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Instituto da UFRJ busca recursos e cidade-sede para ser polo do lúpulo no Brasil

Pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) estão prontos para viabilizar a cadeia produtiva do lúpulo no Brasil, com o objetivo de dar escala à produção nacional. O que falta, agora, são recursos financeiros para tirar o projeto do papel e atrair investimentos que podem reverter milhões em arrecadação de impostos. Isso abre a oportunidade para cidades brasileiras que queiram se colocar em uma posição estratégica para se tornar referência na produção nacional.

Quem lidera a iniciativa é Amanda Xavier, coordenadora do Centro Avançado em Sustentabilidade, Ecossistemas Locais e Governança (Casulo) do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe) – um dos maiores centros de ensino e pesquisa em Engenharia da América Latina.

Segundo os pesquisadores, o lúpulo representa uma das maiores oportunidades ainda não exploradas do agronegócio nacional. A demanda anual de lúpulo no país gira em torno de R$ 500 milhões, segundo estudos prospectivos liderados por Amanda. Para atender a esse volume, seria necessário produzir 6.421 toneladas (o equivalente a 1.712 hectares plantados). O Brasil, no entanto, produz apenas 90 toneladas, o que atende somente 1,4% da demanda. O restante, 98,6%, é suprido por lúpulo importado.

O projeto para o lúpulo no Brasil

A Coppe estruturou o projeto para mudar esse cenário e atender às exigências comerciais das grandes cervejarias. O modelo inclui horticultura de precisão com uso de inteligência artificial; secagem com eficiência energética; peletização com padrão internacional; e extração voltada tanto para a indústria cervejeira quanto para os setores de fitoterápicos e etanol verde.

“Já chegamos a um estágio bem avançado da pesquisa para o cultivo do lúpulo, agora falta o pontapé para a implementação da escala industrial. Temos muitos cultivos no Brasil a ponto de saber o que e como plantar, além das técnicas de manejo”, afirma Amanda Xavier. “A gente está com uma cadeia bem montada. Estamos com a faca, o queijo e a goiabada na mesa. Mas quem vai cortar isso, a gente ainda não sabe”, brinca.

O gargalo da peletização

Para que as flores de lúpulo cheguem aos tanques das indústrias, o beneficiamento precisa ser rigorosamente padronizado. Atualmente, muitos produtores brasileiros secam a planta de forma rústica ou adaptam secadoras de café, mas o processo envolve calor excessivo, o que queima compostos aromáticos essenciais.

A solução desenhada pela universidade é a instalação de uma planta industrial de secagem ecológica e peletização a frio.

“Hoje, o nosso maior gargalo no Brasil é a peletização. Por falta dela, as grandes cervejeiras não compram em escala do produtor nacional. Além disso, o processo exige rastreabilidade, qualidade constante e previsibilidade”, diz Amanda.

Para garantir esse padrão, a equipe defende um modelo de governança inspirado em cooperativas americanas, como a Yakima Chief. Nesse formato, o cultivo fica com os fazendeiros, mas o beneficiamento e a negociação comercial são centralizados para garantir um padrão de qualidade. 

Inovação no campo e o trunfo das três safras ao ano

A pesquisa também propõe alternativas para os altos custos de produção. Iniciar uma lavoura de lúpulo no Brasil exige hoje um investimento de quase R$ 200 mil por hectare. Como a planta depende de muitas horas de luz, os agricultores recorrem à iluminação artificial (lâmpadas de LED) durante a noite. O resultado é que a conta de energia elétrica acaba se tornando um grande empecilho para otimizar os lucros.

A saída proposta pela Coppe vem da aplicação de fitormônios, técnica inspirada no cultivo de uvas que permitiu a cultura no Vale do São Francisco, entre Pernambuco e a Bahia.

A ideia é reduzir a necessidade de suplementação luminosa com hormônios vegetais, diz Amanda.

Sem essa dependência, o país se torna extremamente competitivo, conseguindo até três safras por ano, enquanto potências globais, como Alemanha e EUA, colhem apenas uma vez ao ano por causa de seus invernos rigorosos.

Modelo de negócio e impacto milionário

Montar a infraestrutura de processamento exige capital. Um único maquinário industrial de grande capacidade para peletização custa entre três e cinco milhões de reais. Mas os estudos de viabilidade econômica do Casulo/Coppe apontam retorno rápido e consistente.

A proposta de negócio prevê que o município-sede da unidade industrial entre como sócio, explorando o potencial turístico da rota do lúpulo e o pagamento de 1% sobre o faturamento como royalties.

Em um cenário projetado com um investimento público de R$ 50 milhões, diluído em três anos, seria possível processar colheitas de 330 hectares. A estrutura geraria uma receita de R$ 260 milhões ao ano, além de 220 empregos diretos, 2,6 mil indiretos e R$ 161 milhões em impostos. A produção renderia insumo suficiente para 470 milhões de litros de cerveja.

A projeção de comercialização indica que a unidade industrial teria capacidade de produzir cerca de 1,2 mil toneladas de pellets ao ano. Com o quilo a R$ 120, o faturamento bateria R$ 148,5 milhões. A produção de extrato de lúpulo, vendido a R$ 2 mil o quilo, adicionaria outros R$ 11,9 milhões ao caixa anual.

Coppe/UFRJ tem projeto pronto para colocar de pé a cadeia do lúpulo no Brasil, e abre oportunidade para cidade se tornar referência no setor (Foto: Unsplash)
Coppe/UFRJ tem projeto para colocar de pé a cadeia do lúpulo no Brasil e abre oportunidade para cidade se tornar referência (Foto: Unsplash)

O modelo ainda prevê segurança econômica ao diversificar os clientes, estruturando fornecimento de extratos de lúpulo como bactericida natural para usinas de etanol, indústrias farmacêuticas e nutrição animal.

A demanda por insumo nacional de qualidade já é comprovada. Segundo Amanda, o laboratório recebe solicitações internacionais de 60 toneladas anuais e guarda cartas de intenção de compra assinadas por gigantes do mercado de bebidas.

Com a cadeia de produção estruturada, resta saber qual será a cidade que vai abraçar a iniciativa e se tornar a primeira produtora industrial de lúpulo do Brasil.

O texto que você (quase) não leu

Esta coluna quase não existiu. E não foi por falta de assunto, foi falta de tempo ou, sendo mais honesto, foi falta de espaço mental.

Os últimos dois meses têm sido intensos, voltei às origens, assumi uma área criativa. Desafio grande, daqueles que a gente quer fazer bem feito desde o primeiro dia. E junto com ele, vieram também novas responsabilidades, projetos, conversas e urgências. Coisas boas, mas que fazem o tempo, que já era curto, diminuir mais ainda.

