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Guia lança site sobre sustentabilidade no setor com apoio do Sindicerv

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O Guia da Cerveja abriu mais uma frente para ampliar a divulgação da cultura e conhecimento que envolvem o ecossistema cervejeiro ao lançar, nesta terça-feira (16), o seu terceiro site temático: o Sustentabilidade no Guia. A iniciativa tem o apoio do Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja (Sindicerv) e representa mais um espaço para debates sobre a busca por um setor mais sustentável, com os conteúdos sendo produzidos pela equipe de reportagem do Guia.

Com o Sustentabilidade no Guia, esperamos agregar conteúdo, aprofundar e fomentar discussões, dando espaço para a divulgação do que está sendo feito pela indústria cervejeira envolvendo temáticas e ações sustentáveis, buscando apresentar avaliações aprofundadas, algo que vem sendo realizado no Guia desde a criação do site, em 2018.

Acesse o Sustentabilidade no Guia

As novidades e as tendências sobre sustentabilidade passam, assim, a contar com um canal exclusivo e dedicação especial da nossa equipe de reportagem. Mensalmente, o canal será abastecido com material relevante, produzido através de reportagens, artigos de especialistas e entrevistas em vídeo, também publicadas no YouTube, outra vertente da atuação do Guia, que já conta com sites especiais sobre ciência e lúpulo.

Ter um canal que aborde a sustentabilidade na indústria cervejeira está em consonância com a avaliação do Guia de que o desenvolvimento da indústria cervejeira – e de outras atividades – só pode acontecer se for alinhada com o respeito aos recursos naturais, sendo a chave para garantir a qualidade de vida e, em situações mais extremas, a sobrevivência do planeta.

Nas primeiras publicações do site Sustentabilidade no Guia abordamos, em reportagem especial, como a indústria cervejeira vem atuando para que o ecossistema cervejeiro adote ações mais sustentáveis, através de apoios e parcerias, com o intuito de que a cadeia de valor de Ambev e Grupo Heineken se torne carbono zero.

Em outra matéria, contamos como tem sido o processo de transição energética das indústrias componentes do Sindicerv para fontes renováveis, a partir de iniciativas que envolvem a geração de energia, produção, distribuição e fomento aos consumidores e ao varejo.

Em conteúdo disponibilizado em vídeo e texto, Fabio Ferreira, gerente jurídico do Sindicerv, detalha os planos e metas de sustentabilidade da indústria cervejeira, apontando que as companhias brasileiras são exemplos para o mundo nessa temática.

Finalmente, em artigo especial, Rodrigo Oliveira, CEO da Green Mining, avalia que o setor cervejeiro tem sido protagonista no combate às mudanças climáticas, ressaltando que a obtenção de resultados em busca de um mundo mais sustentável pode ser acelerada se ocorrer de modo colaborativo.

Subsidiária da Kirin vende cervejarias e deixa setor de artesanais do Reino Unido

A cervejaria Lion, grupo australiano que é uma subsidiária da japonesa Kirin, está de saída do mercado de artesanais do Reino Unido. A empresa vendeu a sua divisão de cervejarias artesanais para a Odissey Inns, mais conhecida pela sua atuação no ramo da hotelaria.

A negociação sela uma saída que já havia sido anunciada em janeiro. No primeiro mês de 2022, a Lion Little World Beverages, a divisão global de cervejas artesanais da Lion, havia revelado que tinha nomeado consultores para analisar as opções para seus negócios no Reino Unido.

Ao tomar essa decisão, a companhia alegou que vinha encarando condições comerciais difíceis nos anos recentes, optando por concentrar suas atividades em seu país de origem e nos Estados Unidos. Em 2021, inclusive, a Lion havia adquirido a Bell’s Brewery, a sétima maior cervejaria artesanal norte-americana. Além disso, em 2019, tinha comprado a New Belgium Brewing, a quarta maior cervejaria artesanal dos Estados Unidos. Ainda por lá, abriu uma unidade da Little Creatures, também em 2019.

Leia também – Balcão do Profano Graal: A cerveja como patrimônio cultural

Com a intenção de atuar no mercado de artesanais do Reino Unido, a Lion havia feito aquisições por lá, da Fourpure em 2018 e da Magic Rock em 2019. Agora, porém, sacramentou a sua saída com a venda das duas companhias, além de outros ativos.

“A Odyssey reúne uma grande equipe com clara paixão por cerveja e hospitalidade e está idealmente posicionada para levar Magic Rock e Fourpure adiante. Gostaria de agradecer nossa equipe brilhante por seu compromisso e dedicação, especialmente nos últimos dois anos. Com algumas grandes vendas e impulso da marca, a empresa está bem posicionada para o futuro sob nova direção”, afirma Gordon Treanor, diretor da Lion no Reino Unido.

A Odissey Inns comprou as marcas de cerveja Fourpure e Magic Rock, assim como cervejarias, tabernas e estabelecimentos em Londres, Huddersfield e Holmfirth, além do espaço de hospitalidade da Little Creatures em Kings Cross, no coração de Londres.

A empresa é liderada por Stephen Cox, que também é cofundador e presidente não executivo da Utopian Brewing em Devon. No entanto, após o novo acordo, Cox anunciou que deixaria o cargo na marca do sudoeste da Inglaterra.

“Esta é uma oportunidade incrível de levar duas marcas excepcionais, Fourpure e Magic Rock, para o próximo nível. Combinado com uma excelente proposta de hospitalidade, pessoas fantásticas e cervejarias de última geração, nós realmente temos a plataforma para fazer grandes coisas”, diz Cox.

Noi, Leopoldina, St. Patrick’s e Unika se destacam em etapas nacionais de concursos

Por dois finais de semana seguidos, o setor brasileiro de cervejas voltou as suas atenções para a definição dos rótulos premiados nas fases nacionais de dois importantes concursos: o World Beer Awards e a Copa Cervezas de América. Foram 61 medalhas de ouro distribuídas pelas duas disputas cervejeiras, sendo 26 delas em Porto Alegre, palco da etapa brasileira da competição sul-americana. E elas se somaram com as 35 do estágio nacional da disputa mundial, que tem Londres como palco da sua premiação internacional.

Nas disputas nacionais dos dois concursos, três cervejas conquistaram medalha de ouro em ambas. Foram os casos da Leopoldina Tripel, da Leopoldina, escolhida a melhor entre as concorrentes do estilo Tripel, da Catharina Sour – Caju e Pitanga, da Unika, eleita a melhor Catharina Sour, e da St. Patrick’s Irish Car Bomb, vencedora na categoria Imperial Stout.

Já a Noi foi a marca com mais cervejas diferentes – seis – premiadas com a medalha de ouro nas fases nacionais dos dois concursos. Foram elas: Avena, Bárbara, Diavollo, Fiorella, Rossa e Cioccolato. O resultado foi celebrado pela diretora de vendas e marketing da marca, Bianca Buzin.

