Balcão do Tributarista: A redução do ICMS para cervejarias no RS
A última sexta-feira de 2019 foi de boas notícias para o setor cervejeiro do Rio Grande do Sul, com a publicação de um decreto que estabelece a redução da alíquota do ICMS – Substituição Tributária para as microcervejarias gaúchas.
Ao todo, foram publicados cinco diferentes decretos que, além de beneficiar o setor cervejeiro, preveem reduções de alíquotas e outros benefícios também para os setores coureiro-calçadista e de cereais, bem como para fabricantes de estruturas metálicas, de transformadores de grande porte e de placas eletrônicas.
No que se refere às microcervejarias, o Decreto Estadual nº 54.966, publicado no Diário Oficial do Rio Grande do Sul de 27/12/2019, modifica o regulamento do ICMS (RICMS) para reduzir a alíquota utilizada no cálculo da substituição tributária de 27% para 13% no período de 1º de abril a 31/12/2020.
O decreto traz alguns pontos que precisam ser observados com atenção pelos empresários do setor. Um exemplo é o alcance da redução: enquanto a Associação Gaúcha de Microcervejarias (AGM) considera como microcervejarias aquelas que produzem até 500 mil litros por mês, o decreto limita o alcance do benefício a uma produção de até 200 mil litros mensais.
Outra questão é que o decreto expressamente classifica como cerveja e chope artesanais “os produtos elaborados a partir de mosto cujo extrato primitivo contenha, no mínimo, 80% (oitenta por cento) de cereais maltados ou extrato de malte”.
Ainda, esta medida reforça a importância de um boa assessoria e da correta escolha do regime de tributação, conforme já abordamos anteriormente. É que a redução somente irá beneficiar os optantes do Regime Geral, não abrangendo quem opta pela sistemática do Simples Nacional. Então, é preciso aproveitar o prazo ainda disponível para fazer a opção pelo regime tributário para verificar se, com essa redução do ICMS, o Regime Geral não passa a ser mais vantajoso para quem está atualmente enquadrado no Simples.
Sem dúvida, é uma importante medida do governo gaúcho, representando um significativo ganho para o setor, uma vez que haverá uma notável redução da carga tributária e, consequentemente, uma possível diminuição do preço final das cervejas artesanais, tornando-as ainda mais competitivas. Assim, ganham as cervejarias e ganham os consumidores.
O ano de 2019 ficou para trás e encerrou a segunda década dos anos 2000. E, agora, é momento de pensar no 2020 cervejeiro. Se os últimos anos foram de consolidação do mercado de artesanais, é preciso ponderar que todo crescimento vem acompanhado de desafios profundos. Transformar um mercado amador e de nicho em uma cadeia profissionalizada requer ações concomitantes e difíceis de serem implementadas.
Entre os grandes desafios dos empreendedores cervejeiros estão melhorar a produtividade das suas empresas, aumentar a qualidade dos produtos, conquistar novos consumidores e se adequar às novas normas técnicas do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).
Em busca dessa reflexão, o Guia ouviu dez especialistas de diferentes áreas, que projetaram os desafios do setor para 2020. Confira.
Bia Amorim, sommelière, editora da Farofa Magazine e jurada do Eisenbahn Mestre Cervejeiro O ano de 2020 vai ser um desafio pois, com o otimismo na economia, o crescimento chega, mas estarmos prontos é outra prateleira. (…) O desafio da nova rotulagem vai ser algo a ser observado, assim como as consequências das novas mudanças na liberdade de ingredientes a serem colocados nas receitas. (…) O país está em foco e muitas cervejarias estão concentrando esforços por aqui. Mas, com a alta do dólar, só ganha quem produzir “in loco”. (…) Estou curiosa para ver uma melhora no conteúdo postado pelas redes sociais das marcas – e não apenas recebido de influenciadores. (…) Mas a minha maior torcida talvez seja comprar menos cerveja oxidada, com contaminação, diacetil e erros crassos com o mesmo preço de cerveja bem-feita e agradável.
Carlo Lapolli, presidente da Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva) Além da recuperação econômica, estamos de olho em 2020 na reforma tributária que está no Congresso. A preocupação é que o chamado imposto seletivo não impacte nas pequenas cervejarias, por isso estaremos acompanhando de perto a evolução da reforma tributária em Brasília.
Clairton Kubaszwski Gama, especialista em Direito Tributário pelo Instituto Brasileiro de Direito Tributário (IBET), e Daniela Froener, especialista em Propriedade Intelectual pela World Intellectual Property Organization (WIPO) Todas as questões (jurídicas de 2019) deixam clara a importância de se estar bem assessorado em todos os aspectos que envolvem o negócio. Não apenas na parte técnica ou financeira, mas uma assessoria também na parte jurídica se mostra fundamental para que o crescimento possa ser realizado com a maior segurança jurídica possível, evitando litígios que, invariavelmente, podem acabar resultando em prejuízos financeiros.
Euclydes Minella, pesquisador da Embrapa Trigo Os resultados satisfatórios da cevada em 2019 permitem prever que, para a safra de 2020, a área cultivada seja no mínimo igual a presente, com boas possibilidades de aumento.
Humberto Saldívar, presidente do concurso Aro Rojo, no México Sabemos que o desafio será grande na América Latina e, por isso, acreditamos no potencial do concurso cervejeiro como um aliado no fortalecimento do mercado. Temos grandes expectativas.
Nadhine França, consultora cervejeira, fundadora da Maria Bonita Beer e responsável pelo braço de diversidade da Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva) Espero que para 2020 mais cervejarias – hoje a gente tem algumas que já pensam assim – e negócios cervejeiros pensem na importância social e comercial, mercadológica mesmo, de ter uma diversidade dentro do seu negócio, mesmo que seja uma parte do negócio. Trazer artistas mulheres para fazer as artes dos rótulos, pensar em contratar empresas femininas para fazer trabalho de mídia social.
