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Solidariedade e homenagem à Unicamp coroam sucesso da colab Ciclo Básico

Três cervejarias de Barão Geraldo, o acolhedor bairro de Campinas que abriga a Unicamp, conseguiram juntar no lançamento da colaborativa Ciclo Básico valores caros à comunidade cervejeira: ao mesmo tempo em que homenageia o bairro, contribui com a sociedade e valoriza o produtor local.

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Em uma iniciativa conjunta, Tábuas, Garimpero e Confra lançaram na quinta-feira passada uma APA. O rótulo faz referência ao conjunto de prédios onde são ministradas as disciplinas básicas para a maioria dos alunos da universidade, tendo como propósito reverter parte da renda obtida com a colaborativa para o Hospital das Clínicas (HC) da Unicamp.

A ideia surgiu de uma conversa sobre iniciativas de cervejarias que reverteram algum benefício para a sociedade nesse período de crise sanitária e financeira. “Comentamos sobre a All Together, que uma cervejaria de Nova York lançou com o intuito de arrecadar fundos para ajudar os trabalhadores do setor de bares e restaurantes”, afirma Alexandre Leme, sócio da Tábuas.

“Como nós, cervejarias artesanais, temos um alcance local, a ajuda ao HC foi algo natural”, acrescenta ele, que vinha observando pedidos de ajuda ao hospital nas redes sociais. “Não tem nem o que pensar, tem que ser uma doação para o HC na ajuda no combate à Covid-19”.

A união entre valorização da comunidade local e solidariedade se revelou tão boa que, em quatro dias, os mil litros da APA produzida na fábrica da cervejaria Cogumelo (também em Campinas) se esgotaram.

“Foi o recorde. Nunca houve um caso desses, de lançar a cerveja e acabar em tão pouco tempo. O pessoal abraçou mesmo a causa”, celebra Alexandre, lembrando da grande procura e entusiasmo por parte de ex-alunos da universidade.

O sócio da Tábuas avalia que o consumo engajado por parte do público se somou à solidariedade e ao apoio ao negócio local. “Justamente a cerveja que está ajudando foi a que vendeu mais rápido, e tivemos a semana de melhor faturamento durante a pandemia”, comenta.

Segundo Alexandre, as cervejarias de Barão Geraldo já planejam um segundo lote da Ciclo Básico para os próximos meses. As doações a serem repassadas para o HC da Unicamp estão sendo contabilizadas e devem totalizar aproximadamente R$ 6 mil.

Pandemia e nova geração expõem importância da segurança alimentar

A crise do coronavírus trouxe um olhar fundamental para a necessidade do reforço da segurança alimentar, incluindo o setor cervejeiro. Afinal, a produção tem papel preponderante para a saúde mundial. E os desafios estarão reforçados mesmo ao fim da pandemia da Covid-19.

Esses foram alguns dos temas abordados durante o Seminário Alimentos Seguros, realizado na semana passada e promovido pela Associação de Engenheiros Agrônomos do Estado de São Paulo (AEASP).

“Precisamos nos preocupar com a qualidade e a sanidade dos alimentos. A exigência da sociedade com a questão já vinha crescendo e certamente será ainda maior com surgimento da Covid-19. O importante é que todos os sistemas de produção sigam rigorosamente os critérios preconizados a cada um deles”, afirmou o presidente da AEASP, João Sereno Lammel, durante o evento.

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Outra conclusão dos debates envolveu a necessidade de cumprir as medidas que garantam a segurança alimentar como algo primordial para a manutenção do Brasil como força relevante no agronegócio mundial.

Hoje coordenador do FGV Agro, o ex-ministro Roberto Rodrigues destacou que a pandemia impôs o reforço das ações sanitárias nas atividades. Mas ele também apontou que as lições aprendidas na crise podem ajudar a fortalecer o setor produtivo brasileiro.

“A pandemia mostrou ao mundo que a régua da sanidade estava muito baixa e fez com que essa questão ganhasse uma nova importância. Não tenho dúvidas de que o setor tem feito a sua parte e, se trabalharmos o equilíbrio, sairemos dessa crise ainda mais fortalecidos”, disse Rodrigues.

Durante o encontro, um dado alarmante foi destacado para reforçar a importância da segurança alimentar. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), são estimadas 600 milhões de pessoas doentes por ano e 420 mil mortes, sendo 125 mil crianças com menos de cinco anos, em decorrência do consumo de alimentos não seguros.

Para reduzir esses números, o poder público tem papel fundamental para garantir a oferta de alimentos de qualidade, como destacou a superintendente estadual do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Andréa Figueiredo Procópio de Moura.

“Segurança alimentar e alimentos seguros são dois assuntos dessociáveis. O consumo de alimentos inseguros cria um círculo vicioso de doenças, afetando principalmente as populações mais vulneráveis como idosos, crianças e doentes”, aponta a superintendente do Mapa.

“Por essa razão, o Brasil, como grande produtor de alimentos, precisa ter um controle efetivo, um padrão de segurança do que produz. Tanto para sua própria população, como também para outros consumidores a quem nossos produtos chegam. Dessa forma, os controles do Ministério abrangem todas as fases desde a fase da produção dos insumos, agropecuária, industrialização até exportação”, acrescentou Procópio.

Novas exigências do consumidor
Além disso, a crise do coronavírus se deu em um cenário que já apontava algumas mudanças no padrão de consumo da população. Em geral, o aumento das opções e a busca pela diversidade se dão somadas com a preocupação sobre a origem e o processo de produção do que está sendo ingerido, como destaca a pesquisadora Marta Taniwaki, do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital).

“Hoje, o consumidor tem o direito de saber o que tem dentro da embalagem, mas também como esse alimento foi produzido. Se foi produzido respeitando as regras ambientais, as emissões de gases e, no caso de produto animal, se houve a prática do bem-estar animal. Também há um aumento de demanda por alimentos éticos, produtos sazonais cultivados localmente e sustentáveis. As percepções do consumidor de alimentos não seguros levam ao desperdício”, ressaltou Marta.

Essa visão de que as novas gerações exigem a adoção de outros comportamentos na produção alimentar foi reforçada pelo presidente da Associação Brasileira de Agronegócio, Marcello Brito. “Os estudos no mundo mostram que a geração X já tinha uma visão de produção em relação à geração anterior, acelerada agora pela geração dos millennials, que acreditam no novo normal, pensam na produção sustentável, nas emissões de carbono e no bem-estar animal. Cada vez mais isso vai ser cobrado”, apontou.