No meio disso tudo, tinha essa coluna. Um compromisso que eu demorei pra assumir, justamente por falta de tempo. E quando assumi, não é que tivesse tempo de sobra, mas precisava desse momento e, desde então, ele fazia parte da minha rotina com algum respiro. Um espaço de pensamento e de pausa. Um momento de organização interna antes de virar texto.

Só que dessa vez, esse espaço não veio e ainda mandou uma pergunta: sobre o que escrever quando não dá tempo de pensar no que escrever?

O texto que você (espero) ainda tá lendo não era pra existir. Foi numa pausa pra um papo com um Celso interessado, insistente e tão crente na causa que me procurava há dias, sem resposta (nem no Whatsapp), que a resposta apareceu. Eu explicava justamente sobre a correria, o novo momento, a dificuldade de parar, quando percebi que talvez o texto fosse esse.

Não o que eu gostaria de ter escrito.
Mas o que eu precisava escrever. Porque às vezes, tudo que a gente precisa dizer é o que precisa ser dito. Nem mais, nem menos.

A vida adulta tem dessas coisas. A gente passa tanto tempo tentando dar conta de tudo que para de olhar o que interessa de verdade.

E isso não vale só para uma coluna.

Vale para aquele encontro que você adia, aquela conversa que a gente deixa pra depois, o happy hour com aquela cervejinha que vira o clássico “vamo marcar”.

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Vale principalmente pra esses espaços onde a vida não só passa, ela acontece de verdade.

Foi o próprio Celso, editor do Guia e dono de um repertório jornalístico de respeito, quem me lembrou de grandes cronistas que escrevem justamente sobre a falta de assunto.

A real é que nunca foi sobre falta de assunto. Foi mais um excesso de vida mesmo. E se o problema é estar tão imerso dentro de um fluxo caótico, a coisa mais honesta a fazer é escrever a partir dele.

Talvez esse texto seja isso. Um registro de que, mesmo quando tudo aperta, ainda vale a pena parar, nem que seja só pra reconhecer o caos. Ou pra trocar ideia com um velho amigo que, entre umas e outras, nos lembra do valor de compartilhar a verdade.

Porque, na real, o mais importante nem é dar conta de tudo. É não abrir mão do que importa enquanto a gente tenta, né não?


Eduardo Sena é publicitário, entusiasta cervejeiro, podcaster e agitador etílico-cultural. Com mais de 20 anos de experiência como criativo, é diretor de conteúdo do Hora do Gole HUB — plataforma que conecta cerveja, cultura, equidade e criatividade. Também colabora como estrategista e criativo para outras marcas.


* Este é um texto de opinião. As ideias e informações nele contidas são de responsabilidade do colunista ou articulista e não refletem necessariamente o ponto de vista do Guia da Cerveja.

Menu Degustação: Academia da Cerveja abre inscrições para curso de cerveja da VLB Berlin

A Academia da Cerveja abriu inscrições para a turma 2026 do curso de Tecnologia Cervejeira realizado em parceria com a VLB Berlin. A escola é a única fora da Alemanha a oferecer a certificação oficial dessa famosa instituição cervejeira alemã.

O curso de cerveja ocorre entre os dias 11 e 29 de maio, com aulas on-line e ao vivo, das 19h às 22h, via plataforma Zoom. O investimento é de R$ 2.490,00 (mais taxa de 10% da plataforma Sympla) e os interessados devem ter ao menos 18 anos.

O programa técnico abrange desde a análise de matérias-primas, como água, malte e lúpulo, até processos avançados de fermentação, maturação e controle de qualidade. Com conteúdo atualizado e ministrado por especialistas da indústria, o currículo inclui ainda aulas sobre diversidade no setor e eficiência energética.

A carga horária também contempla atividades práticas, como uma aula de brassagem na sede da Academia e visitas técnicas às unidades da Ambev — ambas podem ser feitas também de maneira virtual. As vagas para o curso de cerveja são limitadas e as inscrições devem ser realizadas pela plataforma Sympla.

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“Reset da Mesmice”: Quase metade dos brasileiros já não distingue seus gostos das recomendações de algoritmos

Um estudo inédito realizado pela Heineken em parceria com a consultoria Box1824 revela uma profunda crise de autonomia no consumo digital dos brasileiros. Segundo a pesquisa “Reset da Mesmice”, lançada oficialmente em abril de 2026 como desdobramento da campanha “Algoritmo”, 42,9% dos entrevistados admitem que já não conseguem diferenciar o que é seu gosto autêntico daquilo que foi sugerido por algoritmos de recomendação. O levantamento aponta que o desejo de retomar as rédeas das próprias escolhas é uma prioridade crescente, com 48,9% da população afirmando que pretende reduzir a dependência dessas sugestões automatizadas no futuro próximo.

A investigação surge em um momento de exaustão mental e busca analisar a tensão entre a conveniência tecnológica e a construção de repertório pessoal. O contexto do estudo indica que a lógica da previsibilidade, antes vista como uma facilidade, tornou-se uma barreira para o novo: para 37,7% das pessoas, a experiência digital atual assemelha-se a um “eterno looping”, onde o fator surpresa desapareceu. De acordo com os pesquisadores, essa padronização está gerando impactos diretos na identidade individual, fazendo com que 38,7% dos brasileiros passem a considerar o “ter um gosto próprio” — mesmo que não validado pelo coletivo — como um novo símbolo de luxo e autenticidade.

Os dados detalham que o impacto é mais agudo no setor cultural e social, com 60,9% dos brasileiros dependendo de plataformas como Spotify e TikTok para descobrir músicas, embora quase metade já questione se realmente gosta do que ouve. No campo das interações humanas, a “bolha” algorítmica gerou um efeito colateral de ansiedade, em que 30% relatam desconforto diante do imprevisível e 27,6% perderam a paciência para diálogos fora de seus interesses imediatos. Como resposta, o estudo identifica um movimento de “fuga” para o mundo físico: a corrida consolidou-se como o maior espaço de autonomia real para 63,8% dos praticantes, enquanto 73,9% dos entrevistados reafirmam a preferência por conexões presenciais em vez das relações mediadas por telas.

Corona lança garrafa de alumínio em escala no Rio

A Corona comercializará em escala, pela primeira vez, sua garrafa de alumínio “alu bottle” durante o evento Todo Mundo no Rio, que terá show da cantora Shakira, no Rio de Janeiro (RJ). A embalagem especial, que homenageia a capital fluminense, será um dos destaques no show da cantora Shakira. O recipiente foi projetado para permitir o ritual do limão no gargalo na areia de Copacabana, onde é proibido o uso de vidro. A peça, 100% reciclável, estará disponível com ambulantes, em quiosques e em uma área exclusiva da marca.