Percival Maricato, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) As cervejas especiais e premium continuam crescendo no portfólio de cervejas e o gosto do público em bares e restaurantes continua o mesmo: preferência por cerveja, apesar de alguns destilados, como o gin, terem sido destaque no ano passado.
Rodrigo Jordão Rosa, presidente da Associação dos Cervejeiros Artesanais Paulistas (Acerva Paulista) Nossa associação está mais forte, com uma estrutura melhor e maior engajamento dos associados. A Acerva Brasil também está se organizando com um importante movimento nacional para integrar os cervejeiros caseiros de todo o país, e isso trará benefícios para quem faz sua própria cerveja.
Sady Homrich, cervejeiro, sommelier, jurado do consurso Mestre Cervejeiro da Eisenbahne baterista do Nenhum de Nós Em 2020 haverá um filtro em relação ao custo-benefício. Algumas cervejarias já conseguem ser competitivas mantendo a qualidade. 2020 será o ano do “beba local”, pois a carga tributária e a pulverização das microcervejarias pelo país privilegiam o consumo local.
Taiga Cazarine, jornalista e beer sommelier No mundo todo você vê cervejarias pequenas lutando para sobreviver e pagar as contas – e usando a criatividade para isso. Nos EUA, que é uma referência de mercado maduro para nós, também acontece a mesma coisa que acontece no Brasil: os cervejeiros enfrentam muitos desafios e ainda possuem dificuldades para levar o conhecimento dos estilos aos consumidores. É assim na Espanha, na Itália e em Portugal. Isso mostra que o Brasil está no caminho certo: as dificuldades sempre existirão, mas as cervejarias brasileiras estão evoluindo.
É normal testemunhar ou mesmo protagonizar resoluções de ano novo que incluam a diminuição do consumo de álcool, como não beber até o carnaval, passar janeiro sem álcool ou desenvolver regras próprias para começar o ano bebendo menos. Nos Estados Unidos e na Inglaterra, essa prática ganhou um apelido e se populariza a cada ano. Em 2020, é a vez de grandes cervejarias, como Heineken, e médias, como a Brewdog, se engajarem no Dry January, o Janeiro Seco.
Esse movimento de zerar o consumo de álcool em janeiro teve origem na Finlândia, em 1942. Já em 2011 Emily Robinson, CEO da Alcool Concern, uma organização britânica voltada à causa do alcoolismo, ficou o mês sem beber para se preparar a uma prova de meia maratona, publicou sua experiência e incentivou pessoas a fazerem o mesmo no ano seguinte.
Em 2013, por fim, o Dry January foi estabelecido oficialmente como campanha, endossada por diversas entidades ligadas à causa. Segundo pesquisa da organização, 4,2 milhões de britânicos aderiram ao desafio em 2018.
E os efeitos da preocupação com o consumo excessivo já têm mexido com o mercado. Nos últimos dois anos, a venda de cervejas com teor alcoólico de 1.2% ou menor aumentou drasticamente no Reino Unido.
Segundo a consultoria Mintel, 28% das pessoas que se declaram consumidores de bebidas alcoólicas afirmam estar cortando o volume consumido por conta de preocupações com a saúde, enquanto dados da EeBria Trade mostram que as vendas de cerveja sem álcool aumentaram 381% desde 2017.
De carona na tendência do Janeiro Seco, a cervejaria escocesa Brewdog abriu nesta segunda seu primeiro bar dedicado unicamente às cervejas sem álcool em Londres. São 15 torneiras de rótulos não-alcoólicos (ABV abaixo de 0,5%) da marca. Além disso, a cervejaria promove “refil grátis” de cervejas sem álcool em sua rede de bares pelo mundo.
Nos EUA, pesquisa de 2019 mostrou que 23% das pessoas planejavam passar um mês sem beber. Embarcando nessa onda, a Heineken promoverá, durante o mês de janeiro, a entrega de “kits” para que os consumidores aproveitem o mês sem álcool, mas também sem deixar de aproveitar sua cervejinha diária.
Assim, caixas com 31 garrafas long neck de Heineken 0.0 e um calendário foram distribuídos em Nova York, Los Angeles, San Francisco, Filadélfia, Boston, Las Vegas e Washington DC.
“Com mais de 20% das pessoas que bebem aderindo ao Dry January, achamos que a Heineken 0.0 pode liderar as vendas e lucros ao engajar aqueles que ainda querem uma cerveja, mas estão resolvidos a deixar a bebida por um tempo”, afirma Meredith Kiss, gerente da marca.
Ainda nos EUA, a MolsonCoors aproveitou o momento para uma “releitura” da proposta, sugerindo um janeiro nem totalmente seco, nem exagerado, mas com o consumo de sua marca Miller64, que tem 64 calorias e apenas 2,8% ABV.
Os produtores de cevada conseguiram superar um cenário de clima adverso para que 2019 terminasse sendo positivo para a sua safra. Essa é a avaliação de Euclydes Minella, pesquisador da Embrapa Trigo, apontando uma produtividade de cerca de 3.500 kg/ha, valor alcançado mesmo com as dificuldades encontradas na região Sul, onde se concentra a produção do cereal cervejeiro no Brasil.
“A safra de cevada pode ser considerada positiva considerando-se o clima desfavorável, com seca prolongada no Paraná e excesso de chuvas na colheita no Rio Grande do Sul e Santa Catarina. A produtividade nacional média deve ficar ao redor de 3.500 kg/ha, que pode ser considerada boa diante das adversidades climáticas”, afirma Minella ao Guia.
