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Mulheres crescem no mercado, mas disparidade entre gêneros é fator crítico

*Por Fabi Fonseca

O Dia Internacional da Mulher, celebrado nesta segunda-feira, costuma ser uma data cercada de comemorações para lembrar as conquistas femininas ao longo da história. Mas também serve para reforçar importantes questões do nosso cotidiano, como os salários pagos às mulheres.

Na semana passada, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou a 2ª edição do estudo “Estatísticas de gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil”. E um dos dados mais alarmantes foi justamente sobre a força de trabalho e os salários pagos a elas no país.

De acordo com os dados, apenas 54,5% das mulheres com 15 anos ou mais faziam parte do grupo em 2019. Entre os homens, o número foi de 73,7%. Isso mostra que, embora a presença das mulheres no mercado de trabalho venha crescendo ao longo dos anos, a disparidade entre os gêneros ainda é um fator crítico que corrobora a desigualdade de gênero e o machismo existentes em nossa sociedade.

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Como em outros setores, a disparidade entre homens e mulheres também está presente na indústria nacional. Dados de 2018 do IBGE, atualizados em 2020 e compilados pela Guia mostram que a presença feminina na produção é 35,34% menor em relação aos homens. No setor são 12.682.463 mulheres trabalhando, contra 19.614.364 homens.

As mulheres também recebem salários, em média, 24,25% menores em relação a eles. A média mensal paga aos homens é de R$ 3.061, sendo de apenas R$ 2.318,52 para as mulheres. Na soma do período, o total é de R$ 720.376.289.000 repassados a eles, contra R$ 352.854.723.000 pagos a elas.

Desigualdade no setor
Mesmo que os dados do IBGE não façam distinção entre produção de bebidas alcoólicas e não alcoólicas, provavelmente a cerveja comercializada no Brasil também é mais um dos produtos no mercado que atravessam esse processo de desigualdade na força de trabalho.

Em uma análise apenas sobre a produção de bebidas e embalagens (especificados na tabela como fabricação de bebidas; fabricação de celulose, papel e produtos de papel; fabricação de produtos de borracha e de material plástico; e fabricação de produtos de metal, exceto máquinas e equipamentos), temos 236.613 mulheres atuando, contra 897.696 homens – a diferença é de 73,64%. Já a distância de salários está em 18,38%, sendo R$ 2.734 na média mensal pagos para as mulheres, contra R$ 3.349 de remuneração masculina.

O levantamento também apontou que as mulheres que atuam especificamente na produção de bebidas estão recebendo em média 6,62% a mais em salários na comparação aos homens. Porém, em presença no setor, são 81,07% a menos quando comparadas a eles (27.412 mulheres e 144.837 homens).

Segundo os dados, a média de salários das mulheres no segmento é de R$ 3.614, contra R$ 3.389 para cada homem. Com isso, a remuneração anual paga a elas é de R$ 43.363 e R$ 40.669 a eles. No total do período, foram R$ 1.188.680.000 pagos para mulheres e R$ 5.890.423.000 aos homens.

Já na análise individual dos demais segmentos (fabricação de celulose, papel e produtos de papel; fabricação de produtos de borracha e de material plástico; e fabricação de produtos de metal) a tendência vista é de que as mulheres permanecem recebendo menos em relação aos homens: 26,09%, 25,97% e 12,92%, respectivamente.

E a diferença entre o número de mulheres e homens que atuam nas atividades também é acentuada: são de -72,51%, -62,24% e -80,48%, respectivamente.

Uma mulher que trabalha na fabricação de celulose, papel e produtos de papel recebe R$ 3.210 na média mensal (sendo R$ 38.522 na média anual). Já para um homem são pagos R$ 4.343 na média mensal (sendo R$ 52.118 na média anual). Na soma total do período, eles recebem R$ 7.622.917.000, contra R$ 1.548.756.000 pagos a elas. No setor, são apenas 40.204 mulheres trabalhando contra 146.264 homens.

Na fabricação de produtos de borracha e de material plástico, por sua vez, a média da remuneração mensal de uma mulher está em R$ 2.413 (sendo R$ 28.953 na média anual), contra R$ 3.259 (sendo R$ 39.109 na média anual) pagos a um homem. Assim, na soma da remuneração, foram pagos R$ 3.031.215.000 às mulheres e R$ 10.843.196.000 aos homens. São 277.258 homens que atuam na atividade e apenas 104.696 profissionais femininas.

E, na fabricação de produtos de metal, exceto máquinas e equipamentos, as mulheres recebem R$ 2.583 na média mensal, contra R$ 2.966 pagos aos homens. Isso significa que a remuneração anual de uma mulher na atividade é de R$ 30.996, contra R$ 35.595 de um homem. Na soma total do período, elas receberam apenas R$ 1.993.077.000 e eles faturaram R$ 11.722.860.000. No setor, são 329.337 homens trabalhando e apenas 64.301 mulheres.

Afazeres domésticos
Os dados do IBGE também mostraram que, em 2019, a maior dedicação aos afazeres domésticos e cuidados das pessoas impacta diretamente na forma de inserção das mulheres no mercado de trabalho. Com a necessidade de conciliar o trabalho remunerado e não remunerado, elas acabam por aceitar ocupações com carga horária reduzida.

Em 2019, cerca de 1/3 das mulheres (29,6%) estava ocupada em tempo parcial (até 30 horas semanais), quase o dobro do verificado para os homens (15,6%). Elas também dedicaram quase o dobro de tempo do que os homens aos cuidados domésticos: 21,4 horas contra 11 horas semanais.

No recorte por cor ou raça, as mulheres pretas ou pardas eram as que mais exerciam o trabalho parcial, que representava 32,7% do total, contra 26% das mulheres brancas. Norte (39,2%) e Nordeste (37,5%) foram as regiões com as maiores proporções de mulheres ocupadas em trabalho parcial.

Durante o ano de 2019, as mulheres receberam pouco mais de três quartos (77,7%) do rendimento dos homens. A desigualdade era maior entre as pessoas inseridas nos grupos ocupacionais com maiores rendimentos, como cargos de direção e gerência e profissionais das ciências e intelectuais. Nesses grupos, as mulheres receberam, respectivamente, 61,9% e 63,6% do rendimento dos homens.