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Itaipava patrocina turnê de Mumuzinho

A Itaipava, marca do Grupo Petrópolis, é a cerveja oficial da turnê de dez anos do projeto Resenha do Mumu, do cantor Mumuzinho. O evento estreou em Belo Horizonte (MG) no sábado (25) de abril e percorrerá outras oito capitais, como Rio de Janeiro (RJ) em maio, São Paulo (SP) em agosto e Curitiba (PR) em outubro. Com bares exclusivos e camarotes, a marca reforça a parceria com o artista iniciada em 2020. O encerramento da turnê ocorrerá na capital fluminense, no sábado (12) de dezembro.

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Grupo Heineken promove harmonização de boteco

O Inside the Star, espaço do Grupo Heineken, iniciou na sexta-feira (1º) uma programação de harmonização com clássicos de boteco em Jacareí (SP) e Ponta Grossa (PR). Os visitantes podem participar de sessões que combinam estilos de cerveja com queijos e embutidos da charcutaria fina às sextas-feiras, às 14h, e aos sábados, às 10h e 14h. A ação segue até o domingo (30) de junho. Os ingressos para a experiência harmonizada custam R$ 80 e as vendas ocorrem pela plataforma Sympla para maiores de 18 anos.

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Budweiser lança campanha global com Haaland e Klopp

A Budweiser, cerveja oficial da Copa do Mundo Fifa 2026, lançou a campanha global “Let it Pour” com a participação do jogador Erling Haaland e do técnico Jürgen Klopp. A ação inclui a promoção Bud Fan Store, que sorteia TVs, cervejeiras e produtos licenciados entre consumidores que cadastrarem notas fiscais no hotsite oficial até o dia 20 de julho. A participação é restrita a maiores de 18 anos e as chances de ganhar dobram na compra da versão sem álcool Bud Zero.

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Heineken e GPA levam consumidores à final em Budapeste

O Grupo Heineken e o GPA realizam até o domingo (10) de maio a promoção “Passaporte para a Final”, que levará dois vencedores com acompanhantes para a decisão da UEFA Champions League em Budapeste, na Hungria. A cada R$ 50,00 em produtos da marca adquiridos em lojas como Pão de Açúcar e Extra, o cliente pode cadastrar a nota fiscal no site da campanha para gerar números da sorte. A iniciativa contempla passagens, hospedagem e ingressos para o espetáculo esportivo.

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Bodebrown promove feriado com rock e cerveja do Iron Maiden

Richie Kotzen e Adrian Smith degustam nova cerveja (Crédito: Gui Gluck / Bodebrown)
Richie Kotzen e Adrian Smith degustam nova cerveja (Crédito: Gui Gluck / Bodebrown)

A cervejaria Bodebrown, em Curitiba (PR), realiza programação especial para o feriado prolongado do Dia do Trabalho na sexta-feira (1º) e no sábado (2). O evento marca o lançamento da Run For Your Lives, sexta cerveja produzida em parceria com a banda Iron Maiden. O guitarrista do grupo, Adrian Smith, visitou a fábrica na quinta-feira (23) de abril, onde provou a nova Lager e tocou clássicos da banda de improviso para o público presente.

A agenda inclui cinco shows de rock, com destaque para tributos a AC/DC e Metallica no sábado. O público terá acesso a mais de 40 opções de chopes, além de um cardápio gastronômico com pratos de influência belga e alemã. No sábado, a fábrica abre mais cedo para um café da manhã solidário e oferece tours guiados com degustação. A entrada para o Growler Day é gratuita e ocorre na Rua Carlos de Laet, no bairro Hauer.

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Jazz Is Dead: projeto musical vira rótulo de cerveja em Minas e terá nova edição

Não é incomum curtir música apreciando uma boa cerveja. E, quando se trata de jazz, a cerveja precisa estar à altura da excelência musical. Unindo paixões, a cervejaria mineira Vinil, de Nova Lima (MG), decidiu engarrafar uma homenagem ao famoso selo fonográfico Jazz Is Dead e criou, no ano passado, dois novos rótulos: Jazz is Dead e Jazz Está Morto. A iniciativa deu tão certo que entrará em uma segunda edição neste ano, com novos lotes chegando ao público em maio e junho, para acompanhar festivais de música locais.

A inspiração, o Jazz is Dead, é um projeto cultural criado em 2017 por Adrian Younge e Ali Shaheed Muhammad, em Los Angeles (EUA). A iniciativa se tornou um selo musical que se propõe a gravar álbuns inéditos de mestres do jazz, soul e funk, de todo o mundo. Entre eles, há inclusive brasileiros, como Marcos Valle, Azymuth e João Donato.

Jazz e vinil, uma combinação perfeita

A cervejaria Vinil já trazia em seu DNA a ideia de unir a qualidade da cerveja ao amor pela música – não à toa leva o nome do formato de gravação que, ainda hoje, desperta paixões ao reproduzir música com ruídos característicos. 

A ideia de criar uma cerveja em homenagem ao projeto surgiu naturalmente, de acordo com o diretor executivo Alfredo Lanna, quando um dos sócios da cervejaria foi morar na Califórnia, berço do projeto, e chegou a trabalhar com a dupla idealizadora do Jazz is Dead.

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“Vimos uma sinergia muito grande com a marca, cultuando grandes nomes da música e com grande admiração pelo projeto com a música brasileira. Sabíamos de uma turnê que iria ocorrer em abril do ano passado junto de grandes nomes como Marcos Valle, Céu, Hyldon e Carlos Dafé e então preparamos duas receitas especiais”, conta. A turnê a que ele se refere é a “Something About April”, que aconteceu em abril do ano passado.

Cervejas com lúpulos nacionais e brincadeira com idiomas

Jazz Está Morto e Jazz is Dead, da Cervejaria Vinil. (Foto: Divulgação)

Lanna conta que, para materializar essa homenagem, foram produzidos dois lotes iniciais que somaram 10 mil litros de cerveja – 5 mil de cada rótulo. Ambos com lúpulos nacionais.

A cerveja Jazz Is Dead (em inglês) é uma Summer Ale refrescante que valoriza o terroir nacional ao utilizar o Lúpulo Mantiqueira. 

Já a cerveja Jazz Está Morto (em português) é uma Session IPA feita com uma variedade de lúpulo americano cultivado em solo mineiro.

Lanna explica que a decisão pelos nomes não tem relação com direitos autorais ou problemas de licenciamento. “O próprio projeto Jazz is Dead utiliza os nomes traduzidos dependendo do artista, tendo traduções em francês e espanhol também”, diz. 

“A repercussão foi muito boa, principalmente pelo nome curioso e provocativo do projeto. Muitos clientes mandaram mensagem falando que conheceram os discos através da cerveja”, lembra.