A ciência também terá papel fundamental para o desenvolvimento de pesquisas e novas tecnologias, unificando o aumento da produção sem qualquer descuido envolvendo a segurança alimentar, como destacado pelo diretor de assuntos regulatórios e científicos da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos, Alexandre Novachi.

“O momento que estamos hoje é um ponto de reflexão: para onde vamos a partir de agora? Muito se fala do novo, mas será que é tão novo assim? A tendência é buscarmos o equilíbrio entre a oferta de alimentos e o alimento seguro. E definitivamente é a ciência que vai nos garantir isso hoje e amanhã, assim como garantiu no passado. O que vamos comer amanhã? A resposta para essa pergunta depende das escolhas que faremos hoje, de quais são as nossas prerrogativas e os novos valores”, concluiu Novachi.

Menu degustação: Macuca de São João, 6 anos da Dádiva, clube da Duranz…

Mesmo em meio à pandemia, as cervejarias artesanais brasileiras seguem apostando em excelentes novidades. A Blumenau, por exemplo, lançou duas edições comemorativas da Macuca de São João, enquanto a Dádiva apresentou uma Belgian Specialty para festejar seus seis anos. Destaque ainda para o clube de assinaturas da Duranz e para a parceria entre a Colombina e a Verallia. Confira essas e outras novidades.

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Comemorativa da Dádiva
A cervejaria Dádiva está completando seis anos e, para celebrar, apresentou a Dádiva VI, uma Belgian Specialty que traz amoras em sua receita, o que confere uma coloração avermelhada, puxando para os tons de violeta. Envelhecida em barricas de Bourbon fresco, a Dádiva VI tem o sabor da fruta combinado com a baunilha do carvalho norte-americano. Possui 9% de teor alcoólico e está envasada em uma garrafa de 375ml, que pode ser encontrada em bares que estão trabalhando com sistema de delivery e take away e em comércios digitais de todo o país, além de poder ser retirada na própria fábrica da Dádiva aos sábados, das 11h às 16h, na cidade de Várzea Paulista. O preço sugerido é de R$ 45.

Macuca de São João
O amendoim e o coco são ingredientes-chaves das celebrações de São João. Em homenagem à data, a Cerveja Blumenau lançou duas novidades em edições limitadas: a Pé de Moleque e a Bala de Coco da Macuca, a Imperial Stout da marca. Serão comercializadas em garrafas de 500ml e possuem 10,5% de teor alcoólico e 80 IBUs. Para Marcos Guerra, cervejeiro da Blumenau, a ideia é valorizar a celebração nacional mostrando como a cerveja é versátil e se adapta a vários climas e calendários. “Nosso propósito enquanto marca é transformar a forma como as pessoas apreciam a bebida. As combinações da Imperial Stout com amendoim e coco certamente são inéditas para muita gente, que vai sentir isso no paladar”, diz ele.

Clube da Duranz
A microcervejaria artesanal Doutor Duranz, uma das integrantes da Rota Cervejeira RJ, acaba de lançar o Clube de Assinatura de garrafas de cerveja e growlers de chope. Inicialmente serão três modalidades: na primeira os clientes podem recarregar growlers de vidro diretamente na fábrica; na segunda recebem em casa growlers descartáveis; e na terceira ganham garrafas de cervejas. Dentro destas modalidades, o cliente poderá escolher dois tipos de planos de assinatura: no Aprendiz estão disponíveis estilos como Pilsen do Mestre, Preciosa Belgian Blond Ale, Elixir Red Ale, Chocolager e a Obra-Prima IPA; e, no Mestre, além de toda a gama de cervejas básicas, encontra-se rótulos como a Russian Imperial Stout e outros lançamentos. A cervejaria também lançou em garrafas sua Sour com coco queimado. Chamada de Life is SOur Good, ela é uma cerveja produzida com a técnica de Kettle Sour, com adição de maltes escuros e de coco queimado.

Brinde pela Vida
A Zuraffa, em parceria com outras cervejarias, criou o Brinde Pela Vida. A proposta é que cada cervejaria participante doe 50% do lucro arrecadado pelas vendas de algumas cervejas para instituições que amparam pessoas mais vulneráveis durante a pandemia. O What’s On Tap, brewpub localizado no Itaim Bibi, em São Paulo, participará do projeto com a verba revertida da venda da cerveja Querosene, uma American Light Lager feita em parceria com o Grupo Querosene. Os interessados podem comprar as cervejas pelo site https://www.beercapp.com.br/vendedores/brinde-pela-vida/.

Colombina e Verallia
A Cervejaria Colombina repaginou o visual da Romaria e, para isso, adotou a Celeste, da Verallia. Trata-se de uma garrafa de 330ml que faz parte da Selective Line, linha premium da empresa de embalagem. O modelo escolhido foi na cor âmbar escuro, com fechamento em coroa. E o rótulo foi reformulado pela design Thatiane Bentley, da agência BBP, de Goiânia. “A Verallia sempre traz embalagens inovadoras e isso é muito importante para nosso segmento de cervejas artesanais. A troca de embalagem foi crucial para reposicionar a Romaria, que tem várias premiações em conceituados concursos cervejeiros. Este reposicionamento foi traduzido na nova garrafa e no rótulo. Com isso, aumentamos as vendas, pois conseguimos gerar mais valor para o nosso produto”, aponta Patrícia Mercês, diretora da Cervejaria Colombina. A Romaria é uma Belgian Dark Strong Ale, cerveja típica das abadias belgas.

Aplicativo da Loba
A Cervejaria Loba está lançando seu novo aplicativo para que os clientes possam adquirir em casa todo o portfólio da marca. Nele, haverá dois dias da semana escolhidos para entregas grátis em Belo Horizonte e em algumas regiões do entorno da capital mineira. Os preços são mais vantajosos, garante a cervejaria. O iFood também virou parceiro da Loba, que criou ainda um ponto de venda no estilo To Go – pegue e leve – na rua Claudio Manoel, 475. Ainda há o tradicional sistema de delivery pelo telefone (31) 99246-0471. Segundo Kelvin Azevedo, sócio da marca, “criamos nosso próprio aplicativo e também iremos disponibilizar vendas presenciais na loja e on-line pelo site. Turbinamos nossos canais de venda, como o aplicativo próprio compatível com sistemas Android e IOS, além do site: http://cervejarialoba.com.br/peca-aqui/”.

