O período de retomada das atividades no setor cervejeiro ganha um embalo nesta quinta-feira. Afinal, o 17 de março é uma das datas mais tradicionais do segmento cervejeiro, especialmente para as marcas artesanais, o St. Patrick’s Day. E se nos últimos dois anos as celebrações foram modestas e quase sempre solitárias, pois se deram em meio a um momento de temor com a pandemia do coronavírus, a sua realização em 2022, com parcela relevante da população imunizada, faz com que os festejos ganhem mais espaço no setor no Brasil, com a inclusão de muitas festas e novidades ao calendário das marcas em diferentes regiões do país.
A data homenageia São Patrício, o santo padroeiro da Igreja Católica na Irlanda. Inicialmente, as pessoas saíam trajadas de verde em celebrações primeiramente concentradas em países de língua inglesa, depois se espalhando pelo mundo. A cor tornou-se simbólica e hoje em dia é marca nas bebidas festivas, produzidas especialmente para a data. E não é diferente no Brasil.
Com unidades em 25 cidades, o Porks vai reservar o sábado para fazer uma grande celebração do St. Patrick’s Day com a expectativa de comercializar mais de 100 mil litros de chope em toda a sua rede. Serão mais de 30 shows ao vivo, com apresentações de bandas de rock e blues.
Nas duas unidades do Porks em Belo Horizonte, no bairro Castelo e na Praça Tiradentes, o público terá acesso ao chope verde da Verace. “O St. Patrick’s Day é uma das datas mais esperadas no universo cervejeiro. Com o festival, queremos levar o chope verde para todo o país”, comenta José Araújo Neto, fundador da rede Porks.
A Cervejaria Nacional, por sua vez, vai festejar o St. Patrick’s Day ao longo de todo o fim de semana. As festividades se iniciam nesta quinta, mas se estenderão até sábado na unidade do bairro Pinheiros, em São Paulo. As festas terão DJ, música irlandesa ao vivo e muita cerveja. As atrações no balcão nesses dias ficam por conta do double drink e da cerveja verde temática, o rótulo Y-ara Pilsen, que foi escolhido para a ocasião.
Durante os três dias, a entrada será gratuita. Além das cervejas, a casa ainda oferece o combo Especial St. Patrick’s com hambúrguer, batata frita e uma half pint do rótulo verde, no valor de R$ 56. O combinado também estará disponível via sistema de delivery das unidades Tatuapé e Pinheiros.
No Esconderijo, bar da Juan Caloto em São Paulo, as comemorações por causa do St. Patrick’s Day também não vão se resumir a um único dia. Nesta quinta e na sexta-feira, a celebração vai contar com uma Dry Stout clássica. Mas a bebida será servida com nitrogênio para dar maior cremosidade. Na quinta e sexta, a casa terá música ao vivo e o drinque Irish Car Bomb.
A Goose Island, por sua vez, vai receber o público com um cardápio exclusivo na sua brewhouse, no bairro dos Pinheiros, em São Paulo. O brinde acontecerá com a The Leprechaun uma Irish Red Ale Barrel Aged, com 28 IBU em combinação de aromas maltado, caramelo, toffee, tosta, amadeirado e anis. Já para dar sorte, o trevo de três folhas inspirou o Lucky Charm Burger, que leva queijo cheddar, maionese verde de ervas, repolho verde, repolho roxo e cenoura.
A Goose Island, por sua vez, vai receber o público com um cardápio exclusivo na sua brewhouse, no bairro Pinheiros, em São Paulo. O brinde acontecerá com a The Leprechaun uma Irish Red Ale Barrel Aged, com 28 IBU em combinação de aromas maltado, caramelo, toffee, tosta, amadeirado e anis. Já para dar sorte, o trevo de três folhas inspirou o Lucky Charm Burger, que leva queijo cheddar, maionese verde de ervas, repolho verde, repolho roxo e cenoura.
No Rio de Janeiro, a cervejaria Noi foi outra das várias marcas de artesanais a preparar uma atração especial para quem for às suas diferentes unidades nesta quinta-feira para celebrar o St. Patrick’s Day. Nelas, o público vai encontrar o chope Pilsen verde, com exceção do quiosque em Itacoatiara. O combo com uma caldereta exclusiva da Noi custará R$ 38,00.
Já em Santo André (SP), a Madalena deixou a sua celebração do St. Patrick’s Day para o domingo. Será com a apresentação musical da banda Legião Urbana Cover do Brasil a partir das 16 horas, com a abertura da casa às 13h. O valor da entrada é de R$ 25. O público terá à disposição o tradicional chope verde e diversos estilos de chope nas 25 torneiras existentes na casa.
Santa Catarina não lidera em número de cervejarias no Brasil, mas, sem dúvida, é referência no segmento de artesanais, seja pelos seus importantes concursos, suas renomadas escolas, pelas festas que atraem turistas de outros estados ou mesmo pela criação de um estilo reconhecido internacionalmente. Agora, espera ampliar essa seleta lista com outra iniciativa que propaga o conhecimento: o lançamento do Anuário das Cervejarias Artesanais de Santa Catarina.
Essa expectativa de tornar o estado também referência em publicações para o segmento, inspirando iniciativas do tipo, é apresentada, em entrevista ao Guia Talks, por Jorge Mattos, autor do Anuário de Cervejarias de Santa Catarina. Com a experiência de quem atua no setor há mais de três décadas, ele detalha as temáticas que o público poderá encontrar no livro.
Além disso, o autor do anuário aponta a união entre a tradição e o acesso ao conhecimento como diferencial do setor cervejeiro de Santa Catarina. Porém, alerta sobre a necessidade de as marcas melhorarem a comunicação para se manterem mais próximas aos consumidores.
Confira, abaixo, as principais partes da entrevista de Jorge Mattos, autor do Anuário das Cervejarias Artesanais de Santa Catarina, ao Guia Talks:
Por que um anuário da cerveja focado na indústria de Santa Catarina? Não foi por acaso que a gente optou que esse anuário começasse por Santa Catarina. Nós não somos o maior estado de cervejarias no Brasil. De acordo com o último Mapa da Cerveja, estamos na quarta posição. E acredito que na próxima publicação do Ministério da Agricultura, a gente já estará na terceira. Mas é Santa Catarina que tem a capital nacional da cerveja. Também é em Santa Catarina onde estão duas das maiores instituições cervejeiras de ensino da América Latina. Em densidade populacional, a gente já detém a posição número 1 do ranking brasileiro, com uma cervejaria para cada 41 mil habitantes. A partir do ano passado, nós passamos a ter dois grandes concursos cervejeiros. Então, com a junção de todas essas peculiaridades, decidimos iniciar esse trabalho por Santa Catarina. E foi um trabalho que surpreendeu, de certa forma, por alguns dados. De acordo com o último Mapa, nós éramos 173 cervejarias em Santa Catarina. Ao final da pesquisa, consideramos as que se mantêm ativas e registradas no Mapa. Com as que se fecharam ao longo de toda a pesquisa, eu achei mais de 275 cervejarias. E, agora a gente, está fechando a obra com aproximadamente 250 cervejarias.