Confira o Guia Talks com a diretora da Noi

“Ganhar as medalhas é sempre muito legal, principalmente porque só participamos de concursos com qualidade técnica elevada, que envolvem os melhores profissionais do setor. Sermos bem avaliados por eles nos dá a certeza de que estamos fazendo a melhor cerveja possível para nossos clientes e amigos. Ser premiado por isso é só a cereja do nosso bolo”, diz Bianca, celebrando o desempenho nas fases nacionais dos concursos.

Copa Cervezas
Na Copa Cervezas de América, a etapa brasileira contou com 579 rótulos inscritos. A Leopoldina foi o principal destaque nacional ao conquistar três medalhas de ouro com os rótulos Tripel, Barley Wine e Barley Wine Corte I. Já La Birra, Noi e Unika faturaram duas, cada.

A fase final da Copa Cervezas de América está agendada para o período de 24 a 30 de outubro, em Valdívia, no Chile. E se classificaram para esta etapa, além dos rótulos que conquistaram medalhas de ouro, prata e bronze nas disputas nacionais, 30% dos rótulos mais bem avaliados em cada categoria.

Confira o Guia Talks com os organizadores da Copa Cervezas

“O que vimos até agora foi uma verdadeira celebração à cultura cervejeira latino-americana. Estamos muito satisfeitos e esperamos estar em mais territórios com as etapas nacionais no próximo ano, aquecendo os mercados locais”, afirma Daniel Trivelli, presidente da Copa Cervezas de América.

World Beer Awards
No World Beer Awards, o principal destaque do Brasil foi a St. Patrick’s, que amealhou cinco medalhas de ouro, conquistadas por Barley Wine, Dry Stout, Hoppy Lager, Irish Car Bomb e Old Ale.

No ranking das cervejarias nacionais, a Noi levou quatro ouros, uma a mais do que a Stannis. Além disso, duas cervejas da Goose Island, da Avós, da Leopoldina e da Wäls conquistaram medalhas de ouro.

Leia também – Os 9 principais concursos cervejeiros do Brasil e do mundo no 2º semestre

Agora, então, as marcas medalhistas de ouro na disputa nacional aguardam o anúncio das cervejas premiadas mundialmente, o que será feito pelos organizadores do World Beer Awards em 25 de agosto.

Confira as cervejas medalhistas de ouro na fase nacional da Copa Cervezas de América:

4 ÁRVORES
Veranico (Contemporary American-Style Lager)

277 CRAFT BEER
Pão Nosso (South German-Style Hefeweizen)

ÁGUA DO MONGE
Saison Castanheira (Other Belgian-Style Ale)

BIRRA DEL NONNO
Nostra Pilsen (Australasian, Latin American or Tropical-Style Light Lager )

BODOQUE
Wild Ale (Wild Beer)

BRAGANTINA
Bragantina Red IPA (Double Hoppy Red Ale)

BREWPOINT
Brewpoint – Dunkel (Munich-Style Dunkel)

DENKER
Denker – Stout (Oatmeal Stout)

DEVANEIO DO VELHACO
Escarlate (American-Style Fruited Sour Ale)

KÖNIGS BIER
Königs Bier Defumada (Bamberg-Style Maerzen Rauchbier)

LA BIRRA
La Birra Irish Red Ale (Scottish-Style Export Ale)
La Birra Rossa (Belgian-Style Flanders Oud Bruin or Oud Red Ale)

LEOPOLDINA
Leopoldina Tripel (Belgian-Style Tripel)
Leopoldina Barley Wine (Aged Beer)
Leopoldina Barley Wine Corte I (Wood-and-Barrel-Aged Beer)

LOCALS ONLY BREWING
Hop Trippin (Session India Pale Ale)

NOI
Noi Rossa (Irish-Style Red Ale)
Noi Cioccolato (Chocolate or Cocoa Beer

OPA BIER
Merecida (Bohemian-Style Pilsener)

PHILIP MEAD
Philip Mead Red Fruits (Melomel)

ROISTER
Juicebox (Juicy or Hazy India Pale Ale)

RURADÉLICA
Céu (Australian-Style Pale Ale)

ST. PATRICK’S
St. Patrick’s Irish Car Bomb (British-Style Imperial Stout)

SURICATO
Suricato – Palessauro (American-Style Sour Ale)

UNIKA
Catharina Sour – Caju e Pitanga (Catharina Sour)
Catharina Sour – Clemenules com Café (Coffee Beer)

Confira as cervejas medalhistas de ouro na fase nacional do World Beer Awards:

ALBANOS
Albanos Brown Ale (Dark Beer)

ASHBY
Ashby American Pale Ale (American Style Pale Ale)

BADEN BADEN
Baden Baden Cristal (International Lager)

BREEDON
Breedom Session IPA (Session)

BÚZIOS
Manguinhos (Dark Lager)

CAMPINAS
Campinas IPA Zero 0,3% (IPA com baixa graduação alcoólica ou sem álcool)

COLORADO
Colorado Guanabara (Wood Aged)

DOM HAUS
Coconut Fondant (Fruit & Vegetable)

EISENBAHN
Eisenbahn Unfiltered (Amber/Dark Kellerbier and Rotbier/Red Lager)

FLAMINGO
Flamingo Beer & Co. Witbier (Belgian Style Witbier)

FREDERICA
Fredericia Bock (Bock)

GOOSE ISLAND
Goose Island Brewhouse São Paulo (American Style Wheat Beer)
Goose Island Brewhouse São Paulo Yellow Line (Seasonal)

AVÓS
Imperial Baltic Coffee (Flavoured Stout / Potter)
Strong Baltic Negroni (Experimental)

LEOPOLDINA
Leopoldina Italian Grape Ale (Grape Ale)
Leopoldina Tripel (Belgian Style Tripel)

LOHN BIER
Carvoeira (Herb & Spice)

MASTERPIECE
Masterpiece Van Gogh (Flavoured Wild/Sour Beer)

NOI
Noi Avena (Belgian Style Blonde)
Noi Bárbara (Barley Wine)
Noi Diavolo (Biere de Garde/Saison)
Noi Fiorella (American Style IPA)

PAULISTÂNIA
Paulistânia Marco Zero (categoria Classic Pilsener)

ST. PATRICK’S
St. Patrick’s Barley Wine (Barley Wine)
St. Patrick’s Dry Stout (Stout)
St. Patrick’s Hoppy Lager (Hoppy Pilsner)
St. Patrick’s Irish Car Bomb (Imperial Stout)
St. Patrick’s Old Ale (Strong)

STANNIS
Stannis Mamma Sour (Sour /Wild Ale)
Stannis Red Sönja (Pale Beer/Amber)
Stannis Scarlett Flanders (Flanders Red Ale)

UNIKA
Catharina Sour – Caju e Pitanga (Catharina Sour)

WÄLS
Wäls Dubbel (Belgian Style Dubbel)
Wäls Quadruppel (Belgian Style Strong)

Balcão do Profano Graal: A cerveja como patrimônio cultural

Balcão do Profano Graal: A cerveja como patrimônio cultural

Agosto pode ser para muita gente “o mês do desgosto”. Mas, certamente, não para os historiadores. É nesse mês que se comemoram duas datas importantes para quem trabalha com história. Dia 17 de agosto é o Dia do Patrimônio Cultural. E apenas dois dias depois (19 de agosto) se comemora o Dia do Historiador.