O pesquisador destaca, porém, que o excesso de chuva afetou a colheita no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, com uma parcela da safra não conseguindo atingir o padrão de qualidade exigido para ser utilizada pela indústria cervejeira. Com isso, parte da produção precisou ser descartada, provocando prejuízos aos produtores desses estados.
“Enquanto no PR, SP, MG e GO a qualidade da colheita foi boa, no RS e SC cerca da metade não atingiu o padrão cervejeiro, sendo destinada a outros usos, principalmente alimentação animal. Os motivos para descarte foram perdas de poder germinativo e contaminação por micotoxinas causada por Fusarium graminearum”, explica o especialista.
Nesse cenário, Minella aponta que a produtividade média da cevada no último ano foi, respectivamente, de 2.000, 3.000, 3500, 4.500 e 4.700 kg/ha em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul, no Paraná, em São Paulo e conjuntamente em Goiás e Minas Gerais.
São dados que, em sua avaliação, indicam um cenário positivo para a produção do cereal cervejeiro no ano recém-iniciado. “Os resultados satisfatórios permitem prever que, para a safra de 2020, a área cultivada seja no mínimo igual a presente, com boas possibilidades de aumento”, conclui Minella.
A Carvoeira manteve o status de referência no mercado de cervejas artesanais em 2019. Rótulo da catarinense Lohn Bier, a cerveja recebeu dez medalhas em concursos nacionais e internacionais, se declarando como o rótulo brasileiro que mais foi premiado no último ano.
Entre os destaques está a medalha de prata conquistada no European Beer Star, na Alemanha. Na South Beer Cup, duas versões da Carvoeira levaram ouro e bronze: a Carvoeira Pimenta e a Stout com Funghi Secchi e Cumaru, respectivamente.
“Atingir a marca de cerveja mais premiada do Brasil, pelo terceiro ano consecutivo, é motivo de muito orgulho, pois comprova que quando a cerveja é realmente especial e a equipe é competente, todo esforço vale a pena”, afirma a Lohn Bier.
Em seus cinco anos de existência, a cervejaria contabiliza o expressivo número de 100 medalhas, sendo 28 somente para a Carvoeira. Esses números dão dimensão da exposição da Lohn Bier. Afinal, trata-se de uma cervejaria originária da cidade de Lauro Müller, em Santa Catarina, com cerca de 15 mil habitantes, mas que tem conseguido levar o seu nome para outras regiões através de seus rótulos, como a Carvoeira.
O rótulo, aliás, é uma cerveja Russian Imperial Stout na sua base, mas com o acréscimo de três especiarias: candy sugar, funghi secchi e cumaru (chamada de baunilha brasileira).
“Nossa felicidade é ainda maior por termos a convicção de que estamos levando longe o nome de Lauro Müller e de Santa Catarina, representados da melhor forma possível no cenário cervejeiro, com qualidade e criatividade. Aliás, mostrar quem somos e de onde viemos é com a gente mesmo! A própria Carvoeira está aí para comprovar que temos muito orgulho da atividade econômica que tanto lembra a nossa região”, complementa a Lohn Bier.
Balcão Cervezas de America: Por que apoiar outros concursos?
Desde a fabricação até o consumo, a cerveja artesanal tem uma característica essencial que vai muito além do estilo, coloração, aroma ou sabor. Trata-se da capacidade de congregar, sejam amigos em torno de uma mesa ou os próprios cervejeiros nos processos de produção.
Essa essência colaborativa também se destaca no universo das competições. Com nove anos de experiência e consolidada como o maior concurso cervejeiro da América Latina, em número de países participantes, a Copa Cervezas de América apoia outras competições do continente americano.
O fortalecimento das competições garante alto padrão de qualidade e está alinhado com a visão de mercado da Copa, que atua para o desenvolvimento da cultura e da educação cervejeira no mundo.
Em 2019 a Copa chancelou duas importantes competições: a Aro Rojo, realizada no México, e a Tayrona, na Colômbia. Com esse apoio, a Copa leva o seu know-how para outros concursos, garantindo a presença de juízes destacados internacionalmente, a qualidade na recepção, no armazenamento e na expedição das amostras e a correta manipulação e serviço, para que as cervejas estejam em ótimas condições de serem avaliadas.
Além disso, por meio do compartilhamento do sistema de avaliação de amostras digitais CCA, desenvolvido pela Copa Cervezas de América em 2016, outros concursos poderão enviar um feedback sólido, legível e online para as cervejarias.
Para 2020, a Copa pretende alcançar novos lugares para compartilhar seu conhecimento e, assim, promover o desenvolvimento da indústria cervejeira e da comunidade.
Além disso, pela primeira vez deixará o Chile para realizar o concurso em outro país. O lugar escolhido foi Mar del Plata, na Argentina, uma cidade histórica, onde o movimento cervejeiro artesanal argentino começou. Agende-se! De 31 de agosto a 6 de setembro, nos vemos na Copa!
Sarah Buogo, jornalista, diretora da empresas PubliBeer e Publié Conteúdo, é beer sommelier pelo Science Of Beer Institute e embaixadora da Copa Cervezas de América no Brasil desde 2014
O ano de 2020 promete ser muito importante para o mercado cervejeiro. Muitos especialistas dizem que haverá crescimento de participação das artesanais no mercado brasileiro, baseado em três frentes distintas e independentes, que juntas irão alavancar o setor no Brasil: aumento de produtividade das cervejarias, recuperação econômica no país e a esperada reforma tributária. Tal cenário, por sua vez, irá resultar em três desafios para o setor. Confira.