Como se deu o processo de coleta das informações sobre as cervejarias? Como estou dentro do segmento, eu tinha uma noção de que nós éramos em torno de 140 a 170 cervejarias até 2020. Na medida em que eu me deslocava até os municípios para fazer a pesquisa, o proprietário de uma cervejaria me falava de outra, que eu ainda não conhecia. Então, para subir essa régua de 150 para 250, foi por indicação, porque posso dizer que o mercado aqui é bastante unido. Através dessas indicações e de um roteiro, percorri, durante aproximadamente três meses seguidos, dez mil quilômetros e consegui identificar 77 municípios com a presença de aproximadamente 250 cervejarias representadas.
Em sua visão, qual é o principal destaque do livro?
O que eu considero o principal capítulo é o de análise do cenário. Eu abordo, através de dados estatísticos, o que é a cara desse mercado. Está bem claro para mim que Santa Catarina está produzindo excelentes cervejas, muito voltado para os processos produtivos. Ou seja, a gente sabe fazer ótimas cervejas. No mais, a gente tem um longo caminho. Cerca de 50% das cervejarias têm boa identidade visual, mas as demais não tratam tão bem as suas logomarcas. A gente parametrizou em cima de 5 mil seguidores nas redes sociais e nem a metade tem isso no Facebook e Instagram. A gente ainda tem uma lição de casa a fazer no que tange a tomar conta das nossas redes sociais. E menos de 30% tem site, com menos de dez tendo sites satisfatórios. No site, você precisa ter a apresentação de todo portfólio, precisa apresentar a harmonização dos seus estilos com os pratos. O que ficou claro nessas pesquisas é que se por um lado a gente aprendeu a medalhar nos concursos, ainda faltam grandes detalhes para trazer o consumidor e tê-lo mais próximo.
E quais são os demais temas abordados no livro? O livro está separado por cem páginas de conteúdo programático, com dez capítulos. Ele abre com Santa Catarina, estado cervejeiro. Existe um capítulo dedicado ao posicionamento dos 77 municípios divididos entre as 9 mesorregiões, para facilitar a vida dos turistas e acadêmicos que queiram visitar essas cervejarias. Há um capítulo dedicado ao que a gente chama de mapa da mina, um outro de rotas cervejeiras. Tem um capítulo dedicado ao nosso genuíno e agora homologado estilo de cerveja brasileira, a Catharina Sour, de Santa Catarina para o mundo. Existe um capítulo sobre os concursos cervejeiros e lá a gente cita quem foi premiado nos dois principais. Existe um capítulo dedicado às principais instituições de ensino, então a gente aborda todo o portfólio e a forma como vem atuando a ESCM e o Science of Beer. Existe um capítulo sobre harmonização de vários estilos, com várias comidas típicas catarinenses, além de comidas típicas de boteco. Há um capítulo dedicado a mulheres cervejeiras, mostrando que elas estão na vanguarda do segmento. A gente conta desde a história do passado, iniciando pela freira Hildegarda, passando pelo presente, já apontando o futuro das mulheres cervejeiras através da ciência. Na sequência, entramos com um glossário, onde apontamos quais são as 250 cervejarias. E aí a gente dedica uma lâmina para cada uma delas. O número de caracteres nunca muda, o que muda são as histórias. Todas têm uma ficha técnica informando o endereço, número de medalhas, site, redes sociais, capacidade de produção e canais de distribuição.
Em sua visão, qual é o grande diferencial do setor cervejeiro catarinense? Para te responder, eu vou usar o material de um capítulo onde a gente traz duas grandes entrevistas. Uma com o pessoal do site Cerveja em Foco e outra com o Carlo Bressiani, diretor da ESCM. Nela, ele diz que, pela proximidade das instituições, não tem desculpa para uma cervejaria de Santa Catarina não se preparar bem para produzir, gerenciar e planejar. Então, se por um lado nós somos um estado cervejeiro muito apoiado na tradição, da origem germânica, por outro existe um ponto que foi crucial, a abertura das portas para dividir o conhecimento. Então, esse somatório gerou um fator de conexão que vem fazendo toda a diferença na evolução do nosso resultado.
Livros como um anuário da cerveja ainda são raros no Brasil. Você espera que essa publicação deixe algum legado para o setor? Nas trocas de conversas com acadêmicos e dentro do próprio corpo docente da instituição onde faço uma especialização em tecnologia cervejeira (a ESCM), a gente percebe que, de fato, o livro vai despertar um grande fomento para que outros estados também possam iniciar pesquisas nesse sentido. Eu mesmo já recebi convites para fazer em outros estados. Eu não rejeito, mas já estou trabalhando fortemente no anuário de 2022. Então, acho que isso vai dar oportunidade para as pessoas utilizarem o livro como referência acadêmica. E que se façam levantamentos similares em estados tão importantes como São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais… Eu sonho com a possibilidade de produzir essa informação no âmbito nacional. As primeiras sementes estão plantadas, espero que Santa Catarina possa ser essa vanguarda.
O conflito na Ucrânia, iniciado em 24 de fevereiro, com a invasão do seu território pelas forças de segurança da Rússia, tem motivado uma série de ações envolvendo o setor cervejeiro nesses países. O maior impacto vem sendo a paralisação da operação de grandes marcas na Rússia, com o último movimento tendo envolvido a AB InBev, que solicitou à sua parceira na operação local que deixe de vender e fabricar a Budweiser.
A AB InBev tem uma operação em conjunto com a cervejaria turca Efes na Rússia e na Ucrânia, não sendo a controlada da joint venture. “Temos uma joint venture na Ucrânia e na Rússia com a cervejaria turca Anadolu Efes. No entanto, não temos o controle da joint venture e não a consolidamos em nossas contas. Solicitamos ao acionista controlador a suspensão da licença para a produção e venda de Budweiser na Rússia. Além disso, estamos perdendo todos os benefícios financeiros das operações da joint venture”, afirma Michel Doukeris, CEO da AB InBev, em nota oficial.
A AB InBev, que possui 1.800 funcionários na Ucrânia, está instalada em três fábricas no país. Já na Rússia, onde agora prometeu paralisar a fabricação da Budweiser, são 11 fábricas e 3 maltarias. “Os funcionários da joint venture na Ucrânia e na Rússia continuarão a ser apoiados e pagos. Estamos focados em apoiar nossos funcionários, suas famílias e os esforços de ajuda humanitária na Ucrânia, enquanto desejamos a paz”, acrescenta a AB InBev.
Antes da paralisação da fabricação da Budweiser, a Heineken e a Carlsberg haviam anunciado a decisão de interromper as operações na Rússia, assim como a Molson Coors suspendeu os seus negócios por lá, em decisões que acompanharam outra série de saídas de empresas multinacionais do setor de alimentos e bebidas, como Coca-Cola, Starbucks, McDonald’s, Burger King e KFC, mas também de outros segmentos, caso de Apple e Goldman Sachs.