Novos lotes a caminho

Agora, novos lotes das cervejas estão a caminho. A Jazz Está Morto ficará pronta em maio e a Jazz Is Dead, em junho. A reedição, com lotes de 1 mil litros, foi escolhida para acompanhar os festivais de jazz e blues do meio do ano que ocorrem na região, como o Vijazz e o Ibitipoca Blues, onde a Vinil atende cerca de 15 mil pessoas e vende 8 mil litros de chopes e cervejas. 

Segundo Lanna, os fãs de música e cerveja poderão encontrar as cervejas no site Central da Cerveja assim que os estoques forem repostos.

Dia do Trabalho: 5 fatos históricos que mostram que a cerveja é a bebida do trabalhador

A história da cerveja é indissociável da história do trabalho. Muito antes de se tornar o símbolo do descanso após o expediente, a bebida foi utilizada como salário, nutrição e ferramenta de mobilização social. Desde as tavernas medievais até a fumaça dos pubs da Revolução Industrial, passando pela história dos Movimentos Trabalhistas, ela sempre serviu como o tecido social que uniu trabalhadores ao longo dos séculos. Para celebrar este 1º de maio em tempos de discussão de escala 6×1, Dia do Trabalho e do Trabalhador, a reportagem do Guia da Cerveja separou cinco fatos históricos que provam que a nossa “gelada” tem o DNA proletário.

1 – Salário em estado líquido

A relação entre cerveja e o trabalhador é tão forte que remonta à Antiguidade. Muitas das primeiras civilizações do mundo usavam a cerveja como parte do pagamento da mão de obra. Assim, um dos seus primeiros usos foi como salário. A prova mais célebre é uma tabuleta de argila de 3 mil a.C., pertencente ao acervo do Museu Britânico. O artefato funciona como um holerite ancestral, registrando as rações de cerveja distribuídas aos operários na cidade de Uruk, na Mesopotâmia. 

Pagar salário com cerveja também foi prática comum no Egito Antigo. Há várias inscrições que registram a prática e, dizem, até as pirâmides foram construídas com apoio da bebida, que garantia também hidratação e nutrição adequadas.

2 – Saison: o combustível das fazendas

Muito antes da cerveja chegar às grandes cidades ou ser produzida em indústrias, ela já era feita em fazendas, de uma maneira quase caseira. Até hoje existe um estilo de cerveja que conserva essa marca em sua história: a Saison.

No interior da Bélgica, a cerveja seguia o ritmo das estações. Os fazendeiros produziam a Saison durante o outono e inverno para vender aos saisonnieres — os trabalhadores temporários que chegavam para a plantação no verão e colheita na primavera.

Phil Markowski, mestre cervejeiro e um dos maiores especialistas norte-americanos em cervejas de fazenda, explica em seu artigo no Guia Oxford da Cerveja que a Saison era, acima de tudo, uma “cerveja de provisão”. Segundo ele, a produção atendia a três objetivos: refrescar os trabalhadores no verão, garantir ocupação para a mão de obra fixa durante o inverno e gerar bagaço para alimentar o gado. “Assim, a cerveja era produzida em uma estação, o inverno, para ser consumida na estação seguinte, o verão”.

Embora o sabor original tenha se perdido no tempo, as Saisons modernas preservam o caráter rústico, sendo bebidas leves, secas e refrescantes, marcadas por notas frutadas de laranja e um toque condimentado que remete à pimenta-do-reino. Experimente a Saison Dupont, uma das maiores referências do estilo que voltou a ser importada para o Brasil no início deste ano.

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3 – Grisette: A aliada dos mineiros

A cerveja acompanhou o trabalhador não apenas no campo, mas também até às minas de carvão. O Sul da Bélgica foi uma das primeiras regiões a se industrializar na Europa Continental entre o final do século 18 e o começo do 19. E havia uma grande necessidade de combustível para mover as novas máquinas.

A Grisette é uma espécie de variação da Saison que entrou para a história por ser muito apreciada especialmente pelos mineradores. Uma cerveja leve e refrescante, pensada especificamente para ajudar a “lavar a alma” e recuperar as energias após um dia exaustivo de trabalho braçal puxado nas profundezas da terra. O nome significa algo como “a pequena cinzenta”. E tem inúmeras explicações, nenhuma de fato provada. Pode fazer referência à sua aparência em geral turva, já que poderia levar trigo e aveia na receita, até mesmo uma menção à condição dos próprios trabalhadores pós-expediente, cobertos de cinzas.

4 – Porter: a “rockstar” da Revolução Industrial

Talvez uma das histórias mais conhecidas sobre a bebida e a classe trabalhadora seja a da Porter. Começa pelo nome, que é o mesmo dado aos estivadores do porto de Londres no século 18 — e que era usado por extensão para todos os trabalhadores braçais da região. Depois, ela se desenvolveu e se tornou o grande símbolo da Revolução Industrial, servindo de sustento para a nova massa de operários que surgia nas cidades. Martin Cornell, jornalista especializado em cervejas, autor de “A História das Cervejas Britânicas”, a considerava como a primeira cerveja rockstar do mundo.

Há várias histórias e lendas sobre sua criação. Uma delas é que teria surgido como uma mistura de cervejas com diferentes teores alcoólicos e envelhecimentos nos pubs. E os principais consumidores dessa bebida eram justamente os trabalhadores braçais. A mistura teria, então, sido institucionalizada e entregue pronta pelas cervejarias. 

A Porter foi uma das primeiras cervejas mais escuras do mundo, mesmo antes da invenção dos maltes torrados modernos. Tinha cor marrom escura e também foi uma das primeiras a receber maiores doses de lúpulo na Inglaterra — que até o século 16 não usava apenas uma mistura de ervas na bebida, o gruit. Hoje existem diferentes versões, mas se você quer provar algo mais próximo do original, a Fuller’s London Porter tenta justamente fazer referência a essas Porters iniciais.

5 – Bitters, German Lagers e o Movimento Trabalhista

As primeiras manifestações do Movimento Trabalhista aconteceram justamente na Inglaterra durante o século 19 como forma de reivindicar melhores condições de trabalho e menores jornadas — que podiam passar de 15 horas diárias naquela época. 

Mas as reuniões de trabalhadores eram ilegais até 1824. E muitos encontros se davam às escondidas entre uma cerveja e outra, até mesmo nos pubs. No cardápio, além da Porter e sua evolução natural preta e com mais maltes torrados, a Stout, havia também as Bitters, cervejas de cor mais claras, de âmbar a cobre em geral, e mais amargas que suas atecessoras. 