No Sudeste e no Sul, as mulheres receberam, respectivamente, 74% e 72,8% do rendimento dos homens. Já no Norte (92,6%) e Nordeste (86,5), regiões onde os rendimentos médios foram mais baixos para ambos os sexos, as desigualdades eram menores.

Mulheres com crianças
No período observado pelo IBGE, o nível de ocupação das mulheres de 25 a 49 anos vivendo com crianças de até 3 anos de idade foi de 54,6%, com o dos homens sendo de 89,2%. Em lares sem crianças nesse grupo etário, o nível de ocupação foi de 67,2% para as mulheres e 83,4% para os homens.

Já as mulheres pretas ou pardas com crianças de até 3 anos no domicílio apresentaram os menores níveis de ocupação: 49,7% em 2019.

Mas elas estudam mais…
Já na população com 25 anos ou mais, 15,1% dos homens e 19,4% das mulheres tinham nível superior completo em 2019. No entanto, as mulheres representavam menos da metade (46,8%) dos professores de instituições de ensino superior no país.

O estudo também mostra, por meio de dados do Censo da Educação Superior 2019, que há diferença entre homens e mulheres nas áreas de conhecimento. Em cursos de graduação, elas são minoria entre os alunos nas áreas ligadas às ciências exatas e à esfera da produção: apenas 13,3% dos alunos de Computação e Tecnologia da Informação e Comunicação são mulheres, enquanto elas ocupam 88,3% das matrículas na área de bem-estar, que contempla cursos como Serviço Social.

E, apesar de mais instruídas, as mulheres ocupavam 37,4% dos cargos gerenciais e recebiam apenas 77,7% do rendimento dos homens.

*Fabi Fonseca é repórter do Guia

8 de março: Existe cerveja para mulher?

* Por Natália Noronha

Imagine a seguinte situação:

A mulher entra em um bar ou em uma loja especializada em cerveja. Ela não conhece nada sobre cervejas especiais, então pede uma indicação. O atendente a indica uma Fruit Beer, que é frutada e levemente adocicada. O rótulo é cor-de-rosa. Em seguida, diz: “Com certeza você vai gostar. As mulheres gostam muito.“

A mesma cena, mas com uma pessoa do gênero masculino, não seria considerada um disparate (“Beba esta, os homens gostam muito”)?

Será que não existem outros estilos de cerveja para a mulher?

Um homem vivenciando a mesma situação logo se sentiria enfurecido ao perceber que, dentre tantos estilos catalogados nos guias cervejeiros, para ele, só existe um. Pensaria: “Como assim? Mas a pessoa nem perguntou o que eu gosto…”

Leia também – “Recebi muitos ‘nãos’ por ser mulher”, diz cervejeira da Goose Island

A resposta para o título é: o paladar não pode ser definido pelo gênero da pessoa.

Todos nós temos preferências gastronômicas, e isso depende da sua biblioteca olfativa e gustativa, que é desenvolvida desde criança. Está ligada com as suas memórias e experiências. Por isso, algumas pessoas tendem a gostar mais ou menos de alimentos doces, amargos, ácidos ou salgados (a acidez e o amargor não são comuns no dia-a-dia da maioria das pessoas). Ah, e essa biblioteca está em constante mudança.

Fato é: cada um tem suas preferências, mas existe também uma construção social que quer encaixar as pessoas em seus respectivos lugares, pré-definidos.

Para as mulheres, especialmente, têm sido difícil se desvencilhar dessas amarrações históricas e sociais.

Acontece que temos registros evidentes de que as mulheres sempre estiveram envolvidas com a produção da cerveja. O primeiro registro de produção, por exemplo, é o Hino a Ninkasi, dedicado a uma deusa cervejeira em 1800 a.C. Na Idade Média, as Ales Wives eram mulheres que dominavam a produção e, inclusive, a comercialização de cerveja, tendo assim independência financeira (muitas delas eram consideradas bruxas e foram perseguidas!).

Já na Idade Moderna, enquanto o papel do homem era o de trabalhar fora, o lugar da mulher era dentro de casa, em ambientes internos e controlados, cuidando estritamente da família e do lar.

Mulheres em bares? “O que ela está fazendo aqui sozinha? E bêbada ainda por cima?”. Quem nunca ouviu essa frase, que atire a primeira pedra.

Para se ter uma ideia, as campanhas publicitárias diziam que cervejas escuras e adocicadas faziam bem para as mamães e os bebês.

Quando já não era permitido fazer propaganda de cerveja para mulher grávida ou amamentando, a publicidade volta-se para o homem, mostrando a ideia de liberdade e prazer. Mas, pasmem, ainda existiam propagandas voltadas às mulheres: elas diziam que uma boa esposa deveria comprar cerveja para o seu marido.

Passado algum tempo, para conseguir uma maior abrangência de público, temos de volta as campanhas destinadas ao público feminino: a cerveja para a mulher teria de ser um produto mais leve, com menor graduação alcoólica, muitas vezes com frutas e sabor adocicado.

É por isso também que a mulher que bebe ou frequenta lugares onde se vende bebida alcoólica é vista como “devassa”, como alguém que não merece respeito (e muitas vezes é tratada como tal).

As mulheres são sexualizadas nos rótulos e nas propagandas, como se o corpo feminino fosse parte da mercadoria, para agradar os prazeres e caprichos masculinos. Tudo isso suscita e propicia a ideia de comportamentos abusivos e intoleráveis.

Hoje em dia, felizmente, muitas mudanças históricas e sociais estão em curso. Isso ao custo de muita determinação, paciência e força de tantas mulheres competentes que se envolvem com o universo cervejeiro, seja no início ou na ponta da cadeia, desde a produção dentro da fábrica, no setor comercial, no atendimento ao público, na sommelieria, na consultoria e na área da educação cervejeira, entre outros segmentos do setor.

Os desafios são diários e ainda poderíamos ter mais mulheres nestes espaços – até mesmo no consumo. Uma pesquisa do IBGE mostrou que as mulheres consomem 3 vezes menos cerveja que os homens.

A verdade é que quando as mulheres avançam, toda a sociedade avança. O mundo cervejeiro só será mais feminino quando for produzido, distribuído e consumido por mais mulheres, com mais visibilidade e valorização.