A Carlsberg conta com a cervejaria líder do mercado da Rússia, a Baltika Breweries, a qual é proprietária majoritária desde 2008, tendo 8.400 funcionários. No ano passado, Rússia e Ucrânia representaram, aproximadamente, 13% da receita do grupo.
“Estamos ao lado do povo ucraniano e de todo o mundo ao condenar a invasão russa nos termos mais fortes possíveis. Estamos totalmente comprometidos em aderir a todas as sanções relevantes impostas pela União Europeia e outros órgãos internacionais”, anunciou a companhia de origem dinamarquesa.
A companhia explicou, no entanto, que a Baltika seguirá em operação. “Pararemos de produzir e vender nossa principal marca, Carlsberg, no mercado russo. A Baltika Breweries será administrada como um negócio separado, com o objetivo de sustentar nossos funcionários e suas famílias”, continua.
“Estamos nos comprometendo que quaisquer lucros gerados pelos negócios na Rússia serão doados para organizações de ajuda humanitária. Já anteriormente, o grupo Carlsberg, juntamente com as Fundações Carlsberg, doou 10 milhões de euros para apoiar os esforços humanitários na Ucrânia”, acrescenta.
Recentemente, diante do intenso movimento de saída do país, marcado pelas condenação da invasão do território ucraniano, o governo russo ameaçou nacionalizar empresas que deixaram o país e suas instalações. “O governo russo está trabalhando em medidas para iniciar a falência das empresas e, em seguida, a nacionalização das propriedades”, afirma Dmitry Medvedev, vice-presidente do Conselho de Segurança da Rússia e ex-presidente do país.
Fábrica de vidros atingida A paralisação das atividades tem sido adotada por outras companhias presentes nos países envolvidos nos conflitos, mas ainda assim algumas sofrem com os efeitos da guerra. Foi o caso da fábrica de vidros do Grupo Vetropack na cidade ucraniana de Gostomel, que acabou sendo “severamente danificada” pelas operações militares.
A fábrica foi fechada em 24 de fevereiro, dia da invasão da Ucrânia pela Rússia. Assim, nenhum funcionário morreu ou se feriu.
Estamos felizes por termos escolhido suspender a produção a tempo. Ao fazer isso, conseguimos evitar que houvesse vítimas entre nossos colegas como resultado desses eventos
Johann Reiter, CEO do Grupo Vetropack
Em Gostomel, está localizada uma das nove fábricas do Grupo Vetropack, de origem suíça, na Europa. Ela produz embalagens de vidro a partir de três tanques de fusão, com oito linhas de produção. Além disso, contribuiu com cerca de 10% das vendas da companhia em 2021. Ao noroeste da capital Kiev, Gostomel é conhecida pelo seu aeroporto, considerado estratégico para as tropas de ocupação da Rússia.
Também presente na Ucrânia, a Verallia, outra gigante do setor de embalagens, suspendeu a produção na sua unidade na cidade de Zorya.
Feira cancelada Tradicionalmente realizada em Nuremberg, a BrauBeviale sofreu em 2020 e 2021 com os efeitos da pandemia do coronavírus, sendo que em 2022 ocorrerá de modo online, em novembro. Mas havia uma versão russa marcada para este ano, a Beviale Moscow, que ocorreria entre 29 e 31 de março, na capital do país. Agora, porém, foi suspensa e não vai mais acontecer, como lamentou o gerente de projeto Thimo Holst.
“É claro que as circunstâncias nos obrigam a suspender a Beviale Moscow 2022, semanas antes de acontecer. Que revés para o nosso projeto! Apenas dois comentários sobre isso: minha frustração pessoal e nossa perda econômica não significam nada em comparação com o sofrimento dos ucranianos. E não significa nada em comparação com a pressão que agora recai sobre o povo russo para se levantar contra seu governo. Que desastre…”, escreveu Holst em seu perfil no Linkedin.
A Câmara Setorial da Cadeia Produtiva da Cerveja tem um novo presidente. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, através de publicação no Diário Oficial da União, nomeou Marco Antonio Falcone para comandá-la, com mandato até 20 de janeiro de 2024. Ele vai suceder no cargo Carla Crippa, vice-presidente de relações corporativas da Ambev.
Agora à frente da Câmara Setorial da Cerveja, Falcone também é o presidente da Federação Brasileira das Cervejarias Artesanais (Febracerva). Além disso, é sócio-proprietário da Falke Bier.
Vista como uma ponte direta para que as demandas do setor cheguem aos órgãos do governo federal, a Câmara Setorial da Cadeia Produtiva da Cerveja foi instalada em outubro de 2019. Sua composição inclui associações de produtores de lúpulo e cevada, passando pela pesquisa, produção, envase até a distribuição da bebida.
Desde a sua criação, a Câmara Setorial tem participado de importantes debates a respeito do setor, seja sobre temáticas das grandes indústrias ou das artesanais. Elas incluíram o reconhecimento do sommelier de cervejas como uma titulação na Classificação Brasileira de Ocupações, do Ministério da Economia, ocorrido no ano passado, o que abre caminho para a profissionalização da função. Também em 2021, entrou em vigor a Instrução Normativa 65, um conjunto de definições que determina novas regras para o PIQ (Padrão de Identidade e Qualidade) da Cerveja.
A nomeação de Falcone se inseriu em um contexto de divulgação, pelo governo federal, da nova lista dos presidentes das Câmaras Setoriais e Temáticas vinculadas ao Conselho Nacional de Política Agrícola. No total, o Brasil possui 36 câmaras de diferentes setores e temas do agronegócio, sendo 31 setoriais e 5 temáticas.
As Câmaras Setoriais e Temáticas têm o objetivo de propor oportunidades ao desenvolvimento das cadeias produtivas, além de apoiar e acompanhar ações de interesse para o agronegócio brasileiro e as relações com o mercado interno e externo. O objetivo é reforçar o elo do governo com o setor privado, resultando na formulação de políticas públicas.
Assim como já havia ocorrido em janeiro, a cerveja fechou o mês de fevereiro com uma inflação menor do que a do índice oficial, o IPCA. De acordo com dados divulgados pelo IBGE, o item no domicílio ficou 0,93% mais caro. A alta do seu preço foi, assim, menor do que a inflação geral no mês passado, de 1,01%, a maior para o mês desde 2015. Também foi a mais elevada taxa mensal desde outubro de 2021.
Em janeiro, a cerveja registrou alta de 0,42%, frente ao IPCA de 0,54%. Desta forma, a bebida teve inflação mais elevada em fevereiro, ficando mais próxima do índice que contabiliza os valores de todos os produtos pesquisados pelo IBGE.
Já a cerveja fora do domicílio, vendida em estabelecimentos com bares e restaurantes, teve aumento médio de 0,72% em fevereiro e ficou muito perto de repetir o índice de 0,74% de janeiro em sua variação mensal em relação a dezembro.