As datas estão diretamente ligadas, uma vez que a preservação do patrimônio cultural é uma das áreas de atuação do historiador. Mas o que isso tem a ver com a cerveja? Talvez você não saiba, mas em 2016 a cultura cervejeira belga foi declarada Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, pela Unesco.  

Quando falamos em “patrimônio cultural”, a primeira ideia que vem à nossa cabeça é a de monumentos, obras de arte ou prédios antigos que são considerados dignos de preservação pelo seu valor artístico (estético/estilístico) ou histórico. Mas esses bens, que chamamos de “bens materiais” ou “patrimônio construído”, são só uma parte de todo o patrimônio cultural.

Ao seu lado, existe também o “patrimônio imaterial ou intangível”, que é preservado por outros valores que não têm a ver com o seu aspecto material, os seus valores identitários. Ou seja, porque faz parte da identidade de um determinado grupo social. Podem ser, por exemplo, formas de expressão (como danças e rituais), modos de fazer (como se constrói uma panela de barro, por exemplo), línguas (sejam as línguas nacionais ou dialetos regionais) e hábitos alimentares.

Em 2003, foi adotada pela Unesco a Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial. Esse documento define o patrimônio cultural imaterial da seguinte maneira:

Práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas – junto com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados – que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivíduos reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural. Este patrimônio cultural imaterial, que se transmite de geração em geração, é constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função de seu ambiente, de sua interação com a natureza e de sua história, gerando um sentimento de identidade e continuidade e contribuindo, assim, para promover o respeito à diversidade cultural e à criatividade humana

Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial

Em 2016, na 11ª reunião do Comitê de Salvaguarda do Patrimônio Cultural Intangível da Unesco, decidiu-se incluir a cultura cervejeira belga entre os bens culturais dignos de preservação. É importante ressaltar que não são os estilos de cerveja belga, ou as cervejas trapistas ou o modo de produção da cerveja belga que foram declarados patrimônio cultural, mas a cultura cervejeira, algo maior do que um estilo ou um modo de produção. No site da Unesco, a cultura cervejeira belga é definida da seguinte maneira:

Fazer e apreciar a cerveja faz parte da herança viva de uma série de comunidades em toda a Bélgica. Desempenha um papel na vida diária, bem como nas ocasiões festivas. Quase 1.500 tipos de cerveja são produzidos no país por diferentes métodos de fermentação. Desde os anos 1980, a cerveja artesanal se tornou especialmente popular. Existem certas regiões, que são conhecidas por suas variedades particulares, enquanto algumas comunidades trapistas também se envolveram na produção de cerveja, dando lucros para instituições de caridade. Além disso, a cerveja é usada para cozinhar, inclusive na criação de produtos como o queijo lavado na cerveja e, como no caso do vinho, pode ser combinada com alimentos para complementar os sabores. Existem várias organizações de cervejeiros que trabalham com as comunidades em um nível amplo para defender o consumo responsável de cerveja. A prática sustentável também faz parte da cultura com o incentivo a embalagens recicláveis e novas tecnologias para reduzir o uso de água nos processos produtivos. Além de serem transmitidos no ambiente doméstico e social, conhecimentos e habilidades também são transmitidos por mestres cervejeiros que ministram aulas em cervejarias, cursos universitários especializados voltados para os envolvidos na área e na hotelaria em geral, programas públicos de treinamento para empresários e pequenas cervejarias-teste para cervejeiros amadores

Unesco

Essa definição ressalta a presença e a importância da cerveja na vida cotidiana das comunidades belgas, seja como forma de lazer, trabalho, fonte de renda ou ingrediente culinário. A transmissão desses saberes através de gerações fez com que essa presença se sedimentasse ao longo de séculos, tornando inseparáveis, hoje, a história da cerveja na Bélgica e a própria história cultural daquele país.

Mas a definição faz menção também ao incentivo ao consumo responsável de cerveja e às práticas sustentáveis na sua produção, indispensáveis para que os hábitos e as práticas ligadas à cerveja não se tornem nocivos para a própria sociedade belga e para a humanidade como um todo.

A decisão do Comitê apresenta 5 razões para a inclusão da cultura cervejeira belga na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade:

  1. O fato de ela servir como um marcador de identidade para suas comunidades de cervejeiros, provadores, mediadores e zitólogos. O conhecimento e as habilidades são transmitidos de mestres para aprendizes em cervejarias, dentro das famílias, em espaços públicos e por meio da educação formal. Isso contribui para a constituição da identidade social e para a continuidade dos seus portadores e praticantes.
  2. A sua inscrição na lista contribui para a visibilidade e diversidade do patrimônio cultural imaterial, destacando a especificidade de um elemento que combina artesanato e alimentação, que tem evoluído continuamente para atender aos requisitos de desenvolvimento sustentável. Também serviria como exemplo inspirador de uma prática que foi revivida e cujos valores foram redescobertos e desenvolvidos após terem sido marginalizados. Esse ponto chama a atenção para o fato de que o mercado belga de cerveja, assim como outros mercados ao redor do mundo, passou por um processo de uniformização e abandono de antigas práticas e tradições ao longo do século XX.
  3. Chama a atenção para os esforços realizados pela Bélgica para reviver e salvaguardar a cultura cervejeira desde os anos 1970, assim como para o fato de as medidas de salvaguarda propostas (como, por exemplo, o desenvolvimento de qualificações profissionais, a promoção do elemento e o estabelecimento de um observatório da diversidade das artes cervejeiras e sua apreciação) levarem em consideração o aumento do consumo de álcool.
  4. O envolvimento das comunidades de “detentores do bem cultural”. A Federação dos Cervejeiros Belgas iniciou o processo de nomeação envolvendo cervejeiros, mediadores, professores e o público em geral, que participaram ativamente de uma série de reuniões preparatórias e consultivas e forneceram seu consentimento livre, prévio e informado para a inscrição.
  5. O fato de a cultura cervejeira belga já fazer parte dos inventários do patrimônio imaterial das três grandes comunidades belgas: flamenga, francesa e alemã.

Dessa forma, quando abrimos uma garrafa de cerveja (e não apenas de cerveja belga), aquilo que estamos bebendo não é só um líquido que nos ajuda a relaxar e matar a sede. Mas cerveja é também cultura, como explica Eduardo Marcusso.

Por meio das suas práticas de fabricação, degustação e toda a estruturação da atividade cervejeira, ela age como um elemento de conexão entre as pessoas, moldando hábitos e comportamentos que são passados de geração a geração, construindo heranças e identidades a partir de expressões culturais vinculadas à cerveja. Como patrimônio cultural que a cerveja é, em um copo pode estar contida a cultura e história de um povo.  