Existe uma diversidade de estilos de cerveja, com todos seus aromas, sabores, sensações e histórias.

Mulheres, todas as cervejas são suas! As mulheres podem beber o que quiserem. Onde quiserem e como quiserem.

Mesmo sendo mãe, sendo casada, sendo solteira, sendo mãe solteira, sendo negra, branca, hétero ou homossexual, sendo LGBTQIA+, independentemente da sua sexualidade ou identidade de gênero.

O espaço da cerveja tem que ser de todas e todos. E tem que ser seguro.

É difícil de acreditar que isso seja necessário em pleno século XXI, mas aqui vai uma dica: alguns bares oferecem instruções (que ficam no banheiro feminino) para situações de abuso. São senhas que, ditas a (o) atendente, acionam uma situação de resgate e chamam um Uber para quem estiver em situações de perigo. Fiquem atentas. Afinal de contas, o que as mulheres querem? Igualdade.


*Natália Noronha é beer sommelière com formação pela Universidade Positivo e consultora de campo da rede de lojas Mestre-Cervejeiro.com, atuando no setor desde 2013 em diversos segmentos. É também estudante de Tecnologia em Agroecologia pela Universidade Federal do Paraná (UTFPR)

Menu Degustação: Dádiva contra a violência doméstica, Pão de Açúçar no 8/3…

A semana cervejeira foi marcada por ações envolvendo a luta por igualdade de gênero que envolve o Dia Internacional da Mulher, a ser celebrado nesta segunda-feira. Por isso, a Dádiva está com uma campanha que questiona o silêncio social diante da violência doméstica contra a mulher. Já o Grupo Pão de Açúcar realiza três iniciativas especiais para fortalecer a luta feminina na sociedade e no setor.

Já a Stella Artois anunciou o lançamento de um projeto gastronômico e democrático em Porto Alegre, o Star Kitchen, enquanto a Dogma agora também está presente no Telegram.

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Confira abaixo estas e outras novidades da semana do setor cervejeiro:

Dádiva no Dia da Mulher
Marca criada e gerida por mulheres, a Dádiva quer questionar neste ano o silêncio pernicioso da sociedade diante da violência doméstica contra a mulher. Para isso, criou uma New England IPA de 6,1% de teor alcoólico que traz na receita o lúpulo Citra com triple dry hopping. O nome da campanha virá estampado na lata e estará coberto por uma fita. Quando comprar a lata e tirar essa fita, o consumidor imediatamente entrará em contato com o tema e o assunto será colocado em pauta ali mesmo, na mesa do bar ou em casa. Ao ver o rótulo, ele também será convidado a procurar sobre o tema nas mídias sociais. “O dia é da mulher, mas a luta é de todos. Essa não é uma data marcada por celebração, mas por luta. É o símbolo de uma batalha que travamos todos os dias por direitos. Buscamos hoje, sim, equidade de gênero – questão que nos é tão urgente e necessária -, mas algumas mulheres ainda batalham pela simples sobrevivência. E, o que é mais triste, dentro de suas próprias casas”, pontua Luiza Lugli Tolosa. “O machismo age de forma muitas vezes silenciosa e naturalizada socialmente. O que torna qualquer tipo de violência contra a mulher, seja ela psicológica ou física, um problema comunitário, uma responsabilidade de quem se cala diante disso. Essa é uma luta que deve ser travada por todos.”

Campanha do Pão de Açúcar
O Grupo Pão de Açúcar também está com uma campanha voltada ao Dia Internacional da Mulher, em parceria com a BETC/Havas. Para a data, a marca destaca o protagonismo da mulher cervejeira nos centros urbanos. O filme conta com a participação de quatro mulheres: duas donas de marcas de cerveja e duas sommelières, resgatando o protagonismo feminino na ancestralidade da produção da cerveja, que foi descoberta e criada por uma mulher. Também com foco na data, o Pão de Açúcar preparou uma temporada especial para o podcast “Lugar de escuta”, que foi lançado no ano passado. Além disso, está previsto ainda para esse ano o 2º Desafio de Cervejas Pão de Açúcar – Representatividade Feminina. O objetivo da iniciativa é reconhecer e criar cervejas a partir da criatividade e conhecimento das mulheres.

Gastronomia da Stella
A Stella Artois lançou um projeto gastronômico e democrático em Porto Alegre. É o Star Kitchen, que alia gastronomia e entretenimento, prometendo trazer pratos sofisticados por um preço justo. O projeto reúne chefs em cozinhas compartilhadas, voltadas para o delivery, impulsionando novos talentos para o empreendedorismo e contribuindo para uma economia colaborativa. Os profissionais não precisam pagar pelo aluguel das cozinhas, desde que, em contrapartida, se comprometam a promover ações que gerem retorno social, como a realização de um mutirão entre seus chefs.

Telegram da Dogma
A Dogma estreou um canal no Telegram, o Balcão Virtual da Dogma. Trata-se de um grupo para interação entre os consumidores da cervejaria. A estratégia de comunicação da marca tem sido desde o ano passado muito menos focada nas redes abertas, concentrando-se nas redes internas. O grupo no Telegram é, assim, um espaço de bate-papo para a marca ficar ainda mais próxima de seus clientes. Existem horários específicos para a troca de mensagens. Atualmente são 240 membros no grupo e não há limite no número de participantes.

Lata da Dortmund
A cervejaria Dortmund lançou no mercado a Black Elephant IPA em lata. A bebida é encorpada, de alta fermentação e de coloração escura. É produzida com maltes especialmente torrados que mantêm equilíbrio com o amargor dos lúpulos norte-americanos Cascade, Azzacca e Summit. Tem 6% de graduação alcoólica e 50 IBUs.

Growlers em Luziânia
Cidade localizada a 60km do Distrito Federal, Luziânia (GO) passou a contar com o serviço de venda de cervejas artesanais em growlers. A iniciativa foi adotada pela Biela, cervejaria que conta com 8 estilos – American IPA, APA, Weissbier, Hop Lager, Belgian Dubbel, Oatmeal Stout, New England IPA e Irish Red Ale – e tem capacidade de produção de 6 mil litros por mês. Para 2021 ainda promete o lançamento do seu nono rótulo, uma Session IPA.