Balcão da Nadhine: Cerveja e liberdade

Balcão da Nadhine: Cerveja e liberdade

Entramos no fim do mês de junho, que começou com a série de protestos antirracismo nos Estados Unidos, com momentos de revolta e dor que tomaram conta das ruas e das redes sociais. As mortes de George Floyd e, mais recentemente, a de Raychard Brooks deram oxigênio ao grito de “Chega!” que ecoa há mais de 500 anos, desde quando os negros eram levados à força de sua terra, separados da família, e tinham subtraídos sua origem, sua identidade e sua liberdade.

No Brasil, não é diferente. As mortes de Pedro Vitor, João Pedro, Ághata, Marielle, dentre tantos outros, escancaram a seletividade da polícia, que tanto tem em comum com a norte-americana – inclusive sua origem, que data de uma época de escravidão e tinha como função trabalhar para elite, capturando e torturando negros escravos fugitivos. Essa prática era institucionalizada pelo Estado. Até 1888, a tortura foi legal no Brasil, mas apenas em negros, afirmou em entrevista à BBC o historiador Luiz Felipe de Alencastro, um dos maiores pesquisadores da escravidão no Brasil.

Se compararmos a história com a realidade atual, olhando para o Atlas da Violência de 2019, vemos que 75,5% das vítimas de assassinato são indivíduos negros (dados de 2017). Assim, dá para traçar um claro paralelo. 

Este é mês também do Orgulho LGBTQIA+ (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e pessoas intersex). E a história dessa data, oficialmente 28 de junho, vem de um episódio ocorrido em Nova York, em 1969. Neste dia, as pessoas que frequentavam o bar Stonewall Inn (até hoje um local de forte presença de gays, lésbicas e trans) reagiram a uma série de batidas policiais que eram realizadas ali com frequência. Pois é, outra reação de revolta e dor que deu origem a um ato político que acontece todos os anos em vários países, de luta por liberdade corporal e comportamental: a Parada do Orgulho. E o Brasil é o país que mais mata trans no mundo, segundo a ONG Transgender Europe (TGEu). 

O grito social e econômico das minorias pelos direitos individuais à vida, liberdade, igualdade, segurança e propriedade, instituídos para todos pela Constituição brasileira, pode parecer besteira para alguns que dizem “todas as vidas importam”. Mas o fato é que esses direitos pétreos garantidos, na verdade, só são assegurados para uma parcela da população. E o respeito, reconhecimento e proteção são negados a uma outra parte, por causa de sua cor, identidade de gênero, orientação sexual, lugar de origem ou deficiência.

As minorias de direito são definidas como grupos marginalizados dentro de uma sociedade devido aos aspectos econômicos, sociais, culturais, físicos ou religiosos sem, necessariamente, se referir à quantidade numérica, mas sim ao controle de um grupo sobre os demais.

A população brasileira tem mais mulheres (50,4%) e pessoas não brancas (54,9%) como maioria, mas são grupos que possuem seus direitos cerceados, assim como as demais minorias. Cada uma delas tem recortes transversais, que podem colocar a pessoa individualmente em um grupo de maior risco ou de direito limitado, como um homem negro gay portador de deficiência, por exemplo, ou uma mulher transgênera, lésbica e periférica.

Dentro desses grupos, existe um estado de vigia intenso aos direitos adquiridos até hoje. Racismo é crime. Homofobia é crime. O casamento entre pessoas do mesmo sexo é possível por lei. Existe cota racial e de renda para concursos, além de vagas especificamente destinadas a pessoas com deficiência. Mas ainda existe muita impunidade, muito preconceito e desigualdade.

E o que a cerveja tem com isso?
A Brewers Association, entidade que representa as cervejarias independentes dos Estados Unidos, tem um programa de apoio financeiro para eventos locais e regionais que possuam o propósito de fomentar uma comunidade de cerveja artesanal mais diversificada e inclusiva. A prioridade dos financiamentos é para eventos que aumentem o acesso e a conscientização acerca da cerveja artesanal a diversos grupos demográficos, enquanto cultivam um ambiente inclusivo.

Vimos, em junho, surgir o projeto “Black is Beautiful”, da cervejaria Weathered Soul, uma artesanal independente no Texas. A iniciativa é um esforço colaborativo para que a comunidade cervejeira e consumidores se conscientizem das injustiças que muitas pessoas de cor enfrentam diariamente. A árdua missão é preencher aos poucos a lacuna que existe há séculos e fornecer uma plataforma para mostrar que a comunidade cervejeira é um espaço inclusivo para todos, de qualquer cor.

E no Brasil?
A Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva) criou, neste mês, o Núcleo de Diversidade, visando estabelecer uma estrutura organizacional comprometida com a diversidade, equidade e inclusão na entidade.

É preciso um comprometimento real da sociedade para mudar essa realidade. E é nosso dever escutar o que cada uma dessas comunidades tem a nos dizer, dar voz às suas palavras e agir para fortalecê-las. Por isso, o núcleo fará lives para dar voz a representantes dessa diversidade, às quartas-feiras, às 20 horas, no YouTube da Abracerva.

Todos nós temos muito o que fazer daqui para frente, para conscientizar e erradicar os preconceitos sistêmicos de nossa sociedade. Esse é um pequeno passo para uma comunidade com liberdade e melhor.


Nadhine França é sommelière, membro da Confraria Maria Bonita, coordenadora do Instituto da Cerveja no PE e do Núcleo de Diversidade da Abracerva

Hoegaarden e Goose Island reforçam ligação com a arte e a cultura urbana

Nem só de deliveries e happy hours virtuais vivem os amantes de cerveja na quarentena. Na falta dos eventos presenciais, Hoegaarden e Goose Island, sediadas em São Paulo no pulsante bairro cultural de Pinheiros, buscam alternativas para se manterem ligadas à criatividade. E, enquanto a Hoegaarden se move para promover oficina de pintura, a Goose Island se aventura literalmente lançando moda.

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A Hoegaarden idealizou o projeto Paint & Drink com a empresa que leva o mesmo nome. Em sua terceira edição, o evento visa proporcionar uma nova modalidade de consumo de arte e música durante o distanciamento social: pintar a própria tela ao som de boa música e de uma cerveja.

O encontro virtual, pela plataforma Zoom, contará com a presença de mulheres artistas e terá foco na arte brasileira. Enquanto a cantora Mari Branco vai interpretar clássicos de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Novos Baianos, a artista plástica Camila Gimenez, fundadora do Ateliê Ihama e cuja arte tem influências naif e nordestinas, conduzirá uma oficina de pintura. Tudo acompanhado da cerveja Hoegaarden que faz parte do kit da experiência.