No primeiro bimestre de 2022, a cerveja no domicílio contabiliza inflação de 1,36%, também ficando abaixo do índice geral deste período inicial do ano, que foi de 1,56%. O mesmo acontece com o preço médio desta bebida consumida fora de casa, que subiu 1,46%.
O panorama com valores com índices abaixo do IPCA é observado ainda no período acumulado dos últimos 12 meses, com a cerveja tendo elevação de custo de 8,39% no domicílio e de 5,97% fora neste período, que registrou inflação geral de 10,54%.
O aumento dos preços da cerveja também é menor do que as altas constatadas para outras bebidas alcoólicas no domicílio na variação mensal e no acumulado do ano, que foram de, respectivamente, 1,46% e 6,75%. No intervalo dos últimos 12 meses, porém, a inflação deste item, de 4,86%, foi bem inferior ao índice de 8,39% para a cerveja no domicílio no período.
Os preços das outras bebidas alcoólicas fora do domicílio, registram deflação de 0,31% em fevereiro e de 1,48% ao longo de 12 meses. Já no acumulado do ano, os valores ficaram praticamente estagnados, com alta de apenas 0,19%.
Alimentos e bebidas acima do IPCA O maior aumento dos preços da cerveja também reflete uma tendência de alta dos itens de alimentação e bebidas, cujo índice ficou acima do IPCA, em fevereiro. Este grupo registrou elevação de 1,28% em relação a janeiro, quando já havia apresentado salto de 1,11% no comparativo com dezembro.
O item alimentação e bebidas, entre todos os grupos de produtos e serviços pesquisados pelo IBGE, foi o segundo com maior variação mensal, ficando atrás apenas do tópico educação, que teve um alta significativa, de 5,61%.
“Em fevereiro, são incorporados no IPCA os reajustes habitualmente praticados no início do ano letivo. Com isso, esse foi o grupo que teve o maior impacto no mês, contribuindo com 0,31 ponto percentual. O outro grupo que pesou bastante no mês foi o de alimentação e bebidas, que acelerou para 1,28% e contribuiu com 0,27 ponto percentual. Juntos, os dois grupos representaram cerca de 57% do IPCA de fevereiro”, ressalta o gerente da pesquisa do IBGE, Pedro Kislanov.
No acumulado do ano, a inflação dos alimentos e bebidas fica em 2,41%. Está acima, portanto, do IPCA deste período, de 1,56%. É o contrário do que ocorre com os números que englobam a evolução dos preços nos últimos 12 meses, com uma alta de 9,12%, abaixo dos 10,54% do IPCA deste ciclo.
O órgão também enfatiza que o grupo de alimentação e bebidas vem registrando altas sucessivas desde o início da atual série histórica, em janeiro de 2020. A única exceção neste período de pouco mais de dois anos ocorreu em novembro de 2021, quando o item teve deflação de 0,04%.
Balcão do Profano Graal: As mulheres na história da cerveja
Um capítulo da história da cerveja que nós raramente encontramos em algum livro ou apostila é aquele sobre o importante papel desempenhado pelas mulheres na produção, comércio e consumo. Então, que tal aproveitarmos esse mês de março, em que se comemorou o Dia Internacional da Mulher (08/03), para conversarmos um pouco sobre o assunto?
Desde a Antiguidade, as mulheres desempenham papel fundamental na produção da cerveja. Acredita-se que a fermentação foi descoberta por acaso, há cerca de 14 mil anos. E uma vez que as mulheres eram as responsáveis pelas “tarefas domésticas”, como preparar a comida, muito provavelmente essa descoberta foi feita por uma delas.
O papel das mulheres nesse processo é representado pela existência de deusas da cerveja (que, geralmente, eram também deusas da agricultura, da colheita e da fertilidade) na mitologia de todas as grandes civilizações antigas: Ninkasi na Mesopotâmia, Hathor no Egito, Deméter ou Ceres na Grécia e em Roma. De quem, aliás, o nosso líquido sagrado tira o seu nome em latim: cerevisiae.
Ao longo dos séculos, enquanto a produção de cerveja se manteve como uma tarefa doméstica, ela foi responsabilidade das mulheres. Na cultura dos povos nórdicos da Idade Média, conhecidos mais popularmente como vikings, a elaboração das bebidas era uma tarefa feminina e as mulheres se responsabilizavam por todo o processo e deviam cuidar para que as despensas estivessem sempre bem abastecidas de ingredientes tanto para a elaboração da bebida de todos os dias como para as festas.
A rainha era responsável por portar a taça de bebida simbolizando os laços de fidelidade entre os guerreiros. Esta cerimônia da rainha servindo a bebida é parte de um ritual que confirma o governo do rei e cimenta a ordem social dos seus seguidores. A ordem em que cada um é servido mostra a hierarquia entre os participantes, com o rei vindo primeiro, depois os homens de classe mais alta e, finalmente, os mais jovens. A figura da rainha ou princesa poderia inclusive substituir o rei ou líder ausente no banquete.
Não podemos esquecer também que devemos a uma mulher a popularização do lúpulo na produção de cerveja: a monja beneditina Hildegard von Bingen (1098-1179), mestra do mosteiro de Rupertsberg na cidade de Bingen am Rhein, na Alemanha. Que, no seu tratado de medicina naturalista intitulado Livro das sutilezas das várias naturezas da criação (Liber subtilitatum diversarum naturarum creaturarum, no original em latim), escrito entre 1151 e 1158, afirma que o lúpulo seria um eficiente conservante natural para bebidas: “O lúpulo é quente e seco, tem umidade moderada e não é muito útil para beneficiar o homem, porque faz crescer a melancolia no homem, entristece a sua alma e oprime seus órgãos internos. Mas também, como resultado do seu amargor, ele mantém algumas putrefações fora das bebidas, às quais pode ser adicionado para que durem muito mais tempo”.
A historiadora norte-americana Judith Bennett é autora de uma extensa pesquisa sobre as mulheres no mercado da cerveja na Inglaterra na passagem da Idade Média para a Idade Moderna (entre 1300 e 1600): as famosas ale-wives. Ela afirma que os registros públicos no período pré-Peste Negra (1348-1350) mostram a fabricação de cerveja como uma profissão exclusivamente feminina. Fabricar e vender cervejas permitia que as mulheres trabalhassem e obtivessem seu autossustento, lhes concedendo algum grau de independência com relação aos homens. Isso em um período histórico no qual elas eram impedidas de tomar a maior parte das decisões sobre a sua própria vida.
O trabalho da maioria das mulheres no período medieval tardio era de baixa qualificação, baixo status e baixo lucro. Comparativamente, as cervejeiras não-casadas (solteiras ou viúvas) viviam de forma mais independente e tinham um padrão de vida mais alto comparados a outras mulheres medievais com o mesmo estado civil.