Esse tipo de cerveja foi se popularizando até as primeiras décadas do século 20, acompanhando o crescimento do movimento trabalhista europeu. Um bom exemplo contemporâneo é a Fuller’s London Pride, uma Special Bitter.

Nos Estados Unidos, no final do século 19, a cerveja muda, mas não as reivindicações. No dia 1º de maio de 1886 em Chicago, mais de 300 mil trabalhadores fizeram greve exigindo “8 horas de trabalho, 8 horas de descanso e 8 horas de vida”. Três dias depois, acontece o que ficou conhecido como massacre de Haymarket, quando uma bomba explode durante um protesto, seguida de repressão policial, prisões e execução de líderes trabalhistas. Em 1889, em Paris, a data de 1º de maio é instituída como símbolo da luta trabalhista.

A cerveja que acompanhava os trabalhadores da época e a German Pils, uma variação mais tradicional da Pilsen moderna. Mais lupulada e amarga, foi trazida da Europa pelos imigrantes germânicos que chegaram ao país nas décadas anteriores. Em Chicago, a grande maioria das cervejarias era de origem alemã. Um bom exemplo dessa cerveja hoje é a Frohenfeld German Pils, de Curitiba (PR).

O Brasil e o Dia do Trabalho

Trabalhadores começaram a comemorar a data no Brasil no início do século 20. Mas só se torna um feriado a partir de um decreto assinado pelo presidente Artur Bernardes em 1924. Em 1º de maio de 1943, Getúlio Vargas utilizou a data para assinar a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), instituindo salário mínimo e férias. E alterando o título para Dia do Trabalho, como explica o historiador e professor da Escola Dieese de Ciências do Trabalho, Samuel Fernando de Souza, em matéria da Agência Brasil.

Independentemente da nomenclatura ou da época, a cerveja se consolidou como a recompensa histórica para quem dedica a vida ao ofício. Neste feriado, seja com uma Porter robusta ou uma Pilsen refrescante, o brinde é para você, trabalhador.

Biotecnologia, diversificação e profissionalização da gestão marcam o congresso da Agrária

A 17ª edição do Congresso Técnico Internacional Agrária Malte foi além da formulação de receitas e estudos de processos, se mostrando também como um termômetro para os novos rumos do mercado cervejeiro brasileiro. Com um público de mais de 700 profissionais representando cerca de 500 empresas, o evento focou em temas contemporâneos que afetam as empresas do setor, como o aumento no uso de biotecnologia, a diversificação de produtos e a profissionalização da gestão.

Realizado no início do mês, entre 7 e 9 de abril, no Centro de Eventos Agrária, no distrito de Entre Rios, em Guarapuava (PR), o evento contou com participantes do Brasil e do exterior, como Paraguai e Argentina, numa estrutura robusta preparada para três dias de palestras, networking e negócios. Também contou com área de exposição com cerca de 40 fornecedores de insumos, equipamentos, atividades e consultoria.

“O evento estava cheio e o recado é que ali existe uma cultura para produção da cerveja com um olhar muito especial também para os pequenos produtores, para o craft”, avalia Gilberto Tarantino, presidente da Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva).

Nesse contexto, além dos conteúdos apresentados, o relacionamento com fornecedores e profissionais de outras empresas também se mostra como um ponto forte do evento. Para os participantes, como Danilo Favero (Cervejaria Guesser) e Leo Maciel (Eurochopp), o valor do evento residiu principalmente nessa troca. Algo que também foi reforçado do lado dos expositores, segundo Ana Carolina Machado, da HBS Distribuidora de Itajaí (SC), que participou pelo segundo ano consecutivo. “Esse contato proporcionado pelo Congresso é muito importante para pensarmos em soluções que atendam às necessidades do mercado”, diz. 

Gestão em foco

O tom dominante foi o da profissionalização. Se o mercado artesanal brasileiro já sabe fazer cerveja de qualidade, o desafio agora é a sustentabilidade financeira em um cenário maduro. Gilberto Tarantino destacou que o congresso focou na transição para a “vida adulta” das cervejarias. “Cerveja boa todo mundo faz, cerveja fresca todo mundo aprendeu a fazer. Agora a gestão, poucos sabem fazer. O foco foi em como crescer sem quebrar em um mercado que já está maduro”, diz o presidente da Abracerva repercutindo a palestra de Alexandre Willerding, da Sudlager.

O discurso foi reforçado por Jeferson Caus, Superintendente de Negócios da Agrária, como um dos objetivos do evento. “Queremos impulsionar o ecossistema cervejeiro nacional, para que ele seja cada vez mais forte e colaborativo, preparado para os desafios do mercado”, disse na abertura do evento. “É importante que os cervejeiros conheçam as receitas, mas que também entendam os números, para que possam trabalhar com eficiência.”

Essa preocupação com a eficiência foi reforçada também por Sylvie Van Zandycke, presidente da canadense Lallemand, que tratou a redução de custos de produção por meio da optimização de energia e tempo. Complementando o pilar de gestão, o evento trouxe discussões sobre controles obrigatórios do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) de Alinne Barcellos Bernd.

Biotecnologia: aromas de lúpulo via fermentação

No campo da inovação técnica, um dos spotlights foi a palestra da startup Evodia sobre a “próxima geração de aromas de lúpulo”. A tecnologia apresentada permite que o fermento produza os aromas desejados, reduzindo a dependência de grandes volumes de lúpulo físico e diminuindo perdas no processo.

Congresso Técnico da Agrária Malte revelou tendências e rumos do setor. Na imagem, Jeferson Caus , superintendente da Agrária Malte (esq.), Gilberto Tarantino, presidente da Abracerva, e Adam Stemmer CEO da Agraria Malte (dir.). (Crédito: Gilberto Tarantino / Arquivo Pessoal)
Congresso Técnico da Agrária Malte revelou tendências e rumos do setor. Na imagem, Jeferson Caus , superintendente da Agrária Malte (esq.), Gilberto Tarantino, presidente da Abracerva, e Adam Stemmer CEO da Agraria Malte (dir.). (Crédito: Gilberto Tarantino / Arquivo Pessoal)

Segundo Tarantino, trabalhos como esse, de biotecnologia, foram uma das trendências mais fortes observadas no evento. Ele também destaca a palestra de José Antunes, coordenador dos cursos de cerveja da Agrária. “Falou sobre fermentação de uma maneira muito didática, muito boa para entender, até para os não técnicos”.

Além disso, a Agrária Malte aproveitou o fórum para lançar o seu novo Malte Melanoidina, um insumo aromático desenvolvido para conferir notas de casca de pão, caramelo e amêndoas torradas, além de uma coloração avermelhada intensa.