“O propósito da Paint & Drink está alinhado com nossa essência, de incentivo a momentos de relaxamento e bem-estar, por isso, nos unimos novamente ao projeto e desejamos levar mais leveza e inspiração para a casa das pessoas”, conta Thiago Leitão, gerente de marketing de Hoegaarden.

A terceira edição do Paint & Drink será realizada neste sábado, às 15 horas, com transmissão ao vivo pela plataforma Zoom. Os ingressos, limitados, podem ser adquiridos no site do evento.

Moda cervejeira
Já a Goose Island se uniu à marca paulistana de streetwear Altai na concepção da Goosebumps, uma linha de vestuário que inclui meias, camisetas, chapéus e jaquetas com estampas unindo os universos da música e da cerveja.

“Sempre buscamos unir forças com parceiros que tenham uma essência parecida com a nossa. Goose e Altai têm muito em comum. Nesse projeto fomos além da cerveja e trouxemos uma coleção única que une a essência das duas marcas com o conceito da cerveja e da música”, conta Thiago Leitão, também gerente de marketing da Goose Island.  

“Traduzi as marcas através de dois personagens, o lúpulo e a guitarra e, junto deles, foi criado um pattern que mostra todo o universo que gira em volta dessa collab”, acrescenta Lucas Sanches, designer da Altai Company.

As peças da linha Goosebumps estão disponíveis no site da Altai, no Empório da Cerveja e na loja online da Goose Island Brewhouse.  

União de cervejarias é o caminho para a diferenciação das embalagens a bons preços

Com a reconfiguração do consumo de cerveja durante a pandemia, as demandas e o modo de se enxergar as embalagens e suas funções também passaram por transformações profundas. Ao beber em casa, o público cervejeiro passa a valorizar outras características das garrafas e latas. Assim, na visão da diretora-executiva da Associação Brasileira de Embalagem (Abre), Luciana Pellegrino, esse cenário impõe às marcas novos desafios. E a união entre empresas pode ser a saída para apresentar um rótulo atraente e com preço competitivo.

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Assim como a maioria dos setores, a indústria de embalagens sentiu impactos da paralisia das atividades econômicas por causa da crise do coronavírus. Depois de um primeiro trimestre relativamente estável, a produção de embalagens como um todo teve queda de 11% no volume de fabricação em abril, se comparado ao mesmo mês do ano passado.

Já as embalagens de vidro começaram a apresentar redução na produção em março – 15,6% no terceiro mês de 2020 e 20% em abril -, enquanto o recuo nas embalagens de metal foi de 3,6% e 32,2% no mesmo período, respectivamente.

Os números, no entanto, poderiam ser piores se as embalagens não estivessem ligadas também a setores e produtos considerados essenciais. “Grande parte delas atende a produtos essenciais, que estão mantidos. Mas tem uma parte que é de itens não essenciais e outras mais sensíveis à diminuição da circulação de pessoas e da atividade do comércio”, aponta Luciana.

A indústria de bebidas, diz ela, está no segundo grupo e demandou volume 4,3% menor de embalagens no primeiro trimestre, em relação ao mesmo período do ano anterior.

Mudanças e caminhos
Luciana vê, na troca do barril pelas garrafas, latas e growlers, um dilema desafiador para as cervejarias de pequeno porte. Por um lado, se não estão vendendo grandes volumes com o apoio de embalagens retornáveis para bares e restaurantes, por outro as cervejarias se veem obrigadas a investir em diferenciação para o consumidor que está comprando latas, garrafas e pedindo cerveja em casa. “São empresas pequenas, mas que buscam embalagens exclusivas, e que enfrentam o desafio da escala.”

Isso acontece pois, segundo ela, a produção de uma garrafa exclusiva requer o desenvolvimento de um molde específico. “É um investimento alto, que só se justifica com uma produção em larga escala”, afirma Luciana, lembrando que a produção das artesanais não é considerada grande para as dimensões de fabricantes de vidros.

Um caminho para que cervejarias de pequeno porte consigam condições interessantes na busca por certa exclusividade nas embalagens, acrescenta ela, é o da união: diversas marcas concordam em usar e comprar coletivamente um formato que ajude a posicionar seus produtos, conseguindo bons preços junto aos fabricantes. “A diferenciação acaba mesmo acontecendo pelo rótulo.”

Luciana lembra que a dificuldade é ainda maior quando o delivery entra em cena como parte inevitável da estratégia das cervejarias. Em sua avaliação, a entrega hoje não se limita ao transporte de um produto, mas se configura, em muitos casos, como a principal ferramenta de adaptação da experiência antes restrita a bares e restaurantes para o ambiente da casa.

Teresa Cristina fala sobre necropolítica e relação entre samba, cerveja, mulher e Ogum

O artista é um importante ator político. Essa visão se reflete nos posicionamentos de Teresa Cristina, importante representante do samba brasileiro, apresentados na live semanal do Guia. Na entrevista realizada nesta quarta-feira, ela comentou sobre a carreira, o sucesso das suas interações digitais diárias, um dos marcos da quarentena, e o primeiro patrocínio da carreira.

Para a cantora, calar-se diante de absurdos políticos, como a sugestão de invadir hospitais para verificar se leitos estão ocupados por pacientes com coronavírus ou ignorar recomendações de autoridades sanitárias, seria um “crime”.

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Apesar disso, Teresa Cristina prefere não enxergar um cenário desolador no Brasil, apontando o que a cultura nacional segue produzindo. Um dos maiores exemplos disso é a a live diária em que ela dá espaço para artistas pouco conhecidos, como uma resposta de “afeto e amor à necropolítica”.

O sucesso das transmissões levou Teresa Cristina, uma mulher negra, a conseguir o primeiro patrocínio da sua carreira, da cervejaria Original, que apoiará uma live da cantora marcada para o próximo sábado – já havia realizada outra, em 30 de maio.

Na entrevista ao Guia, Teresa Cristina também comenta sobre a relação entre cerveja e samba, a sua formação musical, a participação no processo de revitalização da Lapa, no Rio, e como acredita ter construído o seu sucesso dando um passo de cada vez.

Confira, neste link, a live na íntegra. E, abaixo, um resumo da entrevista.