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BRASIL. DECRETO nº 3551, de 4 de agosto de 2000 – Institui o registro de bens culturais de natureza imaterial que constituem o patrimônio cultural brasileiro, cria o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial e dá outras providências. Disponível em: Página – IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional

MARCUSSO, Eduardo Fernandes. Da cerveja como cultural aos territórios da cerveja: uma análise multidimensional. Tese de doutorado. Programa de Pós-graduação em Geografia da UnB. 2021.

UNESCO. Convention for the safeguarding of the intangible cultural heritage. Paris, 17 October 2003. Disponível em: Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial – UNESCO Digital Library

UNESCO. Dossier Culture de la bière en Belgique. Disponível em: Beer culture in Belgium – intangible heritage – Culture Sector – UNESCO


Sérgio Barra é carioca, historiador, sommelier e administra o perfil Profano Graal no Instagram e no Facebook, onde debate a cerveja e a História.

Cervejarias da Rota RJ aproveitam alta temporada para atrair visitantes

A intensidade dos dias mais frios do ano tem inspirado as iniciativas das cervejarias da Rota Cervejeira RJ, que se movimentam para atrair o público no período do inverno, considerado de alta temporada na região da Serra Fluminense. Além das ações realizadas pelas marcas, atrações diferenciadas também chamam a atenção dos cervejeiros, como a edição de 2022 da Bauernfest, iniciada neste fim de semana em Petrópolis.

“Para o turismo cervejeiro, é um período em que estamos bem aquecidos e tem muita procura, por exemplo, pelos beer tours, pelas experiências dentro das cervejarias e pelas experiências de harmonização com cervejas de inverno”, conta Ana Cláudia Pampillón, coordenadora da Rota Cervejeira RJ.

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Com as cidades da região serrana cheia de visitantes nesses dias mais frios, Ana destaca ser este um período especial para as marcas componentes da Rota RJ, pela possibilidade de unir as suas cervejas com as atividades turísticas. “A importância do inverno para as cervejarias da Rota é imensa porque esse é o período de alta temporada na Serra. Então, é quando as pessoas gostam de vir para o frio para curtir a cidade e o clima”, pontua.

Assim, o clima mais frio é um dos aliados da Rota RJ neste período de retomada das atividades, com foco na vocação turística cervejeira. “O turismo voltou à tona com muita potência agora. Após uma pandemia, estão todos doidos para viajar. Então, a gente está investindo nisso. As cervejarias estão prontas com produto pronto à espera do turista”, diz Ana. “O turismo cervejeiro tem que ser tão importante quanto o turismo de aventura, o turismo rural e o turismo que já acontece mais forte na nossa região há mais tempo”, acrescenta.

Recentemente, o Polo Gastronômico de Teresópolis promoveu o Festival Gastronômico Sabores Britânicos. Com a introdução de rótulos no cardápio dos restaurantes, Ana destaca como o evento foi importante para mostrar que a cerveja pode ser uma opção interessante para quem deseja degustar uma bebida alcoólica no período mais frio do ano, a unindo com a gastronomia. “Cheguei a fazer treinamento com restaurantes sobre a harmonização dessas cervejas mais alcoólicas e para a gente desmistificar um pouco aquela coisa de que frio tem que ser vinho”, relata.

Bauernfest 2022
Outro exemplo de celebração que junta inverno e cerveja, atraindo turistas para a região serrana do Rio nesse período do ano é a Bauernfest, iniciada nesta sexta-feira (12) e que irá até 28 de agosto. Nela, o Espaço Biergarten vai ser uma das grandes atrações desta que é considerada a principal festa pública de Petrópolis, com programação musical diversificada, gastronomia local e cervejas artesanais.

O Biergarten é um espaço integrado à Bauernfest, com programação e organização da Associação das Microcervejarias de Petrópolis. O espaço fica na Praça Visconde de Mauá (Praça da Águia), em frente à Câmara Municipal e ao Museu Imperial, no centro de Petrópolis.

A Associação das Microcervejarias de Petrópolis (AMP) destaca que o Biergarten auxilia a movimentar a economia da cidade durante todo o evento. Serão mais de 60 empresas participando diretamente do espaço, gerando cerca de 360 empregos diretos. “Fazemos questão de investir na economia local. Hoje 90% dos participantes do evento, sejam as marcas, seja para a realização dos serviços de montagem de toda nossa infraestrutura, são da nossa cidade”, comentou o presidente da AMP, Leandro Leal.

O Espaço Biergarten conta com dois pavilhões especiais, dois palcos, mesas de madeira e bancos para unir o público. As cervejarias prometem surpreender com estandes, área gastronômica e atrações diferenciadas. São 19 marcas participando do evento.

Menu Degustação especial: 8 iniciativas cervejeiras para celebrar o Dia dos Pais

Não vai faltar cerveja no Dia dos Pais. Pensando na data especial, celebrada neste domingo (14), as cervejarias trataram de programar uma série de ações para os papais. A Doktor Brau, por exemplo, fechou parcerias e vai presentear os pais com sua cerveja. Além disso, Landel e Bodeborown terão temáticas especiais nos respectivos growlers days.

Já o Dia dos Pais no Mr. Hoppy Prado, em Belo Horizonte, terá presente para o “velho”. E ainda haverá ação especial para pais e filhos tomarem um chope juntos no Porks, no domingo, também na capital mineira.

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Confira estas e outras ações cervejeiras no Menu Degustação especial de Dia dos Pais do Guia:

Parcerias da Doktor Brau
A Doktor Brau fechou parcerias com a Óticas Carol, do Grupo Ribeiro, e com a Óticas Ultrafarma, do Grupo Mourad, para a campanha do Dia dos Pais de 2022. Com o slogan “Meu Paizão, Meu Herói”, as marcas vão promover uma ação especial para comemorar a data com um presente exclusivo. Na compra de óculos de grau completo ou óculos solar da marca Aramis, o cliente ganha uma cerveja da Doktor Brau. A promoção vai até 31 de agosto ou enquanto durarem os estoques. São 22 lojas da Óticas Carol e 7 das Óticas Ultrafarma participando da ação.

Growler Day da Landel
Neste sábado (13), a Landel vai realizar seu tradicional Growler Day no Taquaral, em Campinas, homenageando os pais apaixonados por cerveja. A data será marcada pelo lançamento da Citric Revolution, uma New England IPA. Além dela, as torneiras estarão abastecidas com outros nove chopes frescos. Na tap house, os clientes ainda poderão montar kits com latas, garrafas, copos e outros itens. Outra ideia de presente é comprar os growlers de vidro que acabaram de chegar. São dois modelos para 2 litros de chope, com tampas flip-flop e de rosquear.

