrguer com IPA. Isso não vai dar certo nunca, em nenhum lugar do mundo. O pessoal insiste, mas nunca vai funcionar. Isso é chover no molhado.

E o que pode ser feito para reverter isso?
A gente precisa sair da casinha, precisa abrir o coração. Vamos nos permitir hoje não tomar uma IPA e ver como esse universo pode ser bacana. Você ganha muito mais com essa possibilidade de mostrar esse tipo de variação para, por exemplo, um consumidor de vinho, que não conhece nada. É muito comum quando faço evento corporativo o pessoal chegar e dizer “eu sou do mundo do vinho, não sou daqui”. E aí falo “senta aí, curte com a gente, vem de coração aberto”. E funciona, ele gosta. Já o cara da cerveja chega de coração fechado, armado para não gostar. É uma pena.

Seguindo um pouco essa linha do erro da IPA, e pensando no aspecto da botecagem, quais os demais erros conceituais que o mercado comete hoje na questão da harmonização? O que dificulta para, pela comida, aproximar o botequeiro do mercado de artesanais?
O que falta é o entendimento do que é a harmonização. É começar do princípio mesmo, e a história do hambúrguer com a IPA é um exemplo perfeito disso. Quando você vai em um boteco padrão, o cara vai te servir tremoço, frango à passarinho, ovo colorido, salame. E, para tudo o que você pedir, o cara vai te dar uma Light Lager, uma American Lager. A gente se acostumou com aquilo e vai que vai, intercalando com uma cachaça, uma caipirinha. O que acontece é que o cara não entende a diferença de harmonizar e servir junto. E, neste caso, ele está servindo junto, da mesma forma que seria uma Coca-Cola. Existe esse conceito maior de harmonização e bato nessa tecla desde a minha primeira turma – e essa frase até passou a ser amplamente utilizada por aí, e quero que continue sendo: harmonizar é pegar dois ingredientes que funcionam muito bem individualmente, mas juntos eles são melhores. É o conceito de melhorar a experiência.

E como isso pode ser aplicado na prática, pensando no mercado de artesanais?
Se eu estou servindo frango à passarinho, salame, tudo aquilo lá que falei, com a mesma cerveja, certamente algo não vai dar certo. Com algo até pode ficar perfeito, mas com outro vai ficar horrível. E o que podemos fazer em um caso como esse? Hoje temos o acesso a uma quantidade muito grande de rótulos, e fica até fácil falar sobre isso. Você vai em qualquer loja mediana de cerveja e lá terá, pelo menos, 60 rótulos. Se o proprietário, se o sommelier dessa casa fugir um pouco do óbvio e não trabalhar só com variação de IPA, ele vai conseguir harmonizar. E aí vai conseguir, também, trabalhar a evolução dos pratos. Então aí começa com uma azeitona, um pastel de queijo, com algo que tenha uma intensidade pequena. E aí evolui para uma porção de calabresa flambada ou acebolada, ou um molho mais intenso, um empanado, algo mais picante. Entendendo isso, você consegue criar uma experiência total, não só de um único prato, de uma única cerveja. Falta, no mercado brasileiro, por vezes, entender que a experiência é bem mais ampla.

Que rótulos podem servir de apoio nesses casos?
É importante voltar para a história do coração aberto. Quando chega a isso, todo mundo gosta. É muito fácil fazer isso até com coisas bobas, uma polenta frita, uma mandioca frita, uma batata. Ao invés de oferecer uma American Lagar, oferece uma Vienna Lager. A experiência é muito maior, porque você está emprestando uma camada de sabor muito maior, baseada em um início de tosta, com uma base de caramelo – e você já tem isso naturalmente na base da fritura. Você vai potencializar ela. E é uma cerveja super simples, super fácil de tomar. Não conheço ninguém que tome uma Lager, uma Pilsen, que vá fechar a cara para uma Vienna Lager. É muito próximo. Falta a iniciativa. Tendo ela, a pessoa vai seguir nesse caminho.

O livro tem como um dos lemas a frase “mais cerveja, menos frescura”. De onde ele veio e como ele está relacionado com a sua trajetória de chef e cervejeiro?
Eu não lembro quando falei exatamente isso pela primeira vez. Mas lembro que foi muito perto da história do “beba menos, beba melhor”. É legal essa história, mas a gente curte botecagem, a gente curte enfiar os três pés na jaca. Você vai até a página três, quatro, nessa de beba menos, beba melhor, mas daí para frente…

Tem um vídeo meu de 2011 em que falo: estamos perdendo a mão da cerveja. Fizemos a cerveja ficar um treco “chato pra caralho”, tudo muito fresco, muito pomposo. A gente esquece que a cerveja é a bebida em que você faz o brinde sorrindo. Nas outras bebidas têm o brinde formal, aquela cara fechada, sorrindo de leve. E na cerveja a galera bate, comemora, levanta, gargalha. A cerveja á algo muito social, muito agregador. Mesmo quando você está tomando sozinho no boteco você faz o brinde com a garrafa, só para não deixar de ter o brinde. E aí você vai perdendo isso em função de deixar tudo muito formal. Precisa ser o copo certo, a temperatura certa, não pode ter barulho. Para, mano. Cerveja é “legal pra caralho”. E a ideia do menos frescura é essa: aproveitar tudo o que a cerveja pode oferecer, que vai muito além do copo; tem a experiência, de ter gente junto, de curtir. Fecho todas as minhas palestras com essa frase até hoje.

Pensando nessa cerveja menos chata, você acha possível sonhar com a artesanal quebrando barreiras e se tornando uma cerveja de botequim, onde as pessoas brindam como se fosse uma Skol?
Nosso maior problema é o custo-Brasil. Ele não permite. Quando você chega no padrão norte-americano, que é nossa maior referência, nossa maior proximidade, o consumidor paga US$ 0,75 em uma cerveja popular e, na primeira linha das craft beer, perto de US$ 1,25, US$ 1,30. Aqui ele vai sair de R$ 3, R$ 4, em uma Skol para quase R$ 20 em uma latinha de artesanal. Isso assusta. É muito comum alguém entrar aqui na loja, acompanhando um consumidor de cerveja, e dizer: “o que você vai pagar nessa cerveja eu compro um fardo”. O custo não permite ainda chegarmos tão longe.

Hoje existe uma migração da garrafa para o chope, e ele consegue chegar com um preço bem mais viável, bem mais possível. E esse preço começa a abrir portas. Você vai sentar em um boteco pé sujo qualquer para pagar R$ 11, R$ 12, em uma Brahma, que é um valor que a gente consegue trabalhar em uma Pilsen puro malte, em uma Weiss, em uma Vienna. Esse custo mais baixo é a principal barreira que podemos quebrar. Passado isso, ninguém volta. Quem pode tomar uma cerveja boa, vai tomar. Se alguém pode tomar uma Orval, não tem porque tomar uma Skol. Não vai. A grande sacada é fazer o sujeito chegar e conseguir ficar. Se ele consegue, é um caminho totalmente sem volta. Se tivesse menos custo-Brasil, se fosse a metade do que custa – nem precisa ser a proximidade norte-americana -, todos estariam felizes e contentes.