Bohemia une “paixões” de Gusttavo Lima e lança cerveja com malte de whisky

A Bohemia está apostando em uma interessante novidade para o mercado cervejeiro. Para celebrar o seu embaixador, o cantor Gusttavo Lima, a marca da Ambev lança neste sábado a Bohemia do Embaixador, uma cerveja que tem como ingrediente principal o malte tipicamente utilizado na produção de whisky.

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E o lançamento oficial ocorrerá em um show do próprio Gusttavo Lima neste sábado, às 20h, com transmissão ao vivo no Youtube. O cantor, aliás, é declaradamente fã de cerveja e whisky, o que resultou na homenagem da Bohemia.

“Faz algum tempo que queríamos homenagear o nosso embaixador e trouxemos suas duas paixões para produzir uma cerveja deliciosa e de alta qualidade que só a Bohemia pode fazer. Queremos que as pessoas aproveitem a live em casa, protegidas, com diversão e responsabilidade”, comenta Gustavo Saab, gerente de marketing de Bohemia, lembrando a importância de se manter em casa durante a pior fase da pandemia do coronavírus no país.

Devido ao malte de whisky, a nova cerveja tem notas de mel, caramelo e um toque amadeirado no aroma, resultando em uma bebida saborosa do início ao fim, segundo descreve a marca. Tem, ainda, 9 IBUs e 5% de teor alcoólico.

A novidade chega em garrafas de 600ml, mas possui lotes limitados. E será comercializada exclusivamente pelo Empório da Cerveja (embaixadabohemia.com.br) – a abertura das vendas ocorrerá durante a live do cantor.

Live Gusttavo Lima
Dia: 6 de março
Horário: 20h
Assista em: youtube.com/gusttavolimaoficial
Preço: R$ 12,90 unidade e R$ 35,90 o Kit com taça exclusiva Bohemia

Balcão da Cilene: Da trilogia Desenhando Sonhos – Saga Segunda – Adendo

Balcão da Cilene: Da trilogia Desenhando Sonhos – Saga segunda: Salvar o planeta (ou a nós mesmos?) – Adendo


Algumas voltas (do planeta em torno de si mesmo) depois e o texto da trilogia Desenhando Sonhos – Saga Segunda: Salvar o planeta (ou a nós mesmos?), publicado no início deste ano, merece um importante adendo para prosseguir nesta toada reflexiva. Este adendo se apresenta em duas partes.

A primeira parte é elucidativa e propõe aprofundar o entendimento sobre a expressão “Revolução Verde”, a qual foi e é utilizada com propósitos muito distintos nos tempos recentes da história da humanidade. A segunda parte é provocativa, porque o tempo não para e as novidades do mundo nos atravessam como flechas. E sobre as flechas, nem sei o que dizer…

Parte 1 – A expressão “Revolução Verde”
Alguns poucos dias depois da publicação do texto, recebi a bem-vinda mensagem de uma leitora. Em tom elogioso e educado, Natália Noronha – sommelière de cervejas e estudante de Agroecologia – me ensinou sobre as definições históricas desta expressão. Abaixo seguem suas preciosas palavras:

“A partir dos anos 1950, um processo de modernização agrária chamado ‘Revolução Verde’ alterou profundamente o cenário do campo no Brasil e no mundo. Tratou-se de um conjunto de tecnologias implementadas para mecanização e inovação agrícola. Com foco na alta produtividade, técnicas como utilização de agrotóxicos e inserção de sementes geneticamente modificadas (transgênicas) passaram a ser introduzidas. A ideia era de que as culturas – assim – pudessem obter sucesso em qualquer tipo de solo e bioma e não dependessem de fatores climáticos naturais. Infelizmente, como consequência, sabemos que o uso desenfreado dessas técnicas tem nos causado graves problemas ambientais como desmatamento, esgotamento de recursos hídricos, contaminação dos lençóis freáticos, compactação do solo, além de problemas sociais como êxodo rural, concentração fundiária e intoxicações alimentares.

Em contrapartida, é importante destacar que está em curso uma nova ‘Revolução Verde’, a qual se faz extremamente necessária. Esta agenda visa, sobretudo, a redução de gases do efeito estufa (ou seja, redução de emissão de carbono), o reflorestamento, a preservação da biodiversidade e a introdução definitiva de tecnologias em energias renováveis, como solar e eólica. Todos esses esforços são urgentes tendo em vista o cenário climático e ambiental do atual Antropoceno.”

De alguma forma rasa, eu já havia lido e ouvido o termo neste contexto de pós Segunda Guerra Mundial – uma abordagem contra-intuitiva, mesmo que inicialmente estivesse associada à possibilidade de erradicar a fome no mundo. (…) Algo que, sabemos, não aconteceu, infelizmente, ainda somado aos problemas ambientais e sociais desses tempos atuais.

Por outro lado, também li e ouvi esse termo em discursos e contextos recentes para fazer alusão aos movimentos de substituição das matrizes energéticas com fontes renováveis. Por isso, ultimamente, resolvi adotar este termo. Entretanto, é muito importante essa colocação técnico temporal da Natália Noronha. Muito obrigada!

Parte 2 – A água vira moeda forte
A novidade veio no finalzinho do ano passado. Um ano truncado, que terminou com uma notícia bombástica, a meu ver.

Pela primeira vez na história, a água passou a ser negociada como commodity no mercado futuro na bolsa de valores dos Estados Unidos (Nasdaq Velez Califórnia Water Index, Índice da Água). Com isso, a água passa a ser uma mercadoria de preço flutuante como o petróleo, a soja, o ouro ou o trigo.

À diferença destes itens mencionados e tantos outros, a água é reconhecida como direito fundamental do ser humano pela Organização das Nações Unidas (ONU) desde 2010. A água é essencial para a vida e não é apenas uma mercadoria.

Essa iniciativa incorre seriamente no fornecimento de água para populações (sobretudo, pobres) e precede uma prevista guerra pela água, semelhante ao que ocorre com o petróleo há décadas. Um elemento vital ao ser humano não deveria estar à disposição da especulação.