Growler Day da Bodebrown
A Bodebrown realiza nesta sexta-feira e sábado (10 e 11) uma edição especial do seu Growler Day, em homenagem aos papais, com o lançamento de duas novas edições das cervejas Mama Milk e St. Arnould 6, que estarão disponíveis em growlers PET e chope. Além disso, o evento, na fábrica da cervejaria em Curitiba, terá outras sete opções em growlers, oito em chope e, exclusivamente no sábado, pocket show com a banda Trilho e food trucks.

Sorteio na Madalena
A Madalena celebrará na sua fábrica-bar, em Santo André (SP), no sábado e domingo, o Dia dos Pais com jogos, simuladores, pinball, kids rider, Arcade, grua de bichos de pelúcias, lanches artesanais e mais de 25 torneiras de chope. Para brindar a data, a casa também criou a Scoth IPA, que é o chope IPA maturado em barril de uísque. No domingo, a Madalena realizará sorteio de três Barriletes de 5 litros de Chope IPA. Os ingressos custam R$ 10 ou 1 quilo de alimento. Além disso, a Madalena tem kits especiais para presentear, que podem ser montados de acordo com a preferência do seu pai, a partir de R$ 22. Os produtos com embalagens que fazem referência ao Dia dos Pais estão disponíveis na loja da fábrica.

Porks no Dia Dos Pais
Pai e filhos têm que celebrar essa data tão especial juntos. E, por isso, o Porks criou uma promoção especial. Nas três unidades do Porks em Belo Horizonte, no domingo, o pai que for com seu filho ou filha curtir a gastronomia suína vai comprar um chope e ganhar outro Pilsen, de 330ml. Mas tem que ser pai e filho juntos. Basta fazer o pedido para ganhar.

Chope é por conta do Mr. Hoppy
No domingo do Dia dos Pais, no Mr. Hoppy Prado, em Belo Horizonte, o pai que for ao estabelecimento também vai ganhar um chope da casa. O presente é o Pilsen de 330ml. A cada compra que realizar, o papai ganha o chope.

Cervejaria Artéza oferece brinde aos pais
No Dia dos Pais na Artéza, todo papai que for celebrar o seu dia lá vai ganhar um petisco: o Pulled Pork, que é um rolinho de carne suína defumada, com acompanhamento de molho barbecue e cheddar. A Artéza tem estilos de cervejas especiais e mantém um tepping abastecido de 12 estilos, todos de fabricação própria, na sua unidade no bairro Prado.

Dia dos Pais na RioTap Beer House
Os pais que forem à Rio Tap Beer House, no bairro do Flamengo, neste domingo, para celebrar com a família o Dia dos Pais, vão ganhar um half de cerveja Pilsen ou uma dose de cachaça de presente. Para comer a dica é o Tap Hot Chicken, um frango frito marinado em mix de especiarias com toque picante, acompanhado das Tap Chips, batatas chips onduladas crocantes, servidas molho Spice Red Bourbon da casa.

Preocupação com inflação e 2023 sobrepõe expectativa de recuperação plena dos bares

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A retomada do setor de alimentação fora do lar depois de dois anos duríssimos, provocados principalmente pela pandemia, é vista sob a esperança de reaquecimento econômico, mas também de incerteza para bares e restaurantes, por causa da inflação no Brasil e dos temores envolvendo a conjuntura econômica para 2023.

Na terceira matéria do Guia sobre o cenário deste segmento, após a primeira abordar o sofrimento dos bares com o endividamento e os efeitos da inflação e a segunda destacar como a queda do poder de compra freou o reajuste dos preços da cerveja nestes estabelecimentos, representantes do setor apontam suas perspectivas para o restante de 2022 e o próximo ano.

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Embora julho tenha registrado uma deflação histórica, de 0,68%, puxada pela queda dos preços de combustíveis e energia, a inflação segue sendo uma preocupação para bares e restaurantes para o segundo semestre, ainda mais que o grupo de alimentos e bebidas apresentou alta de 1,20% no período, o que mantém o alerta aceso.   

“A gente pode afirmar, porque é uma questão global e não só em relação ao Brasil, e nem só em relação aos restaurantes, que a inflação vai continuar. Talvez não crescendo na mesma velocidade do que nos últimos 12, 18 meses, mas ainda sendo motivo de preocupação e de limitação ao consumo e para a rentabilidade dos negócios”, diz Fernando Blower, diretor-executivo da Associação Nacional de Restaurantes (ANR).

Diretor e sócio-fundador do BaresSP, o maior guia desta categoria cujo nome batiza a entidade representativa de bares e restaurantes da capital paulista, Fábio de Francisco também exibe preocupação com a inflação, especialmente em um cenário de desafios para bares que ainda estão endividados.  

“A projeção para o segundo semestre não é a melhor possível tanto pelos estabelecimentos endividados quanto pela população estar com menor poder de compra. No ano que vem, com a troca de governo, isso tende a melhorar. Mas acaba tendo esse impeditivo da inflação, que realmente impacta demais o setor”, analisa.

Por outro lado, o presidente-executivo da Abrasel, Paulo Solmucci, avalia que ao menos a pressão dos custos sobre bares e restaurantes pode cair com a recente redução dos preços dos combustíveis. “Isso tende a reduzir os custos, tanto de forma mais direta, com os moto-entregadores, quanto com o seu efeito indireto na formação geral de preços. O mês de junho teve um primeiro cenário positivo, com um importante recuo de preços de alguns alimentos importantes para nós. Em julho, continuaram as melhoras, como o caso da gasolina, e até a energia deu um pequeno recuo. Se continuarmos assim, as coisas podem melhorar no segundo semestre. Isso é o que nós estamos esperando, torcendo e precisando”, ressalta.

Solmucci, prevê que o setor irá fechar o segundo semestre em expansão, embora encarando o desafio da perda de poder de compra do consumidor. O setor vem vendendo muito bem e é muito provável que 2022 termine com crescimento real de 5%”, diz. “Para nós, é muito positiva a questão do emprego, que cresce muito no Brasil, surpreende e faz com que mais gente tenha condições de comprar, ainda que o bolso esteja apertado, já que essas pessoas conseguiram emprego, mas com salários menores”, enfatiza.

Assim, mesmo com a perda de 8,7% na renda média do brasileiro no período de um ano, segundo estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), e de 64% dos estabelecimentos não estarem dando lucro, de acordo com levantamento recente da própria Abrasel, Solmucci cita fatores conjunturais para apostar em um restante de 2022 positivo.

“Há mais fatores positivos para estimular isso: a economia foi melhor do que o previsto no primeiro semestre e nós temos a possibilidade de o Auxílio Brasil vir a chegar em R$ 600, o que faz uma diferença enorme para 80% das empresas que estão na base do setor. Há também a questão da classe média alta, que viajou menos e, assim, está gastando bastante nos restaurantes mais sofisticados, além do retorno da normalidade, com as pessoas de volta às ruas”, reforça o presidente da Abrasel.