Qualidade e competitividade A profissionalização e a produtividade nas cervejarias brasileiras são fundamentais para o crescimento e devem ser exploradas nesse ano. Para a sommelière e jornalista Taiga Cazarine, os profissionais do mercado cervejeiro estão percebendo que precisam ter mais qualificação. “Para 2020 o que eu sinto é que as pessoas estão se preparando mais, ainda temos muitos aventureiros, mas o mercado está mudando, as pessoas estão percebendo a necessidade de estarem mais preparadas, sejam os donos das fábricas ou cervejeiros”, salienta.
Taiga ainda aponta a necessidade que existe de valorização do profissional sommelier de cervejas. Para ela as cervejarias precisam entender melhor como os sommelieres podem atuar nas estratégias de venda. “É uma profissão importante que não é abraçada pelas cervejarias porque ela não é entendida”, afirma.
Crescer de maneira consistente e sustentável será um grande desafio para as cervejarias, segundo Bia Amorim, sommelière, editora da Farofa Magazine e jurada do concurso Mestre Cervejeiro da Eisenbahn. “A burocracia nas vendas para quem vai crescer para outros estados precisa vir com consistência e inteligência”, avisa.
Reforma tributária Para Carlo Lapolli, presidente da Associação Brasileira da Cerveja Artesanal (Abracerva), a reforma tributária que está pautada para 2020 será um ponto importante para as cervejarias artesanais. Mas ele alerta que os debates devem ser acompanhados muito de perto, pois existe a discussão da criação do chamado imposto seletivo sobre bebidas alcoólicas.
Com tantas leis e tantas mudanças, estar bem assessorado pode ser importante para as cervejarias em 2020, segundo Clairton Kubaszwski Gama, especialista em Direito Tributário pelo Instituto Brasileiro de Direito Tributário (IBET), e Daniela Froener, especialista em Propriedade Intelectual pela World Intellectual Property Organization (WIPO).
“Não apenas na parte técnica ou financeira, mas uma assessoria também na parte jurídica se mostra fundamental para que o crescimento possa ser realizado com a maior segurança jurídica possível, evitando litígios que, invariavelmente, podem acabar resultando em prejuízos financeiros”, argumentam.
Novos consumidores A busca pelo crescimento também passa por conquistar novos consumidores. Por isso o ano de 2020 trará uma grande discussão para as cervejarias no Brasil: a diversidade será abordada de forma sistemática pela Abracerva, a exemplo do que já foi feito em 2017 nos EUA pela Brewers Association. “A gente está tentando fazer isso de modo mais fácil para as cervejarias, com um núcleo dentro da Abracerva”, explica Nadhine França, consultora cervejeira e fundadora da Maria Bonita Beer.
Balcão da Maria Bravura: A aventura da cervejaria cigana
É bastante expressivo o número de pessoas que nestes últimos tempos manifestaram interesse em lançar uma marca de cervejas, terceirizando a produção – modelo de negócio cervejeiro conhecido como cigana. Em junho deste ano, o Brasil registrou sua fábrica de número 1.000, o que revela a clara expansão das cervejas artesanais no país! Para você ter uma ideia, há 10 anos atrás, tínhamos apenas 255 cervejarias (dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento). Quanto às ciganas, no Brasil elas já somam mais de 2.000 (segundo a Associação Brasileira de Cerveja Artesanal, dados de agosto de 2019).
E o interesse da cigana vira desejo, e o desejo se torna sonho… Sonhar e fazer planos é muito comum ao final de cada ano. É nesta época, geralmente, que fazemos um balanço daquilo que vivemos no ano presente, traçando metas e expectativas pro futuro próximo, que está logo ali, nos aguardando pra mais um ciclo de cervejas, conquistas, batalhas, descobertas, mas também amargas desilusões (e não falo do amargor gostoso dos lúpulos). É, ninguém quer se iludir, se enganar e nem perder tempo e/ou dinheiro, mas sem clareza e coragem pra encarar, para além de toda alegria e prazer, todas as dificuldades e desgostos inimagináveis que se espreitam pelo caminho que nos leva até nossos sonhos, corremos grandes riscos, muitos deles, desnecessários.
Quando decidi ser cigana, não encontrei muita literatura
com orientações acerca deste assunto específico que me conscientizasse daquilo
que me aguardava, mas sim informações muito escassas na internet. Mesmo assim,
decidi me arriscar e, na maior parte do tempo, não me arrependo. Por isso, meu
propósito neste texto é falar sobre o viver de cigana, ou melhor, sobre a
experiência em abrir e trabalhar com uma cervejaria cigana, esclarecendo alguns
pontos e desromantizando outros, baseando em minha própria vivência com a Maria
Bravura Cervejas Especiais e também na formação cervejeira que obtive até aqui.
Quando nos adentramos a este universo das artesanais, seja tomando, estudando, participando de eventos, nos relacionando com colegas cervejeiros e entusiastas e/ou produzindo, é comum sermos invadidos por uma sensação amigável, onde tudo é possível e nos vermos rodeados e tomados por um crescente interesse pela bebida e deslumbrados pelo brilho cintilante da infinidade de possibilidades que esse mercado parece oferecer pra quem se aventura nele. Quando você se propõe a fazer cervejas e realmente se dá bem no ofício, agradar apreciadores, de início, não parece ser tarefa tão difícil, afinal você se sente criativo e apto a surpreender sua mais nova turma: a cervejeira. Sua cabeça começa a trovejar ideias deliciosamente sedutoras que lhe prometem um futuro promissor de felicidade lupulada.