Das bebidas não alcoólicas aos destilados

O congresso também mostrou que a planta fabril cervejeira está se tornando mais multifuncional. A diversificação de portfólio apareceu em duas frentes principais: bebidas não alcoólicas e destilação. Tarantino observou que o segmento sem álcool está “galopando”, tendo até as águas lupuladas como opção de produto além da própria cerveja sem álcool. E essa diversificação vem se tornando um caminho irreversível para o setor. Uma das palestras mais concorridas abordou justamente como as cervejarias podem utilizar seus insumos e subprodutos para produzir destilados, ministrada por Alexander Weckl, da própria Agrária Malte.

O caminho e os desafios para brasileiros estudarem ciência cervejeira na KU Leuven

Ser aprovado na pós-graduação na área de cervejaria em uma das mais prestigiadas universidades europeias não é tarefa fácil para a maioria dos brasileiros. A barreira do idioma e o custo financeiro costumam ser um sarrafo alto para quem quer se especializar, mas a experiência de um mestre cervejeiro artesanal que está trilhando este caminho mostra como é possível colocar o sonho em prática. Ao falar de uma das universidades mais prestigiadas da Europa, estamos nos referindo à Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven), considerada a instituição mais inovadora de ensino europeu. E ela fica nada mais nada menos que na Bélgica, o país em que a cultura cervejeira ostenta o título de Patrimônio Imaterial da Humanidade pela Unesco.

Para o mestre cervejeiro Marcelo Crosta, essa imersão na herança belga aliada à ciência de ponta já é uma realidade diária. Com mais de quinze anos de dedicação ao setor, a sua trajetória teve início de forma bem tradicional, como um entusiasta que produzia cerveja em casa e frequentava as mesas do icônico bar FrangÓ, em São Paulo, reconhecido pelas cervejas artesanais. A partir das panelas caseiras, Crosta se tornou aprendiz, fundou a Cervejaria Landel junto com dois sócios e, antes de se mudar para a Bélgica, exercia o cargo de gerente industrial e responsável técnico na cervejaria paulistana Tarantino.

Transição profissional aos bancos acadêmicos

A chegada à KU Leuven ocorreu em setembro de 2025 para ingressar em um programa de dois semestres, que se estende até junho. A transição da intensa rotina profissional nas fábricas de volta para os bancos acadêmicos representou uma mudança gigantesca, explica Crosta, em entrevista ao Guia da Cerveja

Ele conta que o ritmo é bastante intenso e demanda um elevado nível de disciplina para dar conta do volume de aulas, trabalhos e avaliações. A carga horária é grande, correspondendo a cerca de 1.350 horas de estudo, mas o maior desafio, para Crosta, está na quantidade de estudo autônomo exigido fora do ambiente da sala de aula. Segundo ele, não dá para tratar o curso como uma atividade secundária, já que ele exige dedicação em tempo integral.

Formação focada em pensamento científico

Mas, vale a pena todo esse esforço? Para Crosta, sim. O esforço se paga nas descobertas vivenciadas ao longo da formação. “O curso não foca em receitas prontas, mas no pensamento científico. Ele nos ensina a metodologia para desenvolver processos, novos insumos e tecnologias”, diz.

E, para quem gosta, isso é quase a descrição do paraíso. Crosta relata viver “momentos de epifania” quase todas as semanas, ao desvendar as vias bioquímicas que regulam os sabores, os princípios científicos por trás da maquinaria moderna e os detalhes dos testes sensoriais. 

O ambiente acadêmico também é enriquecido por uma turma que ele descreve como um “caldeirão multidisciplinar”, reunindo desde cervejeiros profissionais a engenheiros mecânicos, químicos e cientistas agrônomos, refletindo perfeitamente a complexidade de uma operação cervejeira de larga escala.

Visitas técnicas em cervejarias históricas

Marcelo Crosta, brasileiro que está fazendo pós-graduação na KU Leuven, durante visita prática na Bélgica. (Foto: Arquivo Pessoal)

O rigor científico ganha ainda mais peso quando aliado ao acesso a locais emblemáticos da indústria. Longe de serem passeios turísticos, as visitas técnicas permitem aos alunos imersões educacionais profundas em cervejarias históricas. “Entrar na Boon, na Brasserie Dupont, na Stella Artois ou na Boortmalt com um olhar técnico, sendo recebido por lendas como o Frank Boon, é indescritível”, afirma. “Você alterna entre o foco total na ciência e a empolgação de quem sabe que está pisando no ‘solo sagrado’ da história cervejeira”, fala.

Quer estudar na KU Leuven? Foque em planejamento

Para os que desejam seguir o mesmo caminho, o planejamento rigoroso é a palavra de ordem. O brasileiro conta que começou as conversas com a secretaria da universidade em novembro de 2024 e enviou a sua candidatura oficial em fevereiro de 2025, num processo de preparação que durou cerca de dez meses até o embarque. 

O primeiro obstáculo inegociável é o idioma, sendo fundamental a aprovação em testes de proficiência, já que a profundidade das discussões e a complexidade do vocabulário técnico exigem um inglês “muito confortável”.

Financeiramente, além do custo de vida mensal na cidade de Leuven, que varia entre 800 e 1.000 euros segundo Crosta, o governo belga exige a criação de uma “Conta Bloqueada” com o total de recursos necessários para a estadia na Bélgica. Este mecanismo obriga o estudante a depositar uma quantia significativa de dinheiro de forma antecipada para comprovar as suas condições de subsistência. O valor é devolvido em parcelas mensais, mas requer uma elevada liquidez financeira inicial por parte do candidato. 

Para o ano letivo de 2026/2027 foram fixadas taxas de 6.950 euros, que incluem o transporte entre as diferentes unidades da KU Leuven, todas as visitas externas e todos os materiais necessários para as aulas práticas e os momentos de produção de cerveja. Convertendo para o real (considerando uma cotação de R$ 6), o valor daria quase R$ 42 mil.

Já a burocracia para o processo de emissão do visto junto à embaixada também exige bastante antecedência, paciência com os trâmites demorados e organização com os custos administrativos envolvidos.

Brasileiro Marcelo Crosta (com a garrafa) em visita a cervejarias belgas como parte da pós-graduação da KU Leuven. (Foto: Arquivo Pessoal)

Apesar dos custos e da burocracia, a vida de estudante em Leuven oferece compensações atrativas para equilibrar o orçamento, como o uso de bicicletas alugadas por valores muito baixos, ônibus locais amplamente subsidiados e cervejas belgas de classe mundial a preços estudantis nos chamados Bares das Faculdades, conta Crosta.

Com o diploma se aproximando, Crosta já delineia os seus próximos passos e deixa portas abertas, ressaltando que as possibilidades profissionais que o curso oferece são gigantescas no exterior. 