Esse otimismo, porém, tem como contraponto a incerteza com os efeitos que as eleições de outubro podem ter sobre o setor, na avaliação de Blower. “O segundo semestre tem um grau de imprevisibilidade grande, sobretudo por conta do processo eleitoral, que é sempre difícil. Fazer previsões acaba sendo imprudente. Então, temos um nível de incerteza muito grande”, enfatiza.

Incertezas para 2023
Se agentes de mercado, como economistas e analistas, preveem uma alta do PIB menor em 2023 – 0,4% – do que em 2022 – 1,98% –, segundo a última edição do Boletim Focus, os representantes de bares e restaurantes não estão mais otimistas para o próximo ano.

O diretor e sócio-fundador do BaresSP revela que só espera por uma recuperação plena dos estabelecimentos de alimentação fora do lar a partir do segundo semestre de 2023.

Até o meio do ano que vem, ainda vai ter a turbulência da inflação. Depois do primeiro semestre, a coisa tende a estabilizar mais e vir realmente a retomada total do setor. A parcial já está acontecendo

Fábio de Francisco, diretor e sócio-fundador do BaresSP

O presidente-executivo da Abrasel também projeta desafios para 2023, apostando em uma expansão tímida dos bares e restaurantes. “A Abrasel continua otimista de que o Brasil gerará mais empregos neste ano, e isso é muito importante para nós. A inflação sendo reduzida e segurada abre espaço para uma melhoria da renda. Então, 2023 dependerá muito do cenário macroeconômico, mas a nossa expectativa é de que o setor continue a crescer”, diz o executivo. “Para 2023, estamos mais cautelosos e uma visão de momento seria terminar o ano com algo em torno de 1% de crescimento”, vislumbra.

Já Blower prevê mais meses de aprendizados para quem atua com bares e restaurantes. “Temos de pontuar a incerteza política e a inflação como algo extremamente preocupante. Esse alerta tem de permanecer e certamente transborda para 2023. A gente terá de aprender ainda mais do que já aprendeu nos últimos tempos, como aumentar a eficiência, como implementar processos de transformação digital que baixem custos operacionais, como estimular novos canais”, analisa o diretor-executivo da ANR.

Mulheres negras ganham visibilidade, mas lutam contra desafios históricos no setor

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Durante séculos, as mulheres negras têm travado batalhas em busca dos seus direitos de liberdade e participação em todas as esferas da sociedade. Mas, ainda hoje, o racismo e o machismo permanecem como questões enraizadas no cotidiano, principalmente em segmentos majoritariamente ocupados por homens e brancos, como é o caso do setor de cervejas artesanais do Brasil.

O segmento, inclusive, passou pela exposição de acontecimentos de racismo e machismo em 2020. E, após o levante que veio como consequência destes atos, a percepção de mulheres negras que atuam diretamente no segmento é que o mercado tem ouvido e aberto mais espaços à inclusão. Entretanto, apesar do movimento de mulheres negras estar ganhando visibilidade e força no setor cervejeiro, a lista de empecilhos enfrentada por elas ainda é grande.

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A sommelière Sara Araújo, que se tornou um dos grandes nomes da luta após sofrer ataques racistas e sexistas, pontua que a presença da mulher negra no mercado da cerveja ainda é tímida, em termos percentuais, mas avalia já ser possível ver mudanças acontecendo. “Não podemos dizer que há uma inclusão, mas o mercado está sinalizando um caminho de mudança. Espero que não retroceda”.

Ela cita que escolas cervejeiras estão ofertando bolsas de estudos, formando essas profissionais e as inserindo no mercado de trabalho. O resultado destas iniciativas é que já há mais mulheres negras em cargos de relevância, como Cinarah Gomes, da cerveja Serafina, Dani Souza, chef da Cozinha Omi Odara, Adriana Santos, cervejeira caseira e sommelière de cervejas, Madu Victorino e Jessica Gomes, que recentemente assumiram a área de cultura cervejeira da Estrella Galícia, Vanessa Nobre, do Grupo Heineken, Tamara Nogueira, na Baden Baden, Carol Garrido, que é gerente de Brand PR na Ambev, Janaína Assumpção, diretora da Lab do Grupo Heineken, e Danielle Lira, sócia fundadora do Torneira Bar.

“Existem outras que vêm fazendo um belo trabalho no ecossistema cervejeiro e todos ganhamos com pluralidade e diversidade de vozes. Ainda somos poucas, comparadas com a porcentagem populacional de pessoas negras que compõem a sociedade brasileira, que, segundo o IBGE, são quase 60%”, completa Sara.

Para Juliana Barauna, das Pretas Cervejeiras, ainda há muito o que avançar em relação à presença de mulheres negras, tanto enquanto profissionais, quanto consumidoras, mas definitivamente não é mais possível ignorar suas presenças. “Nos mobilizamos, individualmente e coletivamente para ocupar os mais diversos espaços, inclusive o mercado cervejeiro. E projetos como o Torneira Bar, liderado pela Dani Lira, e o próprio Pretas Cervejeiras são exemplos disso”, conta.

Dani Lira, sócia do Torneiras Bar, também destaca a conquista de espaço pelas mulheres negras no segmento. “Percebo que o setor vem mudando, temos muitas mulheres pretas profissionais no mercado cervejeiro”, afirma. Contudo, também reforça que há vários negócios desconhecidos ou sem a devida visibilidade. “Entendo que a representatividade fortalece outras a elevarem seus negócios no setor, é aquele ditado: uma puxa a outra”, diz.

“Ainda tem muito pouca a presença de mulheres pretas no mercado cervejeiro artesanal”, pontua a cervejeira Dani Souza, chef da Cozinha Omi Odara, que também compartilha da opinião de que o movimento das mulheres negras tem gerado resultados. “Aos poucos, nós, mulheres pretas, vamos retomando o que é nosso. Existem algumas mulheres no setor já. Poucas, mas existem”, completa.

Uma série de empecilhos
Juliana Barauna pontua que uma das grandes barreiras de acesso ao mercado de trabalho é a educação. Até por isso, o Pretas Cervejeiras também atua como um coletivo de apoio à educação, fomentando o diálogo no setor e a busca por ampliar a presença da mulher negra no setor. “Nos dedicamos a construir pontes entre organizações educacionais cervejeiras e mulheres negras que desejam atuar no mercado”, afirma.

Já a chef da Cozinha Omi Odara lembra que a desigual distribuição de renda reforça a dificuldade de inclusão da mulher no mercado cervejeiro, com o dinheiro concentrado nas mãos de um grupo seleto colaborando para perpetuar o machismo e o racismo estrutural.

Não temos dinheiro suficiente. Meu sonho, por exemplo, é ter uma cervejaria própria para parar de passar pelos perrengues que passo como cervejeira cigana. Dependo da cervejaria de homens brancos que na maioria das vezes falam que eu não sei fazer cerveja e que cerveja não é a mesma coisa de cozinha

Dani Souza, chef da Cozinha Omi Odara

Para Dani Lira, ainda é necessário enfrentar preconceito e racismo em sua atuação, camuflados como “surpresa” quando descobrem que ela é sócia do Torneira Bar. “Sinto que, de alguma forma, nossos corpos ainda não são valorizados como profissionais. Ainda observo muitas marcas propondo vínculos ‘profissionais’ no sentido de uma autopromoção quando se fala de inclusão e diversidade, contudo, não visando uma remuneração justa para tal atividade”, diz.