Você também pode passar a sentir que este é o setor mais divertido e descolado que você já viu na vida, afinal, pra começar, todos tomam cerveja – não importa o horário; todo mundo parece brindar com todo mundo e encontrar alguém sem tatuagem é uma raridade! “Opa, cabe eu aí também nessa farra”, você pensa. Quando menos você espera…Pá! Já foi capturado por dezenas de fantasias e projeções a respeito desse meio e, mesmo que momentaneamente, se deixou levar por ideias um tanto distorcidas sobre a realidade deste setor.
“É o boom das artesanais no Brasil”; “Nunca se falou tanto de cervejas artesanais como hoje”; “É o melhor momento pra se investir neste mercado”; “Está todo mundo atrás de novidades”; “A galera cervejeira torce um pelo outro”; “Você é muito bom/boa nisso, tem que abrir seu próprio negócio”; “Nunca tomei uma cerveja tão boa quanto a sua”; “Sua ideia é revolucionária, ninguém deve ter pensado nisso ainda”, eles dizem. Calma lá. Muita calma nessa hora. Algumas destas sentenças carecem ponderação e jorram generalizações. Pra começo de conversa, amigos e parentes não são boas referências de qualidade de cerveja. É uma delicinha vê-los saborear nossas crias, mas não é o suficiente pra abrir um negócio. Antes de mais nada, procure sommeliers para uma opinião técnica e ‘neutra’ sobre suas cervejas. Pesquise sobre o sommelier/sommelière antes para não acabar caindo nas mãos de um daqueles antiéticos que publicam pareceres-insultos sobre cervejas na internet, caso contrário, a sua pode ser o próximo alvo.
O modelo e o negócio A cervejaria cigana é uma opção que se tornou o sonho de muitos empreendedores e cervejeiros caseiros, ou, no meu caso, de gente querendo respirar ares completamente diferentes de sua profissão de origem. Reza a lenda que é uma alternativa de baixo investimento inicial pra quem quer produzir e vender cervejas. Quando comparamos este investimento inicial de abertura da cigana com o de abertura de uma micro-cervejaria, por exemplo, sim, faz sentido. Mas não é só isso. Ter grana, boa vontade e certo talento pra “bancar” este negócio, meu amigo/a, não são suficientes, nem de longe.
Sim, há muitas vantagens neste modelo, como por exemplo: a burocracia é absurdamente menor; você tem a chance de ‘testar’ e entender o mercado, até mesmo verificar como você se sente nele (e o quanto ele pode render pra você), antes de abrir uma planta própria; você tem a cervejaria-mãe (chamemos assim) com todos os equipamentos necessários e, dependendo do tipo de contrato, todos os insumos e materiais para as suas produções já inclusos no valor por litro; o CNPJ do cigano se enquadra no Simples Nacional; o risco é menor quando comparado a uma cervejaria de maior porte e, mesmo que você ‘quebre’, fechar uma marca é menos dispendioso do que fechar uma fábrica.
Cada detalhe importa e na hora da ansiedade, talvez você não dê a devida atenção. Ao procurar por uma cervejaria-mãe que te “abrigue”, que pode ser uma micro-cervejaria ou maior, saiba que cada passo dado pesará mais a frente. É importante fazer uma visita em cada uma das cervejarias que lhe interessarem, averiguar os valores cobrados por litro de cada estilo de cerveja + garrafas + tampinhas + caixas + impostos + frete de transportadora (se você não puder buscar seus lotes), mas o mais importante é não se deixar seduzir pelos preços, pois nem sempre isso compensa. Há cervejarias vendendo o litro por preços baixos com a qualidade tão baixa quanto. É importante conhecer a fábrica pra saber como ela é, se é limpa, organizada, se é experiente no mercado, se tem chances de fechar a qualquer momento, se dará conta de seus lotes, em quanto tempo tem a capacidade de entregar seus lotes prontos, como é a rotatividade dos ciganos nos tanques, etc.
É de suma importância verificar se a cervejaria-mãe é experiente no mercado específico das artesanais, pois se ela é experiente em produzir pilsen, pro caso do cigano, ela não serve bem ao propósito. Atente para o fato de que alguns estilos são mais populares e vendem mais que outros, sendo fundamental que a cervejaria-mãe tenha estrutura flexível para a produção em diferentes escalas. É ela quem vai produzir suas receitas, obter o registro no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) pra cada um de seus rótulos, envasar e rotular seu lote, dentre outras funções, dependendo do tipo de contrato.
Você mesmo pode ir lá e produzir suas receitas; ou você pode comprar da cervejaria receitas disponíveis e criadas por ela; ou, ainda, pode pedir pra que reproduzam suas receitas caseiras a nível industrial. Cada uma das opções de produção tem um custo pessoal: por exemplo, se você escolher produzir por conta própria, vai, além de entrar na fila e marcar uma data nem sempre ideal, encarar todo aquele arsenal de equipamentos e dispor de muitas horas do seu dia (às vezes, o dia todo), as quais poderiam estar sendo aproveitadas para divulgar sua marca, capturar clientes, conquistar a confiança de grandes revendedores, organizar uma rede de distribuição, estudar estratégias de venda e marketing e muitos eticéteras. Sim, você vai precisar saber fazer tudo isso e muito mais, a não ser que, além da grana de abertura da cigana, você também tenha cacife pra contratar uma equipe ou tenha bons sócios pra dividir essa chuva de funções e gastos (de tempo e de dinheiro). E isso, dá pano pra manga pra outro texto.