Porém, após a Peste Negra (que dizimou quase metade da população europeia), a sociedade medieval passou por muitas mudanças que tiveram efeitos significativos no comércio de cerveja: consolidação dos mercados urbanos, aumento dos padrões de vida, maior acesso ao capital, acesso mais barato aos grãos, maior demanda por cerveja como alimento básico da dieta e centralização e crescente popularidade das alehouses. Se, por um lado, essas mudanças teriam ajudado no desenvolvimento do negócio dessas mulheres, por outro, o mercado cervejeiro também se tornou maduro para um maior investimento de capital em insumos, equipamentos e mão-de-obra. E, como explica a autora, eram os homens que tinham os recursos legais, sociais, culturais e, principalmente, capital para comandar uma indústria em rápido processo de capitalização: “devido a essas mudanças, o mercado de cerveja se transformou de uma indústria dominada por mulheres casadas e não casadas, cervejeiras ocasionais, em um comércio profissionalizado e governado por homens”. (BENNETT, 1996, p. 168)
Como resultado, após as mudanças do setor após a Peste Negra, as alewives no final dos séculos XIV e XV enfrentaram um de dois destinos: maior lucro ou marginalização no comércio. As mulheres que conseguiam permanecer no comércio de cerveja eram geralmente casadas, viúvas ou tinham acesso incomum a dinheiro e capital para uma artesã. Seu casamento garantia o acesso aos recursos e investimentos necessários para se manter no mercado. Com a saída da maioria das mulheres não casadas do comércio de cerveja, a produção independente de todas elas tornou-se menos aceita e as cervejeiras casadas também se tornaram menos independentes de seus maridos.
As demais mulheres envolvidas no comércio de cerveja (cervejeiras ocasionais) perderam a facilidade de entrada no mercado e a estabilidade econômica que encontravam anteriormente e ou encontraram outros negócios ou métodos de autossustento (casamento, prostituição etc.) ou permaneceram no comércio de cerveja empregadas por cervejeiros do sexo masculino. No século XVI, as guildas também centralizaram e regulamentaram a fabricação de cerveja mais fortemente, contribuindo para o declínio das mulheres no comércio de cerveja.
Por fim, não podemos deixar de comentar que o imaginário cristão medieval estigmatizava essas mulheres que traficavam com ervas e caldeirões e que conheciam receitas por meio das quais produziam, quase que por magia (note-se que, naquela época, nada se conhecia sobre os processos de fermentação), uma bebida que entorpecia os homens, deixando-os vulneráveis. Some a isso o fato de que algumas comerciantes de cerveja caminhavam nas feiras medievais com chapéus pontudos para serem reconhecidas; enquanto outras colocavam uma vassoura do lado de fora da própria casa como sinal para avisar que a cerveja estava pronta. Por último, mas não menos importante, nas casas onde havia estoques de cereais, geralmente havia também um gato, para proteger os cereais do ataque de ratos. Esses símbolos propiciaram a associação entre a fabricação de cerveja e a bruxaria, dando pretexto para uma verdadeira caça às bruxas.
Judith Bennett afirma que as mulheres cervejeiras se tornaram um bode expiatório para todos os vícios que o mundo medieval temia da produção de álcool. As mulheres que trabalhavam na fabricação e venda de cerveja foram acusadas de serem desobedientes a seus maridos, sexualmente desviantes, e de frequentemente enganarem seus clientes com cerveja diluída e preços mais altos. Seja como sexualmente promíscuas ou empregadoras de prostitutas, as alewives eram frequentemente associadas a comportamentos pecaminosos. A cidade de Chester chegou a promulgar uma lei, em 1540, que ordenava que nenhuma mulher entre 14 e 40 anos pudesse vender cerveja, na esperança de limitar o comércio apenas a aquelas acima ou abaixo de uma idade sexualmente ativa.
Esse longo processo acabou por marginalizar as mulheres na produção, comercialização e consumo da cerveja. Roubou, assim, o papel de protagonistas que mantinham desde a Antiguidade. Até que, já no século XX, o desenvolvimento da publicidade transformou-as de produtoras em produtos a serem consumidos com a cerveja. Mas essa já é outra história…
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BENNETT, Judith M. Ale, Beer and Brewsters in England: Women’s Work in a Changing World, 1300–1600. New York: Oxford University Press, 1996.
CAMPOS, Luciana. A sacralidade que vem das taças: o uso de bebidas no Mito e na Literatura Nórdica Medieval. Revista Brasileira de História das Religiões. v. 8, n. 23, p. 97-107. 2015. Disponível em: http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/RbhrAnpuh/article/view/29528.
MARTINS, Maria Cristina da Silva. Hildegarda de Bingen: Physica e Causa et Curae. Cadernos de Tradução. Porto Alegre, p. 159-174, Edição Especial 2019.
A invasão da Ucrânia vem motivando uma série de ações em apoio ao país, além da condenação ao ato da Rússia. Não tem sido diferente entre as artesanais, tanto que diversas marcas de diferentes países se uniram ao longo dos últimos dias para o lançamento de cervejas, com o intuito de obter recursos para apoiar o povo da Ucrânia.
A 42 North Brewing Company, de Nova York, e a 2085 Brewery, de Kiev, lançaram uma cerveja colaborativa, chamada Resolve, e tornaram pública a sua receita, incentivando outras marcas a produzi-la, para apoiar o esforço humanitário na Ucrânia. Uma das fundadoras da 42 North é a ucraniana Naz Debrot, tendo atuado nos três primeiros anos da marca de Nova York, fundada em 2015, antes de retornar ao seu país. Lá, então, abriu a 2085 Brewery.
A iniciativa denominada Resolve repete outras em que se produz uma cerveja com a abertura da receita e se angaria recursos para uma causa, com a mais conhecida em tempos recentes tendo sido a Black is Beautiful.
A Resolve é uma Kellerbier com 4,8% de graduação alcoólica. E a 42 North fornece a receita e a arte para as cervejarias que quiserem se juntar ao esforço. A renda da venda da cerveja irá para a Global Empowerment Mission, uma organização sem fins lucrativos “fornecendo ajuda de emergência na Ucrânia aos combatentes e famílias que ficaram para trás, bem como ajuda humanitária às mulheres e crianças que estão tentando cruzar a fronteira para a Polônia”.
As cervejarias participantes não são obrigadas a usar essa receita, mas podem utilizá-la como um guia para sua cerveja Resolve, levando em consideração os ingredientes disponíveis e as influências regionais.
“Todo mundo está procurando maneiras de ajudar. Não podíamos ficar parados e assistir aos horríveis eventos na Ucrânia sem fazer nada. A determinação do povo ucraniano é uma inspiração para todos. Esperamos que, de alguma forma, a comunidade cervejeira possa se unir para ajudar o grande povo da Ucrânia”, afirma John Cimperman, fundador da 42 North.
A ação já teve a adesão de outras cervejarias, como Britesmith, Kings County Brewers Collective, Keel Farms, Lucky Hare, Good Measure Brewing e Platform Brewing, todas dos Estados Unidos, além da italiana Vetra Beer, da húngara Reketye e da polonesa Brewery Hills.