Ainda assim, o seu grande objetivo é retornar ao Brasil para aplicar essa precisão científica no desenvolvimento de produtos, continuando o trabalho de sempre, mas munido de uma base técnica muito mais forte e capaz de solucionar os complexos desafios de produção do nosso mercado. “Aplicar isso na realidade brasileira é totalmente viável e empolgante, justamente porque agora tenho a base científica para resolver desafios complexos de produção.”

Abracerva vence recurso na Justiça e cervejarias se mantêm desobrigadas de registro no CREA-SP

A 4ª Turma do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF3) manteve as cervejarias filiadas à Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva) desobrigadas de registro no Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de São Paulo (Crea-SP). A decisão foi tomada no início deste mês após recurso apresentado pelo Conselho. O objetivo era derrubar um mandado de segurança coletivo concedido pela 7ª Vara Cível Federal de São Paulo em julho de 2025 em favor da entidade cervejeira.

Na prática, a Justiça manteve o entendimento de que sem atividade de engenharia como atividade-fim de uma empresa, não há obrigação de registro. A decisão também confirma a anulação de multas, autuações e débitos aplicados indevidamente. 

Fabricação de cerveja não é exclusiva da engenharia

O caso teve origem em um mandado de segurança ajuizado pela Abracerva após diversas cervejarias serem autuadas e multadas com base na alegação de que a atividade de fabricação de cerveja exigiria registro no CREA. Segundo o Conselho, essa atividade estaria vinculada à área da engenharia, o que foi contestado pela entidade representativa do setor.

“Ao analisar o recurso, o Tribunal reforçou que o critério legal para obrigatoriedade de registro em conselhos profissionais é a atividade básica da empresa, conforme previsto na Lei nº 6.839/1980. No entendimento dos desembargadores, a fabricação de cervejas e chopes, por si só, não configura atividade privativa de engenharia, não justificando a fiscalização ou a exigência de registro pelo CREA”, explica André Lopes, do escritório Lopes Verdi Advogados, diretor Jurídico da Abracerva.

Lopes também enfatiza que outro ponto relevante destacado na decisão é que normas infralegais, como resoluções do CONFEA, não podem ampliar obrigações que não estejam previstas em lei. Assim, eventuais tentativas de enquadrar o setor cervejeiro com base em regulamentações administrativas foram consideradas inválidas, explica o advogado.

“A decisão representa mais um importante precedente para o setor, consolidando o entendimento de que a atividade cervejeira não se submete automaticamente às exigências dos conselhos de engenharia, devendo ser analisada à luz de sua atividade principal”, diz.

CREA-SP defende rigor técnico na produção cervejeira

Em nota ao Guia da Cerveja, o CREA-SP diz que respeita as decisões do Judiciário, mas sinaliza que continuará buscando “soluções que conciliem o desenvolvimento econômico com a proteção da sociedade”. O órgão argumenta que a fabricação de cerveja não é apenas um processo cultural, mas uma operação industrial de alta complexidade que envolve riscos à integridade física da população.

O conselho sustenta que etapas como o cálculo estequiométrico de insumos, o dimensionamento de trocadores de calor e o controle de processos físico-químicos exigem, obrigatoriamente, a supervisão de um profissional habilitado por serem de natureza técnica, em especial do ramo da Engenharia Química. Para a autarquia, a presença de um responsável técnico não deve ser vista como uma “exigência formal”, mas como um instrumento essencial de segurança alimentar e operacional.

“Além disso, em razão da própria natureza dessas atividades, que pressupõem a atuação de profissional habilitado, entende-se que a pessoa jurídica que as desenvolve deve estar sujeita ao registro no Conselho profissional competente, justamente para assegurar a vinculação de responsável técnico regularmente habilitado, em conformidade com a legislação vigente”, diz a nota, citando que atividades técnicas como as citadas estão na Resolução nº 218/1973 do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea).

As cervejarias já estão sujeitas à obrigação de ter responsável técnico, porém, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), que regula o setor de bebidas, esse profissional não precisa ser exclusivamente engenheiro ou químico. Há casos de biólogos, técnicos industriais e farmacêuticos cumprindo essa função.

Leia a íntegra da nota do CREA-SP:

Nota ao Guia da Cerveja

O Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo (Crea-SP) vem a público reafirmar seu compromisso com a proteção da sociedade, a segurança dos processos produtivos e a valorização do exercício profissional na área tecnológica, sempre pautado pelo diálogo institucional e pelo respeito às decisões do Poder Judiciário.

A atuação do Crea-SP tem caráter essencialmente preventivo e orientativo, buscando assegurar que atividades técnicas com potencial de impacto à saúde, à segurança e à integridade física da população sejam conduzidas por profissionais legalmente habilitados, com formação adequada e responsabilidade técnica definida.

No caso da produção cervejeira, reconhece-se a relevância econômica e cultural do setor, ao mesmo tempo em que se destaca que o processo produtivo envolve etapas de natureza técnica complexa, que demandam conhecimento especializado. A fabricação de cerveja compreende operações que envolvem controle de processos físico-químicos, dimensionamento e operação de equipamentos industriais, controle de qualidade, automação e gestão de resíduos, elementos que dialogam diretamente com competências típicas da Engenharia, especialmente da Engenharia Química.

Atividades como o cálculo de insumos com base em princípios de estequiometria e balanços de massa, o dimensionamento de tanques de fermentação e trocadores de calor, bem como o controle rigoroso de variáveis operacionais, exigem domínio de áreas como Transferência de Calor e Massa, Operações Unitárias, Mecânica dos Fluidos e Controle de Processos. Tais atribuições encontram respaldo nas disposições da Resolução nº 218/1973 do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), que estabelece as competências profissionais relacionadas à supervisão, planejamento, projeto, operação e controle de processos industriais, inclusive na indústria de alimentos.

Nesse contexto, a presença de responsável técnico não se configura como exigência meramente formal, mas como instrumento de garantia à sociedade de que tais atividades serão conduzidas sob critérios técnicos adequados, mitigando riscos e assegurando a qualidade dos produtos e a segurança das operações.

Além disso, em razão da própria natureza dessas atividades, que pressupõem a atuação de profissional habilitado, entende-se que a pessoa jurídica que as desenvolve deve estar sujeita ao registro no Conselho profissional competente, justamente para assegurar a vinculação de responsável técnico regularmente habilitado, em conformidade com a legislação vigente.

O Crea-SP reitera seu respeito às decisões judiciais e permanece à disposição para o diálogo institucional, contribuindo tecnicamente para o aprimoramento das interpretações e para a construção de soluções que conciliem o desenvolvimento econômico com a necessária proteção da sociedade.