Sendo mulher e preta, a chef da Cozinha Omi Odara lamenta que ainda seja preciso mostrar para todos “10 vezes mais” o que faz. “Isso porque sou da área da gastronomia há 10 anos, como chef de cozinha, além de tecnóloga em cerveja e sommelier. E faço minha própria cerveja desde 2018, porque nunca me senti representada em nenhuma das existentes”, conta Dani.

A falta de mais apoio do setor é outra grande dificuldade para que essas mulheres possam desenvolver suas potencialidades, sendo que necessitariam de muitas precisam de oportunidade aliada ao incentivo à profissionalização, como analisa Sara. “Um exemplo de que oportunidade muda vidas, é a Tamara Nogueira. Convido vocês a ouvirem o podcast Hora do Gole. Ela conta como se transformou na atual joia da cervejaria Baden Baden. Isso só foi possível porque alguém lhe deu uma oportunidade”, comenta.

Urgência de mais ações
Se a lista de barreiras a transpor é longa, mais ações efetivas para aumentar a participação da mulher negra no setor de cervejas artesanais segue sendo urgente. “Bato na tecla da oportunidade, aliada com a equidade. Quanto mais mulheres negras em posição de alteridade, em espaços de elaboração e desenvolvimentos de potencialidades e sendo referenciadas, mais mulheres se sentirão parte e, com isso, convidadas a participar e transformar o mercado”, defende Sara.

Juliana ressalta ainda que, para uma mudança de fato, é fundamental que as empresas coloquem em prática ações que promovam a diversidade. “Desde abrir oportunidades para contratações, oferecendo salários igualitários e oportunidade de desenvolvimento, até mesmo a conscientização de todo o quadro de colaboradores em relação à diversidade e inclusão.”

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Investir nas mulheres pretas também é a aposta da chef da Cozinha Omi Odara. “Dar cursos, criar bolsas [de estudo] e contratar. E, também, remunerar mulheres cervejeiras da mesma forma que os homens brancos.”

Já os eventos e projetos que elevem a imagem da mulher negra ao protagonismo são uma das grandes possibilidades colocada pela sócia do Torneira Bar para dar visibilidade a elas. “Trazer não só a profissional preta do meio em momentos de falas sobre pautas raciais, contudo, valorizar o intelecto e conteúdo da profissional preta”, completa Dani Lira.

Festival Tereza de Benguela

Se é unânime entre as profissionais cervejeiras que a acolhida faz toda a diferença, a vontade de transformar não falta. Em 23 de julho, por exemplo, o Torneira Bar, em São Paulo, recebeu o 1º Festival Tereza de Benguela Cervejeiras, evento que reuniu inúmeras mulheres negras que lutam pela inclusão.  O encontro antecedeu o Dia da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha, celebrado em 25 de julho.

Historicamente chamada de “Rainha Tereza”, Tereza de Benguela foi uma líder que comandou o quilombo de Quariterê, no século XVIII, e se tornou símbolo da luta da mulher negra por igualdade de gênero e raça. Em sua homenagem, em 25 de julho também se celebra o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra.

Com patrocínio da Spaten, o festival contou a história de mulheres pretas deste mercado, suas conquistas e mostrou as múltiplas vozes que compõem a narrativa dentro deste ecossistema. Além de um resgate histórico da data, a programação contemplou palestras sobre harmonização, história da cerveja e consumo responsável.

Ainda houve conversa com mulheres negras do mercado cervejeiro, palestra sobre processo de fabricação da cerveja e um mini sarau com poesias. O festival também teve campanha de doação com todo o alimento arrecadado destinado à ONGs que auxiliam mulheres negras em situação de vulnerabilidade social.

A iniciativa teve organização de Sara, Dani Souza, Dani Lira, Adriana Santos, Cinara Gomes e Rozilene Sá.

Foi incrível a reunião dessas mulheres pretas tão potentes no mercado cervejeiro. Já era um sonho antigo de todas. Então, quando a Sara Araújo trouxe a lembrança da data, o dia 25 de julho, soubemos que era o melhor momento para esse projeto acontecer. Observar a presença de tantas outras profissionais pretas de outros setores do mercado, foi muito importante. O sentimento é de união, apoio e valorização dos nossos corpos

Danielle Lira, sócia fundadora do Torneira Bar

“Colocamos um festival de pé em um mês e com uma marca patrocinando. O evento foi lindo, e só foi possível porque tivemos aliados/as para nos apoiar”, diz Sara. “Apoiem os projetos das mulheres negras, trans e indígenas, as capacitem. O mercado só tem a crescer. Apoiem as mulheres plurais, assim como o mercado apoia projetos de maioria masculina”, conclama.

César Maluco e Marcos esquentam cena cervejeira ao redor do estádio do Palmeiras

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Se a venda de cerveja com álcool não é permitida dentro dos estádios paulistanos, o torcedor do Palmeiras tem ótimos motivos para brindar a grande fase da equipe e seus ídolos nas proximidades da “casa” do clube. Afinal, se o time buscará dar um passo importante nesta quarta-feira para faturar o tricampeonato consecutivo da Libertadores ao tentar eliminar o Atlético-MG, pelas quartas de final, no Allianz Parque, também será possível consumir cervejas alusivas a grandes nomes da história palmeirense nos arredores da arena.

Há décadas, as ruas no entorno do antigo Palestra Itália são ambientadas como redutos palmeirenses, seja pela pintura das residências, pelos bares alusivos ao clube ou pela presença maciça das torcidas organizadas. E o espaço urbano ganhou mais recentemente as companhias dos ídolos César Maluco e Marcos, que compartilham outra paixão, além do Palmeiras, enquanto ex-jogadores e agora empresários: a cerveja.

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Os dois jogadores estão com novos espaços que vendem cerveja artesanal próximos ao Allianz Parque. O de César Maluco, onde ele próprio aparece com frequência para dar autógrafos e tirar fotos, fica na rua Caraíbas, 75. E o de Marcos, ampliando a sua parceria com a cervejaria Walfänger, está na rua Diana, 94.

Segundo maior artilheiro da história do Palmeiras, com 182 gols em 327 jogos disputados entre 1967 e 1974, César Maluco abriu um espaço que fica a menos de 100 metros da arena palmeirense, onde vende o próprio chope, um Pilsen. E o ex-atacante de 76 anos diz preparar para os próximos meses, em conjunto com os sócios Fabio Caldeira e Mario Colombo, o lançamento de sua marca de cerveja, que terá seu nome e o slogan “O sabor do gol”.