Já vi gente falando que ser cigano é um hobby. Eu discordo totalmente! Ter outra
profissão e ser cigano/a pode ser insustentável, pelo menos, foi pra mim. Bati
de porta em porta durante muito tempo pra vender meus lotes: fazia uma lista de
bares e restaurantes pela região, lotava o carro e zarpava. Spoiler: tem a chance de você não curtir
o rolê! Muitos proprietários vão pedir amostras grátis, afinal, “quem é você na
fila do pão?”. Muitos vão fazer um interrogatório, pedir desconto, opções de
pagamentos mais facilitadas (pra eles, claro) e depois comprar meia dúzia e
nunca mais ligar de volta. Você vai precisar fazer muita coisa que nem
imaginava pra poder se fortalecer no mercado e ganhar notoriedade, vai perceber
que o mercado quer sempre novidade e que fica impossível fazer tantos rótulos
pra agradar a demanda. Mas, calma, muita gente vai gostar dos seus
produtos/trabalho e muita gente vai te impulsionar também. Com persistência,
garra e altas doses de humildade (não perca isso, senão perderá tudo), você
ganhará força e expertise, definindo de forma mais realista o destino de sua
marca e aparando arestas.
Se escolher comprar da cervejaria as receitas
disponíveis e criadas por ela, é muito provável que tenha que lidar com uma
possível falta de domínio seu a respeito daquela receita, pois não é simples falar
de algo que não saiu de nossas próprias mãos, o que ficará explícito nos
eventos cervejeiros ou em suas excursões de vendas, onde você mais encontrará
leigos e ‘cervejochatos’ cheirando copos e perguntando: “quais lúpulos foram
usados aqui?”; “em que temperatura foi fermentada?”, “fez dry hopping em qual
etapa?” e, ao mesmo tempo e por causa disso , precisará encarar seu ego, pois
pode ficar muito confusa dentro de você essa história de ter uma marca, mas não
ter colocado a mão, em nenhum momento, no processo de produção de suas cervejas.
E por fim, se escolher solicitar a reprodução de
suas receitas caseiras a nível industrial, é importante que você more próximo à
cervejaria-mãe pra acompanhar o processo ou que sinta a falta de necessidade de
controle, confiando totalmente no mestre cervejeiro que as reproduzirá. Não
pense que isso é simples. Nenhuma das alternativas anteriores é a mais correta
ou a melhor, pois dependem de uma variável enorme de fatores para que você as
escolha. Mas uma coisa é certa: nenhuma delas lhe garante sucesso e em todas
você pagará algum preço. Não permita que ninguém te julgue pela decisão que
você tomar. Tudo depende de suas atuais possibilidades e de quanta energia está
disposto/a a investir neste ‘sonho’. Segundo spoiler: você pode descobrir que
não era bem com isso que sonhava.
Você vai trabalhar muito, mas muito mesmo, se
quiser fazer isso dar certo e não ter prejuízo. Vai passar muitas horas
investindo em cursos que nem imaginava que teria que fazer (até mesmo de gestão
de negócios…imagina eu, psicóloga). Vai lidar com concorrência desleal, com
mais e mais ciganas pipocando a cada dia e vai descobrir que aquela sua ideia
revolucionária é só mais uma em meio a centenas de outras (e por vezes, de muito
maior potência de alcance que a sua). Você vai enfrentar o fato de, mesmo sendo
um cervejeiro/a muito promissor/a, inovador/a, talentoso/a, existir uma
abundância de profissionais incríveis nesta área, por vezes, mais experientes,
mais conhecidos e mais estabelecidos no mercado. Mas, por outro lado, vai ter a
honra e o prazer de poder trocar figurinha e dividir a fatia desta ‘pizza’ com
gente realmente preparada, fabulosa e que entende do negócio e do assunto.
Você vai aprender muito! Já prepare seu caderno
ou seu drive pra jogar lá tudo quanto é texto, receitas, estudos e informações.
Não podemos confundir o desejo de ser bem-sucedido com aptidão nata em lidar
com toda essa enxurrada de pormenores e inconvenientes que um novo negócio
(novo pra você e pro país, talvez pro mundo) nos impõe. Se diante de todos os
fatos, o desejo de seguir com seu negócio se mantém, a aptidão virá com a
experiência, acredite.
Ah, não subestime a importância do nome da sua marca e também da logo e nem a ideia de registrá-la no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) pra protegê-la e obter exclusividade sobre ela (eu teria tido problemas com minha marca, se não a tivesse registrado – minha advogada Nayara Morais Oliveira que o diga). Você também precisará de rótulos e, se você não manja de artes gráficas, vai precisar de um designer e, depois, imprimir seus rótulos em uma gráfica. Aí, é a etapa de cotar preços, contatar profissionais e conhecer gráficas. Uma dica é entrar em fóruns e grupos de WhatsApp cervejeiros ou perguntar para colegas sobre designers, gráficas, souvenirs e afins. Isso demanda tempo e paciência para mandar e-mail, telefonar ou visitar esses locais para verificar valores, tempo de produção e qualidade dos materiais. É importante você contribuir em ideias para as artes, combiná-las com a proposta de cada estilo de cerveja (ou não), enfim, dar asas a sua imaginação e, principalmente, dar a sua identidade. Você só vende aquilo que acredita! É hora também de escolher a garrafa para decidir o tamanho e o formato dos rótulos.