Influência de Candeia
A partir de uma pesquisa sobre o Candeia, conheci o Wilson Moreira, a Velha Guarda da Portela, conheci Monarco, Paulinho da Viola… Comecei a cantar na Lapa em 1998, cantando Candeia. Era um visionário, um ativista social e político dentro do samba. Alguém que abriu caminhos para eu aceitar e falar da minha negritude.

A participação no renascimento da Lapa
A Lapa era um lugar boêmio nos anos 30 e 40, frequentado por Francisco Alves, Cartola e outros nomes. No fim dos anos 90, a rua do Semente (bar na Lapa) era quase deserta, tinha muita criança cheirando cola. Com a frequência, o quadro foi mudando, se tornou uma rua atrativa. Tinha eu cantando samba no bar, a padaria aproveitava o som e colocava mesas na calçada. E também tinha forró, concerto de harpa, a galera do metal na calçada, sósias de cantores bregas e sertanejos. Era uma confusão de gente.

A influência da Lapa em sua formação cultural
Eu entendi que as pessoas estavam cansadas das músicas da rádio e da TV. A Cristina Buarque ajudou enriquecendo o repertório, nos dando gravações de Zé Keti, da turma da Portela, de cantores do rádio. Eram songbooks antes mesmo de eles existirem. Tínhamos um público atrás de música que não era imposta. Me fez bem, para pesquisar, ir atrás de repertório.

Relação entre samba e cerveja
A cerveja é companheira do samba. Em uma live, a Mãe Dora explicou que Tia Ciata, que trouxe o samba para o Rio, quando ela se fixou na Praça XI, fez um assentamento para Oxu e Ogum. E a bebida de Ogum é a cerveja. Existe algum segredo entre o samba e a cerveja. E entre o samba e a cerveja, existe o sambista, que consome a cerveja. É um combustível.

A cerveja na cultura brasileira
É a bebida perfeita, é gelada, dá uma animação, como o samba, é um motorzinho de felicidade. É uma celebração, motivo para encontrar um amigo. “Vamos tomar uma cerveja”, “vamos tomar uma saideira”, “com fulano eu não bebo”. São expressões que significam outras coisas, e têm outras interpretações.

O sucesso da sua live
As coisas que faço começam pequenas. No Semente, na primeira noite, tinha 20 pessoas. E depois ficava gente na rua, porque não cabia lá dentro. As lives, comecei com 80, 120, 300 pessoas e foi aumentando. A gente vive em um país onde 2% são milionários, e a base é humilde e trabalhadora. Mas há um senso de que tudo precisa ser gigante, especialmente na arte. Conseguir observar o crescimento do meu trabalho é muito importante. É com o crescimento gradativo que eu aprendo e entendo o que é meu trabalho.

A dificudade para conseguir patrocínio de uma marca de cerveja
Quando comecei a cantar na Lapa, não bebia. Vários sambistas eram patrocinados por cervejas, e eu achava que não era patrocinada por isso. Mas o Dudu Nobre era patrocinado e não bebia. (…) Depois, eu voltei a beber. Foi um reencontro com um amor antigo. Quando começaram as lives, comecei a beber nelas. E virou um combustível. Eu faço live todo dia, bebo todo dia, mas só durante a live. E quando vejo, bebi seis cervejas. Eu consumia muito uma marca. As pessoas provocavam a marca, durante uns dois meses, para que me patrocinasse. Mas a marca, para ela, eu não era uma prioridade. Fiquei chateada, parei de mostrar. (…) Depois de um tempo, a Original patrocinou a minha primeira live. E não é só o patrocínio, é o carinho. A primeira live foi incrível e agora vou fazer a segunda. A gente tem de retribuir o amor que a gente recebe.

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A dificuldade para obter o 1º patrocínio
A mulher negra no Brasil não pode errar, precisa ser perfeita. Se erra, ela é cobrada. E temos de agarrar a oportunidade. Para ser bem-sucedida, você precisa estar sempre pronta. (…) A gente está sempre no final da fila, às vezes nem no final. Eu bati na porta de empresas sobre meus shows do Candeia, do autoral, do DVD. E a resposta era “dessa vez, não. Quem sabe da próxima”. Então pensava: “Não é o que eu faço. Sou eu”. Foi preciso ter cabeça firme, e graças a Deus eu tenho, para não me achar o problema.

A cultura brasileira em meio à crise
As engrenagens estão em movimento, o Brasil não é mais o mesmo, mesmo que estejamos em um cenário inimaginável, de não ter um ministro da Saúde há dois meses em uma pandemia. Ao mesmo tempo, porém, o que está uma m…, sempre esteve, só que agora está cheirando. Temos alicerce e base para nos reerguer. A criação cultural do Brasil continua linda e produzindo. A gente não pode achar que tudo é um governo que a gente nem sabe até quando vai durar. (…) O samba atravessa dois séculos porque tem base. E quem está no poder, não deu certo em lugar nenhum do mundo, não vinga em lugar nenhum. Estamos vivos, produzindo, compondo, tomando nossa cerveja. E podemos ficar bêbados em casa na quarentena.

O posicionamento político dos artistas
Eu entendo o medo de se posicionar e ter uma imagem vinculada a algum político e aí prefere-se manter a neutralidade. Temos experts nisso. Mas hoje temos o enfrentamento da política da morte, tem a Covid-19 e tem o covarde, dando as costas para morte, incentivando a invasão de hospital, com gente morrendo lá dentro. Não vejo minha postura como a favor de um partido, mas a favor da vida. A minha, da família, do meu estado: o Rio de Janeiro tem mais mortes do que a China. Os dirigentes querem abrir academia, abrir escola, liberar aglomeração em igreja evangélica, desorientando a população, ignorando a OMS, a base científica. Não se pode botar isso acima da ciência. (…) A arte existe para modificar a realidade, é uma interferência. Se eu não grito a ausência de um ministro da Saúde, eu estou concordando com isso. Se não reclamo de alguém que manda invadir hospitais, eu concordo com isso.  (…) Se eu não usar a minha ferramenta para isso, não tem por que eu ter uma live. O silêncio hoje é criminoso, não se aplica, é inconcebível. O artista, se ficar quieto, não só não ajuda a quem precisa, como está colaborando com atitudes anti-vida. Não consigo me imaginar sem falar dessas coisas.