“Por enquanto, demos um pontapé inicial só com o chope e estamos abrindo uma ‘portinha’ (o bar) para ver como estará andando. E está gostoso. O pessoal vem do interior ver o jogo do Palmeiras e passa lá para tomar um chopinho. O lançamento da minha cerveja deverá ser entre o final de setembro e o início de outubro”, revela o ex-jogador, que pelo Palmeiras foi cinco vezes campeão nacional e duas estadual, em entrevista ao Guia.

No bar, César recebe palmeirenses, confraterniza e é valorizado como o ídolo histórico do clube que é. “Hoje eu sou torcedor. Não sou mais jogador. Então, eu fico no meio da galera, torcendo com a turma. Às vezes há um tumulto e o pessoal quer tirar foto comigo, perguntar alguma coisa… Na minha infância eu era torcedor e até chorava pelo meu ídolo, que era o Dida. Já estou acostumado com esse negócio de torcida”, lembra o ídolo, para depois acrescentar.

A torcida é o meu presidente, é o meu patrão, quem me deu tudo. Eu valorizo muito um abraço de um torcedor, um beijo de uma torcedora

César Maluco, ídolo do Palmeiras

César também está confiante de que poderá replicar o sucesso obtido nos gramados com a sua nova cerveja, desvinculando-a, inclusive, da continuidade do êxito esportivo do Palmeiras dentro de campo ao longo do segundo semestre.

“Será uma Pilsen, assim como é o meu chope. Nós ainda vamos fazer uma análise sobre o preço, mas eu procuro colocar o melhor possível, e o meu chope já tem um preço especial. Nunca faço coisa errada, só faço coisa para vencer. Então (o sucesso), não depende do Palmeiras. É evidente que os torcedores vão ficar ali, na porta da do meu espaço, tomando o meu chope e a minha cerveja”, completa o ex-atacante.

Parceria entre São Marcos e Walfänger
Quando a cerveja prometida por César Maluco for lançada, ele se unirá ao ex-goleiro Marcos, que já tem um rótulo próprio desde outubro de 2017. Naquele ano, o produto foi apresentado ao público por meio de um clube de assinatura, tendo vendido mais de mil kits apenas nas primeiras 24 horas e faturado mais de R$ 3 milhões na semana inicial de comercialização, segundo os seus responsáveis.

A Cerveja 12, uma referência ao número que ele vestia quando defendia a camisa alviverde, é produzida pela Walfänger, de Ribeirão Preto (SP), que também possui um espaço vizinho ao Allianz Parque, onde exibe referências ao ídolo e vem ajudando a agitar a cena palmeirense próxima ao estádio.

Lá, a bebida é vendida em duas versões: uma Premium Pilsen e outra Session IPA, respectivamente chamadas de Penta Malte e Penta Lúpulo, nomes inspirados na conquista do quinto título mundial do Brasil, em 2002, quando Marcos se sagrou campeão como titular do gol da seleção.

Hoje a aceitação está muito grande. Abrimos um ponto de distribuição da Walfänger ao lado do Allianz, onde tem o espaço da Cerveja 12. Está a 70 metros do Allianz, na rua Diana, 94, e isso nos ajudou muito a alavancá-lo e que as pessoas conhecessem a cerveja no pós-jogo e no ‘esquenta’ para o jogo”, aponta Caio Balieiro, sócio-diretor da Walfänger. “Tem um movimento muito grande e estamos começando a entrar agora forte nas redes de supermercado de São Paulo.”

Assim, a expansão da marca vinculada a Marcos coincide com o bom momento do Palmeiras, líder do Brasileirão, com seis pontos de vantagem para o Corinthians.

O Marcos está sempre presente e sempre que a gente solicita ele aparece. É um cara muito bacana, muito próximo da gente, e que ama cerveja. Não só a marca 12, como o produto, o tipo de bebida

Caio Balieiro, sócio-diretor da Walfänger

Novos ídolos?
E se Marcos, em parceria com a Walfänger, chegou antes ao empreendedorismo cervejeiro, César Maluco espera que o exemplo deles e a grande fase do Palmeiras inspirem outros grandes ídolos da história alviverde a acompanhá-los.

“A gente quer que no futuro mais jogadores também lancem suas cervejas, como (poderia ser) a ‘Da Guia’, do Ademir da Guia, a ‘Chevrolet’, que era o apelido do Luís Pereira, a cerveja ‘Do Leão’, com nomes de jogadores da primeira e da segunda Academia do Palmeiras”, conclui César Maluco.

Em mês de deflação do IPCA, preço da cerveja tem alta de 0,65% em julho

A deflação registrada no índice oficial de preços do Brasil em julho não foi acompanhada pela cerveja. Se, após uma sequência de altas, o IPCA ficou em -0,68% no sétimo mês de 2022, a menor taxa registrada desde o início da série histórica em janeiro de 1980, a cerveja no domicílio apresentou alta de 0,65% em julho.

Além disso, o item ficou 0,83% mais caro para quem o adquiriu fora do domicílio, para consumo, em geral, fora de casa. As informações são do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), divulgado nesta terça-feira (9) pelo IBGE.

No ano, o preço da cerveja no domicílio registra alta de 3,10%. Já no acumulado dos últimos 12 meses, a inflação é de 8,93%. Apesar da exceção vista em julho, os valores da cerveja fora do domicílio têm sofrido menos reajustes. Em 2022, o índice tem alta de 2,75%. E o salto é de 4,26% no acumulado de agosto de 2021 a julho deste ano.

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Já as outras bebidas alcoólicas tiveram deflação de 1,54% no domicílio em julho, enquanto fora de casa registraram alta de 1,15% no mês. Porém, mesmo com a queda no mês, o item acumula alta de 17,56% até julho. Nos últimos 12 meses, os valores no domicílio saltaram 11,44%. Já fora do domicílio, o item ficou 2,77% mais caro de janeiro a julho e tem alta de 6,08% no acumulado em 12 meses.

O setor de alimentação e bebidas, aliás, foi um dos que mais acelerou no mês de julho, com a maior variação (1,30%) e impacto positivo (0,28%) no índice geral do mês, resultado puxado principalmente pelo leite longa vida, com subida de mais de 25%.

Deflação histórica
A deflação histórica do IPCA, em julho, refletiu a queda nos preços dos combustíveis, em particular da gasolina e do etanol, assim como da energia elétrica. No ano, porém, a inflação está em 4,77%. Já nos últimos 12 meses, o índice fica em 10,07%.

“A Petrobras no dia 20 de julho anunciou uma redução de 20 centavos no preço médio do combustível vendido para as distribuidoras. Além disso, nós tivemos também a Lei Complementar 194/22, sancionada no final de junho, que reduziu o ICMS sobre combustíveis, energia elétrica e comunicações. Essa redução afetou não só o grupo de transportes (-4,51%), mas também o de habitação (-1,05%), por conta da energia elétrica (-5,78%). Foram esses dois grupos, os únicos com variação negativa do índice, que puxaram o resultado para baixo”, explica o gerente da pesquisa do IBGE, Pedro Kislanov.