Enquanto isso, o movimento denominado Drinkers for Ukraine lançou um esforço em três frentes, incluindo uma cerveja solidária, leilões online e transmissão ao vivo para arrecadação de fundos. A campanha convida as companhias a produzirem a Resist, uma “anti-Imperial Stout”, em uma clara alusão à Russian Imperial Stout. E a sua receita foi desenvolvida por uma cervejeira ucraniana que mora na Suíça, Lana Svitankova. Ela é a primeira mulher a obter o status de cicerone na Ucrânia e esteve em Blumenau (SC) recentemente, como parte do júri do Concurso Brasileiro de Cervejas.
O rótulo também tem a participação da Ferment Magazine, principal publicação sobre artesanais do Reino Unido. A receita, porém, não precisa ser necessariamente seguida à risca, assim como a da Resolve.
Além disso, cervejarias e estabelecimentos de hospitalidade também estão sendo incentivados a realizarem leilões para obter dinheiro para a causa ou um evento de arrecadação de fundos transmitido ao vivo. E o grupo sugere que o dinheiro obtido seja doado ao esforço humanitário da Cruz Vermelha.
O projeto, aliás, conta com a participação de uma marca brasileira, a Moret Cerveja Artesanal. “Será um lote pequeno em razão do nosso tamanho, mas com um esforço gigantesco entregaremos a Ukrainian Anti Imperial Stout com adição de beterraba, trigo sarraceno (ingredientes usados na gastronomia ucraniana) e cumaru para dar um toque brasileiro neste projeto!”, afirma a marca em seu perfil no Instagram.
Mais uma ação da Pravda Por sua vez, a Pravda Brewery, cervejaria artesanal com sede em Lviv e que ganhou atenção global após deslocar a sua produção de cervejas para ajudar na fabricação de coquetéis molotov, agora realiza outra iniciativa com o intuito de ajudar na resistência da Ucrânia.
Em uma ação colaborativa para a arrecadação de valores, a marca da Ucrânia liberou as receitas de suas cervejas para marcas de todo o mundo fabricá-las, depois passando os recursos obtidos para o seu fundo de apoio. São elas: Putin Huylo, uma Dry-Hopped Strong Ale, Syla, uma Belgian Tripel, a Red Eyes American, uma Red Ale, Frau Ribbentrop, uma Belgian Witbier, e a From San to Don Ukrainian, uma Imperial Stout.
A Pravda também sugere a possibilidade de se conectar por meio de vídeo às cervejarias para prepararem juntos os rótulos. “Como cervejeiros artesanais pacíficos, queremos voltar à vida normal o mais rápido possível e desfrutar de fabricar e beber cerveja. Mas primeiro devemos expulsar as baratas de nossa terra”, escreve a marca.
Há, ainda, outra iniciativa para apoiar a população ucraniana. A Rogue Ales, de Newport, criou a “F*#k Putin”, uma IPA Northwest de 6,5% de graduação alcoólica. A marca norte-americana promete reverter 100% dos lucros para o Ukraine Crisis Relief Fund, da Global Giving, para ajudar organizações sem fins lucrativos a fornecer acesso à educação, alimentação e serviços médicos na Ucrânia. O presidente da Rogue Ales, Dharma Tamm, possui relação com a Rússia, pois sua família deixou a Estônia após Moscou invadir o país em 1944.
Em 24 de fevereiro, a Rússia iniciou uma invasão militar em larga escala da Ucrânia, em uma escalada de um conflito iniciado em 2014, quando anexou a Crimeia e forças separatistas tomaram parte da região de Donbas. A ação militar é considerada a maior já realizada em solo europeu desde a Segunda Guerra Mundial.
Comemorado na última terça-feira, 8 de março, o Dia Internacional da Mulher não é um dia apenas para homenagens. A data é, principalmente importante, para trazer à tona a lembrança da luta diária por igualdade de gênero no Brasil e no mundo. Afinal, as mulheres ainda precisam superar desafios e obstáculos, não sendo diferente para aquelas que atuam cotidianamente com cervejas.
Presente em praticamente todas as esferas da sociedade, a desigualdade e os preconceitos em torno das mulheres também são uma dura realidade no segmento das cervejas. Por isso, a semana foi recheada de iniciativas, como cursos, eventos e lançamentos em torno da data, para destacar a luta feminina por oportunidades.
A Dádiva, por exemplo, usou o Dia Internacional da Mulher para falar sobre desigualdade salarial entre gêneros através do lançamento de uma cerveja. A Goose Island, por sua vez, apresentou um rótulo elaborado com o lúpulo Ella e concebido pela mestre-cervejeira Marina Pascholati. Já a Ball se uniu às marcas de cervejas Masterpiece e Mafia para criar um rótulo que só teve a participação de mulheres em sua produção e concepção.
Confira, a seguir, seis novidades apresentadas no setor cervejeiro para marcar o Dia Internacional da Mulher:
Dádiva 3/4 expõe a disparidade A cervejaria Dádiva fez questão de ressaltar que o Dia da Mulher marca uma luta histórica por igualdade, não sendo apenas uma celebração. Neste ano, a marca buscou jogar luz sobre um debate antigo, cuja evolução, porém, ainda é lenta: a desigualdade salarial entre homens e mulheres. Para isso, lançou a Dádiva 3/4, uma cerveja que está sendo vendida em duas latas: uma delas é maior – possui 473ml – e simboliza o salário do homem; a outra é menor – tem 350ml – e revela os rendimentos relativos da mulher, ou seja, quanto ela ganha exercendo o mesmo trabalho do que ele, na mesma função. Ambas as latas são de cor roxa, simbolizando o movimento feminista. A bebida é uma New England IPA, feita com lúpulos da Nova Zelândia e da África do Sul e possui 6,1% de teor alcoólico. De acordo com o descritivo, seus aromas e sabores lembram frutas de caroço e de frutas cítricas doces, além de um toque herbal e sutil de frutas vermelhas, como mirtilo e groselha.
Produção 100% feminina A cerveja Às Mulheres é resultado de uma produção promovida pela Ball com as marcas Masterpiece e Mafia, contando apenas com participação feminina, desde a levedura até o envase na lata, passando pela campanha de comunicação e a receita exclusiva no estilo Saison, desenvolvida pela cervejeira Ingrid Matos. A ideia para a parceria surgiu no grupo feminino de afinidades da Ball, empresa produtora de embalagens de alumínio. Para criar a lata, que serve de tela para a arte exclusiva, uma equipe formada por cerca de 20 mulheres cuidou da produção. É uma cerveja refrescante, dourada e com aroma de frutas amarelas.
Hop Bloom elaborada com o lúpulo Ella A Goose Island lançou no Dia Internacional da Mulher a Hop Bloom, uma cerveja elaborada com o lúpulo Ella. Do estilo Hoppy Lager, a Hop Bloom, chega com 5,3% de teor alcóolico e 44 IBUs de amargor. Criada pela mestre-cervejeira Marina Pascholati, o rótulo possui, de acordo com o seu descritivo, aroma cítrico e de frutas tropicais, com coloração dourada clara e corpo leve.