Em princípio, o índice está relacionado apenas à água comercializada no estado da Califórnia, nos Estados Unidos, região que tem sido devastada pelo calor e pelos incêndios florestais nos últimos anos e teve o preço da água dobrada no ano passado devido à escassez. Os idealizadores desta manobra dizem que esse índice tem como objetivo ser um indicador de escassez de água para investidores em todo o mundo, permitindo gestão de risco e fazendo melhor correlação entre a oferta e a procura nos mercados. (…)

No final das contas, esse jogo de capitais poderá ser usado como argumento público e privado para justificar aumento de preços em todo o planeta e restrição do recurso hídrico às pessoas, relativizando a questão humanitária.

Para finalizar essa reflexão, alguns dados alarmantes:

• Segundo a ONU, atualmente 2 bilhões de pessoas (ou seja, um quarto da população do planeta) vivem sérios problemas de acesso à água. Somos 7,8 bilhões de pessoas no mundo. A ONU estima que, nos próximos anos, dois terços da população do planeta podem sofrer escassez de água e uma parte significativa se deslocará em êxodo por isso.

• O Brasil abriga a maior reserva de água doce de superfície do mundo, com cerca de 12% do total. A China e os Estados Unidos são os principais consumidores mundiais de água.

• O estado da Califórnia, nos Estados Unidos, é a região número 1 em quantidade de cervejarias artesanais, em volume de produção anual e no impacto econômico destes negócios ao país (nem posso imaginar o que a escassez e a especulação de água podem fazer com essas cervejarias, sua gente e seu entorno).

• A escassez de água está relacionada à exploração excessiva pelo setor primário, pela indústria e pelo consumo humano, bem como às mudanças climáticas.

Fonte: Brewers Association

Tudo isso já não é mais ficção em filmes-catástrofe. É pura e ardilosa realidade. Temos de vislumbrar uma economia local e global que usa a força dos negócios para a solução de problemas sociais e ambientais.



Cilene Saorin tem se dedicado às cervejas, nos últimos 28 anos, por alguns cantos deste planeta. É sommelière, mestre-cervejeira e diretora de educação da Doemens Akademie para América Latina e Península Ibérica

Do quarto de despejo para a UFRJ e a cerveja: Conheça mais de Carolina de Jesus

Carolina Maria de Jesus fez o caminho do improvável para expor mazelas sociais e suas complexidades. Catadora de papel, negra e favelada, ela se tornou uma das mais importantes escritoras da literatura brasileira quando lançou Quarto de Despejo. Agora é doutora honoris causa pela UFRJ, título concedido postumamente na semana passada. Antes, em um exemplo claro da importância cultural e relevância que atravessam décadas pela sua luta antirracista e seu marcante estilo literário, também foi homenageada em rótulos por algumas cervejarias.

De Sacramento, no interior de Minas Gerais, Carolina de Jesus nasceu em 1914, tendo vivido até os 62 anos. Desses, apenas dois foram de estudos formais. E quando sustentava a si e aos três filhos como catadora de papel, utilizava os cadernos que recolhia para registrar sua rotina em um diário durante o período no qual morava na favela do Canindé, em São Paulo, entre o fim dos anos 1940 e os 1950.

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Vivenciou, assim, o processo de desenvolvimento da capital paulista e, ao mesmo tempo, o surgimento das primeiras favelas. Foi daí, a partir das anotações de 20 desses cadernos, em tom memorialista, que surgiu Quarto de Despejo. Lançado em 1960, o livro vendeu 3 milhões de edições e foi traduzido para 16 idiomas, tendo ficado marcado pela oralidade e pela escrita objetiva, além da sua marcante força criativa para dar vazão a vozes pouco ouvidas na sociedade.

“Mostra a polifonia da vida na favela, com várias falas que se entrecruzam o tempo todo. Autodidata, ela superou os entraves sociais, raciais e de gênero. E, sobretudo, não se deixou abater pela fala dos outros que queriam mantê-la em lugar de subalternidade e submissão”, comentou a diretora do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, Susana Castro, quando da homenagem póstuma da escritora.

Entre os fãs declarados de Quarto de Despejo, estava Clarice Lispector. Como resgata a Quatro Cinco Um, em matéria publicada na revista Manchete em 1961 e assinada por Paulo Mendes Campos, há “um ‘esplêndido diálogo’ ocorrido entre Clarice e Carolina, que teria elogiado a escrita da primeira: ‘Como você escreve elegante’. Enquanto Clarice teria exclamado: ‘E como você escreve verdadeiro, Carolina!’.”

Nos anos posteriores, Carolina de Jesus ainda publicou mais duas obras: Pedaços de Fome e Provérbios. Depois da sua morte em 1977, outros seis livros foram lançados, fruto de cadernos e outras compilações deixados por ela, que ocupou o espaço da casa grande a partir da perspectiva do quarto de despejo.

Foi isso o que a UFRJ reconheceu ao lhe dar a honraria de “doutora honoris causa”, concedida independentemente da instrução educacional a quem se destacou por suas virtudes, méritos ou atitudes. Nesses casos, o agraciado passa a desfrutar dos mesmos privilégios daqueles que concluíram um doutorado acadêmico convencional.

“Uma reparação histórica do esquecimento produzido sobre a história dos negros e de personalidades negras marcantes, como é o caso de Carolina de Jesus. Essa reparação tem um papel didático em sociedades como a brasileira, que durante muito tempo viu o negro de forma negativa pelo completo desconhecimento histórico. O reconhecimento nos faz lembrar do papel que teremos pela frente na luta contra as assimetrias raciais, das quais o espaço universitário tem sido um dos locus privilegiados”, comentou Vantuil Pereira, professor do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas em Direitos Humanos da UFRJ.

Homenagens cervejeiras
Antes de ser homenageada com o título de doutora honoris causa, Carolina de Jesus também havia sido lembrada em rótulos de cerveja. Em 2017, por exemplo, uma confraria de mulheres da Goose Island, a Goose Island Sisterhood, criou a Carolina. E a Dutra Beer fez o mesmo recentemente.

“Assim como outros rótulos nossos, algumas personalidades não podem, ou melhor, não devem ser esquecidas. E Carolina faz parte desse quadro”, diz André Dutra, fundador da cervejaria. “Era fundamental trazer sua imagem à tona e valorizar seu rico conteúdo.”