Na ponta do lápis Tudo isso, parceiro/a, custa dinheiro! Bota aí na ponta do lápis. Não quero falar muito em valores, porque teria que fazer um levantamento de todas as minhas cotações e creio que ficaria muito extenso o texto (talvez eu faça um E-Book sobre isso mais detalhadamente). Mas, só pra você ter uma ideia, é comum as cervejarias-mães exigirem uma ‘litragem’ mínima de 500 L/estilo e cobrarem em média R$ 9,00 o L, fora os impostos. Suponhamos que você decida começar por 3 estilos. Isso daria 1.500 L x 9,00 = R$ 13.500,00. Mas não é só isso: contabilize ainda o desenvolvimento de sua identidade visual, o design dos rótulos, criação de souvenirs, transportadora (se for o caso), um veículo adequado para o transporte (caso não tenha e caso não vá utilizar transportadora), compras de barris para maturar/armazenar a cerveja, câmera fria pra armazenamento dos barris, local de armazenamento das garrafas (não pode bater sol e deve ser fresco), marketing, dentre outros que, pode ter certeza, aparecerão no caminho. Percorrendo vários artigos sobre a especulação do investimento necessário para se abrir uma cigana, calcula-se que você deva dispor cerca de R$ 100 mil. E para fechar a conta no final do mês, meu amigo/a, tem que vender pra caralha!
Converse com cervejeiros ciganos (pode ser por
grupos de WhatsApp , fóruns, canais de Youtube, associações ou mesmo pessoas aí
pertinho de você), sobre todos os aspectos do negócio, antes de tomar a decisão
final de abrir uma cigana e aproxime-se de pessoas, dispositivos e ambientes
que possam te ajudar na profissionalização do seu negócio. Muitas novas ciganas
nascem da ilusão de ganhar dinheiro fácil. Haha! Isso é tão ingênuo…mas só
dou risada hoje porque já caí nesse conto da carochinha e já superei, ufa! Ser
cervejeiro/a cigano/a tem um propósito para além do dinheiro e este é a
conseqüência de tudo!
Por isso, organize-se muito, faça um planejamento
comercial, financeiro e se entupa de conhecimento do processo de fabricação, de
dados estatísticos e previsões importantes do mercado. Nunca, nunca mesmo se
perca da qualidade do produto, que deve ser o objetivo principal. Dito isso, economizar
nos insumos não é um bom caminho, ok? E se você fizer as contas de forma
inteligente, verá que nem mesmo compensa. Tenha ciência de que você está
engrossando o coro da cultura cervejeira na sua região e país, preste um belo
papel e não um desserviço! Não pense só no dinheiro, pois assim vai precisar
descer o nível de suas alquimias tão belas e tão poéticas e acabar passando a imagem
errada do que é cerveja artesanal. No mais, se ainda persistir o desejo,
prepare-se pra viver uma etapa maravilhosa de sua vida.
Vou deixar o link da cervejaria-mãe, onde produzo minhas crias pra você já ter uma carta na manga na hora de fazer suas pesquisas.
Para saber mais sobre a aventura cigana:
MODELO OPERACIONAL PARA UMA MICROCERVEJARIA CIGANA, de Raphael Athos dos Santos, Luciana Emirena dos Santos Carneiro e Lucas Maia dos Santos
Retrospectiva: O que foi destaque no mercado cervejeiro em 2019
Apesar de não ter dois anos completos de atividades, essa é a segunda vez que o Guia chega ao final do ano podendo olhar para trás e avaliar o que rolou de bacana na cobertura. E foi isso o que fizemos nesse 1º de janeiro: na nossa retrospectiva 2019, relembramos alguns dos principais assuntos que foram notícia no mercado cervejeiro em 2019. Veja como foi.
Janeiro
4 tendências para o mercado em 2019 – Começamos o ano ouvindo especialistas sobre o que estaria por vir em 2019. As apostas eram em cervejas “brasileiras”, seleção natural do mercado, aumento do prestígio das harmonizações e embalagens menores. Deu bom?
Fevereiro
Levedura de naufrágio – Em fevereiro fomos surpreendidos pelo anúncio da descoberta e da produção de uma cerveja usando levedura encontrada em garrafas de cerveja naufragadas 130 anos atrás.
Março
A melhor do Brasil – A cervejaria paranaense Cathedral foi o destaque do Concurso Nacional de Cervejas e um dos sócios, Daniel Chaves da Silveira, falou com exclusividade sobre os rumos da marca.
Abril
O Caso Helles – O mercado cervejeiro brasileiro foi surpreendido com a constatação de que a palavra Helles, nome de um tradicional estilo alemão, havia sido registrada como marca por uma cervejaria gaúcha. A cobertura do Guia ouviu cervejarias envolvidas, juristas, o mercado e acompanhou os desdobramentos até o final da “novela”, em dezembro.
Maio
O papa da cerveja radical – O cervejeiro norte-americano Randy Mosher, autor de um dos livros mais essenciais para quem quer fazer sua própria cerveja, esteve no Brasil para uma série de eventos e falou com exclusividade sobre criatividade, persistência e ingredientes.
Junho
Cerveja em pó – A cervejaria Pratinha chocou o mundo cervejeiro ao apresentar, no Mondial de la Bière SP, uma novidade tão intrigante quanto estranha: a Magic Booze, uma cerveja “em pó” – ou melhor, um pó que, adicionado de água, vira uma IPA. O Guia destrinchou a novidade para seus leitores.
Julho
O decreto da cerveja – O decreto presidencial nº 9.902/2019 pegou o mercado de surpresa. A princípio, ele parecia ter força para mudar o mercado com medidas como a flexibilização do uso de adjuntos. No entanto, na prática seu efeito foi menor e apenas liberou o uso de ingredientes de origem animal (como mel e lactose) nas cervejas.
Agosto
Artesanais da Ambev – Depois de reportar resultados positivos para o primeiro semestre, mas com ressalvas feitas por analistas à sua capacidade de adaptação ao universo das artesanais, a Ambev revelou ao Guia seus planos para o segmento.
Setembro
Caminho sustentável – Ao passo em que queimadas tomavam conta da Amazônia, do cerrado e do Pantanal, o Guia conversou sobre a importância de se adotar práticas sustentáveis ao longo da cadeia de produção, em um papo com representantes da startup Green Mining, que vem revolucionando o mercado com programas de logística reversa em parceria com cervejarias.