Musas do Verão 2022 A Cervejaria Nacional usou o Dia Internacional da Mulher para exaltar e destacar a atuação da mulher cervejeira com o projeto anual Musas do Verão. Em 2022, a ZEV foi a parceira colaborativa na produção, que contou com Marina Pascholati, Carola Carvalho, cientista, e Candy Nunes, sommelière. Elas foram convidadas para criar um rótulo sazonal, a Queen Beea Imperial IPA, e resolveram homenagear outra musa, Beatriz Cury, uma das mentoras e realizadoras do projeto nos últimos anos. Do estilo Double IPA, a bebida tem 8,0% de teor alcoólico e 80 IBUs de amargor. Se apresenta com coloração dourada, sendo levemente turva, com espuma branca, densa e cremosa.
Bolsas de estudo para formação cervejeira A Academia da Cerveja, da Ambev, está disponibilizando 500 bolsas de estudo para a segunda edição do seu curso exclusivo de formação cervejeira para mulheres. Essa iniciativa dá continuidade à campanha “Cervejeira Sou Eu”, promovida pela companhia em 2021, que tem como propósito fortalecer a categoria, empoderando a participação feminina no setor por meio de conhecimento, especialização e oportunidades. As inscrições para a turma deste ano já estão abertas e as interessadas podem realizar o cadastro pelo site. O único pré-requisito necessário é ser maior de 18 anos.
Para mulheres que querem trabalhar com tecnologia e cervejas Em outra frente, a Z-Tech, hub de inovação e tecnologia da Ambev, e o Bees, plataforma B2B da companhia, darão 200 bolsas de estudos para mulheres que querem iniciar a trajetória na área da tecnologia. As inscrições estão abertas e vão até 23 de março. Os cursos online, “Eu ProgrAmo”, serão oferecidos pela PrograMaria, empresa que tem a missão de empoderar, por meio da tecnologia e do conhecimento em programação, mulheres e pessoas fora do espectro cis-heteronormativo. Com duração de quatro semanas, os cursos vão abordar em videoaulas os primeiros passos em Front End (HTML, CSS, Javascript e lógica de programação).
A poluição marinha por plásticos nos oceanos do mundo é alarmante, mesmo com um trabalho de reciclagem relevante em muitos lugares, como no Brasil, onde cerca de 3,4 milhões de toneladas de plástico são recicladas por ano, conforme informações do Plano de Incentivo à Cadeia de Plástico (PicPlast). Ainda assim, é pouco. E a maior parte dos materiais plásticos está acumulada em aterros e lixões ou mesmo espalhadas pelo meio ambiente, principalmente nos oceanos, afetando a biodiversidade e os profissionais que tiram o seu sustento das águas.
Afinal, a indústria brasileira produz anualmente cerca de 500 bilhões de itens plásticos descartáveis, o que representa, aproximadamente, 15 mil itens por segundo, como mostra um estudo da organização Oceana Brasil. E a discrepância entre os dados de fabricação de plásticos, muitos deles pelas indústrias de bebidas, e da sua reciclagem indica o tamanho do impacto ambiental desse material.
Na tentativa de jogar luz na sociedade para esses efeitos, a cervejaria Corona realizou, em fevereiro, o Torneio de Pesca de Plástico pela defesa dos oceanos. Realizado com o apoio das ONGs Guardiões do Mar, do Rio de Janeiro, e Associação Caraguatás Ambiental, de Caraguatatuba (SP), o evento compensou e premiou os profissionais participantes da Associação dos Pescadores e Maricultores da Praia da Cocanha (APMPC).
A associação atua para proteger e fortalecer a cultura e o modo de vida dos pescadores e maricultores da Praia da Cocanha. Atualmente, conta com 17 maricultores e 25 pescadores. “O plástico prejudica de muitas formas a atividade de pesca, desde a contaminação do pescado com microplástico até a poluição do fundo do mar, além de afetar a superfície e dos ambientes mais importantes como manguezais, rios, ilhas, praias e costeiras, acabando com a vida marinha por causa do acúmulo de lixo”, conta José Luiz Alves, membro da APMPC.
O evento reuniu cerca de 55 pescadores, de acordo com a Corona. Em um único dia, mais de 1 tonelada de resíduos que prejudicam a vida marinha foram retirados do mar, sendo metade (500kg) só em plástico. “Os resultados foram muito bons principalmente porque ajudaram a limpar as praias, rios e costeiras do local, ainda contribuindo com a renda dos pescadores”, destaca Alves.
Os pescadores foram remunerados pelo período dedicado ao torneio e por cada quilo de resíduo recolhido do mar durante o período. Os três competidores que retiraram a maior quantidade de resíduos da água também receberam prêmios com quantias adicionais. Foram 3 prêmios principais para os melhores colocados: o 1º lugar com R$ 3 mil; o 2º com R$ 2 mil e o 3º com R$ 1 mil.
A comunidade ainda será contemplada com a reforma do principal galpão do local, onde os pescadores guardam seus barcos e materiais de trabalho, além de usá-lo para outras atividades culturais. “O Torneio de Pesca de Plástico é um exemplo de iniciativa que une as comunidades para ajudar o meio ambiente e ainda apoia economicamente as regiões, em parceria com trabalhadores que sustentam suas famílias a partir da pesca”, afirma João Pedro Zattar, chefe de marketing de Corona.
Além do Brasil, o Torneio de Pesca de Plástico foi realizado na China e em Israel neste ano, com a sua primeira edição tendo ocorrido no México em 2021. E há previsão de expansão para Colômbia e África do Sul ainda em 2022. Globalmente, contou com a ajuda de 150 pescadores durante 15 horas, retirando mais de 5 toneladas de plástico do mar até agora.
Plásticos: Perigo aos oceanos Pela primeira vez realizado no Brasil, o Torneio de Pesca de Plástico se deu na Praia da Cocanha, em Caraguatatuba, onde a principal fonte de renda financeira e alimentar dos moradores advém da pesca de mexilhões. Este tipo de pescado é comum localmente, sendo 100% impactado pela poluição por absorver qualquer tipo de impureza, o que o deixa impróprio para consumo e venda.
A comunidade de pescadores da região também depende da pesca de outras espécies, como tainha, porquinho, robalo, prejereba e sororoca, assim como dos camarões sete barba, branco e rosa.
Mas, ainda que a pesca e a maricultura sejam atividades fundamentais aos moradores da Praia da Cocanha, falta apoio, regulamentação e incentivos financeiros, assim como não existem parcerias com empresas e o governo.
E a comunidade da Praia da Cocanha não é a única a sofrer com a situação. A Oceana aponta que mais de 50 milhões de brasileiros vivem em cidades costeiras e sofrem diretamente com os impactos do lixo plástico no mar. “Foi muito importante [o torneio], pois ajuda a mostrar como as parcerias com as empresas podem melhorar muito a vida dos pescadores e a qualidade do meio ambiente”, completa o pescador.
Se a saúde humana corre riscos, a renda dos pescadores e o turismo também sofrem impactos diretos com a presença dos plásticos no oceano. Somente o Brasil polui os mares com 325 mil toneladas de lixo plástico por ano, de acordo com a Oceana.