As razões para a mulher não ser associada à cerveja
Quando a mulher repete um gesto masculino, ela é considerada vulgar. Os homens se vangloriam de seduzir e se relacionar. O homem pode beber dez cervejas sozinho no botequim. E isso é vangloriado. Qual é o nome da mulher que faz isso? É uma questão de sexo. A mulher é piranha e puta na mesma situação. A mulher não pode nem amamentar em público. Tomara que as lives que estou fazendo incentivem mais mulheres a entrar no botequim. Ela continuará sendo a mesma mulher, mas talvez mais feliz.

A ancestralidade e o apoio a artistas pouco conhecidos
A ancestralidade são as histórias que se repetem para se aprimorar. Se eu estou aqui na Terra, tenho dívidas a pagar. Então preciso ser melhor. Quando olhamos para o outro e enxergamos nele o nosso Deus, e não em um objeto, quando enxergamos o divino no outro, a gente também se torna divino. Criamos um elo que não para. É bom ser ajudado, então também é bom ajudar. (…) Eu sei o que é não ter oportunidade. É muito bom dar janela para alguém. A gente cria um círculo de afetos, e só com o afeto e o amor a gente pode sobreviver contra a necropolítica.

Balcão do Advogado: Reflexões jurídicas sobre o caso Backer

Balcão do Advogado: Reflexões jurídicas sobre o caso Backer

A tragédia da contaminação de cervejas da Backer deixou uma mancha no mercado de bebidas alcoólicas e, principalmente, no setor cervejeiro artesanal. O caso Backer prejudicou o mercado como um todo, lançando dúvidas sobre a segurança dos procedimentos de produção das microcervejarias.

Trata-se de um caso de repercussão internacional sem precedentes na indústria cervejeira mundial e, pelo seu ineditismo, é preciso tirar uma série de lições a respeito do que aconteceu, com o fim de que nunca se repita.

Ineditismo
De acordo com um estudo sobre o dietilenoglicol publicado em 2017 na revista médica Clinical Toxicology, da Academia Americana de Toxicologia Clínica, existem relatos de contaminações em 11 países (Estados Unidos, África do Sul, Nigéria, Bangladesh, China, Panamá, Espanha, Índia, Áustria, Argentina e Haiti), nas quais faleceram pelo menos 750 pessoas. Em praticamente todos esses episódios, a contaminação pela substância tóxica ocorreu em medicamentos ou preparações farmacêuticas. A exceção foi na Áustria, que, à semelhança do episódio brasileiro, envolveu uma indústria de bebidas alcoólicas.

No caso austríaco, conhecido como o “escândalo do anticongelante”, ocorrido em 1985, alguns produtores de vinhos misturaram, propositalmente, dietilenoglicol à bebida para aumentar o seu dulçor. A manobra foi descoberta antes que os vinhos contaminados ocasionassem vítimas, mas custou aos produtores austríacos uma queda sem precedentes na exportação de seus vinhos.

Portanto, é possível verificar que o presente caso é inédito, haja vista ser a primeira ocorrência de contaminação de cerveja por dietilenoglicol no mundo.

Erros consecutivos
Como a maioria das tragédias, esta também poderia ter sido evitada. Geralmente, é necessária uma série de erros consecutivos para ocasionar situações como a relatada aqui, o que demonstra que a identificação de apenas alguns dos erros da cadeia já teria sido suficiente para mitigar os danos e, eventualmente, as fatalidades.

Fazendo um exercício com base nas informações colhidas pelo inquérito policial, verificam-se que as principais falhas que ocasionaram a contaminação (sem ordem de relevância) foram:

  • Uso de substância tóxica como anticongelante (mono/dietilenoglicol): a imensa maioria das microcervejarias utiliza álcool, por ser um produto seguro e mais barato;
  • Descumprimento do disposto no manual de instruções do tanque, que recomendava o uso de álcool como anticongelante;
  • Tanque fermentador com defeito: furo na solda que ocasionou a contaminação;
  • Falta de manutenção dos equipamentos;
  • Falta de implementação de sistema de controle para redução de riscos (APPCC);
  • Falha na supervisão/identificação do vazamento na bomba de refrigeração;
  • Expansão acelerada da capacidade fabril sem as adaptações necessárias.

Da análise dos erros citados, denota-se claramente que a maioria poderia ter sido perfeitamente evitada através de soluções simples.

Lições e soluções
Dentre as falhas citadas, chama a atenção o furo no tanque fermentador apurado pela investigação policial, tanque esse alegadamente novo e recentemente adquirido pela cervejaria, ou seja, apresentando defeito de fábrica.

Apesar de a cervejaria ter descumprido o previsto no manual de instruções do equipamento, o que poderia ser considerado mau uso, o defeito encontrado pode ocasionar a responsabilização cível da fabricante do tanque pelo dano causado às vítimas da contaminação.  

Isso porque, não tivesse furo na solda do tanque, não teria a cerveja sido contaminada. Não se trata de responsabilizar única e diretamente a fabricante pelo ocorrido, mas de levantar a suscetibilidade dela figurar como ré solidária em ação de reparação de danos às vítimas, à luz do art. 25, § 2º, do Código de Defesa do Consumidor (CDC), que prevê a responsabilidade solidária de todos que contribuíram para a causação do dano.

No sentido de evitar esse tipo de problema no futuro, e a fim de resguardar e proteger ambas as partes envolvidas no contrato de compra de equipamento, é essencial a inclusão da cláusula de try-out (já comentada nesse artigo). Por meio dessa cláusula, ambas as partes asseguram que o produto está sendo entregue nas condições ideais de funcionamento, evitando-se assim defeitos de fábrica.

Consequências cíveis
A tragédia ocasionou à cervejaria Backer e aos sócios da empresa uma série de implicações nas esferas cível e penal (essa não será tratada aqui). Por se tratar de uma relação de consumo, é necessário recorrer ao CDC para compreender melhor as possíveis consequências cíveis à empresa, ao grupo econômico do qual a cervejaria faz parte e aos sócios.

Inicialmente, no que tange à utilização de substância nociva à saúde, é importante mencionar a regra geral insculpida no artigo 10 do CDC, inserida em uma seção destinada à proteção, à saúde e à segurança do consumidor, pela qual:

o fornecedor não poderá colocar no mercado de consumo produto ou serviço que sabe ou deveria saber apresentar alto grau de nocividade ou periculosidade à saúde ou segurança.

Do ponto de vista da responsabilização, segundo o artigo 12 do CDC, o fabricante responde pela reparação dos danos causados aos consumidores independentemente de culpa. No caso em comento, no qual ocorreu contaminação culposa (ou seja, sem intenção), a cervejaria é obrigada a ressarcir as vítimas (todos que ingeriram o produto, mesmo que não tenham comprado) que sofreram danos pelo consumo da cerveja contaminada com dietilenoglicol.