Latas de alumínio batem 34,1 bi de unidades em 2025; água, drinks e cachaça ganham espaço

O setor brasileiro de latas de alumínio para bebidas encerrou o ano de 2025 batendo a marca de 34,1 bilhões de unidades comercializadas, o segundo maior número já registrado, de acordo com os dados divulgados pela Associação Brasileira da Lata de Alumínio (Abralatas). O recorde ficou com o ano de 2024, com 34,8 bi de latas vendidas.

Segundo a Abralatas, ao analisar os dados do mercado, é possível observar uma mudança no perfil de consumo de bebidas em lata. As categorias tradicionais, como cerveja e refrigerantes — que continuam respondendo pela maior fatia do volume de latas — registraram uma leve retração no ano. Segundo o levantamento, esse recuo é reflexo de um consumo mais cauteloso por parte dos brasileiros ao longo de 2025.

Novos segmentos ganham espaço nas latas de alumínio

Por outro lado, o motor que manteve o setor aquecido migrou para novos segmentos que vêm ganhando cada vez mais espaço nas gôndolas e alterando os hábitos de consumo.

O grande destaque percentual foi a água em lata, que cresceu 24% em relação ao ano anterior e já se firma como a principal aposta da indústria para os próximos anos, mesmo ainda representando uma fatia pequena do total de vendas. As categorias de drinks prontos, cachaça em lata, energéticos e sucos também apresentaram avanço significativo.

“Passamos de um mercado concentrado em duas categorias para um setor que acompanha a fragmentação dos hábitos de consumo”, afirma Cátilo Cândido, presidente executivo da Abralatas. Ele ressalta que o fato de o setor conseguir operar acima do patamar de 34 bilhões de unidades, mesmo sem o tradicional impulso puxado pela cerveja e pelo refrigerante, comprova a robustez atual da indústria de embalagens.

Apostas para 2026

O otimismo gerado por essa diversificação está se traduzindo em investimentos em infraestrutura. A indústria trabalha hoje com a premissa de um crescimento contínuo na demanda e, por isso, tem movimentado o parque fabril nacional. A empresa Ball, por exemplo, reabriu fábricas no estado de Minas Gerais. A multinacional Ardagh investiu recentemente na ampliação da sua capacidade instalada. A Canpack está com planos de inaugurar uma nova unidade produtiva na cidade de Poços de Caldas (MG), e a Crown está em processo de expansão da sua fábrica localizada em Ponta Grossa (PR).

Com a maturação desses investimentos fabris, a Abralatas já projeta um novo ciclo de alta para o mercado em 2026. A expectativa de crescimento está fundamentada na consolidação dessas novas categorias de bebidas em lata. Além disso, há também um calendário de eventos que favorece o consumo, incluindo uma série de feriados prolongados e a Copa do Mundo.

“A diversificação deixou de ser tendência e virou estrutura”, completa Cândido. “É isso que nos dá confiança para projetar crescimento mesmo em um cenário macroeconômico incerto”, finaliza.

Vai Brasa! Harmonizações com cervejas medalhistas do World Beer Cup 2026

Em primeiro lugar: sim, é um péssimo slogan. Não vai pegar. É a nova caxirola (2014 feelings – bad feelings). Em segundo lugar, notícia fresquíssima, o Brasil levou 5 medalhas na quarta-feira (22) no World Beer Cup – a Copa do Mundo das Cervejas, anualmente conduzida pela Brewers Association (BA). Para ter uma noção do tamanho da competição, este ano foram pouco mais de 8 mil cervejas avaliadas, quase três vezes mais do que nas competições nacionais.

Foram elas: 

  • Cervejaria Unika – Catharina Sour Caju & Pitanga
  • Cervejaria Unika – The Famous Gose – Morango e Pitanga. 
  • 277 Craft Beer – Frutas Vermelhas 277 – Wood Aged
  • Cervejaria Stannis – Kapitan Lisa (Adambier)
  • Cervejaria Daroravida – Terminus 2026

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Ainda não tive oportunidade de degustar nenhuma delas e fiquei imaginando harmonizações com cervejas campeãs. Do mais fácil para o mais difícil – e daria um bom jantar de três a quatro tempos.

Harmonizações com cervejas campeãs

Ambas as cervejas da Unika são ácidas, com baixo teor alcoólico e com protagonismos das frutas. São de Santa Catarina. Com certeza eu iria de ostras! Aliás, eu levaria essas cervejas no Puro Oyster Bar no Jurerê. Vi o Pedro Soares “confeitar” ostras com vinagres, salicórnia e outras coisas superinteressantes quando o conheci na Feira Selvagem em 2023.

Imagino a Frutas Vermelhas 277 – Wood Aged, ácida, frutada e com presença de madeira com carnes vermelhas ou de caça, ou mesmo um magret malpassado (o único ponto correto do magret) com molho de redução da própria cerveja.

Aqui a coisa se complexifica. Eu, sinceramente, não me recordo de ter degustado sequer algum exemplar de Adambier. Tive que recorrer ao guideline

A Adambier é um estilo histórico de cerveja originário de Dortmund, na Alemanha. Trata-se de uma ale forte, escura e complexa, que se destaca pelo seu longo processo de maturação e perfil maltado robusto. Tradicionalmente, essas cervejas podem apresentar notas ácidas ou levemente defumadas devido ao envelhecimento extensivo em barris de madeira. O diferencial está no envelhecimento: o tempo em madeira pode adicionar um caráter de Brettanomyces ou acidez lática, mascarando parte do perfil original de malte e lúpulo. Embora versões modernas possam omitir o defumado, o estilo tradicional frequentemente inclui um toque de fumaça e pode, ocasionalmente, levar trigo na composição.

A Kapitan Lisa tem 9% de ABV e é uma cerveja robusta. Poderia acompanhar perfeitamente um toscano (charuto italiano defumado) após a refeição.

Já a Términus 2026, uma Barley Wine envelhecida em castanheira, merece um queijo azul brasileiro. Cuesta azul da Pardinho, com sua massa macia e untuosa, aromas e sabores pungentes do penicilinum, com sua casca levemente amarga. Tudo ali se encontra bem com uma cerveja potente, de alto teor alcoólico, frutada e com madeira.

Deu fome! Vai Brasa! Saúde!


Jayro Neto é somelelê, CFO, auxiliar administrativo e sócio da Cozalinda. É sommelier de cervejas desde 2015, campeão do Campeonato Brasileiro de Sommelier de Cervejas de 2019. Também atua como diretor financeiro da Abracerva desde 2022, é juiz BJCP Certified e coautor do livro Guia da Sommelieria Brasileira.


* Este é um texto de opinião. As ideias e informações nele contidas são de responsabilidade do colunista ou articulista e não refletem necessariamente o ponto de vista do Guia da Cerveja.