Outubro
Dossiê Álcool 70 – Depois da autuação pela Polícia Civil de uma loja de insumos pela venda ilegal de Álcool 70°, o Guia fomentou o debate: por que é proibido? Quais são os riscos? O que diz a lei?
Novembro
IN 65 – Mais um ato jurídico balançou o mercado cervejeiro em novembro. A Instrução Normativa 65 do Mapa pretendia “atualizar” as mudanças propostas pelo Decreto nº 9.902/2019 publicado em julho, mas trouxe mais dúvidas sobre a rotulagem e os limites de uso de adjuntos. Por meio de reportagens, artigos e entrevistas, o Guia buscou esclarecer as questões para seus leitores.
Dezembro
Kveik é o novo Helles – Por fim, em dezembro, o Guia alertou para diversos outros termos que, assim como Helles, foram registrados no INPI como parcas próprias. Um deles é Kveik, o nome dado à levedura queridinha dos cervejeiros no momento, e outro é Russian Imperial Stout, estilo largamente conhecido Brasil afora.
Balcão do Advogado: 7 dicas para sua cervejaria começar bem 2020
E chegou o final do ano: é o momento de analisar os erros e os acertos de 2019 e planejar as prioridades para 2020. E, para auxiliar no seu planejamento, elaboramos uma lista com 7 dicas para a sua cervejaria iniciar 2020 com o pé direito.
FAÇA A DECLARAÇÃO DE PRODUÇÃO ANUAL: É uma exigência do Mapa. Anualmente relembramos às cervejarias, mas ainda são poucas as que atendem essa exigência. Todas as cervejarias devem apresentar, até o dia 31/01/2020, a declaração de produção anual ao órgão técnico especializado da Superintendência Federal de Agricultura, Pecuária e Abastecimento do seu Estado, contendo a quantidade de produto elaborado e os estoques existentes ao final de 2019, sob pena de sanção, que vai de advertência a multas de até R$ 117.051,00 (artigos 86 e 104 do Decreto nº 6.871/2009).
FAÇA A ADESÃO AO SIMPLES: As cervejarias que ainda não aderiram e estão aptas a optarem pelo Simples Nacional devem fazê-lo também até o dia 31/01/2020. Converse com o seu contador, verifique eventuais pendências, regularize-as e faça a opção pelo regime do Simples, caso seja mais vantajoso.
ANUIDADE DOS CONSELHOS PROFISSIONAIS: Os Conselhos Profissionais (principalmente o de química – CRQ – e o de engenharia – CREA) costumam cobrar das cervejarias uma anuidade de pessoa jurídica, além de obrigarem a empresa a contratar profissionais ligados aos seus conselhos. Essa cobrança na pessoa jurídica e a imposição de multas por parte dos conselhos são ilegais, pois o MAPA é o único órgão com capacidade jurídico-fiscalizadora sobre as cervejarias. Assim, as cervejarias precisam ingressar com uma ação judicial para obter o cancelamento do registro de pessoa jurídica e a suspensão das cobranças por parte dos conselhos. Isso porque os pedidos administrativos são sempre indeferidos, tendo em vista que as únicas hipóteses aceitas pelos conselhos para cancelamento do registro na via administrativa são o fechamento da empresa ou a mudança da atividade principal. No Judiciário, ainda é possível pleitear a restituição das anuidades pagas nos últimos cinco anos.
FIQUE DE OLHO NAS MUDANÇAS TRABALHISTAS: É preciso ficar atento às consequências que as alterações recentes nas leis trabalhistas acarretarão nas cervejarias. É essencial fazer uma consultoria trabalhista preventiva para a cervejaria adequar-se às novidades legislativas, a fim de diminuir passivos na esfera laboral.
PENSE EM SEU BREWPUB/TAPROOM: Sua cervejaria ainda está focada no B2B? Talvez seja a hora de repensar o seu modelo de negócio. No brewpub, o consumidor tem o atrativo de provar a cerveja “zero quilômetro”, ou seja, sem ter sofrido o desgaste inerente ao transporte do produto até as prateleiras. Além disso, o brewpub dá ao cervejeiro a possibilidade de lançar novas cervejas com muito mais frequência, já que ele pode colocar à venda o produto tão logo esteja pronto, evitando gastos com logística e a própria inadimplência inerente ao B2B. Outra vantagem é a venda direta ao consumidor, muito mais vantajosa tributariamente do que a venda para pessoa jurídica.
REGISTRE SEUS DE RÓTULOS: Infelizmente, ainda são poucas as cervejarias que registram o nome e o logo dos seus rótulos no INPI, o que tem ocasionado uma série de conflitos entre os cervejeiros. Ao deixar de registrá-los, a cervejaria simplesmente abdica da exclusividade dos seus rótulos, tendo em vista que, sem registros no INPI, qualquer outra cervejaria pode utilizar o nome da cerveja ou a sua identidade visual, sem contar que pode até “roubar” a marca ao registrá-la primeiro. É muito importante que as cervejarias entendam a necessidade do registro dos seus rótulos como medida de resguardar algo que, muitas vezes, possui um valor imensurável.
ASSOCIE-SE À ABRACERVA: As artesanais precisam de representatividade e isso só ocorrerá com maior adesão das cervejarias às associações de microcervejarias estaduais e à Abracerva. Com as associações cada vez mais fortes, será possível conseguir alterações legislativas benéficas (principalmente tributárias) específicas para o setor cervejeiro artesanal.
André Lopes, sócio do escritório Lopes, Verdi & Távora Advogados e criador do Advogado Cervejeiro