Entre esses danos passíveis de reparação compreendem-se: dano moral (abalo emocional/psíquico das vítimas e de familiares), dano estético e dano material (pensionamento por morte, despesas hospitalares e de tratamento, apoio psicológico para vítima e familiares etc.).

Ademais, o art. 28 do CDC dispõe que o juiz pode desconsiderar a personalidade jurídica da empresa (atingindo, assim, o patrimônio dos sócios) nas relações de consumo, quando:

[…] em detrimento do consumidor, houver abuso de direito, excesso de poder, infração da lei, fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou contrato social. A desconsideração também será efetivada quando houver falência, estado de insolvência, encerramento ou inatividade da pessoa jurídica provocados por má administração.

Nos parágrafos 2º e 5º, o artigo 28 ainda prevê a responsabilização subsidiária das sociedades integrantes dos grupos societários e as sociedades controladas, assim como a possibilidade de desconsideração da personalidade jurídica também quando ficar constatado obstáculo ao ressarcimento dos prejuízos causados aos consumidores.

Assim, considerando que a cervejaria Backer compõe um grupo econômico, todas as empresas que compõe esse grupo são responsáveis subsidiárias pela reparação dos danos. Sendo insuficientes os bens de todo o grupo econômico para reparar os danos das vítimas, é possível que os sócios da empresa tenham seu patrimônio atingido, no sentido de que as vítimas não fiquem desamparadas.

Em conclusão, o que se espera é que o caso Backer seja elucidado da melhor forma e que as vítimas consigam a reparação de um valor justo pelo dano que sofreram.

Também se espera que todas as lições e ensinamentos que essa tragédia deixou sejam assimilados da melhor forma pelo mercado, servindo para que as cervejarias tenham ainda mais atenção em relação à segurança alimentar e que busquem sempre maior profissionalização em todos os aspectos do negócio.


André Lopes, sócio do escritório Lopes, Verdi & Távora Advogados, é criador do site Advogado Cervejeiro

Investimento em tecnologia e higiene: As ações dos bares para reconquistar os clientes

Após mais de três meses impedidos de atender presencialmente seus clientes, os bares e restaurantes começam a se preparar para a reabertura no Brasil. O assunto é tratado de maneira diferente em cada região, por causa da evolução do surto do coronavírus, mas, de uma maneira geral, o foco parece ser o mesmo: reconquistar a confiança do cliente para voltar a atrair o público. Para isso, os estabelecimentos concentram suas atenções em medidas de higiene e no investimento em tecnologia.

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Retomar as atividades não significa simplesmente voltar a funcionar. Além das normas e orientações de higiene e distanciamento que devem ser seguidas, os estabelecimentos precisam entender as demandas dos clientes e utilizar novas tecnologias e processos.

A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), inclusive, preparou um extenso material de apoio com inúmeras orientações, que está disponível em seu site. A maior preocupação envolve as adaptações no atendimento, uma vez que bares e restaurantes já seguem rígidas normas de higiene em função da necessária segurança alimentar para evitar a contaminação dos produtos.

“Nosso maior desafio no momento é ganhar a confiança do consumidor e buscar recursos para superar os próximos meses quando ainda deveremos operar com prejuízos”, afirma o presidente da Abrasel, Paulo Solmucci, em entrevista ao Guia.

Portanto, o maior foco das mudanças nos estabelecimentos vai envolver o relacionamento humano. As mesas deverão estar separadas por mais de um metro. E novas tecnologias para minimizar o contato pessoal serão utilizadas. “Reserva de mesas online, cardápios digitais, sistema para fazer os pedidos e pagar pelo celular sem a necessidade de ter contato com o garçom é o que faz total sentido”, explica Fábio de Francisco, diretor do BaresSP, que oferece serviços de apoio às empresas nesse momento de retomada.

Para Fábio, não basta o estabelecimento implementar medidas de higiene e limpeza. Também será preciso comunicar isso com clareza aos clientes. “Mostrar que os funcionários estão higienizando as mãos o tempo todo, que as mesas e utensílios são limpos constantemente, disponibilizar álcool gel, tudo isso é importante comunicar e deixar claro aos clientes”, salienta o diretor do BaresSP.

A necessidade de mostrar ao público – e de forma ostensiva – as medidas que estão sendo tomadas pelo estabelecimento também é uma das preocupações do empresário Alexandre Gama Pinheiro, sócio do brewpub Kinke, na zona oeste da cidade de São Paulo.

“Tudo é uma questão de transmitir uma sensação de segurança para os clientes. No nosso caso, como cervejaria, já temos muita preocupação com a higienização e limpeza, e ainda vamos reforçar isso. Tudo o que aplicamos na nossa fábrica vamos repetir no nosso tap room. Temos que transmitir para o cliente uma sensação de que estamos cuidando dele”, ressalta.

Outro cuidado necessário aos empresários é rever os processos de atendimento e adotar novas tecnologias para minimizar o contato físico. “Não há outra pauta neste momento que não seja a inovação e a transformação da forma de gerar negócios”, aponta Iuri Mendonça, chef e proprietário do Cervisia Gastrobier, em Uberlândia (MG).

Aproximar-se do cliente e entender suas novas demandas também será importante durante a retomada, segundo Iuri. “Sempre procurei como empreendedor enxergar a oportunidade e não lamentar ou se entregar às dificuldades. Portanto, o momento agora é de resiliência e proximidade junto com o cliente para reconstruir esta equação diante do contexto do ‘novo normal’, para continuarmos a servir com aquilo que temos paixão de fazer: servi-los”, salienta o proprietário da Cervisia Gastrobier.

Crise e mudança no espaço
Todo esse esforço, contudo, não é garantia de sucesso. Os empresários precisarão retomar as atividades sem saber ao certo o que lhes aguarda no futuro. “O cenário mais otimista é que uma recuperação, muito lenta, deve ter início no final do ano. Para alguns segmentos, como casas de show, buffets e boates, isso vai levar mais tempo ainda”, projeta Solmucci, presidente da Abrasel.

Mesmo com todas as incertezas e desafios, a expectativa da Abrasel é de que o movimento de reabertura siga o visto em outros países, com os clientes voltando aos bares e restaurantes preferidos. “São lugares de encontro, de compartilhamento, de alegria e sempre tiveram uma ligação afetiva com as pessoas. Queremos também uma ajuda das prefeituras para usar mais espaços ao ar livre, como colocar mesas nas calçadas onde for possível, com isenção das taxas nesse período de retomada. Será uma importante forma de apoiar o setor”, ressalta Solmucci.