O rótulo da Dutra Beer que homenageia Carolina de Jesus é uma Honey Ale, com 6,1% de graduação alcoólica e 13 IBUs. “Leva em sua composição três tipos diferentes de malte, dois tipos de lúpulos e, é claro, o próprio mel. Aliás, não é qualquer um, é o mel agroecológico/orgânico da Terra Livre – Cooperativa dos Trabalhadores Assentados da região de Porto Alegre. Enfim, essa cerveja é levemente doce e encorpada, possui médio teor alcoólico e um final seco, com o característico aroma do néctar dos deuses”, relata André.

O fundador da Dutra Beer, inclusive, faz uma comparação e relaciona a complexidade do trabalho de Carolina de Jesus – um dos marcos da literatura nacional – com as de um rótulo de cerveja.

“A cerveja pode (e deve) ser degustada como outra bebida qualquer, respeitando sempre seu potencial alcoólico. Aliás, por que não ler um livro de literatura degustando uma boa cerveja artesanal? Em suma, Carolina Maria de Jesus era simples, irreverente, social, nada elitista, uma mulher que apesar das dificuldades era feliz, versátil e teve uma grande importância na história literária mundial”, conclui André.

Entrevista: Cerveja com planta ‘exótica’ vira símbolo de resistência no Capão

A cerveja artesanal e a gastronomia são apenas dois dos setores que escancaram a desigualdade e a exclusão social no Brasil. Mas, nos últimos anos, iniciativas em ambos os segmentos ganharam força na tentativa de modificar essa realidade. Atento a isso, o chef Edson Leite viu na junção delas a oportunidade de reforçar a resistência das periferias, ao mesmo tempo em que é capaz de causar impacto positivo em inúmeras famílias de regiões mais carentes, como relata em entrevista ao Guia.

Em 2012, após uma temporada na Europa, o chef retornou ao Brasil para criar o Gastronomia Periférica, um projeto social no bairro Capão Redondo, na periferia de São Paulo, que nasceu com a missão de transformar vidas através da alimentação. O foco é repassar conhecimentos sobre gastronomia aos moradores da região.

E a cerveja artesanal entrou no projeto com um rótulo colaborativo criado pelo chef. A bebida ganhou destaque na construção dessa formação de profissionais na escola, justamente porque o ingrediente principal de sua receita é a “azedinha”, uma planta que faz parte das chamadas Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs).

As PANCs podem ser encontradas em todo o mundo e, em sua maioria, também estão dentro das periferias. Foi justamente por serem comumente ignoradas em pratos mais elaborados na gastronomia que o chef Edson Leite, em parceria com um amigo, teve a ideia de criar, no fundo do quintal, uma bebida autoral e de resistência, que leva uma das PANCs em sua receita. Assim nasceu a Pokazideia.

Pokazideia é uma gíria da periferia para encerrar uma conversa ou, muitas vezes, para afirmar algo. E como o chef destaca na entrevista ao Guia, o rótulo do estilo Lager foi feito para ser uma bebida para os amigos, tornando-se um símbolo de resistência local. Afinal, a sua produção causa impacto na periferia, pois leva na receita uma PANC produzida em Parelheiros.

A bebida ganhou mais impulso com incrementos do mestre-cervejeiro Frank Skwirut, da Cervejaria Tria. E conseguiu abrir espaços com inventividade e reforçando a luta em prol de uma maior inclusão no setor de cervejas artesanais. Logo, ela resiste, como destaca o próprio chef: “Não para atacar, mas para que perpetue-se”.

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Confira abaixo a entrevista completa do Guia com o chef Edson Leite:

Qual é a sua visão da gastronomia como forma de resistência?
Acho que a gastronomia, na realidade, é só um nome para que outras pessoas possam elitizar o processo da comida. Eu sempre digo que a gastronomia transforma o que a culinária já fazia. É como chamar a Palmirinha de culinarista e o Henrique Fogaça de chef, sabe? Também tem essas coisas de palavras relacionadas ao patriarcado e ao machismo. Na minha visão da gastronomia como forma de resistência, acho que a gente dá um outro sentido para essa palavra com o Gastronomia Periférica, porque já que estão usando essa palavra, vamos usar aqui também [na periferia] para equalizar o processo. A gastronomia e a periferia nunca estiveram juntas. Então, quando trazemos as duas palavras juntas, começamos a ter resistência. A gente não tem arma para atacar. Precisamos nos defender, resistir. E a comida, ela é um processo de resistência, porque se você não come, você não consegue pensar, agir ou fazer absolutamente nada. Então, nós resistimos há anos com a alimentação.

O que é o Gastronomia Periférica? De que forma a cerveja artesanal está inserida nela?
O Gastronomia Periférica é um negócio social. Negócio porque foi feito para ganhar dinheiro e social porque impacta diretamente a vida das pessoas e como elas enxergam a sociedade. O Gastronomia Periférica nasceu com essa missão: transformar vidas através da alimentação. A gente sempre brinca que cozinhar é o menos importante dentro do Gastronomia Periférica, apesar de ter esse nome. O processo de formação e o cuidado com as pessoas é o principal. A cerveja vem dentro dessa construção de formação porque primeiro vêm as PANCs, que, na sua maioria, estão dentro das periferias.

Como surgiu a ideia do rótulo de cerveja artesanal colaborativo feito com PANCs? Quais são as características da bebida?
Eu e o Rafael Orlandi, que tem um sítio em São Lourenço da Serra [município que fica a cerca de 56 km de São Paulo], começamos a pensar no que poderíamos fazer com essa planta [azedinha], além de comê-la em saladas. Assim nasceu a ideia da cerveja, de fundo de quintal e na panela. Foram seis meses estudando para chegar na receita. A ideia surgiu disso: fazer algo para entrar no mercado, que é muitas vezes predatório, com a nossa cara e resistir. É uma cerveja leve, do estilo Lager e tem 4,5% de graduação alcoólica. Ela é do tipo que o brasileiro gosta, é do tipo que você pede mais. Tem um leve seco na boca no final, por conta da planta. Ela combina com o calor, com churrasco, com peixe. É uma cerveja curinga. Tem que provar, é algo bem novo.