Além disso, ao longo de uma pequena porção da costa nas regiões Sudeste e Sul, já foram coletados e necropsiados mais de 3,7 mil animais que ingeriram resíduos plásticos. Desses, 10% morreram devido à ingestão do material, sendo que 85% eram de espécies ameaçadas de extinção.
Assim, iniciativas que ajudam o meio ambiente e as regiões mais impactadas pela poluição dos plásticos são fundamentais para a manutenção, recuperação da vida marinha e atividade diária de milhões de pessoas. E necessitam do engajamento da indústria de bebidas.
Decisão histórica Mais iniciativas, aliás, deverão ter de prosperar após uma recente decisão histórica. A quinta sessão da Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente foi concluída na semana passada com a adoção de uma resolução para acabar com a poluição plástica, abordando todo o ciclo de vida desse material, desde a produção até o descarte. No encontro, 175 países concordaram por unanimidade com um documento da ONU que exige regras globais, financiamento e mecanismos de aplicação.
As empresas de bebidas devem ser as principais afetadas, na avaliação da Oceana. “São os principais poluidores oceânicos e estão produzindo bilhões de garrafas plásticas todos os anos que acabam no mar, para sempre”, afirma Andy Sharpless, CEO da organização internacional.
A Oceana divulgou um relatório em 2020 apontando que a indústria de bebidas poderia diminuir a poluição marinha por plásticos entre 4,5 bilhões e 7,6 bilhões de garrafas por ano caso aumentasse a participação de garrafas reaproveitáveis em apenas 10%, substituindo as PETs descartáveis e de uso único.
A criação da Catharina Sour e o seu posterior reconhecimento como estilo de cerveja podem ter sido apenas o começo para o setor no Brasil. Para Marcos Guerra, gerente de produção da Cerveja Blumenau, a evolução do segmento no país, especialmente em relação à qualidade de ingredientes e insumos, torna factível a visualização de um cenário de criação de novos estilos tipicamente brasileiros.
A avaliação foi apresentada por Marcos Guerra durante entrevista ao Guia Talks. Nela, ele rememorou como se deu o processo inventivo de criação da Catharina Sour, em 2016, que envolveu, principalmente, profissionais da Liffey e da Blumenau, primeira cervejaria a envasar uma produção desse estilo. À época, ele estava na Lohn Bier, mas acompanhou o momento histórico, depois fazendo suas criações na marca de Lauro Müller.
Hoje na Blumenau, Marcos Guerra aponta como a Catharina Sour é fundamental na estratégia e no portfólio da marca, estando sempre entre os 5 estilos mais vendidos pela cervejaria. E diz acreditar que a sua presença no principal guia de estilos do mundo é uma grande oportunidade para a Blumenau, assim como para o setor no Brasil, que deve ganhar mais visibilidade.
Confira os principais trechos da entrevista de Marcos Guerra, gerente de produção da Cerveja Blumenau, ao Guia Talks:
Você lembra como se deu o processo de criação da Catharina Sour? Primeiro, o pessoal aqui da Blumenau, na época os Lapolli, especialmente o Fernando (hoje CEO da Balbúrdia Cervejaria), convidou o Nuno (Idney Nuno José), da Liffey, uma cervejaria e pub de Florianópolis. Eles discutiram, conversaram e começaram a partir para as definições, como uma base ácida, com uma cerveja pouco produzida no Brasil, que é a Berliner Weisse. Surgiu a ideia de tentar fazer a base com algumas frutas sendo usadas como matéria-prima. Depois dessa ideia, criaram a primeira Catharina Sour, que é a Coroa Real, hoje produzida exclusivamente pelo Liffen. É uma Catharina Sour de abacaxi com hortelã. Depois disso, veio a Catharina Sour de pêssego, da Blumenau, que foi a primeira cerveja a ser engarrafada. Quando surgiu um grupo para debater, a galera começou a “viajar”. Vim ao festival (Festival Brasileiro da Cerveja) de 2017, degustei a Catharina Sour, fui entendê-la e voltei para a cervejaria que eu estava na época (Lohn Bier) com o intuito de criar uma Catharina Sour.
A Blumenau foi a primeira cerveja a engarrafar uma Catharina Sour. Como você enxerga para a marca e o mercado brasileiro esse reconhecimento do BJCP como estilo? Na Cerveja Blumenau, a gente vê isso como uma grande oportunidade de penetração de mercado, com você conquistando novos públicos. Apesar de ela ter uma acidez mais elevada, é uma cerveja com pouco amargor, o que favorece muito, pelo nosso clima. Não vemos mais a Blumenau sem uma Catharina. Estamos repaginando toda a parte de Catharina Sour, fazendo embalagens menores para conseguir chegar ao público-alvo. Para o mercado brasileiro, vai trazer visibilidade. Eu me lembro que em 2018 fui para Europa e passei pela região de Bruxelas, na Bélgica, fazendo algumas degustações. Eu levei Catharinas para eles. E eles “piraram”, acharam sensacional. Hoje já tem bastante americano fazendo Catharina Sour e buscando entender.
Como é para Santa Catarina, tão importante para o setor de artesanais, ter sido o local de desenvolvimento de um estilo de cerveja? Quando o estilo foi elaborado, a gente nunca pensou em ser um estilo catarinense. A gente teve o prazer de vê-la nascer aqui, mas ele não é catarinense. Até porque Catharina não é por conta de ser de Santa Catarina, mas por ser o nome da avó do Fernando Lapolli, que era escrito com TH. A Catharina Sour tem um potencial que o brasileiro deve aproveitar, todas as cervejarias devem se unir e começar a trabalhar em cima para que, daqui a pouco, possamos ter outros estilos em outras regiões, mas que vão levar o nome do país para o mundo todo, mostrando que estamos evoluindo no mercado de cerveja.
E o Brasil está próximo de criar outros estilos de cerveja? Já temos lúpulos muito bons em locais como a serra do Rio de Janeiro, Santa Catarina, Paraná… Também temos, hoje, produção de malte nacional em grande escala, uma boa parte que temos é com o grão nacional. Já temos leveduras nacionais. Então, estamos muito perto de novos estilos, de cervejas com a nossa característica, com o nosso terroir, lúpulos locais, malte, levedura com perfil diferente, em um perfil nosso, que vai trazer algo diferente. E já tem gente testando algumas coisas, aqui na cervejaria também.
A Catharina Sour é um estilo que descaracteriza a imagem usual de cerveja, especialmente na questão da coloração. Você acredita que isso ajuda a atrair mais público para ela? Acabamos ganhando pela questão visual. Eu acho que quando se trata de coloração, quebramos isso e acabamos trazendo benefícios. O consumidor, de alguma forma, vai ficar curioso. O brasileiro quer provar, então ele olha lá na mesa, vê aquele copo todo vermelho, todo amarelo, ou com uma coloração diferente. É claro que vai surgir a curiosidade. E aí é onde podemos ganhar com o estilo.