Para o sócio da Kinke, a reabertura vai provocar no início um sentimento de saudosismo e os clientes irão voltar aos estabelecimentos. Mas ele admite que isso pode provocar aumento no número de casos de coronavírus, o que levará as pessoas a realizarem mais confraternizações em casa, com os amigos. “Eu acho que as pessoas continuarão preferindo consumir em casa, mas agora com os amigos, já que a quarenta vai acabar e você poderá chamar os amigos. Teremos que conviver com isso”, avalia Alexandre.

Nesse novo cenário, muitos estabelecimentos precisarão realizar modificações com o caixa comprometido pela crise econômica. Segundo levantamento da Abrasel, 62% das empresas do setor estão com dificuldades para repor os estoques para a reabertura. E a mesma pesquisa mostrou que 81% das solicitações de empréstimos feitas por bares e restaurantes foram negadas pelos bancos.

“Já temos uma em cada quatro casas fechando as portas em definitivo, ou seja, 25%. Entre as que continuam em operação, há uma queda de faturamento em torno de 80%. É uma situação que nunca vivemos e o prejuízo deve ser da ordem de R$ 50 bilhões”, detalha Solmucci.

Mas o presidente da Abrasel enxerga que algumas alterações forçadas pela crise do coronavírus podem ter efeitos positivos para o segmento de bares e restaurantes. “O setor está sendo forçado a se tornar mais produtivo, com equipes e processos mais enxutos. A tendência é tornar as operações mais simples. Alguns hábitos adotados durante a pandemia também devem perdurar, como fazer reserva nos estabelecimentos, pedir delivery, fazer pagamentos com contato mínimo, etc.”, conclui.

Segurança sanitária e distanciamento: A ‘reinvenção’ das feiras no pós-coronavírus

Mesmo que o momento da retomada da maior parte das atividades ainda pareça distante no atual cenário de surto da Covid-19, já é possível – e até mesmo salutar – iniciar o planejamento para a volta das ações em diferentes segmentos. Será preciso realizar adaptações visando uma sociedade alterada pela doença, com novos comportamentos e práticas, para evitar a repetição dos problemas sanitários. É assim, também, para o setor de eventos, incluindo as feiras que serão realizadas após a pandemia do coronavírus.

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Afinal, mesmo que os casos arrefeçam, os riscos de contaminação não estarão encerrados. Haverá, a partir da volta das feiras, incluindo aquelas que são marcos importantes do setor, mudanças concretas decorrentes da virose. E elas envolverão ações para permitir o cumprimento do distanciamento, assim como o uso de equipamentos de segurança, que incluem luvas e máscaras.

“Toda a questão de atendimento presencial será retomada com medidas de distanciamento/prevenção, uso de máscaras e EPI’s pertinentes a cada escopo e case contratado. O estabelecimento que sedia o evento deverá, imprescindivelmente, atender os requisitos estruturais de segurança sanitária”, avaliam Michel Gervasoni e Patrícia Lopes, sócios da M&P Facility Services.

Como a volta será marcada por um natural receio de aglomerações, a retomada das feiras após a estabilização do coronavírus exigirá uma preparação especial dos expositores e organizadores para que os frequentadores sejam recebidos com segurança, algo que já deve começar a ser planejado e preparado, como destaca a M&P.

“A realidade antes vivida está se moldando para oferecer as condições seguras em um espaço confinado com público/visitantes ou até mesmo em áreas abertas, tal como respeitar o distanciamento social, entre outras medidas”, comentam Michel e Patrícia.

Para além das medidas empresariais a serem adotadas, a nova realidade exigirá também um comprometimento individual. A manutenção dos hábitos de higiene advindos da crise terá papel fundamental na volta segura das feiras. As estruturas, evidentemente, estarão adaptadas à nova realidade, mas cada indivíduo precisará agir com responsabilidade e cuidado.

“Sendo auto responsáveis ‘Do It Yourself (Faça Você Mesmo, em inglês)’ e nos atentando às orientações sanitárias para que haja cooperação no controle deste vírus, até o surgimento de uma vacina, entretanto, cremos que esses novos hábitos perdurarão”, apostam os sócios da M&P.

Luta contra o encolhimento
Outro desafio nesse momento é evitar o encolhimento do setor. Como as feiras são uma importante plataforma de negócios, adaptar suas estruturas para que os eventos ocorram de forma segura é importante para que os efeitos da crise não se propaguem ainda mais.

“É imperial o retorno seguro e obediente às normas de prevenção ao contágio”, ressaltam Michel e Patrícia, apontando a preocupação deles em fazer a parte da M&P na busca por viabilizar a realização das feiras.

Após superar a crise sanitária, a sociedade precisará também vencer e deixar para trás a crise econômica, com desemprego, aumento dos problemas e da desigualdade, além do fechamento de empresas. Para isso, a busca de parcerias e alternativas de negócios é uma das possibilidades efetivas com o intuito de lidar com esse cenário.

“É latente a consequência restritiva em eventos, não apenas pela suspensão dos negócios em si, mas efetivamente pela rede de parceria e troca de informação que esta vertical cria”, alertam os sócios, que já têm enxergado o cancelamento de várias feiras, trazendo efeitos negativos para diferentes setores da cadeia produtiva.

“O encolhimento desta vertical, que demanda a reunião de pessoas, é público e notório. Isso nos leva a perdas colaterais, entre elas, a rede de negócios, obrigando os gestores e networkings a se reinventarem”, acrescentam Michel e Patrícia.

Nos últimos meses, segundo os sócios da M&P, houve muito enxugamento e até extinção de empresas no setor de eventos. Para manter os produtos e serviços atualizados ao público-alvo dentro desse cenário, a empresa tem apostado em sinergia entre empresas e captação de leads assim como já funcionava antes, só que de maneira digital.

Assim, com a experiência em trabalhos de facilitação, a M&P assegura estar pronta para atuar no processo de “reinvenção” de eventos e feiras. “Reinvenção é a palavra que define a gestão da M&P Facility Services. Estamos olhando para novos horizontes também, uma vez que nosso carro-chefe – eventos – foi revisto. Atuaremos de forma técnica e reestruturada na retomada das atividades. Suspenso sim, cancelado nunca”, concluem Michel e Patrícia.