A cerveja artesanal Pokazideia também pode ser vista como um elemento de resistência?
Essa cerveja também é um elemento de resistência porque nasce de dois caras periféricos e com um nome periférico: Pokazideia. Pokazideia é uma gíria de periferia para encerrar uma conversa ou, muitas vezes, para afirmar algo. Ela [cerveja] é produzida com a planta chamada de azedinha [parente da rúcula, mas com um gosto parecido com o limão] e é considerada praga em alguns lugares. O rótulo nasceu com a ideia de ser uma bebida para os amigos e se tornou uma bebida de resistência que impacta outras pessoas. A gente está falando de uma cerveja que, para fazer 400 litros, precisa de quase 30kg de azedinha. A planta é comprada de um pequeno produtor de Parelheiros [distrito localizado na zona sul do município de São Paulo]. Então, impactamos economicamente esse produtor. Quando vendemos [a cerveja], parte do lucro dela volta para o Gastronomia Periférica, que é uma escola de gastronomia na quebrada. O impacto dessa cerveja é gigantesco, econômico e socialmente.

Como foi o caminho da Pokazideia no mercado?
Ela resistiu a um ano de luta até conseguir entrar em mercados gastronômicos. Depois foi para uma cervejaria grande, que é a Tria, e com o mestre-cervejeiro Frank Skwirut. Equalizamos o PH da água utilizada na receita que era do Rio São Lourenço. Com isso, descobrimos que dava para produzir em grande quantidade, e descobrimos também um sabor espetacular para uma Lager a partir da azedificação por uma folha e não pela fermentação, em um processo novo. Ela [cerveja] nasceu dentro de uma quebrada, no fundo do quintal e conseguiu atravessar a ponte até chegar às elites e estar, inclusive, dentro do Hotel Pullman, na 23 de Maio [no Ibirapuera]. Também já temos essa cerveja em espaços no interior de São Paulo e em eventos. Então, resistimos. Resistir não é atacar, é pensar para que aquilo perpetue-se.

Quais são as contribuições das PANCs para o universo da cerveja artesanal? De que forma elas poderiam ser mais exploradas?
As PANCs estão no mundo inteiro e são utilizadas de maneiras diferentes. Elas não entram no mercado e, por isso, são chamadas de não-convencionais. Ela é uma cerveja onde inovamos fazendo essa provocação com a azedinha. Agora, dentro desse processo, a gente percebeu que podemos explorar a capuchinha [outra PANC], pode-se comer sua flor, que tem um leve apimentado. Podemos explorar também o ora-pro-nóbis [uma das outras várias PANCs], que também dá para usar no preparo da cerveja. Podemos utilizar as mais diversas PANCs para fazer cerveja com características diferentes que trariam uma bebida autêntica, como é a Pokazideia. É preciso ser ousado, é isso, ter coragem para sair do tradicional.

Com a expansão do setor vemos cada vez mais novos rótulos que apostam na inventividade. Como você avalia essas novas experiências na fabricação de cervejas artesanais?
Há uma expansão do setor, mas pulverizada. Eu não vejo um norte em bloco, com todo mundo vindo com a mesma missão. O brasileiro ainda tem muito dessa coisa de ir aonde está vendendo e não naquele propósito em que acredita, porque precisa ganhar dinheiro. Não estou colocando aqui se é certo ou errado, mas é o que a gente basicamente faz. Lá fora, você tem milhares de tipos de cervejas. Vai tomar uma cerveja na rua e encontra a bebida com características daquela rua, ou daquele bairro. Eu acho que, no Brasil, as cervejarias artesanais não têm incentivos.

Quais outros caminhos podem ser explorados?
É difícil você começar a fazer cerveja e ganhar mercado, porque não há um incentivo, por exemplo, de imposto, e isso para as microcervejarias artesanais, inclusive, porque o volume é menor. Os insumos são muito caros e elas precisam de um incentivo fiscal, uma isenção para crescerem e atingirem outros públicos. Os caminhos a serem explorados são os de políticas públicas, de formação e de informação, inclusive. As pessoas precisam acreditar que a cerveja não é feita somente para ficar bêbado na festa. Ela precisa ser encarada como é o vinho e o seu processo: um produto para ser degustado e apreciado com a família. Não é só para ser associada ao carnaval ou à praia. A gente precisa associá-la a diversas outras situações, inclusive, há diferentes tipos para diferentes situações.

6 cursos do Science of Beer Institute para o 1º semestre de 2021

Para auxiliar na retomada do setor ainda em 2021, as instituições cervejeiras estão repletas de opções neste primeiro semestre para quem pretende adquirir novos conhecimentos e desenvolver novas habilidades. O Science of Beer Institute, por exemplo, aparece com opções de cursos para aqueles que desejam aperfeiçoar um hobby ou dar uma guinada em sua carreira profissional.

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Os conteúdos da escola contemplam desde assuntos mais básicos até cursos mais avançados, como Sommelier de Cervejas e Especialização em Estilos, que focam questões como história, sensorial e serviço das bebidas.

Confira, a seguir, a agenda de cursos do Science of Beer para o primeiro semestre:

Curso Beer Expert 1.0

  • Local: Educação à distância
  • Data: Início em 29 de abril

Curso Sommelier de Cervejas (Intensivo)

  • Local: Teresópolis/RJ
  • Data: De 15 a 23 de março

Curso convencional (1 encontro presencial ao mês)

  • Locais e datas:

Natal/RN, início em 6 de março
São Paulo/SP, início em 17 de abril
Juiz de Fora/MG, início em 10 de abril
Brasília/DF, início em 22 de maio
Campo Grande/MT, início em 29 de maio


Science of Beer Styles – Especialização em Estilos

  • Local: Recife/PE
  • Data: Início em 15 de maio

Tecnologia em Processos Cervejeiros (Intensivo)

  • Local: Piracicaba/SP
  • Data: Início em 13 de março

Lançamento: Curso Beer Pairing

Descrição: Um curso avançado de harmonização de cervejas completo e 100% online. É direcionado para os estudiosos e amantes de gastronomia e para todos os apaixonados por cerveja e as suas mais diversas possibilidades de interação com alimentos e outras bebidas.

