Dor, suor e cerveja: música conectou Gal Costa com a bebida em disco icônico

Nem a finitude do tempo é capaz de apagar a força de uma voz e de uma artista. Falecida na última quarta-feira (9), aos 77 anos, Gal Costa construiu, com um cantar e expressões marcantes, uma carreira que a torna um dos maiores nomes da história cultural brasileira, tendo uma ligação no seu mais icônico disco – “Fa-tal – Gal a Todo Vapor” – com a cerveja, falada por ela em uma das suas músicas.
Em “Chuva, Suor e Cerveja”, música de Caetano Veloso, Gal Costa canta, em ritmo de frevo, a saudade dos amigos (não se perca de mim / não se esqueça de mim / não desapareça) e uma atmosfera que lembra o clima do carnaval baiano (e vamos embolar ladeira abaixo/acho que a chuva ajuda a gente a se ver / venha, veja, deixa, beija, seja / o que Deus quiser) em uma conclamação ao prazer.
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A saudade é uma referência aos amigos exilados, pois “Fa-tal” é de 1971, dois anos após Caetano Veloso e Gilberto Gil se verem forçados a deixar o país, rumando para Londres, em um exemplo óbvio de como um governo autoritário buscava calar uma geração, cantada por Gal Costa em várias das canções desse disco, a transformando em porta-voz de muitos artistas calados.
“Fa-tal” é o registro original e sem cortes de um show daquele mesmo ano, no Rio de Janeiro, com direção de Waly Salomão. O disco duplo de Gal Costa, claro, vai muito além de “Samba, Suor e Cerveja”. E se a música dá o tom do momento político vivido pelo país, com os amigos exilados, as interpretações a confirmam como uma das principais vozes da história brasileira e, evidentemente, do movimento tropicalista, que acabou por se consolidar como uma resposta cultural contra a tentativa de silenciamento imposta pela ditadura militar e o AI-5, instituído apenas 3 anos antes.
Em “Fa-tal”, Gal Costa eterniza músicas marcantes da MPB, como Coração Vagabundo, Como 2 e 2, Falsa Baiana, Sua Estupidez, Vapor Barato, Dê Um Rolê, Pérola Negra e Assum Preto. Assim, no auge do obscurantismo no Brasil, a voz de Gal Costa resplandeceu. E ainda revelou compositores como Jards Macalé e Luiz Melodia.
Poderia, também, ser com “Samba, Suor e Cerveja”, assim como as marcantes músicas de Fa-tal, que Gal Costa encerraria a sua brilhante carreira nos palcos. Afinal, a artista estava prevista para se apresentar no último sábado, na véspera de outro momento histórico da política brasileira, no Primavera Sound, festival que teve a sua primeira edição brasileira.
Nele, Gal Costa iria fazer um show especial, com a apresentação do repertório de “Fa-tal”. Mas a retirada de nódulo na fossa nasal direita, problema de saúde, que agora provocou a sua morte, impediu a realização do seu show, cancelado dias antes.
Cantando contra a escuridão em 1971 e sendo porta-voz do tropicalismo que tinha outros ícones exilados, ela foi além nas cinco décadas seguintes, sendo múltipla. Da voz política e do desbunde, passou pelos temas de novelas e os megahits românticos. Gal Costa também foi a voz de dezenas de músicas de Caetano Veloso, se conectando, em anos recentes, a novos nomes como Céu, Criollo e Tim Bernardes, assim como com Marília Mendonça, rainha da sofrência e com quem fez um dueto marcante. Agora, então, a música brasileira perde a voz de mais uma rainha.
1 Comment
Cilene Saorin
15 de novembro de 2022 at 17:25Um belo texto com especial cuidado ao apresentar contexto político no início dos anos 1970. A história nos ensina muito, inclusive que Gal foi persona gigante. Para mim, uma inspiração sem fim. Muito obrigada.