  • Local: Educação à distância
  • Data: A definir

Estudo indica dificuldade de cumprimento de protocolos contra o coronavírus em bares

Um estudo realizado na Grã-Bretanha demonstrou as dificuldades para os bares cumprirem os protocolos de distanciamento para evitar a propagação do coronavírus. A pesquisa, denominada Gerenciando Riscos de Transmissão da Covid-19 em Bares: Um Estudo de Entrevistas e Observação (em uma tradução livre), relatou que apesar dos esforços dos estabelecimentos e da orientação governamental, os perigos de contaminação persistem, especialmente quando os frequentadores estão embriagados.

O trabalho foi publicado no Journal of Studies on Alcohol and Drugs (Jornal de Estudos Sobre Álcool e Drogas), sendo liderado pela professora Niamh Fitzgerald. A ideia da pesquisa foi estudar as práticas e comportamentos dos estabelecimentos comerciais para adotar e informar as medidas de combate ao coronavírus na Escócia.

Para isso, antes da reabertura dos bares e restaurantes, foram realizadas entrevistas com seus responsáveis para abordar as estratégias e os desafios para os locais. Após a retomada, em julho e agosto de 2020, foi a vez de o grupo de pesquisadores ir aos bares para a observação das práticas e dos comportamentos adotados nos estabelecimentos.

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De acordo com o estudo, os entrevistados geralmente buscavam clareza, flexibilidade e equilíbrio na orientação do governo sobre a reabertura em meio à pandemia do coronavírus e citavam os desafios comerciais e práticos para fazê-lo com segurança. O consumo de álcool foi percebido como um dificultador adicional, ainda que potencialmente administrável.

A maioria dos locais visitados apresentou modificações físicas e operacionais, embora variáveis. Os incidentes preocupantes observados incluíam a interação física entre os clientes, frequentemente bêbados, e os funcionários, que raramente conseguiam interromper de forma eficaz os frequentadores.

As medidas para o funcionamento de bares na Escócia durante a pandemia têm semelhanças com as adotadas em outros países, como o Brasil: os grupos de clientes nas mesas precisam ficar separados por ao menos um metro de distância e os funcionários devem utilizar proteções faciais, como as máscaras. Mas aí alguns problemas já começaram a acontecer, apontou a pesquisa, com alguns deles abaixando-as para se comunicar com os clientes.

Além disso, ocorreram casos de desrespeito ao distanciamento, especialmente em filas, corredores e banheiros. “Havia muitas instalações nas quais o EPI não era usado de forma consistente pela equipe. E algumas estavam mal preparadas para evitar violações das medidas de distanciamento em filas, pontos de aperto e banheiros”, afirma o estudo, destacando os desafios para os estabelecimentos controlarem maus comportamentos durante a pandemia do coronavírus.

O trabalho também indica que nem o uso de sinalização impediu a aglomeração em pontos como o balcão de bares. “Foi utilizada fita adesiva para impedir o uso de alguns cubículos sanitários de um local (V5) ou para isolar o balcão de atendimento do bar (V4, V19, V21, V28), embora este último nem sempre tenha sido cumprido.”

Efeitos do álcool
O estudo ainda destaca como se torna mais complicado o cumprimento das regras de distanciamento físico para evitar a propagação do coronavírus pelas pessoas após o consumo de álcool.

“Na prática, os clientes foram observados gritando, se abraçando ou interagindo rotineiramente de perto com diferentes grupos de outras famílias e funcionários em várias instalações; e a intervenção da equipe foi rara ou ineficaz. A intoxicação por álcool foi observada na maioria dos incidentes envolvendo múltiplos riscos ou maior número de clientes”, aponta o trabalho. “Embora os clientes devam ter alguma responsabilidade pelo cumprimento das orientações, os efeitos diretos do álcool prejudicam sua capacidade de fazê-lo.”

A pesquisa assegura, ainda, que a estrutura de vários bares e restaurantes também dificulta o cumprimento das medidas. “Os desafios práticos incluíam o tamanho e o layout das instalações, dificultando o distanciamento físico (por exemplo, nos pontos de entrada e saída, ao se movimentar nos locais dentro e ao redor dos banheiros)”, finaliza o estudo.

Goose Island lança IPA criada para atender o “paladar brasileiro”

A primeira novidade da Goose Island em 2021 é um rótulo criado especialmente para atender o mercado brasileiro. A icônica cervejaria norte-americana de Chicago lançou no país a Goose Island Hazy IPA, uma variação do estilo que marca a sua trajetória entre as artesanais.

A Goose Island detalha que o rótulo recém-criado possui 6,5% de graduação alcoólica e 50 IBUs. E relata que a sua Hazy IPA tem coloração dourada, sendo turva por causa da grande quantidade de lúpulo utilizada em sua produção, além de possuir um alto teor de proteínas e uma “explosão de aromas e sabores tropicais”.

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A avaliação da Goose Island é de que o lançamento de uma Hazy IPA representa um incremento para as suas opções de cervejas no mercado. “Na Goose temos um desafio claro, trazer para os consumidores inovações em um leque de estilos e sabores diferentes. A Goose Hazy IPA chega para deixar o nosso portfólio ainda mais completo”, relata Guilherme Hoffmann, mestre-cervejeiro da marca.

Para ele, as preferências do consumidor brasileiro foram preponderantes para a definição e a criação desse novo rótulo. Na descrição, a Goose Island afirma que se trata de uma cerveja com corpo aveludado e sabor cítrico e tropical, proveniente das seis variedades de lúpulos utilizados.

“Dessa vez ouvimos os apreciadores de cerveja e respondemos ao desejo de uma Hazy IPA, com toda complexidade do estilo, somada ao que mais combina com o paladar brasileiro. Estamos ansiosos para conhecer a opinião dos consumidores e já começar a desenhar a próxima novidade da marca”, acrescenta o mestre-cervejeiro da marca.

A Goose Island Hazy IPA será vendida em garrafa de 335ml no Empório da Cerveja e no brewhouse da cervejaria no bairro de Pinheiros, no Largo da Batata, em São Paulo, além de bares, supermercados e restaurantes parceiros da marca, que chegou ao Brasil pelas mãos da Ambev.